PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

sábado, 31 de outubro de 2009

BAGAGEM ETERNA


BAGAGEM ETERNA
(Genaura Tormin)

Você deseja paz, alegria... e as procura sempre em outros lugares, sem perceber que tudo está dentro de você.

Aprenda a encontrar a sua própria felicidade. Ela não é comprada, é conquistada. Deve ser desbravada de dentro para fora. E para isso é preciso buscar, amando-se em primeiro lugar e repartindo com os demais o amor que lhe vai no peito. Se não amamos a nós mesmos como poderemos amar aos outros ou sermos amados? Dessa forma você partirá de si para a conquista global. É uma receita simplista, mas muito verdadeira. Basta querer.

Cultive a sua auto-estima, arrume o seu interior e vá à luta!
Há tanta beleza na Terra! Há tanta beleza em você! Aprenda a buscá-la na destreza dos seus passos, na ternura de suas palavras, na bondade do seu coração...

Encontre motivos para ser feliz numa manhã de sol arregalado; num bom-dia ao desconhecido que perdeu o ônibus; na flor que desabrochou no seu jardim; no sorriso de seu filho; na volta para a casa... Quantos não têm um lar para voltar!

Seja feliz pela vida que pulsa em você, e pelo pulsar de sua própria vida! Você está vivo!

Seja feliz porque trabalha e pode ser útil ao seu próximo. Seja feliz porque pode renascer todos os dias para uma vida melhor. Marque sua trajetória com pegadas de solidariedade. Você não está aqui por acaso. Você precisa da vida e ela de você! Ponha-se no trabalho e ajude a melhorar o mundo. Uma fagulha, apenas, de sua mente positiva pode ajudá-lo. “Carreando um punhado de terra todos os dias fará uma montanha”. Coíba a violência, o desamor... O mundo está precisando disso. Ele precisa de você!

O avanço tecnológico trouxe-nos o progresso, provou a inteligência humana. Armou o mundo possibilitando a desintegração num piscar de olhos, bastando acionar botões. Custou-nos ônus exacerbado.
Aproximaram-se as distâncias e distanciaram-se as proximidades, valendo dizer que é no meio da multidão que nos sentimos mais sós.

Para coibir essa síndrome de violência nos nossos dias, cada um de nós, na condição de ser humano carente, amorável, tem que se esforçar para fazer feliz o próximo, pelo menos o mais próximo. Com isso seremos os mais beneficiados, pois o princípio cristão prega: “Há mais felicidade em dar do que em receber”.

Saia do seu esconderijo, olhe em volta, dê um sorriso, uma palavra, até mesmo um gesto, contanto que sejam permeados de amor. Procure ajudar! Una a ajuda material à doçura do seu coração. Transmita paz àqueles que, por insensibilidade ou falta de crença, viciam-se, usando a droga por escudo, num processo de autodestruição; enveredam pela violência, ceifando vidas, enquanto você poderá ser a próxima vítima.

Cultive bons pensamentos. Eles são os nossos companheiros, inseparáveis. São eles os gestores de nossas palavras e ações, boas ou más. Afinal “dize-me com quem andas e eu direi quem és”.
Afaste de si as revoltas, recalques, inseguranças, ódios, pois isso não leva, senão à nada! Não vai resolver o seu problema. Ninguém lhe devolve a paz se você não a buscar.

Pensamentos contrários ao bem, ou seja, os pensamentos negativos, são regados por forças maléficas e, por vezes, redundam em crimes horríveis que abalarão não só a você, mas toda a sua família e amigos.

Dizem que quando não podemos transpor uma montanha, devemos circundá-la até ao cume. Assim, para tudo há uma solução viável. Não existem problemas insolúveis. Vá à luta! Ouse, trabalhe, que o retorno virá, como o corpo sólido que atiramos ao ar e que volta pela força da gravidade.

Sua vida é a sua vida! Seus sofrimentos são a maquiagem que embelezam o seu Espírito! Com aceitação e humildade, coragem e determinação, tornar-se-ão leves em seus ombros.

Não se atire à beira dos caminhos! Reaja! A batalha não acabou e você não pode se render. Junte as migalhas de energia que lhe restam! Somando-as, fará uma fortaleza indestrutível! A mente é o comando, e tudo é possível quando a temos ilesa. É preciso, apenas, admoestá-la para frente e para o alto.

Se for ferido em bens materiais, não desanime. Vão-se os anéis, ficam-se os dedos. Matéria compra-se com dinheiro. Dinheiro ganha-se com trabalho.

Vamos aprender o sentido da vida, ainda que para isso tenhamos que nos escolar na logoterapia. Com certeza, o sentido da vida está na transcendência maior, no amor e dedicação ao próximo, vendo-o como irmão, realçando o seu lado bom e ajudando-o na caminhada para o bem. Se conseguir esse objetivo, verá os seus problemas serem resolvidos por acréscimo, e tanta luz, tantos sucessos lhe advirão que não se reconhecerá no passado.

Os seus problemas físicos, financeiros e morais são os alicerces para que você suba mais alto. São eles os lapidadores do ser humano. Para crescermos é preciso que sejamos feridos, assim como a árvore que, para se transformar em fogo que nos fabrica o alimento, precisa ser cortada.

Infelizmente, o homem perdeu-se em si mesmo na desvairada corrida pelo TER, sem se preocupar com o SER.

É preciso que resgatemos, com urgência, a nossa identidade, antes que venham os maus ventos e soprem o resto de verdade que nos resta!

É preciso amar! É preciso armazenar o bem, as boas ações, as transcendências ao infinito, pois, ao partirmos deste planeta, serão esses mananciais indestrutíveis a nossa BAGAGEM ETERNA.

domingo, 25 de outubro de 2009

DISCURSO DE INAUGURAÇÃO DA 1ª DELEGACIA DA MULHER EM GOIÂNIA-GO


DISCURSO DE INAUGURAÇÃO DA 1ª DELEGACIA DA MULHER EM GOIÂNIA-GO
(Genaura Tormin)



Relembrar é viver!
Uma volta ao passado significa um filme a se rebobinar nos meandros de nós mesmos. Em folhas amareladas, encontrei esse discurso.
Tempos idos, lembranças guardadas nas celas da memória.

Dra. Ludovina e eu fomos designadas para a recém-criada DELEGACIA DA MULHER.

Coube-me fazer o discurso de inauguração.
Relendo-o, acho que continuo a mesma, com as mesmas convicções e valores.

Esse escrito antigo nada tem a acrescentar a vocês, mas, numa divisão de afeto, senti vontade de publicá-lo nesse recanto de paz, onde me sinto muito à vontade, muito feliz.

Não tenho palavras capazes de traduzir o grande carinho que sinto por vocês, queridos leitores, queridos colegas!


DISCURSO DE INAUGURAÇÃO DA 1ª DELEGACIA DA MULHER EM GOIÂNIA-GO-1985!!



Hoje é um dia diferente para nós! Um dia festivo em que se inaugura em nossa Capital a 2ª Delegacia da Mulher criada no Brasil!
Uma vitória para a mulher goiana!

É bem sabido que desde a década dos anos 60, a mulher passa por uma fase de transição, empenhada na conquista de seus espaços, abandonando o modelo de doméstica, objeto sexual, fardo nos ombros do marido, declinado pela sociologia antiga, para reconhecer o seu próprio valor, ingressando, paralelamente ao homem na vida empresarial e pública, revelando-se de grande valia, sem prejuízo de suas atividades no lar.

Entretanto, há muito tempo essa tutela já se encontrava estampada em dispositivo da Constituição Federal do Brasil, nossa Carta Magna: "o homem e a mulher perante a lei são iguais".

Muitas discriminações existem contra a mulher, talvez pela sua disposição física, principalmente perante o marido que, por vezes, a faz de saco de pancadas, violando o seu direito de ser humano, reduzindo-a à condição análoga à de escravo, sem se falar nos crimes de lesões corporais, homicídios, estupros, posse sexual mediante fraude, induzimento ao suicídio, ao aborto, e outros mais elencados na parte especial da legislação vigente.

Constrangida, a mulher vítima de tais violências pouco tem procurado as Delegacias de Polícia, por saber que ali vai encontrar, como delegado, um outro homem e todo um corpo policial masculino a quem, por vergonha, princípios ou ameaças do próprio marido, não relatará com a exatidão necessária a intensidade da violência sofrida, continuando assim sua vida de calvário, muitas vezes até a morte, como foi o caso Maria Augusta, sabido de todos nós, e muitos outros por esse Brasil a fora.

Esta Delegacia, que ora se inaugura, destinada exclusivamente a apurar os crimes cometidos contra a MULHER, será o marco indelével de uma gestão responsável, atenta às necessidades de seu povo.

Com um corpo policial exclusivamente feminino, reciclado e treinado pela Academia de Polícia de Goiás, contando com delegadas qualificadas do quadro da Secretaria de Segurança Pública do Estado e comprometidas com a causa, temos certeza, Sr. Governador, que esta Delegacia se destacará no desempenho de suas atribuições em prol da ordem, da segurança e da paz social a um amplo segmento da sociedade que perfaz 52% do eleitorado brasileiro.

Pretendemos não só proceder à instauração de Inquéritos policiais, mas fazer concomitantemente um trabalho de orientação, apoio psicológico, conscientização e soerguimento do casal em litígio, defendendo também os valores axiológicos da família, mola mestra de uma sociedade sadia, respeitando, é claro, os ditames e rigores da lei. Por isso consta do efetivo desta Casa Policial, assistente social, psicóloga e médica legista.

Queremos parabenizar a louvável idéia da vereadora Maria Dagmar em propor a criação de uma Delegacia da Mulher em nossa Capital! Um sonho que passa hoje a uma realidade, encontrando para tal o respaldo irrestrito e solidário do Secretário da Secretaria da Segurança Pública, Deputado Frederico Jaime e do Governador do Estado Iris Rezende Machado, a quem igualmente parabenizamos agradecidas.

Obrigada

Genaura Tormin
(Delegada de Polícia da Delegacia da Mulher de Goiânia-GO)

Obs.: Fiquei paraplégica em março de 1982, portanto em 1985 eu já exercia o meu cargo do alto de uma cadeira de rodas, vindo depois a Constituição de 1988 que reguardou direitos à pessoa com deficiência física no mercado de trabalho.

Por isso eu Rendo gratidão aos espíritos evoluídos dos meus superiores da Secretaria da Segurança Pública e Justiça do Estado de Goiás que me conservaram no cargo, valorizando a minha competência, embora a natureza do trabalho exercido ali fosse, em princípio, um paradoxo à minha condição física.

Entenderam que o maior potencial está na disposição para vencer, além do preparo técnico-científico inerente ao exercício do cargo.

Naquela época, trabalhar numa cadeira de rodas era um fato estranho, quase inusitado, embora a deficiência constitua uma parte natural da experiência humana.

E o exemplo ficou para todos os órgãos públicos e privados.

COMPROVAÇÃO SOBRE OS EFEITOS DA AUTO-HEMOTERAPIA


COMPROVAÇÃO SOBRE OS EFEITOS DA AUTO-HEMOTERAPIA
(Genaura Tormin)


Como Delegado de Polícia, reputo a prova material a melhor delas, pois a testemunhal é, vulgarmente, conhecida como a "prostituda das provas".
É aquele ditado: mata-se a cobra e mostra-se pau. Assim, veja a comprovação de que a Auto-Hemoterapia é uma prática benfazeja à humanidade.

Eis aí os laudos comprobatórios da presença de enorme cisto ovariano e, em seguida, o laudo do seu desaparecimento. O laudo do desaparecimento da trombose. Digo e comprovo porque a protagonista SOU EU!



quinta-feira, 22 de outubro de 2009

UMA RECEITA SIMPLISTA, MAS VERDADEIRA


UMA RECEITA SIMPLISTA, MAS VERDADEIRA
(Genaura Tormin)

O iogue contemporâneo Paramahansa Yogananda, referindo-se aos revezes da jornada, afirmara: “Nada vos virá que não hajas merecido agora ou logrado com anterioridade”. E eu acredito nisso. Não há fardo pesado para ombros fracos. Sempre há a equivalência. O coração e a intuição são os nossos mestres! É a voz de Deus dentro da gente. Devemos segui-la sem medo de errar, desde que os feitos se enquadrem nos parâmetros da dignidade e da justiça.

“As reencarnações são os degraus pelos quais o ser se eleva e progride”. Por isso a existência é feita de momentos ruins e bons, tristes e alegres, e, muito mais de renhidas batalhas. Tudo impulsionado pela infalível Lei de Causa e Efeito e do livre-arbítrio que se equilibram no transcurso de sinuosas veredas que, por vezes, parecem-nos fatalidades. É a hora da responsabilidade!

