PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

domingo, 25 de dezembro de 2011

JÁ É NATAL!



JÁ É NATAL!
(Genaura Tormin)

Meu Deus, já é Natal!
Volto no tempo, sinto saudades!
Os filhos pequenos, as novidades,
Quanta guloseima, os  presentes...

A alegria da gente!
Uma árvore cheia de cartõezinhos!
Minha mãe, toda contente!
Quantos abraços, beijos e carinhos!

As crianças cresceram, mamãe foi para o céu.
Tudo mudou, voou  nas asas do vento,
Versejado agora em forma de lamento.

Viver é isso: plantar sementes!
Acalentar as crias com a seiva do próprio ser,
Deixá-las partir e ficar contente.

FELIZ NATAL!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO!



FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO!
(Genaura Tormin)

Mais um ano a juntar-se à história de nossas vidas!

Muitos acertos, muitos encontros, desencontros, lágrimas e sorrisos. Muitas experiências, conquistas, sucessos, amores que nos fizeram felizes. Muito aprendizado com as dificuldades que nos fizeram crescer! Muito ensinamento com as matérias benfazejas que tivemos a oportunidade de ler.

Se choramos, não importa! As lágrimas nos conduziram na busca de melhores caminhos. O sofrimento é sempre o condutor, o gestor de novos e profícuos passos. Resta-nos sempre AGRADECER.

A vida nos deixa sempre legados de dor e de alegria, tão indispensáveis à nossa evolução enquanto caminheiros desta estrada, além de melhorar a bagagem que aqui estamos a coletar.

É hora de reflexão! De balanço dos défices e créditos. É hora de apararmos arestas e agendar um porvir melhor. Que nesse Ano que se avizinha, possamos servir mais, amar mais, compartilhando o aconchego, o afeto, a poesia, na construção da paz.

Que o amor seja a palavra de ordem para amainar a dor, a droga, a corrupção, a fome, a violência ...

Que o destino da nação siga altaneiro rumo ao bem, gerido pela busca da paz. Como estamos precisando de PAZ!

É preciso inovar sempre! Eleger a bondade e deixar que o amor fale por nós. O resto será consequencia.

Agradeço o carinho de cada leitor que, no decorrer deste ano, aqui me brindou com a presença, valorizando os meus textos, incentivando-me na criação de outros mais. Que eles signifiquem sempre um plantio no compartilhamento do amor, acalentando a alma e o coração de quem os lê.

Agradeço, igualmente, pelos comentários deixados. São essas menções de carinho que me renovam a fé, a força e a vontade de viver. Vocês serão sempre o maior motivo que me leva a carpir versos, a galopar no dorso da poesia, que me dá tanta alegria, na tentativa de me construir melhor a cada dia.

Desejo que o ano de 2012 seja de muita paz, muitas conquistas no bem! Que a poesia se faça presente para azeitar a alma, acalentar os momentos desbotados que a vida nos oferece.

E, principalmente, que cada poeta use a sua voz, o seu espaço, o seu versejar, no exercício da função social, na incansável tentativa de melhorar o porvir.

FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO!!!!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

ABRACE-ME!


ABRACE-ME!
(Genaura Tormin)

É agora,
Quando menos mereço,
Que preciso desse silêncio,
Desse querer cumpliciado
Para secar-me o pranto,
Abrandar-me as falhas.

Silêncio é prece,
É carinho dividido.
É o amor que exalta,
Que perdoa no gesto do sorriso,
Nos braços que amparam...
É disso que preciso.

Significa grandeza,
Espírito evoluído.
Não me deixe sangrar,
Não me deixe sofrer!
Tenho tantas feridas!
Muitas, ainda exangues
Ao escárnio da vida.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

SOLDADO DE MINHA BATALHA


SOLDADO DE MINHA BATALHA
(Genaura Tormin)

De repente
Tingiu-me a alma
Um sentimento de ternura,
De agradecimento...
De felicidade!

Quero rezar!
Quero agradecer
Às dificuldades,
Que me fazem forte,
Aos amores,
Que me fazem terna,
Aos desafios,
Que me tornam soldado
De minha própria batalha.

E no tanger do existir
Quero sentir,
Quero ser,
Quero ir
Aonde os versos me levarem.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A VIDA É UM ARSENAL DE RIMAS


A VIDA É UM ARSENAL DE RIMAS
(GenauraTormin)

Em silêncio,
Viajo pelos caminhos do tempo.
Chapéu na cabeça e água no cantil,
Enfrento as intempéries
Do vento, do frio...

O coração segue contente!
A fé é o escudo, a coragem o guia.
A brisa me acaricia
Pelas manhãs da existência.

Prenhe de todas as idades,
Cultivo um coração de menina.
Encho-me de magia,
Faço poesia.

Galopo no dorso da fantasia.
Junto-me ao gorjeio da passarinhada...
Meu canto acorda madrugadas.
Ainda sou uma ave das campinas.
A vida é um arsenal de rimas.

sábado, 10 de dezembro de 2011

O HOMEM É AQUILO QUE PENSA


O HOMEM É AQUILO QUE PENSA
(Genaura Tormin)

Por isso se desejamos fazer mudanças em nossas vidas, comecemos mudando os nossos pensamentos!

Viver com confiança e otimismo é abrir as portas para a paz e a felicidade. É investir no "eu interior".

O segredo é mesmo vigiar os pensamentos, mantendo-os numa faixa elevada. Exercer o ofício de jardinagem, ajeitando a vibração mental como se fosse um jardim florido e perfumado. Separar o joio do trigo. Assumir as responsabilidades, tentando fazer o melhor perante a vida e perante Deus que nos espera para outra empreitada. E que essa seja melhor, construída da bagagem que hoje estamos a coletar aqui.

Chega um momento em que você fica tão feliz, tão feliz, inundado de paz, e não sabe o porquê. É que você mudou a sua maneira de pensar.
Quando nos sentirmos em paz com a nossa consciência, alegres e felizes, todas as outras coisas convergirão para o nosso bem. Estaremos começando a ser vencedores. Por isso eu desejo:

Que o coração nunca seja agasalho para as coisas espúrias...

Que as intempéries do caminho signifiquem lições de vida, degraus para o progresso, setas indicadoras para o bem.

Que floresça a pureza da criança interior que tanto tem a nos ensinar.

Que o sorriso seja constante, espontâneo, verdadeiro, uma prece que inebria, uma canção que consola... O sorriso é prece. É Deus dentro da gente!

Que a chuva seja o bálsamo para aliviar o pranto, curar as dores, cicatrizar as feridas.

Que os amores contenham a magia, o encanto em cada encontro, o beijo da alegria.

Que a cada amanhecer os olhos possam mirar a vida, dispostos a enxergarem o melhor de cada um e, além de tudo, a coragem, a bravura para as boas aventuras.

Que os dias sejam azeitados pela poesia, propiciando que a alma possa alar voos na alegria de viver, crescer e vencer.

Que em cada contato, em cada diálogo, possas deixar marcas benfazejas inesquecíveis.

Que na solidão e no cansaço, lembra-te de  que tudo passa, tudo se transforma. Haverá sempre um outro dia, uma outra oportunidade.

Que o coração seja contente, solto, voante... E nas asas da espiritualidade, alcance patamares superiores de evolução.

Que por onde andares, a força do AMOR esteja sempre presente, sinalizando direções, amainando as intempéries da estrada.

