PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

FELIZ ANO DE 2011!


FELIZ ANO DE 2011!
(Genaura Tormin)

Mais um ano de nossa trajetória!
Muitos acertos, muitos encontros, desencontros, lágrimas e sorrisos. Muitas experiências, muito aprendizado com as dificuldades que nos fizeram crescer!

Aliás, a vida é mesmo um emaranhado de emoções que nos deixam legados de dor e de alegria, tão indispensáveis à nossa evolução enquanto caminheiros desta estrada.

É hora de reflexão! Que os acxertos sejam intensificados nesse Ano que se avizinha! Que o amor seja a palavra de ordem para amainar a dor, a fome, a violência ...
Que o destino da nação siga altaneiro rumo ao bem, agora embalado pelo pulso forte de uma mulher/presidenta, de quem muito esperamos. O resto será consequencia.

Às portas, um Ano Novo, e com ele mais oportunidades para servir, compartilhar o aconchego, o afeto, o amor, na construção da almejada felicidade.

Neste último dia de 2010, agradeço a amizade e o carinho de cada leitor que, no decorrer deste ano aqui me brindou com a presença, valorizando a simplicidade dos meus textos, incentivando-me na criação de outros mais.

Agradeço, igualmente, pelos comentários deixados. São essas menções de carinho que me renovam a fé, a força e a vontade de viver. Vocês serão sempre o maior motivo que me leva a capir versos, a galopar no eito da poesia, que me dão tanta alegria.

Assim, desejo que 2011 seja de muita paz, saúde e que todos os sonhos sejam realizados. E, ainda, que a poesia se faça presente para acalentar algum momento desbotado que a vida, por vezes, tenta nos oferecer.

Beijo grande da
Genaura Tormin

domingo, 26 de dezembro de 2010

SENHOR


Este texto não é meu. Recebi-o por e-mail e achei que deveria partilhá-lo, pela excelente mensagem. Por vezes uma reflexão é oportuna e benfazeja.

"SENHOR!

Se um dia eu estiver "cheio da vida" ,
com vontade de sumir, de morrer,
insatisfeito comigo e com o mundo em torno de mim...
_ Pergunta-me, apenas, se eu quero trocar a luz pelas trevas...
_ Pergunta-me se eu quero trocar a fartura
da mesa posta, pelos restos que tantos
vem buscar no lixo...

_ Pergunta-me se eu quero trocar meus pés por uma cadeira de rodas...
_ Pergunta-me se eu quero trocar minha voz pelos gestos...
_Pergunta-me se eu quero trocar o mundo
maravilhoso dos sons pelo silêncio dos
que nada ouvem...

_ Pergunta-me, se eu quero trocar o jornal que
leio e depois jogo no lixo, pela miséria dos
que vão buscá-lo para fazer dele seu cobertor...
_ Pergunta-me, se eu quero trocar minha saúde, pelas doenças incuráveis de tanta gente...

_ Pergunta-me também, até quando
não reconhecerei as Tuas bençãos, a fim de fazer de
minha vida um hino de louvor e gratidão
e dizer, todos os dias, do fundo de MEU CORAÇÃO:
_ Obrigado, Senhor!"

domingo, 12 de dezembro de 2010

PAPAI NOEL


PAPAI NOEL
(Genaura Tormin)

Papai Noel,
Que nas noites natalinas,
Realiza sonhos,
Constrói felicidade,
Enchendo de alegria a vida das pessoas,
Eu também lhe trago o meu pedido.

Volto ao meu passado,
Analiso o presente
E os vejo sempre cheios de oportunidades.
Por isso, para mim, nada peço.
Tenho muito mais do que mereço.
Nas manhãs,
O sol se esgueira pela janela,
Alertando-me de que estou viva.
O ar flui-me dos pulmões!

Extasio-me diante de maravilhas tantas!
Só posso mesmo agradecer!
Presente maior do que esse não há.
Tenho um lar,
Um trabalho e um amor verdadeiro,
Sempre encantado comigo.

Tantos laços de amizade,
Afeto e ternura em demasia.
Tenho a voz que canta,
O coração que ama
E se encontra na poesia.

Pude meus filhos criar!
Mas,
Há os que não têm um lar para voltar,
Um ombro para chorar,
Um trabalho para o sustento ganhar,
Fazendo das sarjetas leito
E das ruas “habitat”.

É para eles que agora eu peço.
Queria ver banida a violência,
A fome, a dor,
A droga, a corrupção...
Papai Noel,
Dá um jeitinho pra mim!!
É hora de compaixão,
Pois todos nós somos irmãos.
E a vida não pode continuar assim!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

COLÉGIO DE FREIRAS


COLÉGIO DE FREIRAS
(Genaura Tormin)

Os primeiros dias de internato foram difíceis. Estávamos acostumadas com a liberdade da natureza, com a produção farta do pomar, com as asas-de-moleque nos píncaros das mangueiras, cajueiros, amoreiras; os banhos, todo fim de tarde, no remanso do riacho. O primeiro copo de leite no curral. Tudo trocado, agora, por uma liberdade metódica, disciplinada, relativa.

Assim vivemos no internato durante nove anos. Crescemos lá. Quanta saudade daquele tempo! Quanta saudade das férias, das festas, dos teatros, das colegas e das freiras. Eram muitas, as nossas mães. Freiras abnegadas que nos emprestavam amor de mãe sem nunca haverem transado a maternidade real. Como as respeito! Num misto de gratidão e saudade, guardo-as no coração.

Era mesmo um lar, o colégio! Daqueles que não existem mais. A educação disciplinada, permeada de trabalho, lazer, esporte e instrução, construíra os alicerces que fizeram de nós o que somos hoje.

Quanta saudade dos trabalhos manuais, da culinária, das aulas de violão, encadernação, cartonagem! Quanta saudade! Era o preparo para a criação da família: o passaporte, principalmente, para o casamento.

Lembro-me tanto da festa natalina! Quanta guloseima! As mesas enfeitadas para a ceia, à meia-noite, logo depois da missa. Que alegria, que ansiedade para ver os presentes e os muitos bombons coloridos, sem nunca faltar o pão-de-mel do qual eu gostava tanto. Tudo era feito em segredo, o que aumentava a nossa curiosidade, fazendo-nos sonhar com o grande dia. Quando se abria a larga porta do refeitório, parecia a entrada para o céu. O teto abundantemente iluminado, com estrelas brilhantes de todas as cores e a tradicional música de Natal, fazia-me sentir a criança mais feliz do mundo. Não havia tristeza no Natal. Todas nós exibíamos roupas e sapatos novos, coloridos, lindos... Parecia que, de repente, virávamos princesas.

Nesse dia, as freiras não conseguiam conter a algazarra que fazíamos nos dormitórios com a passagem do Papai Noel. O bom velhinho deixava presente para todas nós. Os olhinhos brilhavam de felicidade. Muitas choravam ao abrirem os presentes e confirmarem que o pedido da cartinha havia sido satisfeito. Que papai Noel legal!

O café da manhã e o almoço do dia de Natal eram sempre muito gostosos, ouriçando o nosso paladar, tornando grande a espera. Que dia lindo! Até hoje sou encantada com a data natalina e o Jesus-Menino volta-me sempre às origens. Os anos regridem e eu me sinto menina outra vez.

Lembro-me da concepção do Deus que criei para mim. E eu era “Filha de Maria”, uma congregação de moças que usavam roupa branca com faixa azul na cintura durante as cerimônias litúrgicas. Lembro-me das missas em latim, das procissões, dos retiros, do aniversário da gente, quando ganhávamos estampas de santinhos com lindas dedicatórias, além dos “parabéns a você” no refeitório repleto de meninas, onde a amizade era o elo da fraternidade, do afeto, dos folguedos cheios de encantamento e sorrisos.

A lembrança das músicas sacras do velho órgão da capela traz de volta o passado tão distante.

Os primeiros sonhos e a primeira poesia. Eu tinha treze anos. De repente senti-me fêmea. Com isso viera o sentimento de que amaria um homem, faria um ninho de amor cheio de bombons, morangos e muitas borboletas, além de um jardim florido, enfeitado de crianças. Na última folha do caderno de matemática grafei a poesia, a confirmação de minha feminilidade.

ESPERA

Espero-te,
Porque sei que virás!
Lindo,
Como o vejo em pensamento.

Tu, que me dás saudades!
Tu, que não conheço,
Serás meu,
Somente meu!

A ti, contarei dos dias de vigílias
E falarei da solidão.
Sei que tu virás um dia.
E o meu mundo
Será de muitas cores.

Tu, meu amor,
Serás realidade,
Eu sei.

É por isso
Que não me canso
De esperar-te sempre,
No calor dos dias,
No frio das madrugadas.

Quando chegares,
Tudo será dourado,
Cheio de encanto,
Sem pranto.

Esta saudade louca,
Que de ti eu sinto,
Será esquecida
Com a tua presença.

Tu, insubstituivelmente tu,
Serás meu!
Serás ternura!
E eu serei tua,
Amor!

Lembro-me, também, com saudade, da oração da noite, do canto de agradecimento antes e depois das refeições... Lembro-me do jogo de tênis todas as tardes de domingo. Os passeios de trem de ferro. O sucesso na escola. E eu estudava fora. Era bolsista do Colégio Santo Agostinho, onde fiz o ginásio.


De menina-moça fui me tornando mulher. As formas curvilíneas faziam-me altiva, faceira... Desabrochava para a vida. Os ensinamentos recebidos ajudaram-me muito.
Aos dezoito anos, deixei o colégio. Tinha que construir a própria vida, agora sozinha, gerindo os sucessos e incertezas. Minhas duas irmãs haviam saído antes do Colégio e moravam com o papai em Minas Gerais. Eu optara pelos estudos. Mesmo sozinha, permaneci no internato. Eu sabia que não era fácil viver.

As peripécias que havia enfrentado confirmavam essa verdade. Entretanto acreditava nos meus potenciais e sempre pensei grande. Como disse atrás, desde pequena pensava num futuro bordado de estrelas. Mas ele não viria sozinho, é claro, eu precisava ir atrás dele, conquistá-lo, fazer a minha parte. A gente só fracassa quando desiste de tentar.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

FÁBULA SOBRE O IMPOSSÍVEL


FÁBULA SOBRE O IMPOSSÍVEL

(Achei excelente e publico-o aqui. Penso que, intimamente eu já conhecesse essa força, mesmo que os outros dissessem o contrário. Penso que o desafio é o ingrediente principal para as grandes conquistas. É o que nos tornam valentes! O pensamento é o primeiro projeto para a execuçao da obra, por isso Albert Einsten
tinha razão:“SE PODES IMAGINAR PODES CONSEGUIR”.)


“Certa lenda conta que estavam duas crianças patinando em cima de um lago congelado. Era uma tarde nublada e fria e as crianças brincavam sem preocupação. De repente, o gelo se quebrou e uma das crianças caiu na água. A outra criança, vendo que seu amiginho se afogava debaixo do gelo, pegou uma pedra e começou a golpear com todas as suas forças, conseguindo quebrá-lo e salvar o amigo.
Quando os bombeiros chegaram e viram o que havia acontecido, perguntaram ao menino: “Como você fez? Impossível que você tenha quebrado o gelo com essa pedra e suas mãos tão pequenas!”
Nesse instante apareceu um ancião e disse: “Eu sei como ele conseguiu.” Todos perguntaram: “Como?” O ancião respondeu: “Não havia ninguém ao seu redor para lhe dizer que não podia fazer!”


“SE PODES IMAGINAR PODES CONSEGUIR”.
Albert Einsten

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

UMA RECEITA SIMPLISTA, MAS VERDADEIRA


UMA RECEITA SIMPLISTA, MAS VERDADEIRA
(Genaura Tormin)


O iogue contemporâneo Paramahansa Yogananda, referindo-se aos revezes da jornada, afirmara: “Nada vos virá que não hajas merecido agora ou logrado com anterioridade”. E eu acredito nisso. Não há fardo pesado para ombros fracos. Sempre há a equivalência. O coração e a intuição são os nossos mestres! É a voz de Deus dentro da gente. Devemos segui-la sem medo de errar, desde que os feitos se enquadrem nos parâmetros da dignidade e da justiça.