Somos herdeiros de nossos erros e acertos, embora a infra-estrutura da alma seja intocável. É o processo reencarnatório para que se efetive a Lei do Progresso e a evolução do espírito, pois o próprio Cristo afirmou que somente seremos livres quando conhecermos a Verdade. Por isso é preciso ultrapassar as formas físicas e vislumbrar a essência, empunhando a deficiência com honradez, encontrando, por meio dela, as escadas de ascensão à nossa conduta moral, além do exercício da humildade, do amor e do perdão.

Às vezes, as provas, as agruras e a limitações físicas, quando bem entendidas, podem reverter-se em privilégio. A meta tem de ser alcançada. O alvo é o sucesso com a conquista de nós mesmos, aproveitando as pedras do caminho para a construção de nossa própria escada.

É bom pensar que a queda pode também nos arremessar ao alto. Todos nós carregamos as cicatrizes do nosso “ontem”, e elas não nos impedirão de sorrir. Dependendo da disposição mental, tudo se transforma. O que ontem foi tempestade, hoje pode ser bonança.
Vá à luta! Ouse, trabalhe, acredite!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

CARTA/RESPOSTA




CARTA/RESPOSTA
(Genaura Tormin)

Querido Dr. Mattoso,
Meu mais novo e já muito querido amigo,

Extasiada, agradeço as palavras tão lindas dirigidas a mim. Realmente, penso que não as mereço, embora a alegria percorra-me a alma e o sorriso se estampe faceiro.
Até um poema você me fez! Meu Deus, que lindo!

Por tudo isso, posso-lhe mensurar a alma, o coração e os solfejos de uma bela canção de vida. Você é um espírito evoluído, especial, nessa trajetória por aqui. Sabe ver o ser humano além de sua farda de carne. Sabe apreciar a essência, como disse Saint Exupéry. É isso que vale a pena.

Não adianta sucesso, se não temos por escudo o encantamento de viver e a vontade de servir. O “ter” não supre o “ser”. E a ordem é crescer, evoluir, para depois partir!

Fico muito contente por você haver gostado do meu livro - PÁSSARO SEM ASAS, arquivo dos meus relatos, ora alegres, otimistas, ora sofridos, mas verdadeiros.
Despi-me. Deixei jorrar todas as dores, todas as emoções, até as verdades mais recônditas e inconfessáveis. Tudo em nome do amor.

Como precisei de uma referência, penso que outros também precisarão, pois a vida é cíclica. Hoje somos nós. Amanhã, outros tomarão o caminho de volta, imbuídos nas mesmas provas.

Embora carpindo de maneira esdrúxula, tento plantar alguma semente que justifique minha passagem por aqui. Se eu conseguir regar um minúsculo cantinho, já me dou por satisfeita.

Fico muito cativada por sua avaliação, uma vez que parte de uma pessoa competente na área do conhecimento científico e no exercício da vivência humana, com resvalos benfazejos que enobrecem o espírito, fazendo a diferença.

Não quero acreditar que Pássaro Sem Asas tenha sido o livro mais lindo que já leu nesses 28 anos de vida médica. A minha alegria se estampa faceira, confirmando o acerto em tê-lo escrito, embora devassando a minha privacidade, banindo-me da vaidade. Isso me cala a alma, envaidece o meu espírito e, com certeza, aumenta-me a responsabilidade perante o leitor, perante as pessoas que formam o meu mundo. Resta-me agradecer emocionada.

Com certeza, não estamos aqui por acaso! E também não foi por acaso que a vida providenciou o encontro de dois espíritos simpáticos, numa interação benfazeja. Já sou sua paciente, doutor. Sou também sua amiga. E amigo, costumo guardar no coração, viu! Tem sempre um lugarzinho cativo.

AMIGO
(Genaura Tormin)

Amigo é quase um irmão.
É presente, é relax,
É confidente.
Aguça a memória,
Relembra o passado,
Projeta futuro,
Aconselha o agora.
É aliado contra os perigos.

Amigo divide o lanche,
A piada, as risadas, as fofocas...
Divide as experiências,
As conquistas, as dores,
As culpas e os segredos.

Não desculpa nada,
Mas perdoa tudo.
Cobra, xinga, adverte e critica.
Mas empresta o colo,
A palavra, o sorriso,
A cumplicidade e o incentivo.

Está sempre junto na dor,
Presente na alegria.
É causídico ferrenho na defesa,
Embora a bronca venha depois.

Um verdadeiro amigo,
Não segura apenas a mão.
Enfrenta o caos, a solidão,
A depressão,
O copo vazio e a paixão.

Vibra com o sucesso,
E ampara nos fracassos,
Indicando saídas.
Um amigo de verdade, é claro!

A primeira recomendação entre médico e paciente, eu já estou cumprindo. Tomo cloreto de magnésio todos os dias, duas vezes. Acredito e comprovo o seu efeito benfazejo.

Vou agendar a acupuntura, pois tenho LER, por excesso de trabalho (manuseio e analiso de 80 a 100 processos por dia, com vários volumes, contendo 200 fls. cada volume), e ainda pelo corpinho de misse a quem devo cuidados, usando os braços para as transferências...

Nessas condições não há AH que resolva, não obstante abrande as dores, alertando-me para maiores cuidados.
Após 15 anos atuando na mesma Diretoria, na área judiciária, reputando-me guerreira e desafiando o impossível, tive que pedir transferência para uma outra, onde o trabalho é administrativo, com menos processos, mais esparsos e mais finos.

Três meses já se passaram e a LER continua acirrada, embora faça fisioterapia todos os dias, além de antiinflamatórios que prejudicam o estômago. Sei que a acupuntura vai resolver. Já encontrei o profissional e vou à luta.

Dr. Luiz Moura é um benfeitor da humanidade. Um espírito predestinado, corajoso, digno, honrado que, não obstante as agressões provocadas pelos cifrões em risco da máfia dos laboratórios, segue em frente, ostentando sua bandeira em nome do BEM. Curvo-me com respeito. Chamo-o de MESTRE MAIOR.

A vida não erra! Cada um tem a sua missão por aqui e a dele está sendo exercida com galhardia. Um homem simples, com exacerbados conhecimentos científicos, cujo semblante diviniza-lhe as feições, estampando a sua bondade. Um pregoeiro na estrada, um samaritano em nossos dias.

Realmente, a Auto-hemoterapia é uma técnica fantástica! Acredito que a farei por toda a minha vida. Sei que não vou andar, pois a minha paralisia é muito grande, mas o que adquiri é imensurável! Não me reconheço no passado.

Só o fato de não ter que usar fraldas, as quais usei por mais de 25 anos, já justifica tudo. As minhas taxas estão dentro dos limites da normalidade. Isso não é uma bênção? Penso que se a tivesse conhecido há mais tempo, tudo teria sido tão diferente... Teria vivido muito melhor!

Mas tudo nos vem na hora certa, no momento exato. Às vezes penso que tem a ver com merecimento. Afinal, são 27 anos de estrada palmilhada com um corpo paraplégico.

Quero dizer, entretanto, que sou muito feliz nesse corpo. Talvez não o fosse com ele perfeito. Acho que a cura total já foi feita na alma, no coração, no meu modo de pensar, na amostragem de trabalho que levo aos demais... E outras coisas mais.

Sinto-me feliz, agradecida e com a auto-estima lá encima! Até fiz um regime e, apesar da idade (64 anos), emagreci 8k. Estou faceira, bonita e elegante, apesar dos pedregulhos da estrada percorrida. Sabe, acho que posso fazer até um papel na novela das 20h. Risos...

Gostaria tanto que as autoridades competentes determinassem pesquisas sobre a AUTO-HEMOTERAPIA, liberando-a ao grande público, favorecendo um próximo um pouquinho mais longe, principalmente aquele mais carente de recursos financeiros...

Amigo querido, vou ficando por aqui, agradecendo as suas palavras de carinho e incentivo. São essas menções que me acrescentam o desejo de olhar sempre para alto e para frente, procurando servir cada vez melhor.

Estarei sempre à sua disposição.
O seu carinho me fez muito bem, viu!

Beijo grande da
Genaura Tormin

terça-feira, 20 de outubro de 2009

CARTA AO PRESIDENTE


CARTA AO PRESIDENTE
(Genaura Tormin)

Embora essa fase já tenha passado pelos degraus do progresso, pois hoje temos um lindo prédio, com elevadores a todos os andares, faço questão de publicar a matéria abaixo, tentando passar informações e conhecimento sobre essas pessoas que, num dia qualquer da vida perdem o direito de caminhar com os próprios pés, mas não perdem a capacidade de AMAR e de laborar, contribuindo para o engrandecimento do País que lhes serviu de berço.


Excelentíssimo Juiz-Presidente do TRT-18ª Região,
Saulo Emídio dos Santos:

Um elevador para transportar pessoas com deficiência locomotora!

Agradecidos por sua sensibilidade e respeito
pelos serventuários deste Tribunal que deambulam de cadeira de rodas,
gostaríamos de dizer que o maior desafio para as pessoas é saber lidar com a outra numa grande abrangência de situações em que o sentir, o querer e o agir estejam comprometidos numa interação benfazeja em defesa do bem comum.

E o senhor, Presidente, é mestre deste mister. Soube e sabe, como
ninguém, a exegese do slogan: “Igualdade de oportunidades”.
Afinal, deficiência significa uma experiência natural da vida. E não é por isso que devemos ser obstaculizados de perseguir sonhos, conquistar divisas como todas as pessoas.

Graças a Deus, não estamos vivendo nos dias do médico alemão
Josef Mengele - o Anjo da Morte que, sob o comando de Adolf Hitler, exterminava as pessoas de corpos imperfeitos, tentando estabelecer a pureza da raça ariana.
Era a teoria em que as vidas humanas sem valor vital deveriam ser eliminadas.

Quantos gênios existiram e existem em corpos imperfeitos!
O inglês Stephen Hawking, portador de esclerose lateral amiotrófica, que paralisou-lhe os movimentos, emudeceu-lhe as cordas vocais, é um testemunho perfeito, pois, mesmo assim, continua produtivo e é considerado o mais brilhante físico teórico desde Albert Einstein.
Também, Beethoven, o maior gênio da música de todos os tempos,
que mesmo depois de ficar surdo em plena atividade musical, continuou compondo, produzindo sua obra mais importante: A nona sinfonia.

Para executarmos uma tarefa, é lógico que precisamos dos apetrechos
inerentes à sua feitura. E nós, paraplégicos, precisamos
de pernas de roldanas para substituir o nosso caminhar e acessibilidade aonde ele possa chegar. É a condição sine qua non para irmos à vida,
para sermos produtivos e exercer a cidadania.

Além das rampas que permeiam por todo o Tribunal, agora temos um
elevador com o fim específico de ampliar as nossas asas!
Realmente, sentimo-nos feito pássaro fora da gaiola,
com acesso a todos os lugares.
“As aves não cantam nas grutas”- disse alguém.
E se já cantávamos, agora podemos fazer um coral de liberdade e,
com certeza, desempenhar um trabalho mais profícuo.

Senhor Presidente,
não queremos paternalismo nem diferenciação,
queremos apenas respeito e oportunidades para mostrarmos
a nossa capacidade de conquista, de trabalho, embasados na célebre frase de Rui Barbosa: "... tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na medida em que eles se desigualam".

Ainda é raro vermos uma pessoa com deficiência física
ocupando um cargo público de comando.
E quando isso acontece, ela terá de ser imbatível.
Caso contrário, os pequenos e naturais deslizes, policialescamente vigiados, serão creditados à sua deficiência física, com o mero objetivo de torná-la inválida. Isso é falta de informação, de comparar igualdades e fazer a diferença, respeitando o potencial existente em corpos diferenciados.

O trabalho está ligado à sobrevivência. E para nós significa dignidade,
além de uma verdadeira terapia ocupacional que nos devolve o sentimento de utilidade

Que a atitude do senhor, Presidente, possa ser copiada pelos
demais órgãos públicos, aumentando a inserção de pessoas com deficiência física no mercado de trabalho, diminuindo preconceitos e problemas sociais, além de propiciar convivência pacífica entre as diferenças.

Agradecidos,
queremos reafirmar que o nosso desejo de bem servir ficará
muito maior com mais esse alargamento de fronteiras,
o qual já nos dá a sensação de “inteiros” outra vez.

Respeitosamente,


Genaura Maria da Costa Tormin
Analista Judiciário

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

MEIA HORA FAZ A DIFERENÇA


MEIA HORA FAZ A DIFERENÇA
(Genaura Tormin)

Sinto-me honrada em servir ao Judiciário Federal,
especificamente à Justiça do Trabalho do meu Estado,
onde exerço o cargo de Analista Judiciário
na Diretoria de Serviços Recursos e Distribuição.

Lembro-me de que não foi fácil o ingresso.
Freqüentei cursinhos e usei o método do gravador, além da determinação, persistência, força de vontade e muita disciplina, tão importantes para o sucesso na consecução de quaisquer objetivos.

