PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

DELEGADA DE POLÍCIA PARAPLÉGICA, PODE?




DELEGADA DE POLÍCIA PARAPLÉGICA, PODE?
(Genaura Tormin)

Pois é, exerci com galhardia, dedicação e competência esse cargo, embora do alto de minha cadeira de rodas, companheira inseparável há 27 anos. Hoje estou no Judiciário Federal e me sinto honrada de emprestar minha cota-participação de trabalho ao meu País.

Relembrando o início dessa militância, em condição inusitada e num cargo tão difícil e complicado, vai aí um pequeno relato daquele tempo em que o desafio pautou a minha vida, fazendo-me forte a qualquer embate.

Gerindo os destinos de mim mesma, ia armazenando segurança no começo de uma nova vida. Reunia todas as migalhas do que me fosse útil e estava a construir uma fortaleza. Alçava meus voos domésticos, progredia no trabalho e ficava satisfeita com o reconhecimento popular. Era comum alguém do povo exclamar: — Vi a senhora na televisão, mas não sabia que era paraplégica. Que pena!

O cinegrafista não focalizava a cadeira de rodas durante as informações que, por vezes, tinha que prestar em frente das câmeras sobre trabalhos presididos por mim na delegacia. Talvez quisesse demonstrar-me um gesto de carinho.
Certa vez, expliquei-lhe que a cadeira fazia parte. Não podia locomover-me sem ela e não tinha o menor constrangimento. Afinal era o meu jeito de andar.

— São as minhas pernas de aço, os meus nervos inquebrantáveis... Pode mostrá-los ao público. Não me menosprezará por isso.
A repórter que ouvia as minhas explicações, para justificar diante das câmeras, revelou ao telespectador que eu era uma deficiente de cadeira de rodas, e, em seguida, dirigiu-me a palavra:

— Como a senhora pode exercer o cargo de Delegado de Polícia, numa cadeira de rodas?
Com o meu instinto poético e tentando ser abrangente na resposta, também, às muitas perguntas que me haviam sido feitas pela vida afora, expliquei:

Quero dizer a vocês,
Que a mente não está nos pés,
E aqui, na minha cadeira,
Trabalho por mais de dez.

Quem me conhece, já sabe
Da minha capacidade,
Não me curvo por besteira
E luto com hombridade.

Mato a cobra e mostro pau.
Medo, não tenho não.
Já mandei prender bandidos,
De estuprador a ladrão.

Lembro-me do grande Franklin,
Dos Estados Unidos, presidente,
Em tempos reacionários,
Exemplo pra muita gente.

Por isso estou aqui,
Em condição inusitada,
Pois sei que neste Planeta,
Não tem uma delegada

Numa cadeira de rodas,
Que seja capacitada,
Faça inquéritos e flagrantes
Numa Especializada.

Mente sã é corpo são,
Por isso não tenho nada,
Sinto-me com pernas fortes,
Numa cadeira sentada.

Na rua dirijo carro,
Faço compras e viajo,
Trabalho, leciono e nado.
É só questão de estágio.

Para os que não me conhecem,
É essa a informação,
Moradores da cidade
E outros que aqui estão.


Assim matei a curiosidade do telespectador, mostrando-me por inteira, sem reticências.

Depois desse episódio, foi-me nascendo o desejo de abrir as portas ao público, não só no meu trabalho, mas na minha intimidade depois da paraplegia. Senti que o povo nada sabia sobre pessoas com deficiências, razão por que as julgava inválidas, como se a cabeça estivesse no dedão do pé, devotando-lhes, ainda, desairosa compaixão que tanto as prejudica.

Eu, também, quando andava, nada sabia sobre paraplégicos. Nunca parei para pensar. Eram coisas alheias ao meu convívio. Deixa pra lá! Estava muito ocupada com os problemas, os sucessos e enleios da vida. Não transava o assunto, assim como a maioria da nossa gente. Jamais imaginei que a sensibilidade tátil ia de embrulho por acréscimo. Realmente, o pior só acontece aos outros, nunca à gente!

O desejo foi crescendo, crescendo, tomando formas, amadurecendo, e embora tivesse que desvestir a dor para erigir marcos benfazejos em defesa do porvir, eis que PÁSSARO SEM ASAS surgiu radiante, feito uma cartilha para ajudar outras vidas, abrir caminhos e falar de amor, de possibilidades, de desafio e de muitas conquistas.

Genaura Tormin é autora dos livros:

PÁSSARO SEM ASAS,
APENAS UMA FLOR,
NESGAS DE SAUDADE

www.Genaura.blogspot.com
Recanto das Letras,
Editora virtual

Um comentário:

  1. E por fim, Genaura Tormim é águia que consegue se transformar em rouxinol, capaz de grande vôo no lugar de passos, descobrindo que entre a distância que há do espaço à terra, existe um campo energético próprio que a muito poucos é dado a conhecer, campo de conhecimento repartido, somado e dividido com cada ser mais próximo, que assim deve ser, para isso a sociedade existe em seres humanos à saciedade, nas funções que desempenham pra vencer a solidão, que tornaria a cada um, no seu indivisível impróprio, um imenso e absoluto nada. Felizmente, assim não sendo, vamos fortalecendo a corrente de elos, cada qual especial na forma do encaixe certo, acoplados e acoplando-nos no amor e na capacidade, nata, que nos é, sempre, delegada pelo Maior dos construtores do Universo, que não nos pergunta se estamos prontos ou não, estipulando o trabalho no momento certo em que como trabalhadores estejamos pronto, minha querida amiga Delegada.

    Beijos

    Márcia Vilarinho

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LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)


"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)