Que este amor seja a meta, o rumo, a estrela-guia, a tramontana, pelas veredas do bem, transformando os dramas em soluções e o caminhar cansado em passos saltitantes de alegria e felicidade.

Que DEUS  te abençoe sempre e que esta existência seja plena de paz, de aprendizado, de luz...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O QUE RESTOU


O QUE RESTOU
(Genaura Tormin)

A tristeza recolheu-se mórbida, arredia.
Enclausurou-se em compartimentos secretos,
Recuos escuros, fragmentados em ecos.
Tudo ficou vazio, amorfo, sem cor...
Acrescido de um enorme gosto de dor.

Na garganta emudeceu o canto.
Foi-se a melodia e toda aquela alegria!
Em cacos desfez-se o sentimento.
Uma tela desfigurada, em garatujas bordada,
Foi o que restou.

Gyn, 01.12.2011

terça-feira, 22 de novembro de 2011

OSTENTO O AMOR



OSTENTO O AMOR
(Genaura Tormin)

Viver?
Penso que aprendi agora,
Depois de tantos passos inúteis,
Falsos, conturbados...
Tantas quedas, tantos percalços.
Conheci-me depois dos tombos,
Diante das feridas ainda exangues.
Gosto-me assim!

A existência é um palco
E eu sou sua personagem
Nua, consciente,
Agora contente e sem adereços.
Sou, como sou!
Ostento a alegria,
A poesia e o amor!

Gyn, 22.11.2011 10h

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

MEU ANJO-MENINO


Um poema para o Rodrigo, meu primeiro neto. Uma criança linda, alegre, carinhosa... Um presente de Deus! Ainda ouço suas passadinhas pela casa, acompanhadas do balbuciar de sua pouca idade, que se assemelhava ao trinado de passarinhos. Que saudade! Rodrigo é um bom menino, dono de todas as qualidades. Mora no coração da vovó. Hoje já é um rapazinho!

MEU ANJO-MENINO
(Genaura Tormin)

És pequeno,
roliço,
cheiroso,
gostoso feito morango.

Do céu,
és o meu pedaço,
nesse laço
que envaidece
o passo
deste caminho cármico.

És meu anjo-menino,
fofinho feito algodão.
Com o sorriso mais lindo
e esse jeito de travesso,
és vida da minha vida,
versos do meu poema,
música do meu coração.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

SOU TUDO E NÃO SOU NADA


SOU TUDO E NÃO SOU NADA
(Genaura Tormin)

Nos recônditos de mim,
Os compartimentos secretos do ser que sou.
Descubro-me inteira, com essência e cor,
Pois a coragem que me alicerça,
O vento não levou.

Os versos ainda dedilham um canto,
Uma melodia, uma canção...
Sorvem o néctar das flores
E o gosto dos amores.

A alma alada viaja pelo eito das palavras,
No dorso da poesia.
E na estrada, agora tão vazia,
O amor ainda se faz, amainando dores.
Trago a sonoridade das cascatas.

Ainda sou um rouxinol ao cair da tarde.
Galopo no caminho da mata densa,
E me embriago com o cheiro da terra molhada.
Sou tudo e não sou nada!

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

PALAVRA


PALAVRA
Genaura Tormin

Palavra,
Liberdade sonora,
Farol que alumia
A essência da vida.
Alumbra a fantasia,
Acalenta a alma,
Voeja paraísos intocáveis.

Ingênua, despida,
Enfeita-se de sonhos,
De magia e lógica.
Em voos azados por signos,
Mostra-se cativa ou soberba.
Em roupagens lúdicas,
Provoca sorrisos,
Alinda o amor.
Pode lanhar o coração,
Vestida pela dor.

Nave dos sentidos,
Transporta a exultação do belo,
A contemplação do silêncio inaudível,
Encapelado por dores guardadas
Nas águas revoltas do existir.

Palavra,
Canto órfico que se transmuda,
Esgueira-se em harmonia
Pelo cosmo, pelo infinito...

E o amor se faz
Nos eitos de palavras soltas,
Regadas por lágrimas,
Plantadas ao açoite do vento,
À luz primeira de um amanhecer risonho.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

MEUS NOVELOS


(Para Alfredo, meu marido. Este poema fala da alegria por sua volta ao lar, são e salvo, depois de um CA que o deixou na UTI, quase sem chances. Obrigada, Senhor da Vida!)

MEUS NOVELOS
(Genaura Tormin

Emaranhada
Em meus novelos de sensibilidade,
Tenho lágrimas por escudo.
São elas marcos de alegria, de felicidade.
A voz dos meus sentimentos.
Não posso contê-las.

Deixo-as que me lavem as faces,
Apascentem-me a alma,
Conduzam-me a campos verdejantes,
Com brisa do rosto e terra molhada.

Quedo-me em prece e agradeço.
Não há palavras capazes de traduzir
O contentamento que me invade o peito.
Uma batalha vencida,
Uma graça recebida,
Um presente especial: UMA VIDA!

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

POEMA RECLUSO


POEMA RECLUSO
(Genaura Tormin)

No horizonte,
Moribundo se curva o sol poente.
Um dia a mais passou sem que eu te visse.
O poema recolheu-se medroso
Ao frio de minha tristeza.
Tudo extremamente só!

Os momentos se arrastam
E a nossa música agoniza,
Chegando a ferir os meus ouvidos.
Há um marasmo no ar.
Um gosto fúnebre,
Uma carência dolorida.
Tudo tão eterno, feito a saudade tua.

Não há aroma de flores,
Nem cantar de pássaros...
O vento está parado,
Nem sibila a ramagem lá fora.
Apenas a companhia de fantasmas.

Parece o fim!
Faz frio na alma,
E congelado está o amor
Nos compartimentos de mim.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

PENSE NISSO


PENSE NISSO
(Genaura Tormin)


Tenho pena desse povo sem juízo,
Que não se gosta, não se ama,
Entra nas drogas, fica doente,
Não trabalha, fica indolente,
Prejudica a saúde, a família,
Perdendo a autoestima, a alegria.

Não pode ser demente,
Quer ser irreverente.
Fico a perguntar-me por quê?
Não é alimento, nem remédio,
Nem ingresso para o paraíso.
É só tristeza e prejuízo.
Então, por quê?

Dizer NÃO é a solução,
Para não sofrer demais,
Para não matar os pais do coração.
Pense bem!
Seja forte, cabeça boa!
Depois, vem a AIDS.
Você quer sofrer à-toa?

Já chegam as doenças, os sacrifícios,
A violência, a fome, a falta de justiça,
O salário mínimo e a corrupção dos políticos!
Diga NÃO às DROGAS!

Estude, trabalhe, pratique esportes,
Corra, dance, nade, viaje... viva!
Você nasceu aqui, você tem sorte!
Aqui não tem vulcões, guerras, inundações,
Nem “tsunamis”.
Pense nisso! Você tem que ser forte!




quarta-feira, 17 de agosto de 2011

MESMO SEM NOÇÃO


MESMO SEM NOÇÃO
(Genaura Tormin)

Abro minhas comportas,
Deixo jorrar a dor.
As asas cansadas,
Quedam-se apáticas
Num lugar qualquer.

Sem noção,
Rumino pensamentos,
Vasculho cantos,
Abro gavetas,
E faço versos coloridos
Da tristeza que restou.