Na solidão das madrugadas frias, tinha sempre as aulas por companhia,
através de minúsculos fones de ouvido.
Como a repetição faz o mestre, eu estava sempre a aprender,
embora essa aprendizagem seja um processo contínuo.
Aprendemos em qualquer quadrante da vida.
Somos sempre acrescidos pelas trocas, pelas lições,
tão necessárias à execução de um trabalho novo.
Assim vai se sedimentando o arsenal do nosso conhecimento.
Daí a capacidade para a feitura das mais diversificadas tarefas.

Na Diretoria de Serviço Recursos e Distribuição, a despeito de outros, temos o Projeto do Servidor Multiqualificado. Talvez seja ele o carro chefe da Diretoria. Para tal, os servidores se revezam em todos os setores e núcleos. Além disso, semanalmente é-nos dado, com antecedência, um tema do qual somos sabatinados numa pequena reunião que acontece às sextas-feiras.

É o chamado encontro do “BATATA QUENTE”.
E tem batata mesmo! Na hora aprazada, surge altiva e imponente uma batata majestosa, que atrevida se esgueira em olhadelas aos servidores sentados à mesa. No centro, um envelope contendo perguntas e ocorrências simuladas, com circunstâncias engraçadas, capciosas, chamam-nos a atenção.

Já nos reciclamos sobre o sistema push de auto-atendimento, peticionamento eletrônico (web-mail, fac-símile), protocolo postal, drive thru, procedimento de carga ao advogado, vapt vupt e teleTRT. Outros virão para formar a nossa bagagem.

Ao som de uma musiquinha inocente, amena e envergonhada, a altiva batata sai faceira, rebolante, dançarina, de mão em mão, porém com disciplina. A música pára! Ai, meu Deus! O Colega entre o susto e um sorriso maroto, ainda acaricia entre os dedos a batata, agora sua. Pena que está crua! A pergunta salta do envelope, altaneira, dona de todas as verdades.

Com galhardia ou sofreguidão o colega deve respondê-la.
E a batata só escuta, não ajuda!

_ Posso recorrer aos universitários? _ pergunta o colega.

_ Pode, sim, interfere o maior servidor da Diretoria. Maior em tamanho (tem quase 2 metros) e em autoridade. Ele é o Diretor. É um homem grande e um grande homem!

E, após o auxílio solidário, a batata torna a correr. Danadinha... alcança a todos. E as perguntas se mostram diversificadas, como diversificado é o nosso trabalho ali.

Um encontro agradável, um trabalho quase brincadeira!
Mas o resultado é excelente! Aprendemos todos ao mesmo tempo! Dirimem-se as dúvidas, uniformizam-se as informações, atualizam-se a legislação e a maneira do fazer estipulado no famoso PGC (Provimento Geral Consolidado).

_ Assim, estamos a crescer, diz a batata ensimesmada!

_ É isso aí!
Completa o Diretor satisfeito, explicando a finalidade do seu intento.

_ Em primeiro lugar, um relax para abastecer o físico e a mente, num pequeno intervalo. Depois, o conhecimento ideal que nos levará ao desempenho aperfeiçoado do trabalho, com a implementação do Servidor Multiqualificado, proporcionando uma prestação jurisdicional de qualidade, célere e competente. E a nós, serventuários, o sentimento do dever cumprido, a satisfação do aprender, do bem servir, e melhor relacionamento entre os colegas, que desempenharão sua missão num só espírito-de-corpo, com respeito, amizade e qualidade de vida.
E meia hora faz diferença, finaliza o Diretor.

Genaura Tormin é Analista Judiciário,
lotada na Diretoria de Serviço de Recursos e Distribuição
do TRT/GO

AMIGO DIVIDE TUDO


AMIGO DIVIDE TUDO
(Genaura Tormin)

Somos amigos ou não somos?

Pois é:
Um amigo divide o lanche,
a piada, as risadas, as fofocas...
Divide as experiências,
as conquistas, as dores,
as culpas e os segredos.

E agora estou dividindo com vocês um livro que recebi. Chama-se CONCURSO PÚBLICO E CONSTITUIÇÃO.

Na contracapa, a informação:
“Esta obra objetiva analisar o regime constitucional dos concursos públicos. Por meio de estudos profundos, tendo como pano de fundo o processo evolutivo do direito administrativo e o exame da jurisprudência recente, os autores estudam a aplicação das regras e princípios constantes da Constituição da República de 1988 aos concursos realizados pela Administração Pública. Trata-se
de estudo pioneiro, indispensável à compreensão dos processos seletivos públicos em seus diversos aspectos, como a obrigatoriedade da realização de concurso, configuração das provas, cautelas da Administração, direitos dos candidatos e regime jurídico dos cargos públicos, dentre outros. Por tais razões, afigura-se como obra de estrema relevância para todos aqueles que, ao se disporem a estudar o Direito Administrativo ou a Administração Pública, necessariamente terão contato com o instituto do concurso público”.

A surpresa foi o carinho estampado numa dedicatória linda, e, ainda, no bojo do livro encontrar um valoroso estudo sobre CONCURSO PARA PORTADORES DE DEFICIÊNCIA, encabeçado por uma poesia de minha lavra.

Agradeço muitíssimo ao autor, Dr. Fabrício Motta, mestre em Direito Administrativo,
Coordenador do Curso de Pós-Graduação e Procurador do Ministério Público.

Reconheço o excelente e necessário conteúdo dessa obra jurídica, e divido a honra que me foi conferida com vocês, pois somos poetas, não somos?

Beijo grande da
Genaura Tormin

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O VALOR DO INCENTIVO


Eis mais um capítulo do me livro PÁSSARO SEM ASAS, um presente para os meus queridos leitores.

O VALOR DO INCENTIVO
(Genaura Tormin)

Eu e Alfredo estávamos fazendo curso de pós-graduação em Direito Penal e Direito Processual Penal com duração de dois anos, ministrado pela Academia de Polícia de Goiás. Era um avanço de nossa Academia que, além de preparar os seus delegados, abria-se aos bacharéis da Capital, mostrando o seu peso e a qualidade de ensino.
Naquele ano, fora eleita, por votação expressiva, membro da diretoria da Associação dos Delegados de Polícia de Goiás.

Convidada pela Academia, passei a lecionar Organização Policial para os cursos de formação de escriturários e motoristas que, no final, honraram-me com o título de “madrinha da turma”.

Eu “ia levando a vida ou a vida me levando”. Ombreava com os demais, esquecia a paraplegia, cumpria o meu dever e fazia do trabalho uma religião como o faço até hoje.

Era setembro, mês da primavera, e nós estávamos a caminho da Academia de Polícia para mais um dia de aula. Os flamboyant’s das ruas muito floridos, colorindo a vida. Era uma manhã linda, de céu claro, primaveril, quase sem nuvens. O sol permeava às vidraças, espargindo raios incandescentes. As malhas viárias, enfeitadas de transeuntes e de carros multicores, transmitiam encantamento, magia... Algo alentador, que não sei explicar. Tudo parecia mais alegre. Havia festa no ar e um aroma gostoso de flores, de vida. O vento sacudia as folhas dos coqueiros, postados nas ilhas divisórias das longas avenidas. Feito navalha, a saudade de um tempo ainda tão presente no meu sacrário de lembranças invadia-me os compartimentos da alma, cortava-me o coração sem dó nem compaixão. Parecia que me via andante, faceira, palmilhando a avenida, levada pelo gingado sensual que sempre me enfeitara o corpo, dando graça à silhueta de mulher.

A mente vagava em fantasias, quando nos defrontamos com o antigo prédio da Academia de Polícia. Ao entrarmos em classe, era a plateia em festa. Os alunos ouriçados seguiam a cadência de “parabéns a você”.

Na mesa, um bolo branco confeitado anunciava o aniversário do mestre, o Dr. Miguel Batista de Siqueira, então Superintendente da Academia de Polícia, depois Secretário de Estado da Segurança Pública e Justiça de Goiás. A sua bagagem jurídica, vivencial e humana sempre extrapolara fronteiras. É costume dizer que ele sempre fora o crânio da Segurança Pública, apresentando as suas melhores ideias.

Ao contrário de muitos, ele estreitara os laços de amizade comigo depois da paraplegia. Cumprimentava-me carinhosamente e emitia palavras positivas. Acreditava no meu trabalho, encampando a minha bandeira de luta. Costumava dizer que eu sobrepujava muitos delegados andantes. O elogio ao mérito de minha conquista era muito importante e impulsionava-me sempre ao desempenho, cada vez melhor, de minhas atividades profissionais. Não podia decepcionar tão querido amigo e já o inseria no rol dos meus benfeitores.

Queria demonstrar-lhe o meu carinho naquele dia. Entretanto não fiz uso da palavra. Pus-me a escrever uma poesia para o mestre, enquanto o Dr. José Nunes, agora meu colega de classe, dizia-me baixinho:
— Faça um discurso. Vá em frente. Você fala bem!
Lembrara-me da primeira entrevista. Trabalhava com o Dr. José Nunes e ele incentivava-me, dizendo que eu falava bem. Arredia, trêmula, faltava-me a coragem, temendo dar “branco” no cérebro. O grande amigo enchera-me de forças, e, assim, consegui vencer a timidez. Inaugurei entrevistas no rádio e, em seguida, na televisão. Passei a falar em público sem nenhum acanhamento. “Acredito que um amigo é sempre um espírito protetor que nos deixa de pé quando nossas asas não se lembram da técnica de voar”. É um timoneiro que nos substitui no remo quando o barco veleja à deriva.

O avançado da hora registrara-se e à poesia faltavam os últimos retoques. No dia seguinte, após o mestre postar-se atrás da mesa, evidenciei-me (já que não podia ficar de pé) e pedi a palavra:
— Ainda a título de comemorar o aniversário do eminente professor, Dr. Miguel Batista de Siqueira, que muito me honra com sua amizade e apoio, gostaria de declamar uma poesia de minha autoria:

FAROL

Era quadrado o bolo.
Branco como a neve.
Mensagem de amor
No teu aniversário.

Vinte anos,
De velinhas brancas,
Simbolizavam a fidalguia
Dos teus mais verdes anos,
Que se perderam no tempo,
Indefinidamente,
Fazendo-te imbatível
Em todas as idades,
Na silente projeção
De que o homem é mente.

A voz de mestre,
Como vento do leste,
Aculturou todos os discípulos,
Levando-os
A plagas de progresso e paz
No vergel da existência.

Qual farol,
À beira da estrada,
Vais impregnando de luz
O viajor.

Qual oásis,
Em deserto insano,
Vais saciando a sede,
Tornando promissores
Todos os momentos.

Mestre,
Irmão,
Não poderia esquecer
Tão grande criatura.

Grande pelo amor,
Pela dor,
Pela cultura,
Pelo sentimento
Que te fez da massa um dia,
Deixando-te o estigma
Do idealismo e da coragem.

E por essa data genetlíaca,
Nos versos que faço,
Não poderia mesmo,
Olvidar-te, Mestre!

A sala vibrou em palmas. O professor agradeceu emocionado. Mas era eu que muito tinha a agradecê-lo. Aquela demonstração era apenas parte de minha gratidão. O mestre a merecia. Por vezes, o sorriso, o incentivo, a mão amiga, a certeza de que temos alguém que acredita em nós, principalmente depois de uma guinada de vida igual à minha, valem muito, muito mais do que se possa imaginar. É fundamental para o novo alicerce, para a afirmação e o reconhecimento dos potenciais que se encontram na mente e não materializados na locomoção ou em aparências físicas como muitos pensam.

A mente é o órgão diretor e estando ilesa e bem direcionada, com certeza, estaremos inteiros, completos, abertos a todas as possibilidades, a todos os desafios. Precisamos, apenas, de oportunidades.
O Dr. Miguel é daqueles que lutam pela justiça e sabe ver o ser humano além de sua farda de carne. Sabe perscrutar-lhe a alma, a essência...

Especializando-me em conhecimentos jurídicos e aperfeiçoando-me no trabalho ia construindo o meu destino como uma profissional inusitada, diferente, pelo menos em visual. Ao lado desses conhecimentos, procurava reciclar-me na arte da vida: lia bons livros, exercitava a paciência, alimentava a fé e sentia-me uma estrela andeja, alicerçada na coragem de avançar sempre.

ESSÊNCIA LIBERTA

De asas quebradas,
A ave não pode voar.
O invólucro é prisioneiro,
Mas a essência é liberta,
Bandoleira...

Crescem-lhe asas perfeitas,
Imaginárias.
As peias se partem na amplidão.
Desatam-se os laços!
Ilimitado é o espaço
Para voejar versos,
Soltar a emoção
E sentir-se uma estrela andeja.

É muito importante a consciência de que não estamos aqui por acaso. A responsabilidade da caminhada é unicamente nossa e não podemos fraquejar. Somos seres gregários, cabendo-nos a compaixão pelo próximo, pelo menos o mais próximo.

É sempre bom reafirmarmos os nossos propósitos de fé nos valores e no exercício do amor.