“As reencarnações são os degraus pelos quais o ser se eleva e progride”. Por isso a existência é feita de momentos ruins e bons, tristes e alegres, e, muito mais de renhidas batalhas. Tudo impulsionado pela infalível Lei de Causa e Efeito e do livre-arbítrio que se equilibram no transcurso de sinuosas veredas que, por vezes, parecem-nos fatalidades. É a hora da responsabilidade!

Somos herdeiros de nossos erros e acertos, embora a infra-estrutura da alma seja intocável. É o processo reencarnatório para que se efetive a Lei do Progresso e a evolução do espírito, pois o próprio Cristo afirmou que somente seremos livres quando conhecermos a Verdade. Por isso é preciso ultrapassar as formas físicas e vislumbrar a essência, empunhando a deficiência com honradez, encontrando, por meio dela, as escadas de ascensão à nossa conduta moral, além do exercício da humildade, do amor e do perdão.

Às vezes, as provas, as agruras e a limitações físicas, quando bem entendidas, podem reverter-se em privilégio. A meta tem de ser alcançada. O alvo é o sucesso com a conquista de nós mesmos, aproveitando as pedras do caminho para a construção de nossa própria escada.

É bom pensar que a queda pode também nos arremessar ao alto. Todos nós carregamos as cicatrizes do nosso “ontem”, e elas não nos impedirão de sorrir. Dependendo da disposição mental, tudo se transforma. O que ontem foi tempestade, hoje pode ser bonança.
Vá à luta! Ouse, trabalhe, acredite!

sábado, 30 de outubro de 2010

CULTO ECUMÊNICO NO TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO


CULTO ECUMÊNICO NO TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO
(Genaura Tormin)

“Irmãos de toda a terra amai-vos uns aos outros!”

Jesus querido, pai, amigo e mestre, que tuas vibrações de amor possam ser sentidas em nossos corações, inundando de luz este nosso local de labor. E hoje comemoramos o dia do Servidor Público. A todos o meu carinhoso abraço.

A maior religião chama-se AMOR, estampado no perdão, na misericórdia, na compaixão e na caridade. Esta última é o estandarte maior do AMOR.

E Deus a coloca em primeiro lugar, uma vez que, implicitamente, ela abrange todas as outras: a humildade, a brandura, a benevolência, a indulgência, a justiça, etc. O Cristo as viveu e as ensinou, resumidas numa pequena frase: "amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo".

Aqui, estamos para amar, servir e evoluir!

Por isso:
"Semeia tua coragem para poderes encorajar o outro.
Semeia teu entusiasmo, tua fé, teu amor.
Semeia coisas pequeninas, insignificantes.
Semeia e confia:
Cada semente há de enriquecer um pequeno espaço de chão."

Todas as religiões levam a Deus, feito os rios que caminham para o mar.
Por termos disposições mentais diferentes, escolhemos o caminho que melhor se ajuste a essa disposição. Eis a razão das mais diversificadas religiões.

Pode ser facilmente comprovado que o Espiritismo é uma doutrina cristã, racional, lógica, lúcida e progressista. A fé cega anula-nos o raciocínio.

Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz em dominar suas más inclinações. É a reforma íntima, com vistas ao aperfeiçoamento moral.

A doutrina espírita tem a finalidade de nos despertar para as nossas responsabilidades enquanto no corpo físico e depois dele, pois o espírito é eterno. Nenhuma ovelha é abandonada à margem da estrada, nem lançada ao fogo eterno.

O Espiritismo é uma lei universal. Dela, promana a explicação de todas as aparentes anomalias da vida humana, de todas as desigualdades intelectuais, morais e sociais, facultando ao homem saber donde vem, para onde vai, para que fim se acha na Terra e por que aqui sofre.

O ser humano nunca sentiu tanta necessidade de encontrar a paz íntima, como nos dias atuais.

"Por que havemos de odiar
E desprezar uns aos outros?
Neste mundo há espaço para todos.
A terra, que é boa e rica, pode prover
Todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade
E da beleza, porém nos extraviamos.

A cobiça envenenou a alma dos homens...
Levantou no mundo as muralhas do ódio...
E nos tem feito marchar para a miséria e a violência."

Cabe-nos a responsabilidade de mudar o futuro, pois a violência só existe porque não entendemos ainda a lei do amor. Por isso precisamos submeter-nos às leis dos homens para nos reeducar.

É como se todos nós fôssemos pedras pontiagudas e precisássemos de nos tornar redondinhas para conseguirmos rolar no Rio da Vida, até descobrirmos o caminho que possa nos levar ao Criador de Vidas, ao Reino de Deus.

Vamos, neste momento, ofertar ao Pai o nosso esforço para evoluir rumo ao bem, aumentando a conquista pela paz nos dias que se seguem.

Finalizando, vamos pedir ao Mestre Jesus que nos abençoe. Não só as pessoas aqui presentes, mas a todos os habitantes do Planeta, principalmente os que estiverem em hospitais, em abrigos, nos manicômios, nas penitenciárias, jogados pelas ruas, em conflitos...

Abençoa também, Pai amado, a cada um de nós, neste domingo, na escolha daqueles que gerirão os destinos de nossa Pátria, incluindo o nosso Estado. Ponde em cada coração o discernimento eficaz.

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé
No trabalho justo,
Na divisão do pão
E do amor fraterno.

Muito obrigada!
Goiânia, 28.10.2010

terça-feira, 26 de outubro de 2010

GOIÂNIA ANIVERSARIA


Goiânia, completa hoje  79 anos - dia 24 de outubro. Uma cidade linda, acolhedora e feliz!

GOIÂNIA É O MEU LUGAR
(Genaura Tormin)

Minha cidade, Goiânia,
Esculpida no meio do cerrado,
Entre montanhas e vales,
Na região do planalto,
No centro de Goiás,
No coração do Brasil.
Cidadã do mundo,
Goiânia é varonil.


Sua gente é solidária, hospitaleira,
De sorriso franco, alegria brejeira,
Que cultiva o afeto, a cordialidade...
Por isso tem todas as idades,
Todos os sotaques e naturalidades.
O Brasil inteiro se encontra aqui,
Onde a esperança se multiplica
Num crescimento harmônico,
Com todas as vocações de progresso.


A biosfera se debulha em festa
E o céu de nuvens viajeiras,
À noite, veste-se de estrelas,
Para colorir os sonhos dessa gente guerreira,
Desse povo feliz, entusiasmado,
Que mostra a sua cara na economia,
Na arquitetura, no esporte,
Na gastronomia,
Nas ciências médicas,
No lazer e nas artes.


Aqui, filosofa-se a natureza,
Com amplas avenidas arborizadas
De ipês floridos, palmeiras imperiais,
Flamboyants e flores de mais.
Uma “cidade jardim”!
Lagos e chafarizes enfeitam-se de sorrisos,
Onde crianças brincam ao vento,
Num clima ameno e saudável.
A qualidade de vida é marco de felicidade.
A ordem aqui é AMAR!

Essa é a minha cidade,
O meu lugar!

domingo, 24 de outubro de 2010

PARABÉNS, DR. MARCOS


HOMENAGEM AO DR. MARCOS ANTUNES
(Genaura Tormin)


Olhar seguro, tranquilo,
Inteligência e muita simpatia,
Além da lhaneza que o distingue.

Seus gestos transcendem
E a simplicidade encanta
A todos que o conhecem.

Vocês sabem de quem estou falando?
Sim, é de você, Dr. Marcos!
E que bom homenageá-lo!

Hoje é o seu aniversario!
Não podíamos esquecer,
Por isso estamos aqui
Para uma vez mais lhe dizer:
Gostamos muito de você!

Sabe por quê?
Porque você exercita a bondade:
Tem tempo para sorrir, para elogiar, reconhecer,
Compartilhar saberes
E dar espaço às pessoas que estão ao seu lado.
Você é um ser humano especial,
Perseguidor do bem.
Um incentivador!
Por tudo isso,
Nós gostamos muito de você!

Fazer aniversário é uma oportunidade especial de renovação.

O Criador, na sua infinita sabedoria, deu à natureza a capacidade de se enflorar a cada primavera, ornando os caminhos, embelezando a vida.

Também a nós, deu a possibilidade de recomeçar a cada ano, fazendo novos plantios para a colheita de novas primaveras, novos crescimentos rumo à perfeição.

Deu-nos, assim, a oportunidade de ver mais arco-íris, luares, espreitar estrelas, correr atrás dos sonhos, na construção da tão almejada felicidade.

Fazer aniversário é ter a possibilidade de fazer novos amigos.

E um amigo é
Um aliado contra os perigos.
Divide as experiências,
As conquistas, as dores,
E os segredos.
Não perdoa nada,
Mas desculpa tudo.

Um amigo cobra,
Xinga, adverte e critica.
Mas empresta o colo,
A palavra, o sorriso,
A cumplicidade e o incentivo.

Está sempre junto na dor,
Presente na alegria.
É causídico ferrenho na defesa,
Embora a bronca venha depois.

Um amigo,
Vibra com o sucesso, e ampara nos fracassos,

"... amigos são testemunhas vivas de nossas vidas". Fazem parte de nossa história, e nunca se ausentam de nossas saudades. A cada lembrança, vem-nos a fotografia singela daquele amigo, em momento distinto, de um lugar do passado.
Amigos são muito mais do que momentos. São alianças que fazemos para a eternidade.

Tudo isso, para dizer que você tem lugar cativo em nossos corações. Sabe com galhardia ser chefe e amigo. Uma mistura de pai e irmão. Realmente, você dignifica a classe e o meio em que se encontra.

E aqui o trabalho gratifica tanto! Não há o estigma do medo, da coação, da opressão ou da discriminação. A valoração impulsiona-nos a subir cada vez mais alto após cada novo feito. O elogio é mesmo uma mola propulsora para o progresso, aumentando a nossa vontade de bem servir.

Sua postura íntegra, ilibada, franca e decidida, além da bagagem jurídica, vivencial e humana, fazem de você um ser completo. Um exemplo, um Mestre!

E o exemplo é transformador de vidas! Afinal, fomos criados para escrever a nossa história, conquistar sucessos, aprender e ensinar novas lições.

E agora, num só pensamento, numa só voz, unimos os nossos corações e pedimos a Deus que o ilumine e abençoe, não só hoje, nesta data genetlíaca, mas durante todos os dias de sua vida.

Parabéns!

Servidores da SCJ


Homenagem ao Dr. MARCOS DOS SANTOS ANTUNES, pelo seu aniversário,
em 19.10.2010, na Secretaria de Coordenação Judiciária do TRT-18ª., em Goiânia, feita por
Genaura Tormin

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

VIAGEM


VIAGEM
(Genaura Tormin)


Vida!
Caminhada curta,
Efêmera,
Chama de vela.
A ordem é ser
Ou tentar ser feliz
A cada instante.

Felicidade não é um destino.
É obra de arte.
Uma viagem.
Os momentos são únicos!
Não voltam mais!
Alados por pinceladas de imaginação,
Podem ser mágicos!
Marcos de saudades.

Ame sempre,
Como se nunca tivesse sofrido .
Trabalhe com prazer.
Cante as dores e cultive a paz.
Sorria sempre!
O sorriso enobrece, encanta....
Sorriso é prece!
É Deus dentro da gente!

Encante-se com as pessoas!
Passe-lhes o que há de maravilhoso em si:
O jeito maroto,
O olhar trigueiro,
A maneira manhosa,
Assanhada, faceira...
As gargalhadas e até as lágrimas.
Não é vergonha,
É sensibilidade,
Autenticidade...

Sem que se esforce,
Sem que perceba,
Estaá sempre
Entre os parceiros da alegria,
Caminheiros da amizade,
Partícipes de uma linda viagem
Chamada FELICIDADE!

domingo, 10 de outubro de 2010

ADAPTAÇÕES DOMÉSTICAS PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA FÍSICA



ADAPTAÇÕES DOMÉSTICAS PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA FÍSICA
(Genaura Tormin)

"Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um tem o direito de fazer mudanças, recomeçar, e, fazer um novo fim."
(Chico Xavier)

As adaptações domésticas, por vezes improvisadas, ajudam-nos a ser inteiras outra vez. Soluções diferentes, às vezes engraçadas, mas que resolvem.
Não podemos também prescindir de uma boa cadeira de rodas. Sendo ela a auxiliar número um, é de fundamental importância a atenção, o esmero e até os sacrifícios feitos para que ela seja a melhor possível, uma vez que será a substituta audaciosa de nossas pernas.