Sem noção,
Colo os poemas
Nos troncos das árvores,
Nas asas das pandorgas viajeiras,
Nos muros dos casarios
Para não me olvidar no tempo,
Para não morrer antes da hora.

Sem noção,
Quero a exegese do silêncio,
O cancioneiro do Apocalipse,
O veneno e o remédio.

Sem noção,
Quero o grito bramindo mares,
O assobio da ventania,
A despedida da dor,
Na amostragem da alegria,
No canto da felicidade,
Para ostentar o amor.

Mesmo sem noção,
Optei pelo melhor.



domingo, 14 de agosto de 2011

FALTA ACESSIBILIDADE


Falta acessibilidade
(Genaura Tormin)

Vencer barreiras arquitetônicas é um dos grandes desafios enfrentados no dia a dia da pessoa com deficiência física, principalmente a que deambula de cadeira de rodas.

Muitos obstáculos a vencer! Entretanto é necessário conquistar a liberdade de ir e vir, mesmo a duras penas, ingrediente principal que nos garante a inclusão na sociedade.

“Levanta e vem para o meio” é um o tema de uma Campanha da Fraternidade.
Embora o desafio seja a nossa meta para criar consciência popular sobre essas pessoas diferentes, há muito ainda a desejar. A acessibilidade, condição indispensável para que possamos viver com dignidade, é a principal, pois precisamos nos mostrar, exercitar o nosso caminhar. Enfim, viver, como cidadãos que somos.

Para ilustrar, vou contar uma pequena história:
Uma viagem à praia. Um resort à beira-mar adaptado às condições de uma pessoa com deficiência locomotora que não prescinda de uma cadeira de rodas. Tudo acertado com o agente de viagem. Ponte aérea, sol bem arregalado, num cantinho do céu, chamado felicidade.

No aeroporto o veículo estava à nossa espera. Um micro-ônibus, com porta estreita e a informação de que estava emperrada, tornando-se mais estreita, ainda. Não conseguia completar seu curso de abertura. Impossível uma contensão de forças másculas para rebocar-me ao seu interior. Não passaria pela porta envolta em braços.

O agente de viagem embarcou-nos num táxi, à nossa expensas financeira, com a promessa de ressarcimento, o que não aconteceu.

Mas, vamos lá, um problema vencido, característica indômita do brasileiro e do determinismo em reverter situações adversas.
Após o percurso de uma hora mais ou menos, eis-nos à frente de um majestoso resort, com lindas trepadeiras floridas que lhe enfeitavam a entrada.

Logo, o nosso quarto, bonito e aparentemente adaptado às minhas condições de cadeira de rodas. Via-se que passara por uma recente reforma. Amplo e aconchegante, com lindas cortinas e uma sacada, de onde se desnudava o mar bravio que se escondia manhoso depois dos coqueirais balouçantes, com cheiro de brisa e maresia. Um convite a uma estada feliz e renovadora.

O banheiro, cheio de pretensas adaptações distribuídas pelas paredes.
Na verdade, aos olhos do leigo, era possível distinguir-se pelo esmero, e quem sabe, pelo respeito aos seus reais usuários.

Que tristeza! Nada tinha a ver com as necessidades de uma pessoa com deficiência física. Poderia servir aos que andam de muletas, nunca aos que andam de cadeira de rodas.

Num quadrado, de um metro mais ou menos, com paralelas laterais de apoio, sem espaço ao lado para o posicionamento da cadeira de rodas, encontrava-se centrado o vaso sanitário. 

Era como se o seu usuário, num passo de mágica, ficasse de pé e desse meia volta para se sentar nele. Além disso, havia uma grande distância entre a parte posterior do vaso e a parede. Onde apoiaria as costas? Como fazer os manuseios sem equilíbrio? Qualquer descuido poderia cair para trás.

Impossível, mesmo, usar o sanitário do lindo resort. Precisava apoiar as costas para fazer os manuseios de assepsia e introdução da sonda vesical. Nem mesmo para tentar, teria condições.

O chuveiro, num requintado box, continha uma cadeira minúscula, sem braços, com o assento em tiras, dependurada numa alça de apoio, postada em desconexo com a altura e com os registros misturadores de água quente e fria.

Impossível acioná-los, pois ficavam às costas, numa posição bem acima do desejável. Como lavar os órgãos genitais nessa gangorra, que mais parecia uma balança, pois os pés não alcançavam o chão. Soltar as mãos da alça de apoio postada na parede, nem pensar. Um tombo seria inevitável. Lavar os cabelos? Também não.

Do pomposo banheiro, quase um salão de banho, restava ainda o lavatório, com secador de cabelos, torneira fotocélula (aquela que se abre com a simples aproximação das mãos) e um grande espelho à frente.

Não precisava observar muito para ver que também não podia acessá-lo. Encontrava-se sob o lavatório, um obstáculo - um cano - usado como cabide para as toalhas, impedindo, por sua posição e altura, o encaixe da cadeira de rodas para conseguir usá-lo. Nem lavar as mãos, eu conseguiria. O jeito mesmo era passar uma toalha molhada.

Improvisar para não chorar. Não havia outra saída. O que fazer? Estávamos ali para descansar, para ser felizes. Eu não podia ser o empecilho. Assim, sorriso pra lá, sorriso pra cá e a vida a passar.

“Faz de conta” é a ordem. Afinal o mundo não é adaptado para nós, embora existam leis que determinem esse procedimento.

Em tempo oportuno, tentei conscientizar o responsável administrativo do resort e, lamentavelmente, fui informada de que para toda aquela pretensa adaptação, fora contratada uma assessoria.

Ponho-me a pensar:
Como são desinformados, para não dizer irresponsáveis. Nem uma assessoria, paga para um trabalho especializado, empenhara-se em se informar, em pesquisar para entender as necessidades primárias de um ser humano diferente. Não houvera preocupação em fazer jus, honestamente, ao dinheiro que lhe fora pago.

Os reais usuários, jamais são consultados. É como se fôssemos objetos inanimados, indesejáveis. Por isso costumo dizer que “nada para nós, sem nós”. A gente sabe onde o sapato aperta e o que nos facilita o ir e vir tão diferente.
Essas obras parecem eleitoreiras, ou simplesmente, edificações para burlar as obrigações determinadas pela lei.

Somos um país em desenvolvimento, tão diferente dos países de primeiro mundo! Respeito é uma palavra meio desconhecida por aqui.

Genaura Tormin

Publicado no Recanto das Letras - Código do texto: T141308” e no blog www.genaura.blogspot.com
O jeito era poetar! E o poema gritou dentro de mim, talvez querendo me consolar. Dei asas ao veio poético e ele emergiu triunfal!

Alforria

Tenho que reinventar a vida
Para espantar o medo,
Aprisionar a agonia.
Vou decretar alforria
Para a solidão!

Não a quero por companhia!
Prefiro o vento, a brisa,
Mistério, magia,
E os enlevos de ventania.

Quero um vendaval de sorrisos,
Escancarados, atrevidos,
Para gargalhar a vida!
Quero esquecer a saudade,
Na conquista da alegria.

Tenho que encontrar saída,
Para não acelerar
O relógio do tempo.
Não quero a vida vazia!
Estou pedindo alforria!


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

RÉQUIEM A MEU PAI


RÉQUIEM A MEU PAI
(Genaura Tormin)

Papai, hoje é o seu dia! O dia dos pais!
Como sinto a sua falta!
Fecho os olhos e vejo você ao meu lado,
Falando das coisas da vida.