“Sei que toda caminhada tem um destino e uma direção, por isso, devo medir meus passos, prestar atenção no que faço e no que fazem os que por mim também passam ou pelos quais, passo eu.

Que eu não me iluda com o ânimo e o vigor dos primeiros trechos, porque chegará o dia em que os pés não terão tanta força e se ferirão no caminho e se cansarão mais cedo.

Todavia, quando o cansaço houver, que eu não me desespere e acredite que ainda terei forças para continuar, principalmente quando houver quem me auxilie.
É oportuno que, em meus sorrisos, eu me lembre de que existem os que choram.
Que, assim, meu riso não ofenda a mágoa dos que sofrem.

Quando chegar a minha vez de chorar, que eu não me deixe dominar pela desesperança, mas entenda o sentido do sofrimento que me nivela, que me iguala, que torna todos os homens iguais.

Quando eu tiver tudo: farnel e coragem, água no cantil e ânimo no coração, bota nos pés e chapéu na cabeça, razão para não temer o vento e o frio, a chuva e o tempo, que eu não me considere melhor do que aqueles que ficaram para trás, porque pode vir o dia em que nada mais terei para a jornada. E aqueles que ultrapassei me alcançarão no caminho. Poderão, também, fazer como eu fiz, e nada de fato fazerem por mim, que ficarei sem concluir o meu trajeto.

Quando o dia brilhar, que eu tenha vontade de ver a noite, em que a jornada será mais fácil e mais amena.
Quando for noite e a escuridão tornar mais difícil a chegada, que eu saiba esperar o dia como aurora, o calor como bênção.

Que eu perceba que a caminhada só poderá ser mais rápida, mas muito vazia.
Quando eu tiver sede, que encontre a fonte no caminho.
Quando eu me perder, que ache a indicação, a seta, a direção, a estrela-guia.
Que eu não siga os que se desviam, mas que ninguém se desvie seguindo os meus passos.
Que a pressa em chegar não me afaste da alegria de ver a simplicidade das flores à beira da estrada.

Que eu não perturbe os passos de ninguém.
Que eu entenda que seguir faz bem, mas, às vezes, é preciso ter-se a bravura de recomeçar, voltar ao ponto de partida, tomar outra direção.
Que eu não caminhe sem rumo.

Que eu não me perca nas encruzilhadas, mas não tema os que assaltam e os que embuçam.
Que eu vá aonde devo ir e, se eu cair no meio do caminho, que fique a lembrança de minha queda para impedir que outros caiam no mesmo abismo.

Que eu chegue, sim, mas, ainda mais importante que eu faça chegar quem me perguntar, quem me pedir conselho, e acima de tudo, seguir-me, confiando em mim.”

A vida é cheia de quedas, de alegrias, realizações, muitas chegadas, onde tantos nos esperam cheios de sorrisos, de incentivos.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

DELEGADA DE POLÍCIA PARAPLÉGICA, PODE?




DELEGADA DE POLÍCIA PARAPLÉGICA, PODE?
(Genaura Tormin)

Pois é, exerci com galhardia, dedicação e competência esse cargo, embora do alto de minha cadeira de rodas, companheira inseparável há 27 anos. Hoje estou no Judiciário Federal e me sinto honrada de emprestar minha cota-participação de trabalho ao meu País.

Relembrando o início dessa militância, em condição inusitada e num cargo tão difícil e complicado, vai aí um pequeno relato daquele tempo em que o desafio pautou a minha vida, fazendo-me forte a qualquer embate.

Gerindo os destinos de mim mesma, ia armazenando segurança no começo de uma nova vida. Reunia todas as migalhas do que me fosse útil e estava a construir uma fortaleza. Alçava meus voos domésticos, progredia no trabalho e ficava satisfeita com o reconhecimento popular. Era comum alguém do povo exclamar: — Vi a senhora na televisão, mas não sabia que era paraplégica. Que pena!

O cinegrafista não focalizava a cadeira de rodas durante as informações que, por vezes, tinha que prestar em frente das câmeras sobre trabalhos presididos por mim na delegacia. Talvez quisesse demonstrar-me um gesto de carinho.
Certa vez, expliquei-lhe que a cadeira fazia parte. Não podia locomover-me sem ela e não tinha o menor constrangimento. Afinal era o meu jeito de andar.

— São as minhas pernas de aço, os meus nervos inquebrantáveis... Pode mostrá-los ao público. Não me menosprezará por isso.
A repórter que ouvia as minhas explicações, para justificar diante das câmeras, revelou ao telespectador que eu era uma deficiente de cadeira de rodas, e, em seguida, dirigiu-me a palavra:

— Como a senhora pode exercer o cargo de Delegado de Polícia, numa cadeira de rodas?
Com o meu instinto poético e tentando ser abrangente na resposta, também, às muitas perguntas que me haviam sido feitas pela vida afora, expliquei:

Quero dizer a vocês,
Que a mente não está nos pés,
E aqui, na minha cadeira,
Trabalho por mais de dez.

Quem me conhece, já sabe
Da minha capacidade,
Não me curvo por besteira
E luto com hombridade.

Mato a cobra e mostro pau.
Medo, não tenho não.
Já mandei prender bandidos,
De estuprador a ladrão.

Lembro-me do grande Franklin,
Dos Estados Unidos, presidente,
Em tempos reacionários,
Exemplo pra muita gente.

Por isso estou aqui,
Em condição inusitada,
Pois sei que neste Planeta,
Não tem uma delegada

Numa cadeira de rodas,
Que seja capacitada,
Faça inquéritos e flagrantes
Numa Especializada.

Mente sã é corpo são,
Por isso não tenho nada,
Sinto-me com pernas fortes,
Numa cadeira sentada.

Na rua dirijo carro,
Faço compras e viajo,
Trabalho, leciono e nado.
É só questão de estágio.

Para os que não me conhecem,
É essa a informação,
Moradores da cidade
E outros que aqui estão.


Assim matei a curiosidade do telespectador, mostrando-me por inteira, sem reticências.

Depois desse episódio, foi-me nascendo o desejo de abrir as portas ao público, não só no meu trabalho, mas na minha intimidade depois da paraplegia. Senti que o povo nada sabia sobre pessoas com deficiências, razão por que as julgava inválidas, como se a cabeça estivesse no dedão do pé, devotando-lhes, ainda, desairosa compaixão que tanto as prejudica.

Eu, também, quando andava, nada sabia sobre paraplégicos. Nunca parei para pensar. Eram coisas alheias ao meu convívio. Deixa pra lá! Estava muito ocupada com os problemas, os sucessos e enleios da vida. Não transava o assunto, assim como a maioria da nossa gente. Jamais imaginei que a sensibilidade tátil ia de embrulho por acréscimo. Realmente, o pior só acontece aos outros, nunca à gente!

O desejo foi crescendo, crescendo, tomando formas, amadurecendo, e embora tivesse que desvestir a dor para erigir marcos benfazejos em defesa do porvir, eis que PÁSSARO SEM ASAS surgiu radiante, feito uma cartilha para ajudar outras vidas, abrir caminhos e falar de amor, de possibilidades, de desafio e de muitas conquistas.

Genaura Tormin é autora dos livros:

PÁSSARO SEM ASAS,
APENAS UMA FLOR,
NESGAS DE SAUDADE

www.Genaura.blogspot.com
Recanto das Letras,
Editora virtual

BANHEIRO ADAPTADO, NECESSIDADE PRIMÁRIA DE UMA PESSOA COM DEFICIÊNCIA FÍSICA


BANHEIRO ADAPTADO, NECESSIDADE PRIMÁRIA DE UMA PESSOA COM DEFICIÊNCIA FÍSICA
(Genaura Tormin)

Vencer barreiras arquitetônicas é um dos grandes desafios enfrentados no dia-a-dia da pessoa com deficiência física, segmento social historicamente marginalizado, principalmente a que deambula de cadeira de rodas.

Muitos obstáculos a vencer! Embora o desafio seja a meta para criar consciência popular sobre essas pessoas diferentes, há muito ainda a desejar.

A acessibilidade, condição indispensável para que possamos viver com dignidade, é a principal, pois, precisamos nos mostrar, exercitar o nosso caminhar, dar a nossa participação de trabalho ao país que nos serviu de berço, em vez de nos escudar sob a deficiência para abojar os problemas sociais e avocar compaixão.

Nos Estados Unidos, a cada dólar aplicado na reabilitação, acessibilidade arquitetônica e trabalho da pessoa com deficiência, o retorno é de sete dólares, pois tornando-a reabilitada, independente e produtiva, não só ela estará liberada para o mercado de trabalho, mas também o prestador de cuidados que a assistia no ambiente doméstico. Pensar em todos, é a melhor maneira de pensar em si. Assim estaremos construindo um porvir melhor

À medida que a sociedade provê meios para que o deficiente possa atuar produtivamente no sistema capitalista, estará realizando um investimento social, uma vez que ele deixará de ser um consumidor de políticas de previdência e assistência social para capacitar-se como produtor de receitas públicas, mediante o recolhimento de impostos sobre sua atividade profissional.

Fazemos parte da diversidade da vida. Dado o preconceito, que longe está de ser banido, ainda enfrentamos muitas dificuldades. Nossa estampa carrega o estigma do “coitadismo”, causando piedade, temor e quase nunca o respeito. É como se não fôssemos egressos da mesma sociedade.

Pouco se conhece do slogan "Oportunidades iguais para todos" ou "Tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida em que eles se desigualam".

Temos que ser imbatíveis para conquistar aceitação social e mercado de trabalho, pois o desconhecimento social e a falta de acessibilidade significam grandes barreiras. Os logradouros públicos não são planejados para nós.

Há grande rejeição em consultar os seus verdadeiros usuários quando de sua feitura, especialmente quanto aos banheiros, onde há certas peculiaridades e a necessidade de usá-los é vital para o ser humano. Nem os banheiros dos hospitais são construídos para nós. O improviso tem sido o nosso lema, acompanhado, é claro, de tristeza e constrangimento.

Cálculos mostram que os custos financeiros da construção de uma obra adequada e com acessibilidade às pessoas com deficiência ficam acrescidos, apenas, de 2% no seu montante. Além do mais, há legislação que nos resguarda esse direito.

A DSRD, onde trabalho, foi transferida para um prédio novo, imponente e majestoso, cuja coloração verde estampa a esperança, além das muitas vidraças que reluzem o sol da manhã, indicando a aurora de novos tempos. Uma Casa da Justiça erguida numa farta esquina! Sua calçada externa, apesar de bonita, deixou muito a desejar, não só para os deficientes cadeirantes e de muletas, mas também para as senhoras que, com certeza, estarão vulneráveis a quedas e danos materiais nos finos saltos dos sapatos.

O seu interior é requintado. Elevadores amplos, central de trabalho para cada serventuário, incluindo um computador. Particularmente, a minha ficou defronte de uma larga janela de vidro transparente, de onde tenho a cidade a meus pés. Uma paisagem que fala de paz, permeada pelo verde vivo das árvores balouçantes e enfeitada pelos espigões de concreto, em arquitetura arrojada. Bela cidade, a minha! Daí, o prazer do trabalho que já era grande, tomou proporções bem maiores. Posso trocar pela essência da FELICIDADE.

Entusiasmada com tudo e com todos, meus "olhos de primeira vez" brilhavam sem cessar. Via-me feito uma criança/adulta defronte do seu mais caro brinquedo. Sem demora, fui experimentar o banheiro adaptado, fruto de um prévio Processo Administrativo, em que foi apresentado o modelo ideal (erigido no mesmo complexo da Instituição, que abrange todo o quarteirão) para um possível plágio.

Nunca havia visto uma bacia sanitária com um recorte côncavo na frente!

Para que serve essa reentrância, meu Deus? Eu não conhecia. Além do mais é muito alta. Bem mais do que a bacia normal. Lamentável! Fiquei dependurada. Os meus pés não tocaram o chão, dificultando-me o equilíbrio para feitura dos procedimentos necessários à introdução da sonda vesical, inclusive o ajustamento do "separador de pernas" acoplado a um espelhinho ajustável, que me permite perfeição e segurança na execução, pois as pernas estáticas não obedecem a comando. Assim, é-me possível fazer a limpeza com sabão próprio (de preferência um sabonete íntimo líquido ou não), usando a ducha higiênica com gatilho manual. Através do espelho visualizo o orifício da uretra para a segura introdução da sonda e, ainda, posso ver quando termina o escoamento do líquido.


Os pés, mesmo inertes, precisam tocar o chão por questão de segurança, funcionando feito escoras para o corpo.

Fiquei caindo, como se estivesse numa balança ou numa gangorra. Contudo, introduzi a sonda e vamos lá! Para surpresa, todo o líquido escoou no chão através dessa bendita abertura que não sei para que serve. Vergonha maior foi ter que deixar o chão alagado, pois não há ralo de escoamento de água no banheiro.