Com os quatro pneus infláveis para amortecer impactos e ficar mais leve, torna-se necessário ter sempre por perto uma bomba de encher pneus. A melhor delas é a que se conecta ao acendedor de cigarros do veículo. É pequena, mas sua capacidade permite até encher pneus de veículos. Nós mesmas podemos executar essa tarefa. Há também outras, muitas outras que executam o mesmo serviço.

Devemos nos imbuir sempre do desejo de ascender, procurando caminhos, elaborando projetos, pensando na maneira mais fácil para alcançarmos os nossos intentos em quaisquer ocasiões e lugares, guardando sempre o humor e o sorriso aflorado.
É bom lembrar que à cadeira deve-se acrescentar uma boa almofada para proteção da região glútea. Vários tipos existem no mercado: infláveis, de gel... e muitas outros. Para prevenir úlcera de pressão na região glútea (as temidas escaras), a melhor é a inflável, com células separadas, para oxigenar os tecidos. Há as que inflam somente as células que se determina, possibilitando corrigir posturas, como pernas demasiadamente separadas, escolioses etc. Há, ainda, almofadas que fazem massagens, estimulando a circulação.

O Brasil tem-se evidenciado na engenharia de equipamentos para a pessoa com deficiência, incluindo cadeira de rodas, que não deixa de ser uma prótese, podendo ser fabricada de maneira ergométrica, isto é, de acordo com as condições de altura, peso e formato de corpo, além das necessidades de equilíbrio, manejo e acomodação no veículo. Uma cadeira confeccionada sob medida, que nós mesmas conseguimos com facilidade colocá-la no veículo. As rodas são removíveis por um simples toque (quick releeze) e podem ser acondicionadas no banco traseiro, enquanto o corpo da cadeira, com encosto dobrável, pode ser colocado no banco do passageiro, sem ajuda de terceiros. Essa é uma cadeira compacta, isto é, não fecha em X. Há cadeira levíssima, fabricada em titânio que chega a pesar apenas sete quilos.

A cadeira fica mais versátil com encostos de braços e suporte de pés escamoteáveis. Facilita o encaixe sob mesas, reclinação lateral para apanhar algum objeto no chão, aproximação à mesa do computador, além do descanso para os braços. Possibilita que a pessoa faça alívios, isto é, tente ficar de pé, segurando-se nos suportes de braços, para oxigenar a região glútea, evitando escaras. É ainda de muita utilidade quando ao lado do vaso sanitário, pois, com o encosto de braço escamoteado, pode-se, sentada no vaso, reclinar bastante sobre o seu assento (e com segurança), tentar ajustar absorventes e subir a roupa. Quando fiz essa experiência, achei que havia descoberto a América. A minha lesão é muito alta, comprometendo-me grande parte do equilíbrio.

Constantemente, as pessoas me perguntam por que não adquiro uma cadeira motorizada. Aproveito da oportunidade e justifico:
— Tenho braços e mãos sadios e perfeitos. Sinto-me feliz em poder exercitá-los, manejando minha cadeira de rodas. É como se os pés tivessem delegado funções às mãos. Não gosto que me ajude a fazer isso, a não ser em lugares acidentados ou percurso longo, o que, geralmente não acontece, tendo em vista me locomover de carro. Tocar a minha própria cadeira é um ato de amor para comigo mesma.

Contudo, tenho um scooter pequeno (veículo triciclo movido à bateria), que cabe perfeitamente no elevador. Tem uma cestinha acoplada. Uso-o para me locomover sozinha às adjacências, como frutaria, padaria, farmácia, cabeleireiro, médico, laboratório...

Por ser movido à bateria, sobe e desce rampas íngremes com segurança. Versátil, bonito e esportivo, é excelente para passeios em shoppings, para ser levado em viagens... Por ser pequeno, cabe perfeitamente em bagageiros, além de ser desmontável, chegando a pesar 32 quilos.

A handbike é um triciclo de propulsão manual muito difundido nos Estados Unidos e Europa. Na verdade uma bicicleta manual que proporciona excelente opção de condicionamento físico e aeróbico, além de ser uma excelente opção de lazer.
Há pouco tempo fizemos uma viagem de navio pelo Oceano Atlântico e eu me senti inteira. O navio italiano era totalmente adaptado às pessoas com necessidades especiais. Tudo sob uma ótica de inclusão e respeito à dignidade humana. Participei de tudo e não me senti pesada a ninguém. No scooter a liberdade fica bem maior. Nossa companhia fica mais agradável aos companheiros e familiares. É uma maneira de ficarmos independentes sem nos esquecer de que os braços precisam ser usados.

Durante as viagens costumo usar uma sonda de foley, com coletor preso à perna, disfarçado sob a calça comprida. Assim fico independente. Entro no banheiro como qualquer pessoa normal, e escoo com rapidez a urina acumulada no coletor. Tal prática permite-me ingerir bastante líquido, o que, de certa forma, evita infecções. Para nadar, simplesmente retiro o coletor, tampo a extremidade da sonda e a escondo sob o maiô.

Para iniciante, uma tábua de 50x25 cm com as laterais menores chanfradas e uma cavidade para a introdução da mão a um terço de sua extremidade, serve de ponte para as transferências, principalmente para a poltrona do carro.

Um pedaço de cano PVC (aquele branco, usado em construção), medindo 30 cm por 70 mm de diâmetro, facilita a transferência da cadeira de banho para a cama quando posto sob os calcanhares. Funciona feito rodinha, quando os braços da cadeira são fixos, pois a transferência tem de ser feita de frente. Apenas um pequeno impulso leva-nos facilmente ao centro da cama, sem ajuda de terceiros.

O banheiro deve ser amplo para permitir o acesso da cadeira e suas manobras. O vaso sanitário, assessorado por duas pequenas paralelas escamoteáveis para cima, deve permanecer na altura normal, embora não se nivele à cadeira. Os pés precisam tocar o chão por questão de segurança. Para a transferência do vaso para a cadeira e vice-versa, usa-se um suporte para mão, tipo triângulo ou estribo, afixado ao teto por uma corrente, numa altura compatível. Uma ducha higiênica, com gatilho de regulagem manual, é imprescindível para a higienização dos órgãos genitais, principalmente quando se usa sonda vesical de alívio, introduzida apenas na hora de escoar o líquido.

A cadeira de banho, também, deve merecer atenção. Com rodas grandes, enseja maior independência. No mercado existem vários modelos: dobráveis, com rodas grandes, suportes de braços escamoteáveis etc.

Uma vareta com filete na ponta permite apanhar o sabonete que caia. Os suportes para xampu, sabonete, cremes e outros apetrechos devem ser postos a uma altura compatível, bem como as utilíssimas “alças de apoio”, especiais para banheiro, encontradas em casas do ramo, que muito auxiliam no banho, elevando as pernas para depilar, além de outras criatividades que a vivência indicará. Uma escova com cabo grande é excelente para esfregar as costas e os pés.

O lavatório sem coluna, com bancada, para o encaixe da cadeira, é o ideal, bem como a pia da cozinha, os quais deverão ter suas torneiras, modelo “bica”, partindo das próprias bancadas com registro na base para serem alcançadas com mais facilidade. Há torneira eletrônica (fotocélula) que se abre com a simples aproximação das mãos.
Por causa da falta de sensibilidade, os sifões cromados devem ser curtos e protegidos, principalmente na cozinha, onde se usa água quente com frequencia, para não provocarem queimaduras nas pernas.

Certa ocasião, ao despir-me, notei uma bolha na perna semelhante à provocada por queimadura. Fiquei intrigada, pois não havia deixado nada quente cair sobre mim. Dias depois, novas bolhas. Procurando descobrir o porquê, cheguei à conclusão de que tinham sido provocadas ao encostar a perna no sifão da pia da cozinha, quando eu escaldava o frango, antes de colocá-lo na panela.

A pessoa com deficiência encontra o jeito peculiar para resolver os impasses quando a dificuldade se lhe apresenta. Umas conseguem se vestir na cadeira de rodas e até no sanitário, dependendo da altura da sua região lesionada.

A melhor e mais fácil maneira de vestir-se é deitada em decúbito dorsal, principalmente a mulher que, por vezes, tem que ajustar absorventes higiênicos e roupas mais complicadas. Contudo uma almofada quadrada, de bloco único de espuma ortopédica de alta densidade, colocada sob a região lombar, nível da cintura, eleva as nádegas, deixando-as livres, permitindo a subida rápida da calça sem muito esforço físico. Um espelho no teto ajuda na ajustagem da braguilha etc. É bem útil um espelho vertical em local estratégico para visualizar a postura e aplicar correções, além de podermos admirar e valorizar a beleza que há em nós, também captada e exibida pelo espelho.

A volta à costura é perfeitamente possível por meio da máquina portátil, cujo pedal deverá ser posto sobre a mesa para ser acionado com a mão direita. Pode-se, também, colocá-lo debaixo do braço, junto à axila, numa sacola com alça, para ser articulado pelo antebraço.

Os controles remotos, os portões eletrônicos, interfone, telefone sem fios com viva voz, celular, notebook, iPhone e iPad são mordomias que ganham importância maior. A automação conspira a nosso favor.

Faixa abdominal com velcro mantém a boa aparência corporal, facilidade para vestir, ajustabilidade, além de melhorar o equilíbrio e a voz. Quando a lesão medular posiciona-se mais alta, o diafragma perde parte da sua função, transmitindo sensação de cansaço quando falamos muito. Um discurso, por exemplo. Podemos também usar uma cinta com abotoamento na frente.

Por falta de movimentação e circulação deficitária, a pessoa com deficiência que permanece por tempo exagerado com os pés para baixo, geralmente no fim do dia os tem inchados. Para que isso não aconteça, deve usar meias ¾ de média compressão.

Um auxílio às mãos é de real importância para alcançar livros, vasilhas, chaves etc. Esse instrumento tão útil recebe o nome de “TeleStik” e pode ser carregado na bolsa, pois mede menos de um palmo. Assemelha-se à uma vareta retrátil. Alonga as nossas mãos, alcançando objetos, incluindo metais, por meio de imã. Por exemplo, chaves e muitos outros objetos que a vivência apontar.

Ouso dizer que um carro adaptado significa sempre as nossas pernas mágicas. Dentro do carro, temos a sensação de sermos normais. Vencemos distâncias, chegamos na hora, fazemo-nos presentes, sem ficarmos sob o jugo de outras pessoas. Dentro do carrinho, a fragilidade das pernas desaparece. Antes, apenas o carro hidramático poderia ser adaptado, isto é, ganhar freio e aceleração manuais. Se for acompanhado de piloto automático, melhor ainda. Hoje contamos com carros mecânicos adaptados de fábrica, além de muitas adaptações artesanais. Temos o scooter movido à bateria, e já se fala também no carro à bateria, acionado por simples botões. O futuro é promissor!

Paraplegia não é problema apenas de quem a tem. Estende-se ao contexto familiar. A família deve vestir a camisa, inserir-se no esquema e, dentro da responsabilidade-amor, propiciar à pessoa com deficiência física espaço arquitetônico viável para que ela descubra sem tantos tropeços o seu novo mundo ou a sua nova liberdade. Essa descoberta dar-se-á com mais coragem, maior obstinação se for encabeçada pela consciência da intensidade do amor que lhe é dedicado pela família.

Esse amor de que falo não deve ser entendido como excesso de paternalismo que tanto mal nos faz, impedindo-nos de alçar voos às conquistas, mas, sobretudo, deve ser o amor-respeito que não nos destitui da condição de ser humano atuante e não nos rotula de inválidos, pois a verdadeira invalidez está na mente de quem não tem e não sabe transmitir coragem e otimismo.