As nesgas do sol poente,
Parecem trazer-me, por acalanto,
Os seus recados, a sua presença junto a mim.
Que saudade do nosso convívio,
Da nossa alegria...
Quantas brincadeiras,
Quantas risadas nós dávamos juntos!
E a vida era bela, bela vida!

Lembro-me de você, papai,
Ao meu lado no leito de hospital,
Quando a vida achou por bem me tolher os passos.
Sofregamente, você me afagava os cabelos.
Austero e forte, você fora sempre.

Mas, naquele dia,
Acabrunhado e humilde ao meu lado,
Você sofria!
Como gostaria de ter-lhe evitado tamanha dor!

Depois,
Uma nuvem de tristeza cobriu o nosso lar,
A nossa vida, a sua vida, papai!
Passei a vê-lo cabisbaixo de barba grande...
Logo você que era tão vaidoso.
Eu sabia que você sofria.
É, papai, quanta tristeza eu lhe dei!

Hoje, volto ao passado e vejo que,
Mesmo sem andar, eu caminhei muito!
Tenho os pés cansados da jornada,
Feridos pelas pedras do caminho.
Preciso de um colo para descansar,
Preciso de um ombro para chorar.

Eu tentei caminhar...
Tento, ainda, com “unhas e dentes”.
Insisto sempre!
Recomeço a cada tombo,
A cada caminho truncado.
Se não marco passadas no chão,
Marco-as no coração,
Em trabalho, amor, poesia...

Você foi um motivo para o meu desafio.
Como queria entregar-lhe o troféu do meu esforço!
Mas você foi embora, numa noite fria, sem dizer adeus.
Queria que estivesse aqui para ver os meus rastros
Deixados na estrada da vida.

Papai, que saudade!
Mas que saudade, mesmo!
Receba, neste dia,
O preito de minha gratidão,
Do meu afeto, do meu carinho,
Da minha saudade!


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

ARAUTO DO AMOR



ARAUTO DO AMOR
(Genaura Tormin)

O poeta é um trabalhador de versos!
Livre para voar alto, longe, solto...
Encanta e se encanta.
No galope das metáforas,
Cria fantasias,
Pega carona no vento
E conquista o infinito.

É um caudal de emoções que se espraia.
É metacoração,
Meio anjo, meio canção.
O poeta é protetor!
Na cantiga das mudanças,
É um arauto do amor!
Veste tudo de esperança.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

PODES ME DECIFRAR


PODES ME DECIFRAR
(Genaura Tormin)
 
Sou o que pensas de mim,
A imagem captada por tuas retinas,
Enfeitada pelo afago da tua ternura,
Ou pelo açoite do verdugo
Que possa morar em ti.

Sei que sou enigma, segredo, surpresa...
Debulho-me em lágrimas...
De medo, arredia me encolho.
Quero colo, preciso de amparo.
 
Se quiseres,
Podes me decifrar!
Serei a tua construção.
A argila moldável em tuas mãos.
Posso ser Anjo ou demônio.
A obra-prima esculpida em teu coração.

Mas por favor,
Não me machuques!
Tenho tantas cicatrizes,
Que ainda me causam dores.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

GRILOS ATREVIDOS


GRILOS ATREVIDOS
(Genaura Tormin)


Sob a luz fina do abajur,
Em fímbrias multicores,
A aranha solitária
Tece a sua teia.

O coração a planger,
Se alumbra das migalhas
Do amor que teve.
Tece fios de seda
Do sonho ainda exangue.
Fausto tempo se foi
Emoldurado de graça e riso.

Passam-se os dias,
Noites, meses e anos...
O trabalho continua o mesmo:
Cerzir feridas,
Orquestradas por grilos atrevidos.

Hoje,
A teia é o abrigo,
Iluminado pela mortiça luz
Do abajur antigo.


sábado, 6 de agosto de 2011

PAR DE TÊNIS


PAR DE TÊNIS
(Genaura Tormin)

É um par de tênis velho,
Surrado,
Desbotado,
Que tenho guardado.

Aguça-me a memória,
E eu volto ao passado.
Seu solado gasto,
E a forma encarquilhada,
Relembram-me as batalhas.

Era o coadjuvante,
O suporte da minha teia,
Na disciplina da vida,
No ir-e-vir lépido e faceiro...

Era o enfeite preferido
Dos meus pés andejos,
Que bailavam em
Passos apressados, lentos,
Jocosos, manhosos...
Quantas divisas,
Quantas conquistas!

Hoje,
Meu par de tênis,
Quieto no armário,
Ainda me espreita de soslaio,
Contando a minha história,
Reclusa no relicário,
Deste peito que ainda chora.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

SOBRE PÁSSARO SEM ASAS


SOBRE PÁSSARO SEM ASAS


Genaura, minha querida!

Acabei de ler seu “PÁSSAROS SEM ASAS”.
Continuo em estado de graça. O livro chegou-me em boa hora.
Estava desanimada, para baixo e desde que o vi, comecei a ler sem parar.
Eu chorei, eu ri, eu me emocionei, mas principalmente, eu me animei.

Vivo a cada minuto e a cada passo lembrando você, sua luta, sua força, sua garra e sua vitória. Me policio cada vez que tenho pensamentos negativos, lembrando você como se fosse uma luz num farol mostrando o caminho para a navegação.

Eu já tinha por você um grande amor cheio de admiração. Sabia de sua luta, mas sabe-lo em detalhes, cada mínima dificuldade por você superada, deixou-me ainda mais admirada com sua força.

Sinceramente, não é para qualquer um.
E você é uma heroína. Uma grande mulher de quem tenho grande orgulho de ser amiga.
Agradeço a Deus o dia em que colocou você no meu caminho, pois é exemplo a ser passado para todos, todos os dias.

Vou passar seu livro adiante, emprestando a tanta gente que sei que encontrarão nele um alento e uma muleta para mudar a vida.

Genaura, você não é capaz de imaginar o que seu relato de vida é capaz de fazer às pessoas.
Continuo como disse, em estado de graça.

Obrigada por compartilhar comigo seu PÁSSARO SEM ASAS, que de “SEM ASAS” nada tem, pois é alado e capaz e sobrevoar sobre outras vidas trazendo no bater das asas, a brisa que traz o perfume da compreensão, do amor, do exemplo e da superioridade de uma mente evoluída.

Parabéns querida!
E obrigada por tudo.
Beijos
Mari

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

FAUNA DOS SONHOS


FAUNA DOS SONHOS
(Genaura Tormin)

O tempo levou-me os sonhos,
Tantas esperanças,
Retratados em desejos mil,
Na fértil imaginação de criança.
Como era feliz e não sabia!
Sem máscaras, sem disfarces...
Apenas eu mesma: sorriso escancarado,
Correndo ao vento,
Aos píncaros dos folguedos do meu tempo.

No céu talhado de nuvens,
Bordava as fantasias
Com os flocos dançarinos de algodão.
E as mágicas aconteciam,
Em carruagens, reis e rainhas,
Príncipes e lagos encantados.

Foram-se os anos,
Tão rápidos, tão velozes,
Até que me descobri adulta.
Vi, com tristeza, que o sol radiante
Havia mutilado as nuvens,
Os flocos de espuma, a fauna de sonhos,
Esconderijo dos meus desejos.