SANITÁRIO SATISFATORIAMENTE ADAPTADO
O vaso sanitário, embora não se nivele à cadeira, deve ser normal, assessorado por duas pequenas paralelas dobráveis para cima, na altura normal do quadril humano médio para servir de apoio.

Para a transferência do vaso para a cadeira e vice-versa, usa-se um suporte para mão, tipo triângulo ou estribo, afixado ao teto por uma corrente.

Uma ducha higiênica, com gatilho de regulagem manual, é imprescindível para a higienização dos órgãos genitais, principalmente quando se usa sonda vesical de alívio, introduzida apenas na hora de escoar o líquido, como é o meu caso.

No novo banheiro, também não há lavatório privativo, tão necessário a uma usuária que não tem comando de esfincteres.

A paralela de segurança, à direita, foi posta numa altura bem inferior à do modelo apresentado. E a do lado esquerdo, sequer existe. Também não existe o triângulo ou estribo, afixado ao teto por uma corrente, para as transferências.

Fico muito triste com essas situações e esse desconhecimento social. E não entrei sozinha. Nem condições haveria. Fui apenas experimentar. Desistir, enfrentar ou chorar? Ou ainda, ficar em casa?

Estou paraplégica há 25 anos. Fui à luta e conquistei divisas, enfrentei barreiras.
Fiz concurso para o cargo que ocupo e a Constituição Federal respaldou-me esse direito. Tenho consciência de que faço jus ao cargo.

Sinto-me constrangida em ter que reclamar, mas tenho que usar dessa arma, pois embora tenha sido feito o PROCESSO TRT - PA-418/2006, e reiterado em atempação legal, como se vê abaixo, as dificuldades restaram gritantes.

“O objeto deste PA foi a prévia solicitação de adaptação de um banheiro para deficiente físico, cujos moldes foram apontados em edificação similar no bojo dos autos, para atender a uma de nossas servidoras com necessidades especiais: a analista judiciário GENAURA MARIA DA COSTA TORMIN.

Embora haja a afirmativa tranqüilizadora contida na certidão de fls. 11, cumpre-me informar que, em vistoria ao local, constatamos que os moldes apontados não foram seguidos. Por exemplo:

1 - falta a ducha higiênica, de real importância para a assepsia, pois a servidora com total ausência de locomoção e de sensibilidade necessita fazer cateterismo para o escoamento da urina;
2 - falta um triângulo, que deveria ser afixado ao teto por uma corrente (como no modelo), para a feitura das transferências para o vaso e vice-versa;
3 - as paralelas ali existentes foram postas em desacordo com a altura do modelo, além de uma outra excedente posta na parede posterior ao vaso que, com certeza, impedirá o equilíbrio da usuária que necessita apoiar as costas num ângulo de 90º, para assim ter condições de proceder aos atos preparatórios para introdução da sonda vesical.”

Errados princípios, dificultosos fins, embora eu saiba que não existe nada sem solução. O querer é sempre poder.

É preciso que se abram espaços para as pessoas com deficiência que virão, lembrando sempre que a humanidade se manifesta de forma cíclica. Hoje somos nós, amanhã serão outros com as mesmas necessidades. Construir é um exercício de amor incondicional à família humana terrestre.

Ratifico aqui o que disse anteriormente: ...Sugiro, ainda, que todas essas adaptações deveriam contar com a orientação prévia (também nos projetos arquitetônicos) e fiscalização, durante a feitura, dos seus reais usuários, pois o leigo longe está de entender as limitações de quem, num dia qualquer da vida, perde o direito ao caminhar. Às vezes, uma rampa íngreme, um banheiro mal adaptado, tornam-nos mais deficientes do que realmente somos.

Sabemos da solidariedade dos colegas e agradecemos o carinho, pois estão sempre atentos a nos ajudar a subir um degrau, galgar uma rampa íngreme ou atravessar qualquer obstáculo que as nossas asas rodantes não sejam capazes. Entretanto, isso é sempre a afirmação de que somos fisicamente deficientes, de que somos dependentes. Como gostaríamos de fazer tudo sozinhos!!!


Esse pedido, saído do fundo do coração, talvez tenha ficado esquecido com o vagar do tempo, numa gaveta qualquer. 

Ter problemas na vida é inevitável, ser derrotado por eles, é opcional, disse Enzo Ferrari. Por isso não se pode permitir que os sentimentos de compaixão ou repulsa releguem-nos à inutilidade, conduzindo-nos à inércia.

Não peço paternalismo nem diferenciação, quero apenas oportunidade para que eu possa exercer com dignidade o cargo que conquistei, tomando por suporte a célebre frase de Rui Barbosa: “... tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na medida em que eles se desigualam".

Genaura Tormin

PS.: Peço desculpas aos colegas escritores. Preciso publicar esta matéria! Não sou paraplégica por acaso, e, também não é por acaso que tenho um pouco de voz. Preciso plantar! Preciso contribuir para nova mentalidade. Preciso informar, criar consciência popular sobre o que é ser um deficiente físico. Geralmente, as pessoas pensam que se resume apenas em estar sentado numa cadeira de rodas. Acredito estar tentando melhorar o porvir. Chegará um dia em que seremos todos irmãos de verdade, com respeito e acesso a todos os lugares.
Obrigada!

Texto publicado no Planetaliteratura.com
e no Recanto das Letras.

Genaura Tormin
é autora dos livros
PÁSSARO SEM ASAS,
APENAS UMA FLOR,
NESGAS DE SAUDADE e
BORBOLETEANDO.

domingo, 11 de outubro de 2009

INQUÉRITO POLICIAL EM VERSOS


INQUÉRITO POLICIAL EM VERSOS
(Genaura Tormin)


Lembrança bateu! Lembrei-me do meu tempo de Delegada. Segura, trabalhadora, danada, afoita... mas poeta. Por vezes, quebrava as asperezas do cotidiano, relatando inquéritos em versos. Pelo menos um sorriso, com certeza, era conseguido nas faces do Magistrado. E eu ia levando a vida, ou a vida me levando... A cadeira de rodas nunca foi obstáculo. Poetado, tudo fica melhor. Vejam!

ESTADO DE GOIÁS
SECRETARIA DE ESTADO DA SEGURANÇA PÙBLICA
DELEGACIA DE CRIMES DE ACIDENTES DE TRÂNSITO


R E L A T Ó R I O

Autos nº : 0050/00 – 5ª Auditoria
Envolvidos : Luiz das Quantas de Tancredo (Condutor do Chevette – indiciado) e
Maria dos Anzóis Ferreira (Pedestre – vítima de lesões corporais)
Artigo : 129, § 6º do Código Penal Brasileiro

Meritíssimo Juiz:

Versam os presentes autos
De Inquérito Policial
Sobre um acidente de trânsito
Que não foi nada legal
No estacionamento ocorrido
De um shopping da Capital

Shopping Center Flamboyant
Ali no Jardim Goiás
Em 03 do 05 de tal ano
Foi palco para um rapaz
Que estava embriagado
Dirigir sem ser capaz

Luiz das Quantas Tancredo
Como indiciado figura
E Maria dos Anzóis Ferreira
Vítima de grande fratura
E danos em três veículos
Para correção futura

O carro era um chevette
De cor prata sim senhor
Do seu colega Manuel
Que em Luiz confiou
E à direção do veículo
Quase um pedestre matou

Os autos tiveram início
Pela Prisão em Flagrante
Lavrada pelo Distrito
Do rapaz mirabolante
Que perturbou os demais
E ainda foi arrogante

Acelerou o chevette
Nos autos qualificado
Atropelando a Maria
Que a morte deixou de lado
Sofrendo fratura exposta
Como bem confirma o Laudo

Disseram as testemunhas
Esse chevette é danado
Estava meio biruta
Mas foi também amassado
Bateu em outros três carros
Que estavam estacionados

Passou por cima de árvore
Virou a frente para trás
Quis dar “cavalo-de-pau
Fazendo estrago demais
Pondo em risco os transeuntes
Num local que era de paz

Perante a autoridade
Referiu não se lembrar
Dos impropérios que disse
Pra não se deixar domar
Desacatando a PM
Que teve de o algemar

Assim MM. Juiz
Foi o Flagrante lavrado
Pelo Dr. Clarimundo
Colega capacitado
Que arbitrou a fiança
Em moeda do mercado

Da sua vida pregressa
Estado civil – solteiro
Batizado e vacinado
Nesse torrão brasileiro
2º grau na escola
Que dá pra ganhar dinheiro

Mora com os pais adotivos
Socorre a mãe verdadeira
Mas quando toma cerveja
Parece fazer besteira
Foge-lhe a sanidade
Perde mesmo a estribeira

Nesta Especializada
Ouvido em declarações
Afirmou com humildade
Não ter habilitação
Para dirigir veículos
No meio da multidão

Complementando os feitos
Foi ele boletimado
Juntada a identidade
Pois não é habilitado
E o documento do carro
Lá no DETRAN-GO hospedado

Foi feita a liberação
Do veículo apreendido
Porém o Sr. Luiz
Foi bastante advertido
“de que bebida enlouquece
Tornando o homem perdido”

Ainda para instruir
Segue aqui apensado
O laudo pericial
Com tudo bem anotado
A alta velocidade do carro
Em plena manhã de sábado

Assim MM. Juiz
Termino a minha missão
E com um grande respeito
Faço-lhe a conclusão
Por intermédio de minha escrivã
Que me tem dedicação

DELEGACIA DE CRIMES DE ACIDENTES DE TRÃNSITO, em Goiânia, aos tantos dias do mês fulano de mil novecentos e bolinhas.


Belª. Genaura Maria da Costa Tormin
Delegada de Polícia de 1ª Classe

Genaura Tormin
Publicado no Recanto das Letras em 14/11/2007
Código do texto: T737365

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

SEXUALIDADE DE MULHERES COM DEFICIÊNCIA


SEXUALIDADE DE MULHERES COM DEFICIÊNCIA FÍSICA
(Genaura Tormin)

Entrevista feita com Genaura Tormin, pela assistente social, Marly Machado Bento Bueno, para suporte do tema: “Sexualidade de Mulheres com Deficiência Física”, cuja monografia alcançou a nota máxima.

— Qual é o seu nome?
— Meu nome é Genaura Tormin.

— Qual sua profissão? Trabalha? Onde?
— Sou serventuária do Judiciário Federal. Meu cargo é o de Analista Judiciário, área judiciária. Trabalho no Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região, em Goiânia. O trabalho funciona para mim feito uma terapia. Significa vida e me acrescenta a autoestima.

— Participa de alguma organização social? Qual? Faz o que lá?
— Sim. Sou afiliada à ABMCJ — Associação Brasileira de Mulheres de Carreira Jurídica; à UBE – União Brasileira de Escritores de Goiás; à ADPEGO — Associação dos Delegados de Polícia de Goiás; à ADFEGO — Associação dos Deficientes Físicos de Goiás; e outras mais, além de ser Consulesa do POETAS DEL MUNDO em Goiás.

— Qual é o seu estado civil? Se casada, qual é a profissão do marido?
— Sou casada com um grande amor. Meu marido, Alfredo de Paiva Tormin, é odontólogo.

— Têm filhos? Quais as suas profissões?
— Temos quatro filhos: Lara Patrícia, Flávio, Fernando e Frederico. Todos eles são formados em Direito e o Flávio formou-se também em odontologia. A Lara ocupa o cargo de Oficiala de Justiça Avaliadora da Justiça Federal, o Frederico é Procurador do Estado de Goiás e os outros dois são serventuários do Tribunal Regional do Trabalho, onde ocupam cargos de direção.

— Qual é a sua religião? Qual a freqüência de sua participação na igreja? O que faz lá?
— Sou egressa de um colégio de freiras, onde morei durante nove anos. Queria ser freira, entretanto, hoje, depois da paraplegia, sou espírita convicta. Não freqüento muito, mas leio muito. Às vezes profiro palestras na Irradiação Espírita e no PAE (Posto de Auxílio Espírita). A doutrina espírita respondeu todas as minhas perguntas.

— O que aconteceu para que você ficasse com essa deficiência? Quando ela ocorreu?
— Nada! Dormi sã e acordei assim. Eu tinha 36 anos de idade. Há muito não convivo com os meus passos, a minha sensibilidade tátil, a liberdade de ir-e-vir. Estou inerte do peito para baixo. Uso sonda vesical para escoar a urina acumulada e o resto comando com a codificação mental, além do exercício da paciência, do improviso e da capacidade para me adaptar. Segundo diagnóstico médico, trata-se de uma Mielite Transversa Virótica, o que significa ter sido uma infecção na medula. A medula é basilar para o ser humano. É por meio dela que o cérebro envia as ordens para o funcionamento de todo o organismo. A mielite danifica os nervos e interrompe os fluxos nervosos com perda de sensibilidade. É uma lesão gravíssima. Chama-se Mielite Transversa porque acontece no sentido horizontal. São inúmeras as suas causas. É uma síndrome incapacitante, paralisa tudo o que esteja abaixo dela: pulmão, bexiga, intestino e aparelho sexual, além da locomoção. Se acontecer na porção cervical, a pessoa fica tetraplégica. Pode matar. Leigamente falando, acho que fui vítima de uma anestesia na região lombar. Talvez tenha sido a Raquidiana ou a Peridural. No meu livro, Pássaro Sem Asas, a partir da 3ª edição, acrescentei um capítulo intitulado ‘Pode ter sido anestesia’, em que conto todos os pormenores a respeito disso.