É de bom alvitre que cada um se imagine numa cadeira de rodas, com todos os problemas inerentes. Depois de uma reflexão, tenho certeza de que a sua capacidade de amar ficará muito maior.

Poderemos conseguir uma porção de adaptações que nos facilitem a vida. As nossas próprias dificuldades conduzem-nos a criatividades fantásticas.

Além de prestar-se ao trabalho, a melhor forma de reabilitação em paraplegia, não se pode prescindir dos exercícios físicos. Há um aparelho de movimentação cíclica passiva, de fabricação nacional, com controle remoto, em que a própria pessoa pode exercitar-se sem sair de sua cadeira de rodas, evitando, assim, limitações musculares, calcificações, atrofias etc. Muitos outros equipamentos estão surgindo no mercado competitivo. A globalização facilitou esse estágio. Há na rede mundial de computadores muitos sítios que se prestam à informação, mostra e comercialização de adaptações domésticas que facilitam muitíssimo a vida da pessoa com deficiência. É o que chamamos de Tenologia Assistiva.
O Brasil tem investido na inserção da pessoa com deficiência, propiciando-lhe várias alternativas de adaptações para lhe facilitar o caminhar, o convívio social e a inserção no mercado de trabalho.

Para maior comodidade, pode-se evitar algumas vezes o uso do tutor longo com cinto pélvico, substituindo-o por um móvel, com aparência majestosa, semelhante a uma tribuna com pequeno tablado à frente, parecido com cadeira para refeição de bebê, que nos empresta segurança, facilidade e participação com muito ganho de tempo. Um dispositivo acolchoado impede a flexão dos joelhos; outro dispositivo segura a região glútea (a bunda), e as plantas dos pés posicionam-se num tipo de bandeja ajustável, conforme o equinismo que se possua, sem precisar de botas com saltos compensativos.

E eis que se pode sentir na vertical, trabalhando, conversando, brincando, assistindo à televisão, lendo, tomando refeições, jogando damas, com a possibilidade de nos transferir sozinhos para a cadeira quando o cansaço bater. Sem nome específico para tão importante auxiliar, o meu filho, Flávio, denominou-a de mesa ereta. Embora seja uma criação artesanal, hoje, sei que é chamada de “parapodium”, havendo no mercado várias versões com a mesma utilidade. A cadeira que permite, também, a postura ereta, não obstante tenha um preço mais elevado, é a melhor, pois a própria pessoa com deficiência ficará de pé ou sentada quando quiser e sem ajuda de ninguém.

Deve-se usar o tutor longo com cinto pélvico, esforçando para se locomover, isto é, exercitar marcha por meio do andador ou muletas, conforme o grau de limitação. Postar-se na vertical é importante para o bom desempenho das funções metabólicas, renais e ósseas. A osteoporose persegue a pessoa que não se exercita.

Almofada de bloco único de espuma ortopédica, em forma triangular, cuja lateral alcance o comprimento das pernas, auxilia à elevação dos membros inferiores, diminuindo inchaços. Serve, também, para recostar. Um outro apetrecho de fisioterapia, bola inflável, denominada FEIJÃO, é excelente para recosto, pela leveza e facilidade, além de alguns exercícios de alongamento.

O colchão não deve ser macio. Assim, teremos mais dificuldade para a movimentação. O ortopédico é o indicado. Se possuir pillow top (um tipo de colchonete superposto que nos oferece as bordas para segurar), melhor ainda, pois teremos destreza para sentar, virar etc.

Bandeja de cama, tipo mesinha, com pés escamoteáveis, permite e facilita a feitura de refeições matinais, apoio de braços, suporte para o manuscrito (notebook), jogos, artesanato e outros.

É importante que se deixe a cadeira de rodas sempre ao lado da cama, pois, além de ficar ao alcance, servirá de apoio para ajudar a sentar na cama. Em sanitários não adaptados, é fundamental que fique ao lado, servindo de apoio às manobras artesanais que se tem que improvisar, não esquecendo de que ela deve ficar freada para evitar acidentes.

Uma prancheta adaptada com dois pezinhos dobráveis de canos de alumínio que se encaixem no assento da cadeira, formando uma mesinha, muito auxilia aos estudantes, por se misturar com os livros.

No ambiente doméstico ou em passeios, uma mesinha pequena, leve, dobrável, com diversificada utilidade pode se acoplar à cadeira, sofás e auxiliar a feitura de muitas tarefas, não só à pessoa com deficiência.

Na cozinha, não se deve esquecer de colocar uma tábua (a conhecida tábua de cortar carne) sobre as pernas para suporte de panelas quentes, chaleiras, bacias, feituras de guisados, trato com a carne, massas, verduras e outros, além do excessivo cuidado que se deve ter.

O fogão de mesa é o ideal, deixando a abertura embaixo para o encaixe da cadeira.
Como essas, podemos criar muitas outras que nos devolvam a sensação de liberdade, pelo menos dentro de casa.

Os prédios públicos não nos cabem: as portas são estreitas, os banheiros inacessíveis. Não há obediência à Norma 9050/ABNT, que trata da acessibilidade. Nem mesmo os hospitais que se dedicam à reabilitação da pessoa com deficiência têm banheiros com acessibilidade satisfatória.

As calçadas e os meios-fios não têm rebaixamentos satisfatórios. O código de edificações urbanas deveria rever esse assunto. Transportes coletivos, nem sempre têm condições para a aproximação de um paraplégico.

As calçadas com pisos protuberantes têm sido bem desconfortáveis, não só para a pessoa que deambula de cadeira de rodas, mas para os carrinhos de bebês, idosos, aos que usam muletas e, também, para as elegantes senhoras que ostentam finos saltos nos sapatos. Isso, por vezes, força-nos a deambular em plena via pública.

Dentro desse contexto, sugiro para viagens uma cadeirinha de banho de alumínio, dobrável, com rodinhas, pois os banheiros dos hotéis não nos permitem acesso.

No ensejo, por ser pertinente ao tema e por me sentir responsável em ajudar a promover a inclusão, transcrevo aqui um de meus apelos, em forma de artigo, o qual circula na internet para conhecimento, e quem sabe, possa significar um plantio da semente.

“FALTA ACESSIBILIDADE
Vencer barreiras arquitetônicas é um dos grandes desafios enfrentados no dia a dia da pessoa com deficiência física, principalmente a que deambula de cadeira de rodas.
Muitos obstáculos a vencer! Entretanto é necessário conquistar a liberdade de ir e vir, mesmo a duras penas, ingrediente principal que nos garante a inclusão na sociedade.

“Levanta e vem para o meio” é um o tema da Campanha da Fraternidade.
Embora o desafio seja a nossa meta para criar consciência popular sobre essas pessoas diferentes, há muito ainda a desejar. A acessibilidade, condição indispensável para que possamos viver com dignidade, é a principal, pois precisamos nos mostrar, exercitar o nosso caminhar. Enfim, viver, como cidadãos que somos.

Para ilustrar, vou contar uma pequena história:
Uma viagem à praia. Um resort à beira-mar adaptado às condições de uma pessoa com deficiência locomotora que não prescinda de uma cadeira de rodas. Tudo acertado com o agente de viagem. Ponte aérea, sol bem arregalado, num cantinho do céu, chamado felicidade.

No aeroporto o veículo estava à nossa espera. Um micro ônibus, com porta estreita e a informação de que estava emperrada, tornando-se mais estreita, ainda. Não conseguia completar seu curso de abertura. Impossível uma contensão de forças másculas para rebocar-me ao seu interior. Não passaria pela porta envolta em braços.
O agente de viagem embarcou-nos num táxi, à nossa expensas financeira, com a promessa de ressarcimento, o que não aconteceu.

Mas, vamos lá, um problema vencido, característica indômita do brasileiro e do determinismo em reverter situações adversas.

Após o percurso de uma hora mais ou menos, eis-nos à frente de um majestoso resort, com lindas trepadeiras floridas que lhe enfeitava a entrada.
Logo, o nosso quarto, bonito e aparentemente adaptado às minhas condições de cadeira de rodas. Via-se que passara por uma recente reforma. Amplo e aconchegante, com lindas cortinas e uma sacada, de onde se desnudava o mar bravio que se escondia manhoso depois dos coqueirais balouçantes, com cheiro de brisa e maresia. Um convite a uma estada feliz e renovadora.

O banheiro, cheio de pretensas adaptações distribuídas pelas paredes.
Na verdade, aos olhos do leigo, era possível distinguir-se pelo esmero, e quem sabe, pelo respeito aos seus reais usuários.

Que tristeza! Nada tinha a ver com as necessidades de uma pessoa com deficiência física. Poderia servir aos que andam de muletas, nunca aos que andam de cadeira de rodas.

Num quadrado, de um metro mais ou menos, com paralelas laterais de apoio, sem espaço ao lado para o posicionamento da cadeira de rodas, encontrava-se centrado o vaso sanitário. Era como se o seu usuário, num passo de mágica, ficasse de pé e desse meia volta para se sentar nele. Além disso, havia uma grande distância entre a parte posterior do vaso e a parede. Onde apoiaria as costas? Como fazer os manuseios sem equilíbrio? Qualquer descuido poderia cair para trás.

Impossível, mesmo, usar o sanitário do lindo resort. Precisava apoiar as costas para fazer os manuseios de assepsia e introdução da sonda vesical. Nem mesmo para tentar, teria condições.

O chuveiro, num requintado box, continha uma cadeira minúscula, sem braços, com o assento em tiras, dependurada numa alça de apoio, postada em desconexo com a altura e com os registros misturadores de água quente e fria.

Impossível acioná-los, pois ficavam às costas, numa posição bem acima do desejável. Como lavar os órgãos genitais nessa gangorra, que mais parecia uma balança, pois os pés não alcançavam o chão. Soltar as mãos da alça de apoio postada na parede, nem pensar. Um tombo seria inevitável. Lavar os cabelos? Também não.

Do pomposo banheiro, quase um salão de banho, restava ainda o lavatório, com secador de cabelos, torneira fotocélula (aquela que se abre com a simples aproximação das mãos) e um grande espelho à frente.

Não precisava observar muito para ver que também não podia acessá-lo. Encontrava-se sob o lavatório, um obstáculo, um cano, usado como cabide para as toalhas, impedindo, por sua posição e altura, o encaixe da cadeira de rodas para conseguir usá-lo. Nem lavar as mãos, eu conseguia. O jeito mesmo era passar uma toalha molhada.
Improvisar para não chorar. Não havia outra saída. O que fazer? Estávamos ali para descansar, para ser felizes. Eu não podia ser o empecilho. Assim, sorriso pra lá, sorriso pra cá e a vida a passar.

Faz de conta é a ordem. Afinal o mundo não é adaptado para nós, embora existam leis que determinem esse procedimento.

Em tempo oportuno, tentei conscientizar o responsável administrativo do resort e, lamentavelmente, fui informada de que para toda aquela pretensa adaptação, fora contratada uma assessoria.

Ponho-me a pensar:
Como são desinformados, para não dizer IRRESPONSÁVEIS. Nem uma assessoria, paga para um trabalho especializado, empenhara-se em se informar, em pesquisar para entender as necessidades primárias de um ser humano diferente. Não houvera preocupação em fazer jus, honestamente, ao dinheiro que lhe fora pago.

Os reais usuários, jamais são consultados. É como se fôssemos objetos inanimados, indesejáveis.
Por isso essas obras parecem eleitoreiras, ou simplesmente, edificações para burlar as obrigações determinadas pela lei.

Somos um país em desenvolvimento, tão diferente dos países de primeiro mundo! Respeito é uma palavra meio desconhecida por aqui.

Genaura Tormin
Publicado no Recanto das Letras em 18/04/2006
Código do texto: T141308”

Para o grande número de pessoas com deficiência que deambula de cadeira de rodas, pouquíssimas são as que conseguem conquistar espaço, possuir emprego digno, sem se falar nos confinamentos caseiros, e de outras pessoas com deficiência que nem sequer têm cadeira de rodas.