Em troca, restaram-me meras coisas,
Sem formas, vazias,
Dispersas em fumaça, em dores,
Que poluíram o azul de minha vida.
O horizonte, nem sei se existe mais.
Quisera ter impedido o sopro do vento.
Quisera ter retido as nuvens do meu tempo.

ESTOU NO CAMINHO


ESTOU NO CAMINHO
(Genaura Tormin)

Faça sol ou faça frio,
Eu sigo contente
A minha estrada!
O fardo é pesado
E o meu jugo oprime,
Mas o amor me redime.

Faz-me seguir o destino,
Fruto de minhas escolhas!
O amor é o escudo,
A bússola que me orienta,
A estrela que me guia.

Na aljava seguem as armas,
A proteção para os meus pés,
O alimento para a alma.
Estou no caminho!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

TETO DO MUNDO


TETO DO MUNDO
(Genaura Tormin)

Ao amanhecer
O sol desponta no horizonte.
A natureza se rejubila em festa,
Desfolhando versos
Nos ninhos que se multiplicam.
A brisa acaricia a ramagem,
Sobe às colinas...
Os riachos correm dançando,
Abraçam os rios,
Alimentam várzeas e peixes,
E seguem cantarolando para os mares.

É a vida fluindo contente
Na policromia dos vales e montes,
Das flores e fontes.
Não há lamentos!
Tudo a seu tempo renasce,
Floresce e encanta,
Na orquestra de cada manhã.
Depois, o sol vai descansar.
Vem a noite em seu manto de gala
Integrar a perfeição do Universo,
Rendilhando de estrelas,
O TETO DO MUNDO.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O TREM NÃO ATRASA

Flores de minha casa espiam a rua por mim.

O TREM NÃO ATRASA
(Genaura Tormin

Existência guardada
Na caixa do tempo,
No relógio da vida,
Onde vaga a memória
Na justeza dos atos,
Da consciência tranquila.

Viver é isso:
Evoluir, crescer...
Para depois partir.
A passagem de volta,
Há muito foi agendada
E o trem não atrasa,
Parte na hora marcada.

Em títulos da alma,
Transcende a bagagem
Na paz do caminho,
No final da estrada.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

CARINHO DE UM POETA PORTUGUÊS


Costumo postar os meus textos também no HORIZONTE DA POESIA, um site português, uma Confraria de execelentes poetas daquele país lusitano, terra-mãe do nosso Brasil. Primam pelos bons textos, pela sensibilidade e pelo calor humano.

O poeta é um plantador, e a ele cabe alistar-se na semadura do bem, na construção de um porvir melhor.

Preocupo-me com isso e curvo-me com respeito diante desses sensíveis trabalhadores, cujos escritos em verso e prosa se multiplicam mundo afora na construcão de tanto bem, de tanto alento, de tantas lições benfazejas, hoje veiculadas, como num passo de mágica, por essa maravilhosa rede mundial de computadores que abraça a todos, mesmo em países cujo vernáculo é diferente. Isso é ascensão!

Ainda recente, publiquei um capítulo do meu livro PÁSSARO SEM ASAS, intulado "EU PRECISAVA CHORAR", naquele Site.

Realmente, eu precisava chorar mesmo, pois os relatos ali enfeixados são verdadeiros, escritos com a dor de quem protagonizou ou protagoniza na escola vida, uma história de dificuldades, de machucaduras, cuja opção é apenas VENCER OU VENCER.

Contudo, sinto-me uma campeã. Venci a batalha, subi ao pódium e recebi o troféu.
Por isso divido o caminho a que me propus enfrentar com os meus leitores, para justificar o meu pedido de alistamento como recruta nesse batalhão do bem.
_________________

Assim, percebi com espanto que o texto ganhara muitas leituras e, além dos muitos comentários postados, encontrei também um poema.

Encantou-me o carinho do colega, o que me faz dividir com vocês a grandeza desse poeta, bem como a excelência de seus versos que me fizeram muito contente.

CARINHO DE UM POETA PORTUGUÊS

"Eu li com emoção o que escreveste:
A confissão da pena, da tristeza,
Que fez desaparecer no azul-celeste
O Ser que te gerou, sua grandeza

Grandeza que ao dizeres transparece
Em todos estes termos comoventes;
Grandeza que ganhaste e fortalece
As pernas que sem força estão dormentes

E como tu recordas a criança
Que num dia tão triste quis dar colo...
Numa atitude digna de esperança
Que esses conselhos seus dessem consolo...

A vida te foi dura e de embaraço
Para a fazeres em pleno em teu desejo!
E sei não te curar com um abraço...
E sei, também não curo com um beijo

Mas hoje que estás mais habituada
E encaras como dizes já feliz,
Desejo que tu vás vencendo a estrada!
Que o Amor seja pra ti sempre a raiz!

Um beijo
Joaquim Sustelo"

Querido amigo,
Que prazer ler tão lindo poema e sabê-lo feito para mim. Sua carga de sentimento e ternura acalenta-me a alma, faz-me contente e feliz. Mais uma vez, sinto que acertei ao enfrentar as agruras do caminho, transformando-as em aprendizado e ascensão rumo aos objetivos a que me propus. Você é um excelente poeta, cuja sensibilidade escapa-lhe, ornando os versos, sublimando num benfazejo plantio. Não mereço tanto, mas agradeço. Vou guardar o seu gesto no meu coração.
Obrigada
Beijo grande da
Genaura Tormin
Gyn 05.05.2011

domingo, 17 de julho de 2011

BREVÊ


BREVÊ
(Genaura Tormin)

Embora brancos estejam os cabelos,
Eu me vejo criança a pedir colo,
Implorar guarida.

Ainda tenho medo de ficar sozinha!
Medo da escuridão,
Do vento que soluça ao meu ouvido.
Tenho medo da chuva
Que tamborila na vidraça...
Medo do bicho papão,
Da minha infância tão distante!

Ainda preciso que me segurem a mão.
Tenho medo de fantasmas.
E quantos fantasmas bordaram a minha vida!
A fragilidade bate-me à porta.
Toma-me a alma em desalento.
A máscara caiu, obsoleta e fria.
Já não preciso dela.

Quero o direito de ser boba, frágil, idiota...
Estou pedindo alforria.
Não quero mais ser gente grande.
As crias cresceram e partiram.
Estão seguindo as suas trilhas.

Cumpri o dever e exerci o pacto do amor,
Que impregnado, melhorou-me o ser.
Mais aprendi que ensinei.
Agora, eis que estou a devolvê-las.
Afinal é a sina de todas as mães,
Pois os filhos não são nossos.
São empréstimos de Deus,
Cabendo-nos o feitio de suas asas,
E o brevê para voarem sozinhos,
No céu de suas vidas.

sábado, 16 de julho de 2011

IMAGEM BONITA


IMAGEM BONITA
(Genaura Tormin)

Estou no teu pensamento,
Numa imagem bonita,
No sentimento que me dedicas.
Sou jovem, sou velha,
Sou o tempo, a experiência,
A caminhada, ladeiras e decidas...
Sou argamassa em tuas mãos.

O barro do oleiro,
A arte do artesão.
Sou a canção de uma noite fria,
A solidão do seresteiro,
Ou o canto dolente do boiadeiro.
Quero escalar o infinito,
E deixar meu grito para o mundo inteiro.

terça-feira, 14 de junho de 2011

O MÉRITO NÃO FOI MEU


Eis mais um capítulo do meu livro - PÁSSARO SEM ASAS! Um brinde aos meus leitores. Espero que gostem, pois a premissa maior alicerça-se na coragem e na vontade de seguir em frente!