— Qual foi sua reação ao ser comunicada desse diagnóstico?
— Fiquei em pânico, em cacos. É indescritível! Acordei com a sensação de que me havia tornado num boneco: não sentia os membros inferiores, não tinha equilíbrio. Foi difícil! Uma impotência terrível! Não me lembro do que pensei, mas parecia o fim, uma morte por tabela.

— O que fez para aceitar o fato de não andar mais?
— Bom. Primeiro envidei muitos esforços para ver se revertia o descalabro da situação. Depois, quando percebi que meu caso era irreversível e o remédio era mesmo me aceitar, resolvi arregaçar as mangas e dar a mim mesma um voto de confiança, tendo em vista ter uma família para cuidar, um marido, uma vida... E os filhos eram pequenos: 11, 10, sete e seis anos. Eles eram a estampa do tamanho da força que eu deveria ter. Eu tinha que lutar. Afinal estava viva! O motivo dessa luta até hoje se chama AMOR.

— Quais as maiores dificuldades que enfrentou ou enfrenta após a paraplegia?
— No início eu enfrentei muitas dificuldades, mesmo. Senti-me fechada, enclausurada, prisioneira por crime que não havia cometido, pelo menos nesta existência. A impossibilidade de ir para o trabalho da cozinha, alçar aos folguedos com os filhos, ajudá-los, cobri-los à noite, fazia-me sofrer muito. Realmente, eu não sabia viver daquele jeito e não havia literaturas que me dessem alguma luz. Não sabia como fazer as necessidades fisiológicas, pois não havia vontades. Foi muito difícil! O que doeu muito foi a falta de sensibilidade que enfrento até hoje. Quebro perna e não sei que quebrei, só percebo quando vejo o inchaço. Eu gostaria de sentir dor, pois ela é um mordomo, é um arauto que nos avisa, que nos chama à preservação. Entretanto as dificuldades têm o seu lado positivo: concitam-nos ao desafio. Julgo-me um soldado sempre pronto para novos combates.

— O que mudou na sua vida após a paraplegia?
— Em paraplegia adaptar-se é irreversível. Até que me adaptei rápido. A cadeira me leva dentro de casa, eu dirijo o carro nas ruas... A casa teve de ser adaptada, as portas alargadas, o piso nivelado... Uma nova vida. Até os amigos mudaram. O engajamento da família foi e é de suma importância. Não sou tida como paraplégica. Meu marido nunca me tirou a autoridade com os filhos ou com o lar. Tudo como antes. Retomei às minhas atividades, quis ser produtiva. Trabalhei 13 anos como Delegada de Polícia, e já trabalho há alguns anos no Judiciário Federal. Muita coisa mudou para melhor.

—Quais os limites adquiridos com o fato de não andar mais?
— Há! Muitos limites, muitos, uma vez que eu andava a cavalo, corria, andava de bicicleta, subia às árvores, pegava onda no mar, nadava... Ainda tento ser ousada, mesmo que seja apenas para guardar a façanha numa fotografia. Já tentei andar a cavalo, de trator, de carroça, de jet sky, de motocicleta, de lancha, de ultraleve, de caiaque, de veleiro... Hoje ainda nado, porém com um colete salva-vidas. De vez em quando faço mergulho autônomo... Eu era um tipo meio irreverente. Acredito que se eu tivesse que me comparar a um bicho, comparar-me-ia a um camaleão, porque o camaleão sempre está mudando de cor, sempre está se adaptando, e eu sempre fui assim. Sou muito risonha e era muito mais. Sempre fui daquelas pessoas ‘cheguei, estou aqui’. Hoje, visualmente, sou diferente, até engraçada: pernas de roldanas, pois ando sentada e uma de minhas orações é a de me encantar com a vida.

— Como seu parceiro reagiu diante desses limites?
— Meu marido é uma luz na minha vida. Eu acredito que sem ele não haveria unidade. Realmente nós somos metades e nos completamos. Somos cúmplices. "Não há nada que mais estreite dois corações do que haverem chorado juntos (Jean-Jacques Rousseau)".
Ele sempre esteve comigo em todos os momentos, não como um prestador de cuidados, mas como um sócio. E tudo isso é justificado por uma pequena palavra chamada amor, comprovada pelos anos de casamento e pelos frutos dessa convivência.

— Esse limite interfere no desempenho de sua sexualidade? Como?
— Lógico! Eu conheci o outro lado. Fui inteira até os trinta e seis anos de idade. A minha lesão é muito alta. Está nivelada em T-4, o que significa dizer que a paralisia começa logo abaixo dos seios. Desse nível para baixo, sou toda dormente, não sinto nada, além de não haver coordenação motora. Entretanto sexo não significa apenas contato físico. Ele está muito mais na cabeça, no coração e no amor que engloba tudo isso. Há, ainda, a criatividade que nos aponta outros meios, outras maneiras de fazer amor. Aprendemos a encontrar a essência do prazer de outras formas. Procuramos fantasiar e atentar para o que me sobrou ileso, embora eu possa satisfazê-lo plenamente, tendo em vista, anatomicamente, tudo se encontrar em forma, apenas sem sensibilidade. Posso afirmar que tudo vai bem, e a família também.

— Como você lidava com a sexualidade antes da paraplegia?
— Antes, nosso clima de sexualidade era muito bom. Os olhos, os sorrisos, estampavam o desejo. Havia uma necessidade enorme de estarmos juntos. A atração era, realmente, muito forte. Coisa de pele. Nós éramos mais jovens, os hormônios ouriçados... Havia muito encantamento e a química do prazer no ponto certo.

— E agora? O que mudou?
— É ainda muito bom. Tudo dentro do cronograma etário, e sei que vai continuar por muitos anos ainda. A gente sempre arranja um jeitinho para que o clímax fique melhor. O desejo de amar já é amor. Hoje não há orgasmo, tecnicamente falando, mas ele se manifesta de outras maneiras: no olhar, no suor, nos olhos, nas lágrimas, no aconchego, no estar junto sem dizer nada, na divisão de um copo de suco, na chegada estampada em passos... Tudo me ouriça, me cativa, me faz querer sempre mais. Tudo está na maneira de pensar e na disposição para achar soluções. Não podemos viver de lembranças. Nada nos acontece por acaso. Não cai fardo pesado em ombros que não possam carregá-lo. Contudo o contato físico, sexualmente falando, existe, sim, e bom, capaz de levar-nos à satisfação plena, o que eu costumo dizer: longe da terra e perto do céu.

— Como ficou sua relação com a vida após a paraplegia?
— Como disse, sou egressa de um colégio de freiras, onde aprendi os valores da vida, razão por que sempre tive a humildade por escudo. Olhando para trás, não me vejo uma pessoa má, uma pessoa que precisasse de uma lição. Eu era uma dona de casa dentro dos parâmetros da normalidade, mãe, estudante, uma vez que fiz faculdade depois de casada. Fiquei paraplégica um ano e meio depois que me formei em Direito. Entretanto a vida ficou melhor, tem mais sentido, é mais real. A cada esforço para me transferir para cadeira de rodas, reputo ser um tipo de oração, uma oportunidade para valorizar a vida, valorizar a família e a mim mesma. Assim a minha relação com a vida ficou melhor. Passou a ter mais sentido. É tão verdade, que tive crescimentos extraordinários, tanto profissionalmente quanto espiritualmente. Escrevi três livros: Pássaro Sem Asas, que já está na 6ª edição, Apenas Uma Flor e Nesgas de Saudade. Estes dois últimos são de poesias. Escrevo artigos para jornais, revistas, profiro palestras por aí, no Estado e fora dele. Cresci como pessoa e me gosto mais hoje. Minha imagem, sentadinha na cadeira de rodas, toca as pessoas. Isso me faz bem e é motivo de agradecimento. Surge a oportunidade de passar uma mensagem de otimismo, de ajuda, de garra, para significar que é possível viver. A deficiência é uma experiência natural da vida humana, e não é por causa dela que a gente tem de ser obstaculizada de perseguir sonhos, conquistar profissionalismo como todas as pessoas normais. Sou uma perseguidora de sonhos até hoje.

— O que sonha para você e a sociedade?
— Sei que as pesquisas científicas avançam. Estamos diante de uma revolução médico-tecnológica, sem precedentes, desencadeadora de processos curativos extraordinários. É o marco deste novo milênio, que enfoca o uso da clonagem de embriões, principalmente nas pesquisas das chamadas células-tronco, tentando buscar a superação dos problemas do ser humano. E essa experiência já está saindo do papel para a prática. Eu não sei se isso vai resolver para mim, mas no meu sentimento de amor desejo que essa pesquisa crie asas, crie formas, para devolver os movimentos a tantos paraplégicos, a tantos meninos que estão aí em cadeiras de rodas, e também saúde para outros casos. Gostaria que a sociedade soubesse mais sobre as condições de vida das pessoas com deficiência, para que as discriminações fossem banidas. Sonho com a ‘igualdade de oportunidades para todos’, e que o deficiente físico, principalmente o cadeirante, fosse visto pela competência e não pela cadeira que ocupa. Para mim, não consigo nem pedir porque tenho mais do que mereço ou preciso. Tenho uma família, um amor, um abrigo, um emprego e uma paraplegia que me faz melhor. Enfim, tenho paz, que mais poderia desejar?

— Em seu livro ‘Pássaro Sem Asas’ você mostra que fez várias adaptações domésticas para facilitar o seu dia-a-dia. E no trabalho e quando viaja, em hotéis, como você enfrenta as barreiras existentes?
— Hoje há uma consciência popular maior sobre a situação da pessoa com deficiência. Na minha casa, o meu marido desde os primeiros anos preocupou-se com as adaptações para que eu descobrisse o meu novo mundo, para que eu voltasse a ser produtiva. Tentamos sempre adquirir tudo o que me facilite o caminhar. É o que chamo de muletas externas. O Tribunal onde trabalho é servido por rampas, e tenho um banheiro decente que atende às minhas dificuldades, às minhas limitações. Recente foi instalado um elevador, especialmente para que o deficiente cadeirante pudesse acessar o andar superior. É o respeito às leis, além do real entendimento do slogan ‘igualdade de oportunidades para todos’, o que significa que os dirigentes do Tribunal são pessoas de espíritos evoluídos. Tenho tido dificuldades para entrar nos banheiros dos hotéis durante as viagens. Aí a criatividade e o improviso se encarregam, preocupando-me para não ficar triste. Às vezes, lavo o rosto com toalha molhada, fico sem tomar banho, lavo as axilas, as partes íntimas [risos]... Tendo o marido por perto, tudo fica fácil, embora não deixe de reclamar (da falta de adaptações) para criar consciência popular. Não me constranjo em subir escadas nos braços de alguém. Faço isso para que outras pessoas vejam. Pode ter ali um futuro arquiteto, um futuro engenheiro, solo fértil para o plantio da semente.

— Como você vê o preconceito em relação à pessoa com deficiência?
— Ele existe e não será banido tão cedo, não só em relação às pessoas com deficiência, mas em relação às minorias. Isso é cultural. Vem de longas datas. Na Grécia antiga, as crianças que nasciam com deficiência eram tidas como seres sem alma, abandonadas para morrer. Os cristãos achavam que era um castigo de Deus. Ainda hoje a cadeira rodas passa uma idéia de mendicância. Há sempre sentimento de piedade, de medo, e quase nunca o de respeito. Mas isso a gente vai tirando de letra, mostrando o outro lado. Não há discriminação que resista à competência. O importante é ostentar a coragem e seguir em frente, desafiando as impossibilidades.