A consciência popular sobre esses grupos vulneráveis é crescente, gerando uma mudança de mentalidade que, com certeza, significará melhores dias, com aceitação e respeito. Mesmo por que a inserção social das pessoas com deficiência é Lei, e foi objeto da Convenção Internacional da ONU, ratificada pelo Brasil.
Confio no porvir!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

BARDAS DA VIDA


BARDAS DA VIDA
(Genaura Tormin)

Já não vejo Narciso,
Estampado no meu espelho!
Em cacos jaz a silhueta,
O sorriso, a gargalhada,
Os trejeitos faceiros, dançarinos...
As bardas nunca me abandonam!

Muitas vezes me oprime o peito,
O cabresto que me fere.
Já não uso a máscara.
O desalento é o cobertor.
O frio é cortante
A castigar-me a carne.

Tempo!
Tempo que me levou
Tanto encantamento!
Os verdes anos,
O olhar enamorado,
E tantos amores!

Quantos papéis,
Quantas empreitadas
Ainda cumpro nessa jornada!
Tudo é finito nesta vida!

domingo, 3 de outubro de 2010

LANÇAMENTO DE PÁSSARO SEM ASAS EM RIO VERDE-GO



LANÇAMENTO DE PÁSSARO SEM ASAS EM RIO VERDE-GO
(Genaura Tormin)

Como relembrar é viver, publico aqui o discurso de lançamento da 3a. edíção de Pássaro Sem Asas (hoje já está em 6a. edição), na cidade de Rio Verde, em 1998. Quanta saudade! Penso que tudo isso ficará registrado na memória do tempo e na cela do meu coração.

Senhores e Senhoras,

Para mim é muito fácil e prazeroso assumir todas as idades, todos os papéis. Mas, este de paraplégica não estava no script. Apesar de esquisito, estou tentando sair-me bem.

Agora, não pulo corda, não chuto bola, não ando de bicicleta... Recebi uma dura sentença por crime que não cometi nesta vida. Mataram minhas pernas em mim. Poderia tê-las usado muito mais vezes! Poderia ter andado descalça, feito grandes caminhadas, pisado na grama, na areia, no barro... Poderia ter evitado veículos...

Enfim, poderia ter usado muito mais o meu caminhar faceiro, dançarino, rebolante.
Mesmo assim, ainda corro atrás da vida para que ela não corra atrás de mim. Corro atrás de minha evolução como caminhante dessa íngreme estrada. E na minha fantasia, sou a campeã dos meus aprendizados. Se minhas pernas fisicamente estão mortas ou incapacitadas, o meu coração é vivo, o meu desejo latente e o sorriso aflora sempre até os cantos das orelhas. Eu estou viva!!!

Com isso eu quero demonstrar que a vida é efêmera, finita, e as fatalidades não avisam. Não escolhem status, raça, cor, sexo ou credo. Por isso não devemos deixar para amanhã o que se pode fazer hoje. Devemos viver todos os momentos como se fosse o último, procurando ser feliz e fazer felizes as pessoas que nos cercam. Às vezes, quando estamos nos píncaros do sucesso somos atirados inexoravelmente ao caos.

Foi o que aconteceu comigo!
Após uma festa em minha casa, quando me sentia de bem com mundo e comigo mesma, dormi sã e acordei paraplégica, vítima de uma virose que me meou o corpo, sem nem sequer me alertar com uma subida de temperatura. Na realidade, um turbilhão de dificuldades nunca imaginadas. Uma jovem mulher reduzida a cabeça, seios e braços. O resto, morbidamente alheio ao meu comando; dormente como se não fosse meu.

Não obstante haja envidado muitos esforços para reverter o descalabro da situação, eis-me, após todos esses anos, irreversivelmente paraplégica. Com uma vida de muitas batalhas para não ser escória de uma sociedade que, geralmente, só aceita os fortes, perfeitos e vencedores.

Guimarães Rosa dizia que viver é muito perigoso. Por isso devemos ser forjados a ferro e fogo para termos condições de nos erguer quando a dificuldade bater. Afinal, a mente estando ilesa, há motivos suficientes para dirigirmos ainda o nosso destino, mesmo através de um corpo com funções mutiladas. Não podemos ser excluídos do sistema socioeconômico e político do País, pois, VIDA, não significa somente pernas, mas, sobretudo cabeça, mente, raciocínio, alma e coração. O resto, dá-se um jeito.

E foi por isso que resolvi escrever PÁSSARO SEM ASAS. Um livro autobiográfico, corajoso, em que me desnudo, viro-me do avesso e conto ao leitor toda a minha trajetória depois dessa nova condição de rodante: avanços, derrotas, conquistas, aprendizados, até as verdades mais recônditas e inconfessáveis. Não como uma história que haja acontecido no estrangeiro, mas um fato verdadeiro, acontecido aqui mesmo, entre nós, cuja protagonista não foi feliz para sempre, como nos contos de fadas, faz-se feliz, viva e atuante.

Paraplegia não é problema apenas de quem a tem, mas um problema de contexto, pelo menos familiar, já que em nível de Estado, há muito a desejar.
A família deve vestir a camisa, inserir-se no esquema e, dentro da responsabilidade/amor, propiciar à pessoa com deficiência um espaço arquitetônico viável e adaptações domésticas para que ele descubra seu novo mundo ou sua nova liberdade. Essa descoberta dar-se-á com mais coragem, maior obstinação se for encabeçada pela consciência da intensidade do amor que lhe é dedicado pela família.

Esse amor de que falo, não deve ser entendido como excesso de paternalismo que tanto mal nos faz, impedindo-nos de alçar voos às conquistas, mas, sobretudo, deve ser o amor/respeito que não nos destitui da condição de ser humano atuante e não nos rotula de inválidos, pois a verdadeira invalidez está na mente de quem não tem e não sabe transmitir otimismo e coragem.

O trabalho é de muita importância no cotidiano de uma pessoa com deficiência física! É uma verdadeira terapia ocupacional, que nos devolve o sentimento de utilidade. É a oportunidade merecida para provar que poderemos ser, não apenas força produtiva, mas força transformadora, aumentando a esperança num País justo e progressista, diminuindo-lhe os problemas sociais, além de podermos conviver com diversidades e servirmos de motivação e incentivo aos muitos paralíticos andantes que se alicerçam na ociosidade para nada fazerem ou mal fazerem.

Não devemos permitir que os sentimentos de compaixão ou repulsa releguem-nos à inutilidade, conduzindo-nos à inércia. Com tenacidade mostraremos o valor do nosso trabalho e as discriminações só persistirão se nós as aceitarmos, fazendo-nos de vítimas da vida, apresentando indolência, insegurança, subserviência, buscando protecionismo sob o álibi da deficiência física.

Precisamos lutar pelo reconhecimento da igualdade jurídica e pelo direito ao trabalho, máxima maior estampada na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Lutar, igualmente, pela acessibilidade ambiental e urbanística, requisito básico para que a pessoa com deficiência viva com dignidade. O código de edificações urbanas deveria rever esse assunto. As calçadas e os meios-fios sem rebaixamentos. Transportes coletivos sem as mínimas condições para a abordagem de um paraplégico.

Bom seria se houvesse leis que obrigassem a feitura e a execução de PROJETO UNIVERSAL, com integração de acessibilidade a todos. É o que se chama Projetar Acessível. Afinal formamos uma sociedade heterogênea. Onde estão os nossos velhos, as nossas crianças, as pessoas com deficiência?

É dever do Estado cuidar da habilitação e reabilitação da pessoa com deficiência, integrando-a no mercado de trabalho, além de preocupar-se com o atendimento especializado nas áreas da educação e da formação profissional, pois, muitas vezes, para essa pessoa, o trabalho pode ter fins terapêuticos, melhorando sensivelmente sua saúde física e mental, aumentando-lhe a autoestima, respeitando assim a sua dignidade de pessoa humana, como um dos fundamentos da Constituiçao Federativa do Brasil, a Carta Maior que rege o País. Por isso é preciso correr atrás do estado de felicidade. Ocupar a mente, trabalhar, doar-se, é a melhor receita.

Com esse entendimento e alicerçada no incentivo da família, que me ama e não castra as oportunidades, mesmo ao arrepio de toda a deficiência física, preparei-me e classifiquei-me muito bem para o cargo de Delegado de Polícia de Goiás, e o exerci com presteza, durante 12 anos, ocasião em que, também por concurso público, ingressei no Judiciário Federal, atuando, hoje, no Tribunal Pleno da Justiça Trabalhista do meu Estado.

Quero dizer que os problemas só existem se nós os registrarmos como tais. Quando a gente se aceita como é, tudo fica normal e simples. As dificuldades são creditadas como mérito nosso. Aliás as maiores limitações são as que criamos em termos de afirmações psíquicas. Quantas vezes damos contornos catastróficos a problemas tão pequenos e tão fáceis de serem resolvidos.

Hoje me sinto adaptada à vida! Sei que ela se adaptou a mim também. Entretanto já entendo que a minha cadeira de rodas é uma dádiva. Devoto-lhe gratidão. É por meio dela que ando, lido, participo da vida lá fora e nivelo-me aos demais. É, também, é por meio dela que me permito fazer algum bem, passar algum alento de experiência, de trabalho, de coragem às pessoas com quem mantenho algum diálogo ou que leem o meu livro. Não é para isso que estamos neste trajeto que chamamos de vida? Não poderemos partir de mãos vazias!

PÁSSARO SEM ASAS - uma história de vida ou memórias romanceadas - caracteriza-se por sua mensagem positiva, desbravadora, alicerçada no otimismo, transformando derrotas em conquistas. Para mim, é quase uma missão.

Jean Paul Sartre dizia que o importante não é o que fizeram do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele. Acredito estar assimilando a sua máxima. Confiram no meu livro! Leiam-me!

Para finalizar, sinto-me muito cativada pela a presença e pelo carinho da Prefeita NELCY SPADONI, pessoa simpática que tive a honra de conhecer na Pousada do Rio Quente. Na ocasião, ela também ocupava uma cadeira de rodas, motivo que nos aproximou naquele dia.

Gratidão ao ANTONIO ARANTES, Secretário de Cultura e ao escritor FILADELFO BORGES, que em nome da Academia Rioverdense de Letras, Artes e Ofícios, convidou-me para lançar o meu livro nesta linda e progressista cidade do sudoeste goiano, berço de 150 anos de tradição, que ora me brinda com tanto afeto, propiciando-me conhecer todos vocês e falar de PÁSSARO SEM ASAS, meu tema predileto, por levar a todos uma consciência valorativa sobre as pessoas portadoras de deficiência física, mostrando que a vida é possível e o trabalho também.

Agradeço o carinho dos presentes: autoridades, escritores, moradores, que me emocionam, tornando este dia um dos mais felizes da minha vida.

Em caráter especial, dedico homenagem MAIOR aos meus quatro filhos, centelhas de amor que Deus permitiu-me nesta vida, alicerce seguro de todas as minhas conquistas; nascedouro inesgotável de forças, incentivos, que me fazem caminhar, mesmo sem o uso das pernas.

Em particular, ao meu marido ALFREDO, que em nenhum momento tem-se cansado da caminhada. Combativo, determinado, não tem poupado esforços para devolver-me não duas pernas, mas uma miríade delas. Sinto-me uma CENTOPEIA. Nossa cumplicidade tornou-nos imbatíveis e unos. A ele o carinho dos seguintes versos:


INDIVISIBILIDADE

Quando tu partires
irei contigo.
Levarei o aconchego da noite
para te fazer feliz.

Serei suave,
feito o balanço do mar,
para te amar,
amor.

Irei contigo
aonde fores.
Tuas pegadas
serão as minhas pegadas,
e eu te adorarei
em todos momentos.

Não choraremos
porque as lágrimas secaram
com o sol da manhã,
fazendo-nos fortes
a qualquer embate.

Irei contigo
até o infinito,
onde tudo é perfeito,
sem dor,
sem mutilação,
sem horror.

Irei contigo,
amor,
porque faço parte de ti.
Tu és tudo
que sempre cultivei em mim.

Assim,
seremos indivisíveis,
unos e eternos.


Obrigada!

Genaura Tormin

Goiânia, 06 de novembro de 1998.