O MÉRITO NÃO FOI MEU
(Genaura Tormin)


Passaram-se alguns anos desde a última vez que, voluntariamente, dirigi meus passos, impregnando formas no chão. Fisicamente não consegui andar, mesmo envidando muitos esforços. Entretanto minhas pegadas avolumaram-se na caminhada do bem servir e no conhecimento do existir, tornando-me forte e altiva, apesar do rangido brusco de quatro rodas pelo chão.

Dentro de minhas limitações, sou livre: corro em idéias, em versos, em sorrisos, em trabalho, em transcendências ao infinito.
Ouso dizer que o mérito não foi meu, mas de toda a família, parentes, colegas de trabalho, amigos e conhecidos, a quem cabe a responsabilidade pelo meu desejo, cada vez maior, de vencer.

Rendo gratidão aos espíritos evoluídos dos meus superiores da Secretaria da Segurança Pública e Justiça do Estado de Goiás que me conservaram no cargo, valorizando a minha competência, embora a natureza do trabalho exercido ali fosse, em princípio, um paradoxo à minha condição física. Entenderam que o maior potencial está na disposição para vencer, além do preparo técnico-científico inerente ao exercício do cargo. Naquela época, trabalhar numa cadeira de rodas era um fato estranho, quase inusitado, embora a deficiência constitua uma parte natural da experiência humana. E o exemplo ficou para todos os órgãos públicos e privados.

Atribuo o maior mérito ao meu querido Alfredo que em nenhum momento tem-se cansado da caminhada. Combativo, determinado, não tem poupado esforços para me devolver não duas pernas, mas uma miríade delas. Sinto-me uma centopéia. Estou cheinha de pernas. Mais do que preciso. Ambos chegamos a uma autotransformação mediante um processo de evolução consciente. Mesmo quando eu menos mereço, ele é capaz de me amar. A ele, reitero o meu carinho, a minha gratidão. Nossa cumplicidade tornou-nos imbatíveis e unos. A ele o carinho dos meus versos:

INDIVISIBILIDADE

Quando tu partires
Irei contigo.
Levarei o aconchego da noite
Para te fazer feliz.

Serei suave,
Feito o balanço do mar,
Para te amar,
Amor.

Irei contigo
Aonde fores.
Tuas pegadas
Serão as minhas pegadas,
E eu te amarei
Em todos os momentos.

Não choraremos
Porque as lágrimas secaram
Com o sol da manhã,
Fazendo-nos fortes
A qualquer embate.

Irei contigo
Até o infinito,
Onde tudo é perfeito,
Sem dor,
Sem mutilação,
Sem medo.

Irei contigo,
Amor,
Porque faço parte de ti,
E tu és tudo
Que sempre cultivei em mim.
Assim,
Seremos indivisíveis,
Unos e eternos.

Alfredo estava sempre comigo nas primeiras vezes. Juntos, ganhamos a corrida. Subimos ao pódio. Ganhamos o troféu.
Voltei a fazer tudo o que fazia antes. Às vezes a situação torna-se apenas engraçada, nunca impossível.

Trabalho todos os dias e nos feriados e fins de semana vou à cozinha, arrumo armários, conserto roupas como toda dona de casa. O fazer não está sempre adstrito em subir escadas para alcançar armários embutidos, mas administrar, estar presente, coordenar, dar as cartas. Assim as barreiras não existem. Os encargos são-me atribuídos como antes. Não sou vista diminuída, mas até acrescida. Permito-me todos os afazeres: comigo, com o marido, com os filhos e com o meu trabalho. Se o avançado da hora se registra e o dever me chama, aceito ajuda como qualquer pessoa andante, não como dependente.

A vida social continua. Participamos até de bailes. Temos uma Associação de Delegados, com excelente sede e farta pista de dança, onde praticamos lazer, trocamos idéias, tomamos uma cervejinha e dançamos. No início, os colegas paparicavam-me muito. Aproximavam-se de nossa mesa para fazer-nos companhia e externar solidariedade. Usavam o elogio para compensar a disfunção dos meus membros inferiores, tão indispensáveis para a dança, o que eu retrucava com galhardia:
— Você não leu o “Meu pé de laranja-lima”, de José Mauro de Vasconcelos, Saint Exupery... “O essencial é invisível aos olhos, é preciso buscar com o coração”. Por isso, colega, fui eu quem iniciou a dança, quem inaugurou a pista. Adoro dançar! Danço em cada um de vocês e com cada um de vocês. Em cada passo, estou atenta para não errar. Danço com a alma, com o coração e sinto que a cada dia bailo melhor, encontro-me com a vida e sou feliz.

Aprendi a conviver pacificamente com as amarras da deficiência. Não me reconheço no passado. Acho que sou uma nova mulher. Gosto-me assim. Consigo driblar dificuldades e isso significa muito para mim.

De todas essas dificuldades, a falta de sensibilidade é a que mais dói e a que mais deve ser observada. Certa vez fui a um jantar dançante. Dias depois, minha família percebera um enorme hematoma na minha região lombar, nível da cintura. Surpresa! Lógico, uma grande interrogação. Imbuindo-me do costumeiro papel de detetive de mim mesma, concluí que teria sido provocado pela dança na cadeira de rodas. Certamente, o cinto de metal formado de elos que eu usava naquela noite, provocara atrito nas protuberâncias da coluna vertebral. Hoje danço sem o cinto de elos, mas importa-me muito os elos de afetividade que consigo ligar entre os meus leitores, entre amigos, entre as pessoas com quem desenvolvo algum diálogo. Minha meta é a paz interior e eu sei que a vida me aponta caminhos para isso. Como partícipe, sei que preciso dividir e a melhor maneira de pensar em mim, é pensar em todos. A felicidade coletiva necessita de coadjuvantes. Ela não pode existir sem esforços. E, com certeza, fiz-me recruta, estou alistada no batalhão desses servidores, por princípio, por convicção.
Não lamento o que fazia antes, mas fico satisfeita com o que ainda posso fazer. Acho-me perfeccionista e esmero-me na execução. Não sou narcisista, mas gosto de sentir o mérito da conquista.

Acredito em Deus como integração, por isso os meus retalhos adormecidos ganharão movimentos algum dia, quem sabe noutra galáxia.

Numa semelhança quixotesca, vou cruzando horizontes em vôos alados, impulsionada pelo reconhecimento e o carinho das pessoas que me cercam. O meu trabalho abre caminhos, cria consciência popular, valoriza seres humanos olvidados. E é isso que me gratifica. Vale por todos os salários recebidos. É o que posso fazer pelo meu irmão de barco, pela pessoa com deficiência física, tão preterida neste País.
Fiquei muito feliz ao ser valorizada pela então miss Brasil, Jaqueline Ribeiro Meireles, quando de uma matéria jornalística intitulada: “As mulheres impõem a Lei”. O texto discorria sobre o meu trabalho policial, encimando minha fotografia de cadeira de rodas, descortinando nuances até sobre Pássaro Sem Asas.