— Em outras entrevistas com mulheres que ficaram deficientes físicas pude perceber que elas falam pouco sobre a questão da sexualidade. Dentro de sua experiência de vida e também como autora de um livro que aborda também essas questões, gostaria de saber a sua opinião. Por que há esse receio quando o assunto é sexualidade?
— É falta de amor para consigo mesma; é falta de auto-estima e até de conhecimento, porque estar deficiente não significa estar morta ou assexuada. A mente e o coração estão ilesos, além do sentimento de amor que temos pelo parceiro. O ato sexual não é somente a penetração do membro viril, envolve muito mais. Assim não cultivar essa forma de amar é se menosprezar, é se anular e, além de tudo afastar o companheiro ou não atrai-lo. Sempre há uma saída. Não há portas que não se abram. Particularmente, tenho um fascínio por portas. Estou sempre imaginando o que há por trás. Temos que usar a criatividade, a fantasia, a ternura, os enleios das mãos, da voz, do sorriso e saber aproveitar o que nos encanta no parceiro, procurando dar e receber. Com uma lesão alta igual a minha, a ausência da sensibilidade é total. Não sinto sequer a penetração durante o ato sexual. Mas quantas outras carícias eu posso fazer? A natureza é sábia! O prazer, geralmente, é transferido para outras áreas do corpo. Basta procurar. No meu caso, e para minha satisfação, as axilas substituíram os enleios de prazer do órgão genital. Entre duas pessoas que se amam, no recôndito de quatro paredes, tudo é normal. Vamos procurar, vamos pesquisar... Por que não procurar outros pontos eróticos que não nos deixem a ver navios!? O importante é a gente pensar que é boa no que faz e procurar o prazer na mente, no coração, no aconchego, numa encostadinha de rosto, num beijo... Tudo isso tem muita importância. Descobri que o beijo ficou mais gostoso, as carícias nos lóbulos das orelhas, no pescoço, nos seios, nos cabelos... Eu nunca havia pensado nisso antes. Realmente, as pessoas que assim não agem estão se anulando, fazendo-se refém da paralisia, mentalmente, inclusive. Eu sou mente, sou comando, não vou permitir que umas pernas estáticas, uma dormência afoita comandem-me o cérebro e o coração. Isso, nunca! Continuo fêmea e me orgulho dessa condição. Tenho um artigo intitulado “Não somos assexuados” em que abordo esse assunto, pois a mídia é a grande responsável por essa pecha que recai sobre nós, incluindo as novelas. Como formadora de opiniões, a mídia deveria construir, arremessando-nos à busca de soluções, tentando melhorar o porvir.

— E como você vê os profissionais que não se voltam para a questão da sexualidade da pessoa com deficiência?
— Eu fui reabilitada no Hospital Sara Kubitschek, em Brasília. No início, fiquei avessa a esse assunto, tendo em vista pensar que iria recuperar tudo. Entretanto, lembro-me bem de que a minha fisioterapeuta, Mércia, mostrara-me revistas americanas, explicando-me como eu iria fazer amor. Só que não dei importância, razão por que tive que pagar o preço com as próprias experiências, as próprias buscas. Às vezes, os prestadores de cuidados não nos incentivam nesse particular, por não sermos detentores dos movimentos físicos e da sensibilidade, acreditando que a sexualidade não se faz mais necessária. É como se estivéssemos sendo condenados ao exílio. O crime: prazer sexual. Ledo engano! São necessários estudos e nova mentalidade que qualifiquem os profissionais dessa área, além de literatura informativa, também para o paciente e sua família.

— Durante estudos bibliográficos, descobri que para o homem que adquiriu uma deficiência física a medicina está munida de recursos para garantir a sua vida sexual. Como por exemplo: próteses penianas, drogas vasoativas, viagras entre outros. Para as mulheres restam apenas os cremes, os perfumes, essências para o corpo todo... O que você pensa a esse respeito?
— Nós mulheres temos um privilégio sobre os homens: não carecemos de ereção para fazer amor. Nosso órgão genital é côncavo, próprio para o encaixe do membro masculino. Somos agentes passivas, recebedoras. Assim, a nossa maior parte fica por conta da criatividade, da ternura, da astúcia, do que só nós na condição de fêmea sabemos engendrar. Além disso, temos que querer ficar atraentes, agradáveis, entrando aí o uso dos cremes, óleos, que ouriçam o desejo. Se a paralisia não melhora, melhoremos nós. A dormência não vai regredir. A receita é transferir para outras áreas a sensação que sentíamos na genitália, além de procurar encantar-se com o parceiro, uma vez que a relação sexual jamais acontecerá plena, solta, bonita e sublime, sem um sentimento de admiração, pois é uma transferência mútua de energia que nos abastece, tornando-nos plenos, renovando-nos a felicidade do existir.

— O Fabiano Puhlmann, no livro ‘A Revolução Sexual Sobre Rodas’, fala que a pessoa quando adquire uma deficiência acaba desenvolvendo habilidades e sensibilidades antes desconhecidas. E você, em seu livro Pássaro Sem Asas, diz que desenvolveu essa sensibilidade principalmente nas axilas. Poderia falar mais sobre isso, como foi essa descoberta para você?
— É. Alguns leitores ficaram surpresos com a idéia de fazer amor nas axilas e até pesquisaram, comprovando a existência de prazer. Restaram-me as axilas, por que não as experimentar? É uma preparação, antes da cópula propriamente dita, que me deixa feliz, que me faz mulher. Também mereço sentir prazer. O beijo mais vagaroso, mais profundo, mais silencioso, com exploração do palato, acompanhado, é claro, da masculinidade e dos odores tão queridos do parceiro, deixam-me muito fêmea e emocionada, chegando a tremer o que me resta ileso. Continuo dizendo: o homem só fracassa quando desiste de tentar. Costumo afirmar como Aristóteles Onassis: todos os dias eu me levanto para vencer!

— Eu gostaria de saber, se você tem algo mais para acrescentar que acha que seria importante dizer e que não foi dito.
— Eu agradeço muitíssimo pela entrevista. Durante todo o tempo estive devassando a minha privacidade, mas sei que com isso contribuo para dias melhores de nossa categoria. Ouso dar um último conselho à pessoa com deficiência: cultive sua auto-estima! Vá à luta! Você deve ser a arquiteta do próprio destino. Reinvente a vida. Aplique remendos, faça consertos... Aprenda a ver os pontos positivos que existem em você, pois não há nada tão feio que não tenha alguma beleza e nem tão bonito que não tenha alguma feiúra. E disso tudo, o que mais importa é a mente bem direcionada, enfeitada pelo desejo de querer viver bem. Nunca deixe de sorrir, nunca deixe de procurar, porque quem procura acha. Nunca deixe de sonhar. Você é do tamanho do seu sonho.

Genaura Tormin

Genaura Tormin
Publicado no Recanto das Letras em 01/03/2007
Código do texto: T397636

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

POEMA TRISTE


POEMA TRISTE
(Genaura Tormin)

Quero fazer um poema triste.
Que não fale de amor,
Nem de festa,
Nem de flores.

Quero falar de mim.
Desta solidão,
Jeito único,
De postura estática,
Interminável,
Irreversível.
Deste calafrio
De ossos em desuso.

Quero falar
Deste sufoco no peito,
Sorriso sem jeito,
Impotência que cerceia,
Feito peias
Ou sereias.

Amarras
Que escravizam,
Matam
Ou sublimam,
Fazendo incursões ao infinito,
Aperfeiçoando este meu espírito
Para bailar
Noutras fantasias.

domingo, 4 de outubro de 2009

PESSOA COM DEFICIÊNCIA FÍSICA


PESSOA COM DEFICIÊNCIA FÍSICA
(Genaura Tormin)

Senhores e Senhoras,

Para mim é muito fácil e prazeroso assumir todas as idades, todos os papéis. Mas este de paraplégica não estava no “script”. Apesar de esquisito, estou tentando sair-me bem.

Agora, não pulo corda, não ando de bicicleta... Recebi uma dura sentença por crime que não cometi nesta vida. Mataram minhas pernas em mim. Poderia tê-las usado muito mais vezes! Poderia ter andado descalça, feito grandes caminhadas, pisado na grama, na areia, no barro... Poderia ter evitado veículos... Enfim, poderia ter usado muito mais o meu caminhar faceiro, dançarino, rebolante.

Mesmo assim, ainda corro atrás da vida para que ela não corra atrás de mim. Corro atrás de minha evolução como caminhante dessa íngreme estrada. E na minha fantasia, sou a campeã dos meus aprendizados. Se minhas pernas fisicamente estão mortas ou incapacitadas, o meu coração é vivo, o meu desejo latente e o sorriso aflora sempre até os cantos das orelhas. Eu estou viva!!!

Com isso, eu quero demostrar que a vida é efêmera, finita, e as fatalidades não avisam. Não escolhem status, raça, cor, sexo ou credo. Por isso, não devemos deixar para amanhã o que podemos fazer hoje. Devemos viver todos os momentos como se fosse o último, tentando ser feliz e fazer felizes as pessoas que nos cercam.
Às vezes, quando estamos nos píncaros do sucesso, somos atirados inexoravelmente ao caos. É chagada a hora do resgate do carma. Foi o que aconteceu comigo!

Após uma festa em minha casa, quando me sentia de bem com mundo e com a vida, dormi sã e acordei paraplégica, vítima de uma virose que me meou o corpo, sem sequer alertar-me com uma subida de temperatura. Na realidade, um turbilhão de dificuldades nunca imaginadas. Uma jovem mulher reduzida a cabeça, seios e braços. O resto, morbidamente alheio ao meu comando: dormente como se não fosse meu.

Não obstante haja envidado muitos esforços para reverter o descalabro da situação, eis-me, após todos esses anos, irreversivelmente paraplégica. Com uma vida de muitas batalhas para não ser escória de uma sociedade que, geralmente, só aceita os fortes, perfeitos e vencedores.

Guimarães Rosa dizia que viver é muito perigoso. Por isso, devemos ser forjados a ferro e fogo para termos condições de nos erguer quando a dificuldade bater. Afinal, a mente estando ilesa, há motivos suficientes para dirigirmos ainda o nosso destino, mesmo através de um corpo com funções mutiladas.

Não podemos ser excluídos do sistema socioeconômico e político do País, pois, VIDA, não significa somente pernas, mas, sobretudo cabeça, mente, raciocínio, espírito e coração. O resto, dá-se um jeito.

Entretanto, tenho consciência de que o corpo físico nada mais é do que uma farda de carne que envergamos para cumprir o nosso desiderato neste planeta. Por isso a vida é uma curta viagem em que não se pode perder tempo. Até dos dissabores devemos tirar proveito.

Após a morte, fim do nosso corpo físico, gostaria que os meus órgãos fossem utilizados para fazer pulsar um coração cansado; dar luz a olhos que nunca enxergaram; audição a quem nunca pôde ouvir uma música, o zumbido das abelhas, uma declaração de amor...

Queria que até as mínimas partículas servissem de material didático aos futuros médicos. E o resto, quando nada mais tivesse serventia, deixado num lugar tranquilo, sob a terra pura, sem concreto, porque assim ainda serviria de adubo para florescer um gerânio vermelho, símbolo de minha luta pela vida.

Acredito num Deus perfeito do qual somos a criação. O espírito não desce à sepultura, transcende à Casa do Pai. Daqui não levaremos nada, apenas o bem ou o mal que tenhamos praticado. Acredito que já vivemos muitas vidas e viveremos muito mais outras. Elas agem em nós feito um processo lapidador, respeitando o livre arbítrio.
Por isso, este é um mundo de provações, próprio para o resgate de erros do passado. Ninguém reencarna sem uma cruz para carregar. É o que se chama de carma, que pode ser de ordem física, moral ou financeira.

Com esse entendimento e partindo do princípio de que o PAI é JUSTO, a aceitação do carma reverte-se em escadas para subirmos cada vez mais alto. Assim, aceitar a reencarnação significou aceitar a mim mesma. Significou a dura tentativa de relacionamento pacífico com o meu corpo paralítico.

É bem sabido que vivemos num dos maiores países do mundo! O terceiro em extensão territorial. É um País rico, detentor do maior ecossistema, destacando-se em todo o cenário mundial por suas matas, flora e fauna, além das riquezas minerais, que o classifica como a décima economia do planeta.

É um País sem guerras, sem vulcões, sem terremotos. Entretanto situa-se entre os de terceiro mundo. Como todo país em desenvolvimento, tem os seus problemas: a educação, a segurança, a saúde, e muitos outros. Entre esses, está a situação das pessoas portadoras de deficiência física, cuja noção está ligada ao problema geral da exclusão. Vítimas de problemas congênitos, enfermidades ou causas traumatológicas, que na visão da Doutrina Espírita, nada mais é do que o resgate dos nossos erros, perfaz 10% de todo o seu contingente. Portanto, 16 milhões de pessoas deficientes permeam as terras brasileiras.

Como toda minoria, são relegadas a segundo plano, tendo em vista não existir uma consciência popular valorativa sobre os seus potenciais, como se a cabeça estivesse na disfunção de um membro locomotor ou no atrofiamento de um braço.

Ter um defeito físico, andar numa cadeira de rodas, geralmente significa ser inválido, estar cerceado do sagrado direito de sustentar-se com o fruto do próprio trabalho. É a chamada rotulagem despreziva que tanto mal nos faz.

Os órgãos estatais fecham as portas. E para qualificar-se nem se fala, pois as barreiras arquitetônicas das escolas relegam o aluno, logo no primeiro dia de aula, bem como o mobiliário das cidades e o transporte coletivo, que não são planejados para esses “imperfeitos seres”.