Lançamento da 3a. edição do livro Pássaro sem asas, de minha autoria, na Academia Rioverdense de Letras, Artes e Ofícios, em Rio Verde - GO.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O ÚLTIMO DISCURSO QUE FIZ DE PÉ



Revendo guardados, encontrei este pequeno discurso, escrito a mão, já amarelado, envelhecido, desbotado... Juro que ao lê lo, não pude conter as lágrimas. Como a vida nos transforma! Lembrei-me desse encerramento de ano, dessa festinha que foi tão linda, tão descontraída. A turma era coesa, amiga... Embora simples a minha fala, vejo que me preparava para uma marcante mudança de vida! (...Aliás, a vida é uma constante luta. Se não o fosse, não teríamos nada para agradecer, pois o que não nos custa nada, pouco vale). Bom que eu não depus as armas. Até hoje as tenho sempre em punho. Sou uma guerreira, sempre à frente da trincheira. A cada dia ganho mais destreza para enfrentar as intempéries que ainda me serão oferecidas.

O ÚLTIMO DISCURSO QUE FIZ DE PÉ
(Genaura Tormin)

Discurso de encerramento do ano de 1981 no Posto Policial do Hospital das Clínicas, de cujo Posto eu era a supervisora.

Meus queridos colegas de trabalho!
Meus amigos:

Hoje é um dia diferente para nós! Não um dia de vigília, de trabalho, mas um dia de lazer, em que os nossos corações se aproximam cheios de festa, e unidos damos as mãos para encerrar mais um ano de luta.

Aliás, a vida é uma constante luta. Se não o fosse, não teríamos nada para agradecer, pois o que não nos custa nada, pouco vale.

Prezados colegas,

Formamos aqui uma família, onde não há o maior nem o menor. Todos nós somos iguais, amigos e estamos no mesmo barco, remando com solidariedade para que ele não afunde.

Somos pequenos, mas como diz o velho adágio: o importante não é sermos grandes ou pequenos, mas sermos nós mesmos nos realizando com a missão que nos foi confiada.

Portanto, vamos dar largas à criança que vive dentro de nós. Vamos encerrar o ano com alegria! E dentro da amizade descontraída da nossa gente, brincar de amigo secreto e pagar a prenda ou a penitência se for necessário.

Como porta voz de vocês, quero agradecer de coração a cada um por dias tão maravilhosos que me proporcionaram neste posto. Obrigada!!

Genaura Tormin (3 meses depois fiquei inesperadamente paraplégica e sem motivo plausível)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

MACABRA ARMA ASSASSINA




MACABRA ARMA ASSASSINA
(Genaura Tormin)

Não obstante as muitas campanhas educativas do trânsito, sinto-me compelida a emprestar minha cota-participação na busca de maior entendimento, maior conscientização sobre o trânsito, tanto dos condutores dessa arma assassina chamada veículo, quanto dos seus usuários e pedestres que por ela passam.

As estatísticas apontam crescente índice de atropelamentos, colisões, abalroamentos e choques com objetos fixos (árvore, postes etc) no trânsito das grandes cidades, resultando muitas vítimas fatais e ou de lesões corporais, até de natureza gravíssima, com sequelas irreversíveis.

A falta de respeito às normas de trânsito, distribuídas por todas as malhas viárias, é uma constante para a ocorrência dos muitos acidentes. Nem mesmo o slogan: “Perca um minuto na vida, mas não perca a vida num minuto” é capaz de levar ao grande contingente armado a consciência de que a sua arma (o carro) é por demais perigosa e sem complacência pode matá-lo.

Tendo trabalhado, em cadeira de rodas, numa delegacia que apura as responsabilidades penais no trânsito, representava um paradoxo para a maioria que perguntava sempre: — foi acidente?

Com essa experiência, tenho a dizer que o trânsito tanto mata como causa deficiências permanentes mais do que todos os revólveres dos bandidos, todas as doenças e calamidades públicas juntos. Atribuo como causa principal a falta de cultura popular sobre essa macabra arma assassina chamada veículo.

Se todos a entendessem como tal, acredito que o ser humano seria mais preservado em sua integridade física, evitando vidas de tantas batalhas sob o jugo de deficiências irreversíveis ou a dolorosa partida prematura de entes queridos, deixando outros à mercê da própria sorte, aumentando os problemas sociais.

O brasileiro, geralmente, quer auferir vantagem em tudo. É um marco do seu estilo de vida. Especificamente no trânsito, se não tem guarda, avança o sinal, entra na contramão, faz conversões proibidas, exercitando à vontade a imprudência, cujo ônus chega, por vezes, a ser pago com a própria vida e a de outrem. Daí a sábia frase: “É preciso dirigir para si e para os outros”. É a chamada direção defensiva, tecnicamente falando.

Estarrece-me ver e sentir que o crime do automóvel está sendo compartilhado de pai para filho menor de idade. Faltam consciência, valores éticos e probidade. Nem sequer as normas fundamentais de conduta axiológica estão sendo repassadas aos próprios filhos que, à direção do carro, brincam com vidas, sentimentos, vendo em cada pedestre uma baliza para o aprendizado; em cada veículo, um escudo para pancadas, deixando as marcas sangrentas pelas rodovias, ruas, vielas e praças, fulcrados sempre no desrespeito às normas de trânsito, placas, dísticos e semáforos. E, ainda, sob a guarda corajosa do pátrio poder. Os famigerados rachas, os cavalos-de-pau,largamente divulgado pela mídia, deveriam ser severamente apenados. Abomino tal conduta e a classifico de crime doloso: tentativa de homicídio. Risco assumido.

As leis existem para serem respeitadas. Somos uma Nação organizada, tutelada. Até as normas consuetudinárias dentro da relação familiar deveriam merecer respeito. Por isso os pais jamais podem abdicar da missão educadora, respaldando-se sempre no exemplo, com a execução e a mostra do certo, pois as palavras comovem e passam, enquanto os exemplos se arrastam, permanecem, erigindo ou destruindo.

Quantas vidas são ceifadas, e quantas outras são condenadas a verdadeiros martírios: vegetando, arrastando-se em cadeiras de rodas, muletas ou tateando em trevas pela perda traumatológica dos olhos em sinistros de trânsito. É um verdadeiro colapso na trajetória da vida humana.

Tudo isso é o retrato fiel da ineficácia educativa, legada por ação ou omissão nos lares, na comunidade e na esfera governamental, pois educar é transmitir o gosto pela vida; é tentar descobrir os valores positivos e exteriorizá-los para uma vida feliz.

Vivemos numa sociedade rica de meios, mas pobre de vida. É preciso doar-se! O homem moderno, nessa corrida pelo TER, não aprendeu a viver, a amar transcendentalmente pelo menos aos que o cercam. Ele não sabe viver a experiência de ser ferido. E é por isso que presenciamos uma avalanche de condutores loucos no trânsito a exigirem respeito às suas barbaridades e transgressões, blasfemando palavrões e fazendo gestos obscenos. Não devemos responder a tais impropérios. É bom que sejamos diferentes! Isso nos devolve o sentimento de dignidade, além de estarmos plantando uma fagulha de amor que, por certo, multiplicar-se-á.

Costumo dizer que “errados princípios, dificultosos fins”. Por isso ao possuidor da arma assassina tenho a dizer o seguinte: ame-se em primeiro lugar! Respeite a sua vida e a vida do seu próximo! Previna-se! Jamais dirija embriagado! Seja honesto consigo mesmo, respeitando a sinalização, as normas de trânsito, mesmo sem a presença do guarda. Cuide do seu carro, pois ele poderá ser a própria arma que matará você.

Genaura Tormin - escritora, autora dos livros Pássaro Sem Asas, Apenas Uma Flor, Nesgas de Saudade, Borboleteando, e ainda,  Marola, Veleiro e Vento,
é ex-delegada de Trânsito de Goiânia, hoje,
Analista Judiciário do TRT/GO

sábado, 25 de setembro de 2010

A SEXUALIDADE TEM LEVEZA, GRAÇA E BELEZA


A SEXUALIDADE TEM LEVEZA, GRAÇA E BELEZA
(Genaura Tormin)

O ato de amar tem leveza, graça, ternura, beleza... Um pouco de céu passeando pela natureza.

A sexualidade é um atributo nato do ser humano. Não está cingida somente à genitália. Muitos outros detalhes são os responsáveis pelo prazer.

Com a mulher paraplégica não é diferente em decorrência de sua condição. Depende muito da altura da lesão e de sua parcialidade ou não. Cada lesão é peculiar, única. Cada caso é um caso, com respostas diferentes. Isso quer dizer que a interferência dessa condição no exercício da sexualidade é relativa.

Se a deficiência não tiver cunho medular, não há em se falar de dificuldade sexual, no sentido de obtenção de prazer.

O termo sexualidade é amplo e está ligado à individualidade, aos valores herdados do berço, aos legados familiares e à influência do meio em que se vive, abrangendo algumas fantasias sócio-culturais, passadas pela mitologia grega e pelos conceitos de beleza, atribuídos à mulher ao longo dos tempos.

A supremacia masculina revela-se nessa relação, ostentando um modelo sociológico antigo de propriedade, cujo estereótipo vem sendo banido, com a ascensão da mulher à conquista de si mesma. Até os anos 60 a mulher foi tida como objeto sexual, fardo nos ombros do marido. A figura do macho, caçador, senhor de muitos leitos, também foi amainada. Cresceu em sabedoria, e em recente pesquisa ficou demonstrado que os homens mais informados, mais cultos, não se dão a traições banais. Isso é crescimento, mudança de valores.

A medula, o nosso tecido mais nobre, que se encontra preenchendo o conduto da coluna vertebral em forma de tutano, é a responsável, em sua parte anterior, pela transmissão dos movimentos locomotores e na parte posterior pela transmissão da sensibilidade. Se sofremos secção total da medula por tiro, acidente ou até mesmo por vírus, teremos enclausurados os movimentos locomotores, bem como a sensibilidade que é substituída por macabra dormência e a sensação gélida da Antártida.

Mesmo assim, apesar de estarmos com deficiência, fisicamente estamos vivas. Resta-nos o cérebro pensante, criativo e, por vezes, escandalosamente sensual.

A primeira noite de novas núpcias, depois de paraplégica, pode ser dolorida, com o passado gritando, desarrumando sem dó o nosso coração que, com certeza, deixa vazar a perda em mares de lágrimas. Mas isso é bom. Começa-se a carpir o terreno, na construção de veredas e atalhos. Geralmente o orgasmo esconde-se na conjectura do nada e o órgão genital não se prepara para a cópula. Não se lubrifica, dificultando a penetração que carece contar com a ajuda de um lubrificante íntimo. E aí, fica-se virgem outra vez! É preciso esflorar o hímen. Talvez, seja um privilégio a ideia conotada.

É preciso ultrapassar essa barreira. Libertar-se. Dar vazão ao sentimento. Deixar que as lágrimas escorram pela face e apascentem a alma na construção de novas maneiras de cantar o amor.

O que fazer? Reconstruir! Erigir pirâmides e versos! Pensar grande! Resta-nos, ainda, agradecer! Fisicamente podemos satisfazer o parceiro e descobrirmos juntos outras maneiras, outros pontos eróticos que não nos deixem a ver navios. A tarefa a dois fica mais fácil e a solução mais agradável.

A natureza é mesmo perfeita e o sexo é a sublimação do amor, o berço do eterno renascer... O berço da vida humana. Por isso cada um de nós foi feito de amor e por meio do amor numa doação coroada.

O amor é um sentimento lindo! Daí, por consequência, a sublimação na união de corpos, mistura de genes, transferência mútua de energias que nos renovam sempre o prazer de viver, além da multiplicação da espécie que nos confere o poder de criadores, um dos fins precípuos dessa união. O ato sexual propicia muito prazer, amainando as desigualdades do casal, ajudando a construir a almejada felicidade.

Compulsando compêndios de estudos médicos, certifiquei-me de que a mulher paraplégica conserva a condição de fertilidade, podendo plenamente engravidar, dar à luz e amamentar a sua cria.

O sexo não deve ser profano e o seu exercício chega a ser místico, feito uma cerimônia litúrgica. Afinal foi Deus o seu criador.