A misse endereçou à reportagem a seguinte missiva: “A chefe de jornalismo da Revista Presença. Parabenizo-a por legar a Goiás uma revista bonita em visual e, mais ainda, em conteúdo. Na qualidade de misse Brasil, achei linda a Delegada de Menores de Goiânia, em plena atuação e numa cadeira de rodas. Sua beleza interior, sua sensibilidade, sua coragem e sua abnegação enchem-nos de entusiasmo e vontade de viver. Genaura é mais que uma pessoa da Lei; é mais que uma esposa e mãe; é mais que um exemplo de vida! É, sobretudo, uma paraplégica que consegue ‘voar’ bem alto sem as suas preciosas asas. Que vocês possam continuar publicando essa linda revista, com assuntos tão enobrecedores, para que o mundo fique um pouquinho melhor, e as pessoas que possuem ‘asas perfeitas’ possam também alçar vôos de beleza, de alegria e de trabalho como Genaura. Beijos. (assinado) Jaqueline Ribeiro Meireles”.

Eu não merecia tantos elogios. Confesso que fiquei emocionada, principalmente partidos de uma misse Brasil. Para Jaqueline, o meu agradecimento sincero e toda a minha admiração.

Realmente, nesses anos todos não consegui melhora no quadro locomotor. Tudo permanece inalterado desde aquela noite fatídica, no Hospital Neurológico, em que os cobertores não aqueceram o meu frio, o qual se agregara a mim, compulsoriamente. Contudo as minhas conquistas tornaram-me andante: tiro e ponho sozinha a cadeira de rodas no carro e corro ao seu volante, o que caracteriza uma grande independência, além de haver conquistado o meu espaço de cidadã, tentando nivelar-me aos andantes.
Mais do que nunca, sinto-me senhora do meu pleno equilíbrio. “Sou como a rocha nua e crua onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a esmo. Posso cair. Caio. Mas caio de pé por cima dos meus escombros”. Embora não haja a força motora para fisicamente conservar-me ereta, alicerço-me nas asas da coragem para sobrevoar com dignidade esses escombros.

Transpus muitas barreiras até mesmo a do sexo. Não há impossíveis quando envidamos esforços verdadeiros para a superação ou a substituição por valores semelhantes.
A natureza é sábia e a lei da compensação é uma verdade. Quando há uma disfunção ou falta de um órgão, os sentidos encarregam-se do trabalho e ficam muito mais aguçados. O cego, por exemplo, possui a audição perfeita e, por meio dela, compensa a sua disfunção visual, bem como desenvolve as percepções sensoriais e extra-sensoriais, podendo perceber cores por suas vibrações através do tato.

Assim o que me restou ficou muito mais sensível: o beijo mais gostoso e o prazer muito maior com as carícias nos lóbulos das orelhas, cabelos, olhos, ombros, pescoço, seios e, principalmente, nas axilas que, para minha satisfação, substituiu os enleios de prazer do órgão genital. Posso afirmar que não fico a ver navios. Amo e sou amada.

Sexo, para mim, não significa somente contato genital, mas envolve aura, mente, sublimação... Por isso exercito a minha sexualidade num olhar de ternura, num articular de lábios, numa palavra de amor ou, simplesmente, num copo de suco tomado a dois.

Sexo é a sublimação do amor. Fora desse parâmetro, é fisiologismo. O amor procura o sexo e o sexo coroa o amor, ambos alimentados pela vivência, pelas trocas diárias, pelos frutos desse amor...

Amor é procura do eterno.
É a consciência cósmica penetrada em nós.
É a forma mais linda que Deus encontrou para que o homem fosse criatura e criador: propagasse a espécie.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

QUEREM CARREGAR O MEU FARDO


Eis mais um dos capítulos do meu livro - PÁSSARO SEM ASAS!
Um brinde aos meus leitores. Espero que gostem, pelo menos da sinceridade e da coragem de abrir o coração, mostrar a minha privacidade e, especialmente, o tamanho das dificuldades que tive que enfrentar. Hoje, digo: SEM CORAGEM NÃO SE VAI A LUGAR NEHUM!

QUEREM CARREGAR O MEU FARDO
(Genaura Tormin)

Papai estava em nossa casa. Era a primeira vez que nos visitava depois que eu saíra do hospital. Tinha medo de me ver na cadeira de rodas. Como estava bonito, o meu pai! O seu semblante era marcado por preocupação e tristeza, embora escondidas sob a barba que deixara crescer desde a fatalidade que se abatera sobre mim, ou melhor, sobre nós. Para os pais, a gente é sempre criança e necessita de cuidados. Papai não deixara de trazer-me algum agrado: mel de abelha para tomar nas manhãs; doce de leite, requeijão e, ainda, banha de carneiro para fazer-me andar.

— Filha, aqueça esta banha, esfregue nas pernas e enfaixe com ataduras de crepom que vai ajudá-la muito. Fiquei sabendo de um homem que estava como você e andou.
— Obrigada, papai! O senhor é um amor de pessoa! Se eu não voltar a andar, não fique preocupado, pois prometi a mim mesma que vou voar. Vou ficar alada, papai! Vou ter asas e ficar mais veloz. Vou voar com os pássaros na amplidão, nesse infinito azul cheio de liberdade. Vou até as constelações. Quem sabe visitarei a estrela do meu tempo de criança? Lembra-se? Aquela que piscava, piscava e o senhor dizia que ela estava me chamando.

— Você não deixa de fazer brincadeiras. Com coisa séria não se brinc! Lembro-me de que, quando pequerrucha, queria trabalhar no circo. Queria ser artista, equilibrando-se até sobre a sela do cavalo, quando, às vezes, tinha que levar umas palmadas.

— É papai, isso mesmo! Está vendo que a gente consegue o que deseja! Talvez eu quisesse ser trapezista. Agora, vou mesmo exercer algo parecido pelo menos em desafio. Escute só: não vou aposentar-me. Amanhã vou assumir o cargo de Delegado de Polícia no Nono Distrito Policial! Valeu? Vou desafiar paizinho! O senhor já ouviu falar de alguma delegada de cadeira de rodas? Vou ser a primeira! Talvez queiram pôr na minha cadeira um motorzinho V-8, com injeção eletrônica, turbinado... E eu vou botar pra quebrar com um trinta-e-oito na cintura. Já pensou numa estrada reta, a 280 km por hora! Ninguém fará melhor trabalho que eu, o senhor não acha?

— Credo! Pára de falar besteiras! Imagine se Alfredo e eu vamos permitir tal coisa! Fale sério! Pare de rir. Nunca vi uma pessoa numa cadeira de rodas com tanta alegria! Todas que pude ver em Minas Gerais tinham semblante de sofrimento.

— Paizinho, eu vou trabalhar! Vou ser uma Delegada de Políci! Passei no concurso e já fui nomeada. O senhor não se orgulha de mim? Ser delegado é ser chefe. Não vou sair com trinta-e-oito nenhum. Nunca levei jeito para isso. O que vou fazer é instaurar procedimentos policiais, dar ordens, inquirir testemunhas, requisitar perícias, exames de lesões corporais e muitos outros. Terei uma equipe de policiais a meu serviço. Amanhã será o meu primeiro dia de trabalho e o senhor irá comigo. Não posso perder tempo. Vamos conversar na varanda. Tenho que fazer os exercícios, senão, além de não andar, vou ter problemas de osteoporose e calcificação nas articulações. Estou estudando Medicina, sabia? Acho que depois dessa paraplegia vou ser médica charlatã.

Com roupa de malha, fomos para a varanda onde papai ajudou a colocar-me sobre o acolchoado, no chão, para os primeiros exercícios daquele dia: os manuseios feitos pela Edna, minha prima, que voltara a morar conosco.