A discriminação por parte da própria família, que tem por tradição esconder os seus deficientes, é a mais crucial, numa amostra, sem dúvida, de desumanidade. É o retrato de um País que não encara os seus problemas, não sabe transformá-los.
A sociedade não sabe conviver com essas pessoas. Ainda não conseguiu entender que o maior potencial humano é a mente e, se essa está ilesa, a vida é possível e o trabalho é digno dentro da capacitação.

Além de tudo, não conseguiu entender a participação no resgate do carma, evidenciando-se a lei do retorno. As pessoas que nos cercam são necessárias e estiveram conosco noutras paragens, aliviando seus débitos por meio do trabalho interativo às amarras de nossas deficiências. Por vezes, de acordo com a qualidade de aceitação, serão mais privilegiadas do que nós, no plano espiritual.

A informação e o espírito de solidariedade ainda são muito pequenos entre nós. Nunca paramos para pensar como é o dia-a-dia de uma pessoa que tem por pernas quatro rodas de uma cadeira. Estamos sempre ocupados com os nossos próprios problemas, esquecendo-nos de que as fatalidades não avisam nem escolhem status.

Quando deparamos com alguém de muletas ou cadeira de rodas, a idéia é de que está aposentado ou aposentando, embora sirvam as pernas, apenas, para cumprir a simples missão de andar. Se a pessoa for do sexo feminino, principalmente, presume-se logo que jamais encontrará companheiro. Se a sequela for recente, fatalmente será abandonada por ele. É como se, de repente, o ser humano se transformasse num objeto sem valor.

É raro vermos uma pessoa deficiente física ocupando um cargo público de comando. Se a fatalidade ocorre durante o exercício dele, a aposentadoria é compulsória, sem nenhuma chance de readaptação dentro do órgão. Sequer pensa-se numa transferência para outro cargo mais compatível com a limitação física adquirida. Simplesmente, descarta-se. Afinal, estamos na era dos descartáveis. É um marco da personalidade brasileira e do machismo arraigado de governantes desinformados que não sabem buscar, transformar, aproveitar, mesmo tanto tempo depois da teoria de Lavoisier: “...nada se perde, tudo se transforma”. Quando uma parte do corpo se fragiliza, as outras se encarregam do trabalho, provando que não há problema sem solução.

A mídia é a grande responsável por essa imagem tão negativa do deficiente físico. Fulcrada em desinformações, as novelas banem até a sua sexualidade, forçando-o, mesmo, a tornar-se um cadáver vivo. Estar deficiente fisicamente, não significa estar assexuado. Sempre há uma saída, tendo em vista a lei da compensação e a perfeição da natureza.

É costume, também, mostrar a penúria, a fatalidade, a invalidez do incapacitado físico, e nunca o seu trabalho digno, a sua competência, o seu esforço para vencer barreiras. Vê-se sempre o invólucro, e nunca o conteúdo. É pena que não entenda que do mínimo indispensável é possível construir uma obra de arte. “O essencial é mesmo invisível aos olhos. É preciso buscar com o coração”.

Apesar de não sermos detentores dos nossos movimentos físicos, não precisamos da caridade pública e não devemos ser excluídos do direito de participar da vida do País. Precisamos ser reconhecidos como força de trabalho, com o direito de competirmos e mostrar que somos capazes, quebrando tabus, preconceitos e discriminações.

O trabalho é uma verdadeira terapia ocupacional que nos devolve o sentimento de utilidade. É a oportunidade merecida para provarmos que poderemos ser, não apenas força produtiva, mas, força transformadora, aumentando a esperança num País justo e progressista, diminuindo-lhe os problemas sociais, além de servirmos de motivação e incentivo aos muitos paralíticos andantes, que se alicerçam numa ociosidade crônica para nada fazerem ou mal fazerem.

Ouso dizer que não se deve dar ao homem o que ele pode conseguir com fruto do seu trabalho, sob pena de roubar-lhe a dignidade.

A Constituição Federal de 1988, reconheceu direitos à pessoa deficiente, abrindo-lhe mercado de trabalho. Agora chegou a hora de provar a que viemos. Chegou a hora de mostrarmos à sociedade que o mais perfeito caminhar executa-se com mente, além do famoso “querer é poder”. Chegou a hora de darmos o exemplo.

“Se a gente não pensar que quer sempre mais, fatalmente terá sempre menos. O homem só fracassa quando desiste de tentar. Todos os dias me levanto para vencer” — disse Aristóteles Onassis.

É bom que nos engajemos em associações classistas para conseguirmos prática de vida, mercado de trabalho e qualificação para tal. É lá que encontramos pessoas iguais, com as mesmas amarras físicas, mas com grande desejo de conquista, pois poderemos ser vítimas do destino, não da indiferença.

Não obstante os muitos cerceamentos que sofremos na pele, impostos pela deficiência, temos que rebatê-los com uma só ação: CORAGEM! Coragem de ir à luta e vencer, deixando sempre à amostra a competência, o preparo técnico científico peculiar ao desempenho da função que conquistarmos, nunca nos escudando sob o pretexto da deficiência para auferirmos vantagens ou buscar protecionismo. Não há discriminação que resista à competência.

Agora, resta-nos exigir o cumprimento das leis na satisfação dos direitos. Necessário se faz um trabalho conscientizador a partir do próprio deficiente, da sua família (que deve se engajar) até a sociedade e governantes, tão desinformados sobre os potenciais humanos. É preciso que a sociedade troque os sentimentos de paternalismo, compaixão ou desprezo por outros valorativos, respeitosos e reconhecedores, devolvendo ao deficiente físico a cidadania, o direito de participar dessa caminhada que chamamos de VIDA.

E foi por tudo isso que resolvi escrever PÁSSARO SEM ASAS. Um livro autobiográfico, corajoso, em que me desnudo, viro-me do avesso e conto ao leitor toda a minha trajetória depois dessa nova condição de rodante: avanços, derrotas, conquistas, aprendizados, até as verdades mais recônditas e inconfessáveis. Não, como uma história que haja acontecido no estrangeiro, mas um fato verdadeiro, acontecido aqui mesmo, entre nós, cuja protagonista não foi feliz para sempre, como nos contos de fadas, faz-se feliz, viva e atuante.

Paraplegia não é problema apenas de quem a tem, mas um problema de contexto, pelo menos familiar, já que em nível de Estado, há muito a desejar.
A família deve vestir a camisa, inserir-se no esquema e, dentro da responsabilidade/amor, propiciar ao deficiente espaço arquitetônico viável e adaptações domésticas para que ele descubra seu novo mundo ou sua nova liberdade.
Esse amor de que falo, não deve ser entendido como excesso de paternalismo que tanto mal nos faz, impedindo-nos de alçar vôos às conquistas, mas, sobretudo, deve ser o amor/respeito que não nos destitui da condição de ser humano atuante e não nos rotula de inválidos, pois a verdadeira invalidez está na mente de quem não tem e não sabe transmitir otimismo e coragem.

Nós, deficientes, não devemos permitir que os sentimentos de compaixão ou repulsa releguem-nos à inutilidade, conduzindo-nos à inércia. Com tenacidade mostraremos o valor do nosso trabalho e as discriminações só persistirão se nós as aceitarmos, fazendo-nos de vítimas da vida, apresentando indolência, insegurança, subserviência, buscando protecionismo sob o álibi da deficiência física.

Precisamos lutar pelo reconhecimento da igualdade jurídica e pelo direito ao trabalho, máxima maior estampada na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Lutar, igualmente, pela acessibilidade ambiental, urbanística, requisito básico para que o deficiente viva com dignidade.

O código de edificações urbanas deveria rever esse assunto. As calçadas e os meios-fios sem rebaixamentos. Transportes coletivos, sem as mínimas condições para a abordagem de um paraplégico.

Bom seria se houvesse leis que obrigassem a feitura e execução de projeto universal, com integração de acessibilidade a todos. É o que se chama “projetar acessível”. Afinal, formamos uma sociedade heterogênea. Onde estão os nossos velhos, as nossas crianças, os nossos deficientes? Que diferença dos países de primeiro mundo!

É dever do Estado cuidar da habilitação e reabilitação do deficiente físico, integrando-o no mercado de trabalho, além de preocupar-se com o atendimento especializado nas áreas da educação e da formação profissional, pois, muitas vezes, para o deficiente, o trabalho pode ter fins terapêuticos, melhorando sensivelmente sua saúde física e mental, aumentando-lhe a auto-estima, respeitando assim a sua dignidade de pessoa humana, como um dos fundamentos da nossa Carta Magna.
Por isso, é preciso correr atrás do estado de felicidade. Ocupar a mente, trabalhar, doar-se, é a melhor receita.

Com esse entendimento e alicerçada no incentivo da família, que me ama e não castra as oportunidades, mesmo ao arrepio de toda a deficiência física, preparei-me e classifiquei-me muito bem para o cargo de Delegado de Polícia de Goiás, e o exerci com presteza, durante 13 anos, ocasião em que, também por concurso público, ingressei no Judiciário Federal, atuando, hoje, no Tribunal Regional do Trabalho do meu Estado.

Quero dizer que os problemas só existem se nós os registramos como tais. Quando a gente se aceita como é, tudo fica normal e simples. As dificuldades são creditadas como mérito nosso.

Aliás, as maiores limitações são as que criamos em termos de afirmações psíquicas. Quantas vezes damos contornos catastróficos a problemas tão pequenos e tão fáceis de serem resolvidos.

Quando temos alguma iniciação da Doutrina Espírita, com certeza, conseguiremos ver os problemas de outra forma. Às vezes, tornam-se um privilégio. Se eu não fosse paraplégica não estaria aqui passando este testemunho de vida. Não teria escrito Pássaro sem asas, que alcança um próximo um pouquinho mais longe. E por isso, pesa-me também responsabilidade.

Sinto-me, conotativamente falando, como um bovino que leva a marca do seu dono, por meio de ferro quente. Pertenço a alguém. Isso não é ótimo? E estou a resgatar alguma coisa que realmente fiz. Tive essa oportunidade. Estou numa redoma.

Hoje, sinto-me adaptada à vida! Sei que ela se adaptou a mim também. Entretanto, já entendo que a minha cadeira de rodas é uma dádiva. Devoto-lhe gratidão. É por meio dela que ando, lido, participo da vida lá fora e nivelo-me aos demais.

É, também, por meio dela que me permito lapidar o meu espírito rebelde, tentando fazer algum bem, passar algum alento de experiência, de trabalho, de coragem às pessoas com quem mantenho algum diálogo ou que leem o meu livro. Não é para isso que estamos neste trajeto que chamamos de vida? Não poderemos partir de mãos vazias!
PÁSSARO SEM ASAS - uma história de vida ou memórias romanceadas - caracteriza-se por sua mensagem positiva, desbravadora, alicerçada no otimismo, transformando derrotas em conquistas. Para mim, é quase uma missão. E por isso não perco a oportunidade de fazer denúncias, cobranças, exigindo respeito a quem, num qualquer da vida, vê romper-se a farda de carne para dar início ao resgate do carma.

Jean Paul Sartre dizia que “o importante não é o que fizeram do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele”. Acredito estar assimilando a sua máxima. Confiram no meu livro! Leiam-me!

Sinto-me muito cativada pela presença de todos vocês, principalmente pelo carinho de dona Antonieta, pessoinha maravilhosa que me convidou para aqui falar de PÁSSARO SEM ASAS, meu tema predileto, por levar a todos uma consciência valorativa sobre as pessoas com deficiência física, mostrando que a vida é possível e o trabalho também.

Em caráter especial, queria fazer uma homenagem aos meus quatro filhos, centelhas de amor que Deus permitiu-me nesta vida, alicerce seguro de todas as minhas conquistas; nascedouro inesgotável de forças, incentivos, que me faz caminhar, mesmo sem o uso das pernas.

Em particular, ao meu marido ALFREDO, que em nenhum momento tem-se cansado da caminhada. Combativo, determinado, não tem poupado esforços para devolver-me não duas pernas, mas uma miríade delas. Sinto-me uma CENTOPÉIA. Nossa cumplicidade tornou-nos imbatíveis e unos. A ele o carinho dos seguintes versos:

INDIVISIBILIDADE

Quando tu partires
irei contigo.
Levarei o aconchego da noite
para te fazer feliz.

Serei suave,
feito o balanço do mar,
para te amar,
amor.

Irei contigo
aonde fores.
Tuas pegadas
serão as minhas pegadas,
e eu te adorarei
em todos momentos.

Não choraremos
porque as lágrimas secaram
com o sol da manhã,
fazendo-nos fortes
a qualquer embate.

Irei contigo
até o infinito,
onde tudo é perfeito,
sem dor,
sem mutilação,
sem horror.

Irei contigo,
amor,
porque faço parte de ti.
Tu és tudo
que sempre cultivei em mim.

Assim,
seremos indivisíveis,
unos e eternos.

Obrigada!
Genaura Tormin

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)


"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)