O desempenho sexual envolve o comando cerebral, medular e periférico, além das formas físicas do côncavo e do convexo.

Entretanto, sexo não significa apenas contato genital. Ele está muito mais na cabeça, no coração e no amor que engloba tudo isso. Há, ainda, a criatividade que nos aponta outros meios, outras maneiras de fazer amor.

Aprendemos a encontrar a essência do prazer de outras formas. Procuramos fantasiar e atentar para o que nos sobrou ileso, embora, nós mulheres, possamos satisfazer plenamente o parceiro, tendo em vista, anatomicamente, tudo se encontrar em forma, apenas sem mobilidade e sensibilidade tátil.

A mulher paraplégica deve usar a sabedoria. Arranjar sempre uma maneira para que o clímax fique melhor. O desejo de amar já é amor. Tudo se manifesta no olhar, no suor, nos olhos, nas lágrimas, no aconchego, no estar junto sem dizer nada, na divisão de um copo de suco, na chegada estampada em passos. Tudo ouriça e cativa, faz o querer sempre maior. Quando há o envolvimento, as portas vão se esgueirando à frente cheias de oportunidades, de fórmulas mágicas peculiares para encantar o leito do amor. O momento faz a hora.

Tudo está na maneira de pensar e na disposição para achar soluções. O contato físico, sexualmente falando, existe, sim, e bom, capaz de levar-nos à satisfação plena, o que eu costumo dizer: longe da terra e perto do céu.

O amor, esse tão lindo amor, não se dobra a obstáculos e não se curva às intempéries da estrada. Mesmo após as tempestades, ergue-se incólume e altaneiro. Há sempre encantamento na partilha!

Sexualidade da Palavra
(Genaura Tormin)

Dispo-me!
Mostro-me inteira.
Erótico está o coração.
Palavras quentes,
Fortes, emocionadas,
Desfilam faceiras,
Substituindo a forma desfeita
De um corpo mutilado.

No leito nupcial,
A poesia faz a festa!
Enrosca-se no orgasmo compartilhado.
A libido viaja pelo pranto,
Pelos compartimentos secretos,
Na verve do querer ouriçado.

Exponho minha nudez poética!
Faço amor,
Na sexualidade da palavra,
Que arqueja
Em carinhoso diálogo,
Dando forma, essência e vida
Ao ato sublimado.

O exercício do ato sexual propriamente dito, por vezes é condenado pelos familiares, sob a égide protetiva, com o ledo entendimento de que, por ausência de sensibilidade tátil, não mais significará prazer.

Os prestadores de cuidados também não nos incentivam nesse particular, por não sermos detentores dos movimentos físicos e da sensibilidade. É como se estivéssemos sendo condenados ao exílio. O crime: prazer sexual.

A sexualidade é parte inseparável do complexo denominado: SAUDE. Por isso são necessários estudos e nova mentalidade que qualifiquem os profissionais dessa área, além de literatura informativa, também para o paciente e sua família.

Referindo-me à mulher paraplégica que nada faz para resgatar com satisfação a sua sexualidade, ouso dizer que é falta de autoestima e até de autoconhecimento, porque estar deficiente não significa estar morta ou assexuada. A mente e o coração estão ilesos, prontos para viver uma linda história de amor.

O ato sexual envolve algo mais, além da penetração do membro viril. Se assim não o fosse, seria apenas fisiologismo. O ato de amar tem leveza, graça, ternura, afeto... Um pouco de céu passeando pela terra. “Temer o amor é temer a vida, e os que temem a vida já estão meio mortos”. (Bertand Russell)

Com uma lesão medular alta igual à minha (T-4), a ausência da sensibilidade é total. Não sinto sequer a penetração durante o ato sexual. Nesse momento, o coração ouriçado faz a festa. Viaja, alcançando píncaros, numa doação coroada. Veste-se de céu e faz morada nas estrelas. E eu me transmudo em tantas carícias! Posso fantasiar, soltar os laços, as peias e voar pelo infinito no calor compartilhado que me faz amada. Nessa hora, meu corpo fala todas as linguagens e vai a todas as paragens, pois não tenho porteiras nem cárceres. Posso dar e receber tanto, que a alma transcende a plagas de plena satisfação.

A natureza é sábia e transfere o prazer para outras áreas do corpo. Para minha satisfação, as axilas substituíram os enleios de prazer do órgão genital. Entre duas pessoas que se amam, no recôndito de quatro paredes, tudo é normal. O amor não tem receitas, determinações. Por que não procurar outros pontos eróticos que não nos deixem a ver navios? O importante é tentar encontrar o prazer na mente, no coração, no aconchego, numa encostadinha de rosto, num beijo... Amor é energia sublimada, sentida, transformada, às vezes, em silenciosas palavras, decodificadas pela ternura do olhar, pelo pulsar do coração enamorado.

“Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar”. (Machado de Assis)

Descobri que o beijo ficou mais gostoso, as carícias nos lóbulos das orelhas, no pescoço, nos seios, nos cabelos... Eu nunca havia pensado nisso antes. No meu livro, Pássaro Sem Asas, fiz esse relato e alguns leitores ficaram surpresos com a ideia de fazer amor nas axilas e até pesquisaram, comprovando a existência de prazer.

Restaram-me as axilas, por que não as experimentar? É uma preparação, antes da cópula propriamente dita, que me deixa feliz, que me faz mulher. O beijo mais vagaroso, mais profundo, mais silencioso, com exploração do palato, acompanhado da masculinidade e dos odores tão peculiares do parceiro, faz-me muito fêmea e emocionada, chegando a tremer o que resta ileso. Por isso, repito: a gente só fracassa quando desiste de tentar. Alegra-me parafrasear Aristóteles Onassis: todos os dias e me levanto para vencer!

Há pouca literatura sobre o assunto, alicerçada na realidade fática da mulher paraplégica, descrita sem rodeios por ela própria. Percebo que os profissionais de saúde longe estão de entender essa diversidade e valorizar o desejo sexual existente num corpo sem mobilidade, sem saber que ele reside, acima de tudo, na mente, no coração e no entrelaçamento de almas que apontam soluções dignas. A visão sempre exerceu e exerce papel importante em quaisquer relacionamentos. Ela pode ser exercida de várias maneiras. O cego, por exemplo, consegue determinar-se no espaço, reconhecer pessoas pelo som da voz e até captar-lhes o estado d’alma, ter predileções por cores sem nunca lhes haver visto o matizado. É uma percepção sensorial.

Nós mulheres temos privilégios. Nosso órgão genital é côncavo, próprio para o encaixe do membro masculino. Somos agentes passivas, recebedoras. Assim, a nossa maior parte fica por conta da criatividade, da ternura, da astúcia, do que só nós na condição de fêmea sabemos engendrar.

Cabe a nós cultivar a sedução, tornando-nos atraentes, agradáveis, entrando aí o uso de apetrechos externos, como lingerie, cremes, óleos e outros que ouriçam o desejo. Superar as crenças autolimitadoras é o exercício diário para a plenitude do nosso potencial diante da vida, incluindo a sexualidade, claro. O autoconceito benfazejo é o primeiro passo.

A gente tem que se amar. Se não amamos a nós mesmos, como poderemos amar ao outro ou permitir que sejamos amadas?

Partindo daí, vamos construir portas, abrir janelas e aproveitar todas as oportunidades que nos fizerem bem. A observação é o ponto de partida.

Se a paralisia não melhora, melhoremos nós. A dormência não vai regredir. A receita é transferir para outras áreas a sensação que sentíamos na genitália, além de procurar encantar-se com o parceiro, uma vez que a relação sexual jamais acontecerá plena, solta, bonita e sublime, sem um sentimento de admiração. Afinal, é a transferência mútua de energia que nos abastece, tornando-nos plenas, renovando-nos a felicidade do existir.

O amor é o mais exímio professor de todo o afeto, de toda a ternura e de todo o enternecimento que unem dois corações e consequentemente dois corpos. Não precisa de marketing, nem propagandas. O amor fala por si mesmo!

Realmente, Mario Quintana tinha razão quando disse: Deficiente é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

IMPORTANTE PAPEL DA PONTE


O IMPORTANTE PAPEL DA PONTE
(Genaura Tormin)

Ponte significa ligação. É o elo que permite união. Há várias modalidades de pontes: de alvenaria, de madeira, de ferro, de concreto e muitas outras que a criatividade e a tecnologia possam apontar.

Mas, a ponte a que me refiro não tem formas concretas, é abstrata, absolutamente abstrata e amorável. Se não podemos ser fim, devemos, pelo menos tentarmos ser pontes: levar boas informações, ensinamentos, incentivos... Passar sempre uma mensagem que construa.

Tudo seria tão diferente se tivéssemos a consciência da necessidade de erigir boas pontes. Acredito que o mundo seria bem melhor: mais humano. Afinal somos seres carentes de afetividade em todos os sentidos. Precisamos nos amar mais. Precisamos repartir a afetividade que nos vai no peito.

O poder da palavra faz milagres ou desastres. Uma afirmação desairosa, negativa, às vezes pode destruir uma vida inteira. É bom ressaltar que o elogio é uma excelente maneira de conseguirmos impulsionar as pessoas na busca de seus objetivos. Corrija o erro, mas elogie o certo. Ajude! Há tanta gente, no seu rol de amizades, que talvez esteja precisando muito de uma palavra sua!

Precisamos construir caminhos para o sucesso, por meio de boas pontes, encorajando sempre: “você pode, você é capaz”! Afinal somos responsáveis pelas pessoas que formam o nosso próximo mais próximo e até por aquelas com quem mantivermos algum diálogo. É tão bom vê-las conquistando divisas, palmilhando melhores caminhos.

E pensar que pudemos dar uma minúscula ajuda de incentivo... Quantas não sabem aonde ir ou não vão por não acreditarem em si mesmas. Dê a elas um pouco de fé. Aja enquanto é tempo. Dê a si mesmo a satisfação de estar sendo útil na construção de um mundo melhor.

Há, ainda, as pessoas que auto se vitimam, registrando problemas que não existem ou que poderiam ser vistos de outra forma. Aliás, os problemas só são reais quando nós os registramos como tais. Somos nós que os criamos e os damos tanta importância.

Depois, tudo é resolvível! Basta que a mente esteja direcionada à sua resolução e o agir enquadre-se dentro do código da honestidade, respaldado pelo princípio: “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você”.

É preciso que usemos a nossa força interior na construção de castelos, de torres de solidariedade humana.

Por que destruir se podemos erigir? Não há ninguém, que não tenha potenciais. Todos são capazes de crescer. Basta acharem o caminho, a ponte, ou alguém que os mostre, que os conduza, que os faça reconhecer que têm capacidade.

Tudo que falamos ou fazemos repercutirá nos quatro cantos do mundo, modificando sempre alguma coisa. Por isso procure plantar uma boa semente. Antes de passar uma mensagem à frente, submeta-a ao crivo de sua consciência, perguntando sempre: ajudará alguém? Será que poderei construir? Quantos lerão a sua mensagem, a qual se multiplicará conforme a individualidade e maturidade de cada um.

Seja responsável e satisfaça-se em ver que os outros ao seu redor estão ascendendo rumo ao bem. Lembre-se do sândalo que perfuma o machado que o corta; da abelha que fabrica o mel para o deleite dos outros. E você que pode fazer tanto, construir tantas pontes, jamais poderá eximir-se desse trabalho.

Entre os seus feitos, talvez seja esse o mais significativo e o mais digno nessa caminhada terrestre. Exercite o seu papel de boa ponte! Quando fazemos o bem, recebemo-lo sempre de volta de outras formas.

Quantas vezes personificado, materializado, abstrato... Mas, o certo é que a gratificação por uma boa ação, mais cedo ou mais tarde, baterá à sua porta.

O bem é o gestor de felicidade. Não se esqueça disso!
Seja uma boa ponte!
No final, não se assuste se for você a pessoa mais feliz, pois há mais felicidade em dar do que em receber.

domingo, 12 de setembro de 2010

AMOR CONSCIENTE



AMOR CONSCIENTE
(Genaura Tormin)

A vida se conta pelos anos,
Pelas experiências...
Pelo plantio e pela colheita...
É uma construção em terreno árido.