Para auxiliar-me, ela fizera estágio no Hospital Sarah Kubitschek e, como técnica de fisioterapia, é uma excelente profissional. Moça alta, vistosa, de uma simpatia à flor da pele; muito brincalhona, carregava no rosto um aspecto trigueiro, sempre com um sorriso. Gostava de comparar as pessoas com as aves, e até imitava os seus gorjeios. Ela floreava as frases e a gente acabava sempre às gargalhadas. Edna era mesmo uma pessoa especial em época também muito especial. Frequentemente encontrava uma maneira engraçada para resolver os problemas. Às vezes, saíamos juntas para as visitas, supermercados e até para o cinema. Com ela, sentia-me protegida.

Numa dessas andanças, perguntaram-lhe se eu falava. Após uma mesura e uma olhadela estupefata da Edna, não pude manter-me séria. Ambas caímos na gargalhada, como se não fôssemos mais parar.
A pergunta não ficara sem resposta.
— Não! Ela não fala, só ri — dissera a Edna, limpando os olhos.

— Não me olhe com essa tristeza, papai! As pernas não estão finas. É a falta de controle sobre elas que transmite “peninha”. Estou ótima! Não vê que estou alegre?! A gente não pode ser misse a vida inteira. Os anos já lhe pesam, mas o senhor está muito bonito nessa idade! Entre as pessoas com deficiência, também posso ser vistosa, o senhor não acha?

Papai continuava calado. Olhava-me sempre e seguia os manuseios que a Edna fazia nas minhas pernas.
— Agora de gatão! — exclamara a professora.
Imediatamente obedeci e eis-me feito um grande bebê, querendo engatinhar.
— Para frente! Para trás! — comandava ela.

Por vezes, perdia o pouco equilíbrio e caía para a lateral. O esforço era muito grande para me levantar. Sob meu comando, apenas estavam a cabeça, os braços e as escápulas. Pouco para puxar uma jamanta, como dizia a Edna. Então, ileso era o “cavalo”, isto é, a parte dianteira de um caminhão. A jamanta, talvez carregada de aço, era o resto do meu corpo. Engraçada a comparação. Moça criativa, a Edna!

Alfredo costumava supervisionar os trabalhos. Dava sempre uma chegadinha ao nosso ginásio de fisioterapia. Elogiava os avanços e fazia exigências, fazendo-me querida.
Depois do gatão, Edna declinava o próximo exercício:
— De joelhos!

Nesse momento, papai indignado interpelara:
— Isso não! Assim é judiar demais! Você não vê que ela está paralítica? Por que ainda fazer penitência?
Caímos na gargalhada e até o maridão não deixara de acompanhar-nos. Contudo exclamara:

— É, meu sogro, ela precisa fazer penitência para recuperar os passos. Mas a Edna exagera muito. O senhor verá muita coisa ainda!

Pobre papai! Homem do interior que vivera a maior parte da sua vida no campo, na lavoura, cuidando do gado, não havia acompanhado o progresso das grandes cidades. Com o seu coração de pai, tentava me proteger. Não entendia que eram exercícios, e indispensáveis, aquelas posições.

Agora seria a vez das paralelas. Edna acoplara-me ao aparelho ortopédico com botas e com a ajuda do Alfredo fui colocada na vertical, segurando-me nas paralelas (dois canos galvanizados, paralelamente dispostos à altura do quadril). Estava de pé. Olhava a todos testa a testa. Estava alta, arrogante. Será que era alta assim? Os saltos de quatro centímetros das botas, para compensar os tendões das pernas que se encurtaram, não poderiam ser esquecidos.

Papai, sisudo, parecia não gostar daquele espetáculo. Tantos amarrilhos, hastes de metal, cinto de metal, até que desabafou:
— Isso parece arreio de cavalo!
— Não, meu sogro, tutor longo com cinto pélvico! — retrucara Alfredo. — Isso é para fazer circular o sangue, melhorar as funções intestinais, urinárias, e ainda evitar osteoporose nas pernas, pois o cálcio que ingerimos em forma de alimento não é absorvido pelos ossos se eles não estiverem em uso. Assim, meu sogro, os ossos ficam fracos, como se estivessem brocados. Por isso Genaura precisa ficar de pé. As pernas precisam sentir o peso do seu corpo.

— Coitada de minha filha, paralítica! — entoara sentido, o papai.
— Paralítica, não! Deficiente! — Atalhou imediatamente o Alfredo, como se as duas palavras não fossem sinônimas. Era mesmo o desejo de não me machucar, não me ofender.
Acho que papai e Alfredo sofriam muito mais do que eu que estava sendo protegida por todos os lados. As crianças faziam as suas partes, dando-me carinho exagerado.

Nas paralelas, vendo-me estampada num grande espelho à frente, apetrecho imprescindível para a correção da postura e dos passos, observava o golpe que a vida havia-me desferido. Como criança indefesa, pensava em mamãe. Ah, se ela estivesse viva! Certamente viria morar conosco para amenizar-me a falta de locomoção.

Mamãe era disposta, alegre, extrovertida. Para ela, não havia impossíveis. Possuía um coração imenso e espiritualizado. A importância maior era dirigida aos filhos que, como ela sempre dizia, constituíam o seu tesouro. A felicidade da gente era muito mais a felicidade dela.

Mamãe era líder. Aonde chegava, encantava sempre. Fora muito bonita nos verdes anos. No entanto era a sua beleza interior que impregnava a todos. O sorriso largo, os olhos azuis e a imagem de fada madrinha enchiam de luz qualquer lugar. Gostava muito de cantar, declamar... Como gostava de ouvi-la cantar as românticas músicas do seu tempo. Poesias épicas, ela sabia de cor e as recitava com galhardia.

Agora como estava precisando dela! Que saudade dolorida arrebatava-me o peito! Será que estaria à minha espera na eternidade? Como não nos é dado decifrar o após morte, mas acreditando na imortalidade da alma, mamãe até poderia estar ali, num corpo etéreo, velando por minha vida, dando-me apoio e insuflando-me coragem como sempre o fizera nos meus momentos mais difíceis. Era no seu regaço que os problemas revertiam-se em “coisinhas banais, corriqueiras, plenamente resolvíveis”.

Hoje, pensar que a sua presença translúcida amaina o meu caminho, canta para dissipar minha tristeza, encoraja-me nos fracassos, diminui minha condição de órfã para arremessar-me ao alto, vendo-me pelo crânio e não pelos pés que, há muito, não impregnam formas no chão.

MINHA MÃE

Minha mãe!
Quanta saudade!
Brado o seu nome
E tenho o eco por resposta.

O telefone do céu está mudo.
Há muito tempo vivo órfã!
Preciso de um colo
Para descansar meu corpo,
Preciso de um ombro
Para chorar.

Mãe,
Preciso de você para me guiar!
Queria dar-lhe o carinho que guardei.
Dizer da vida,
Das dores, dos amores
E das quedas que levei.
Estou indefesa,
Uma criança outra vez.
São tantas as queixas...

Mãe,
Sua presença me devolve a paz.
A silhueta etérea me acompanha
E sob as suas asas sou amada.
Mas é sempre em sonho
E você me deixa quando alguém me toca.
A claridade quebra o encanto.
E ainda por um instante, deixa-me fitar
Os olhos azuis de quem eu amo tanto!

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)


"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)