O arroubo da paixão
Dispersa-se pelo caminho,
Em retalhos esquecidos,
Levados pelo temporal.

Em troca,
Um amor maduro,
Consciente.
Companheiro,
Alicerçado
Em cuidados, respeito,
E muito aconchego.

Encanecem os cabelos,
Muda-se a silhueta.
Mórbidos,
Arquejam os desejos.
A labareda já não existe,
Apenas a brasa moribunda
Continua alerta, de sentinela.

Pela janela,
O horizonte tão longe,
Tão distante,
A esculpir a história
De um GRANDE AMOR.
Um filme para reviver!
_______________
Alfredo, querido, hoje é o seu aniversário!
Parabéns! Que Deus o ilumine e o proteja sempre, sempre, conservando-o por muitos e muitos anos entre nós, como esteio dessa família que o ama demais.
Beijos da sua mulher
Genaura Tormin

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

ACESSIBILIDADE E TRABALHO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA



ACESSIBILIDADE E TRABALHO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
(Genaura Tormin)

“Sem pátria acessível e inclusiva, a democracia para as pessoas com deficiência de todos os Países, é impossível.”
(Luis Fernando Astorga)

O trabalho remonta aos tempos do homo sapiens, ao tempo das cavernas, por estar ligado à sobrevivência. E para nós significa dignidade, além de uma verdadeira terapia ocupacional que nos devolve o sentimento de utilidade. É a oportunidade justa para provar que poderemos ser, não apenas força produtiva, mas força transformadora, aumentando a esperança num País justo e progressista, diminuindo-lhe os problemas sociais, além de servirmos também de motivação e incentivo aos muitos “paralíticos andantes”, que se alicerçam numa ociosidade crônica para nada fazerem ou mal fazerem.

A Constituição Federal de 1988 concedeu direitos à pessoa com deficiência, abrindo-lhe mercado de trabalho, permitindo-lhe participar do processo econômico, político e social do País que lhe serviu de berço.

A acessibilidade, condição indispensável para que possamos viver com dignidade, é a principal porta, pois, precisamos nos mostrar e exercitar o nosso caminhar, dar a nossa participação de trabalho. É a acessibilidade que garante o pleno exercício de direitos. Hoje a deficiência significa um conceito em evolução, que resulta da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras relativas às atitudes e ao ambiente que impedem a sua plena e efetiva participação na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, segundo a Convenção Internacional das Pessoas com Deficiência, ratificada pelo Brasil.

Há legislação que garante o exercício desse direito, abrindo caminhos para melhorar a acessibilidade a todos os lugares:
A Lei n. 7.853, de 24 de outubro de 1989, regulamentada pelo
Decreto n. 3.298, de 21 de dezembro de 1999;
Lei n. 10.048, de 08 de novembro de 2000;
Lei n. 10.098, de 19 de dezembro de 2000,
e no Decreto n. 5.296, de 02 de dezembro de 2004;
Lei n. 10.226, de 15 de maio de 2001;
Lei n. 11.126, de 27 de junho de 2005, e
Decreto n. 5.904, de 21 de setembro de 2006.

Toda essa legislação estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, mediante a supressão de barreiras e de obstáculos nas vias, espaços e serviços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma de edifícios e nos meios de transporte e de comunicação.

Da mesma maneira que se preparam as crianças para a vida, por meio da escolaridade, o Estado/tutor deveria propiciar às pessoas com deficiência, além da escolaridade curricular, a educação profissional que as introduzirá no mercado de trabalho, sem ter que ficar sob o jugo do assistencialismo que camufla a capacidade.

A pessoa com deficiência preocupa-se muito em mostrar competência e conquistar respeito pelos próprios méritos. Por fazer parte da diversidade da vida, enfrenta muitos preconceitos. Sua estampa carrega o estigma do temor, da piedade, e quase nunca o do respeito.
Embora o desafio seja o alvo para criar consciência popular, há muito ainda a desejar.

Pouco se conhece do slogan "Oportunidades iguais para todos" ou "Tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida em que eles se desigualam".

Tem-se que ser imbatível para conquistar aceitação e mercado de trabalho, pois o desconhecimento social e a falta de acessibilidade significam grandes barreiras.

Trabalho é saúde, é progresso. Cabeça vazia é sempre “oficina para o diabo”. E a ociosidade é um chamariz para as enfermidades mentais, redundando, muitas vezes, em depressão, suicídio e tristeza para a família e amigos.

Nas edificações de logradouros públicos, quase nunca somos consultados quando de sua feitura, especialmente quanto aos banheiros, onde há certas peculiaridades e a necessidade de usá-los é vital para o ser humano. Nem os banheiros dos hospitais são construídos para nós. O improviso tem sido o nosso lema, acompanhado, é claro, de tristeza e constrangimento.

Cálculos demostram que os custos financeiros da construção de uma obra adequada e com acessibilidade às pessoas com deficiência, ou melhor, a todas as diversidades, ficam acrescidos, apenas, de 2%.

Apesar de integrar um grupo vulnerável, geralmente relegado à exclusão e exposto a concepções desprezíveis, a pessoa com deficiência física, devidamente inserida num local de trabalho sem barreiras que lhe impeçam o caminhar, produz, cria e se evidencia em competência, auxiliada pelo desafio que se insinua garboso. Essa segurança reflete na sua qualidade de trabalho e, consequentemente, de vida.

Oferecer chances para que todas as pessoas possam desenvolver suas potencialidades, respeitando as diferenças é um compromisso com a ética na redução das desigualdades sociais, em prol da ordem, da paz e do progresso da nação.

Delegada de polícia, pode?
Pois é, exerci com galhardia, dedicação e competência esse cargo, embora do alto de minha cadeira de rodas. Hoje estou no Judiciário Federal e me sinto honrada de emprestar minha cota-participação de trabalho ao meu País.

Relembrando o início dessa militância, em condição até então inusitada e num cargo tão difícil e complicado, vai aí um pequeno relato daquele tempo em que o desafio pautou a minha vida, fazendo-me forte a qualquer embate.

Gerindo os destinos de mim mesma, ia armazenando segurança no começo de uma nova vida. Reunia todas as migalhas que considerava útil e com elas construí uma fortaleza. Alçava meus voos domésticos, progredia no trabalho e ficava satisfeita com o reconhecimento popular. Era comum alguém do povo exclamar: — Vi a senhora na televisão, mas não sabia que era paraplégica. Que pena!

O cinegrafista não focalizava a cadeira de rodas durante as informações que, por vezes, tinha que prestar em frente das câmeras sobre trabalhos presididos por mim na delegacia. Talvez quisesse demonstrar-me um gesto de carinho.

Certa vez, expliquei-lhe que a cadeira fazia parte. Não podia locomover-me sem ela e não tinha o menor constrangimento. Afinal era o meu jeito de andar.

— São as minhas pernas de aço, os meus nervos inquebrantáveis... Pode mostrá-los ao público. Não me menosprezará por isso.

A repórter que ouvia as minhas explicações, para justificar diante das câmeras, revelou ao telespectador que eu era uma deficiente de cadeira de rodas, e, em seguida, dirigiu-me a palavra:

— Como a senhora pode exercer o cargo de Delegado de Polícia, numa cadeira de rodas?

Com o meu instinto poético e tentando ser abrangente na resposta, também, às muitas perguntas que me haviam sido feitas pela vida afora, expliquei:

Quero dizer a vocês,
Que a mente não está nos pés,
E aqui, na minha cadeira,
Trabalho por mais de dez.

Quem me conhece, já sabe
Da minha capacidade,
Não me curvo por besteira
E luto com hombridade.

Mato a cobra e mostro pau.
Medo, não tenho não!
Já mandei prender bandidos,
De estuprador a ladrão.

Lembro-me do grande Franklin,
Dos Estados Unidos, presidente,
Em tempos reacionários,
Exemplo pra muita gente.

Por isso estou aqui,
Em condição inusitada,
Pois sei que neste Planeta,
Não tem uma delegada

Numa cadeira de rodas,
Que seja capacitada,
Faça inquéritos e flagrantes
Numa Especializada.

Mente sã é corpo são,
Por isso não tenho nada,
Sinto-me com pernas fortes,
Numa cadeira sentada.

Na rua dirijo carro,
Faço compras e viajo,
Trabalho, leciono e nado.
É só questão de estágio.

Para os que não me conhecem,
É essa a informação,
Moradores da cidade
E outros que aqui estão.

“Ninguém pode chegar ao topo armado apenas de talento. Deus dá o talento; o trabalho transforma o talento em gênio.” (Ana Pavlova)

Assim matei a curiosidade do telespectador, mostrando-me por inteira, sem reticências.
Depois desse episódio, foi-me crescendo o desejo de abrir as portas ao público, não só no meu trabalho, mas na minha intimidade depois da paraplegia. Senti que o povo nada sabia sobre pessoas com deficiência, razão por que as julgava inválidas, como se a cabeça estivesse no dedão do pé, devotando-lhes, ainda, desairosa compaixão.

Eu, também, quando andava, nada sabia sobre paraplégicos. Nunca parei para pensar. Eram coisas alheias ao meu convívio. Deixa pra lá! Estava muito ocupada com os problemas, os sucessos e enleios da vida. Não transava o assunto, assim como a maioria da nossa gente. Jamais imaginei que a sensibilidade tátil ia de embrulho, por acréscimo. Realmente, o pior só acontece aos outros, nunca à gente!

O desejo foi crescendo, crescendo, tomando formas, amadurecendo, e embora tivesse que desvestir a dor para erigir marcos benfazejos em defesa do porvir, escrevi PÁSSARO SEM ASAS, que surgiu radiante, feito uma cartilha de amor à vida, para ajudar outras vidas, abrir caminhos e falar de possibilidades, de desafio e de muitas conquistas.

Hoje há uma consciência popular maior sobre a acessibilidade e mercado de trabalho para pessoa com deficiência.

O Tribunal onde trabalho é servido por rampas, e tenho um banheiro decente que atende às minhas limitações.

Tenho tido dificuldades para entrar nos banheiros dos hotéis durante as viagens. Aí a criatividade e o improviso se encarregam, preocupando-me para não ficar triste. Às vezes, lavo o rosto com toalha molhada, fico sem tomar banho, lavo as axilas, as partes íntimas [risos]... Tendo o marido por perto, tudo fica fácil, embora não deixe de reclamar (da falta de adaptações) para criar consciência popular. Não me constranjo em subir escadas nos braços de alguém.

Faço isso para que outras pessoas vejam. Pode ter ali um futuro arquiteto, um futuro engenheiro, solo fértil para o plantio da semente.
Para executarmos uma tarefa, é lógico que precisamos dos apetrechos inerentes à sua feitura. E nós, paraplégicas, precisamos de pernas de roldanas para substituir o nosso caminhar. “É o faz de conta”. É a condição sine qua non para irmos à vida, para sermos produtivas.

Contudo, é muito triste vermos colegas com deficiência, em cujas cadeiras de rodas há tarjas indicando em letras grandes que foram doadas. Abomino tal conduta, a qual se enquadra como ato típico perfeito de roubo da dignidade. E dói muito quando feita pelos governantes, que apenas administram as receitas oriundas dos nossos impostos e têm por obrigação o soerguimento social.

Se uma pessoa com deficiência precisa de uma cadeira, tem de pagá-la com o ônus da humilhação. Fica mais cara do que uma cirurgia de grande porte, pois a ferida não sara, ficando sempre à mostra para o escárnio dos que passam por ela. Mais um conceito negativo estampado do respaldar de sua cadeira.

Digo isso no sentido de mudar mentalidades na construção de um mundo melhor, onde possamos, realmente, fazer parte como indivíduos produtivos, integrantes da nação.

Oxalá possamos algum dia comemorar “Um Brasil onde todos os brasileiros tenham oportunidades de desenvolver as suas potencialidades e realizar os seus sonhos. Um Brasil sem preconceitos, que não discrimine nenhum dos seus filhos. Um Brasil decente”. (Luís Inácio Lula da Silva)

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)


"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)