PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

domingo, 29 de novembro de 2009

PASSOS VARRIDOS


PASSOS VARRIDOS
(Genaura Tormin)

Senhor dos céus, dos mares e da Terra,
Dá-me um pouco de paz!
Nessa caminhada que tanta dor encerra,
Aquece meu coração que em tristeza jaz.

Aumenta-me a fé, reforça-me a coragem!
Alicerça o meu espírito na sabedoria!
Os passos já não palmilham a rodagem.
Há muito se esqueceram da harmonia.

Os braços trabalhadores quedam-se cansados,
E a vida começa a perder toda aquela magia!
Faltam o calor, o encanto, a força do abraço,
O amor, o afeto e o sorriso farto.

A vereda, antes florida de alamandas,
Enfeita-se hoje de luta, sem lenimento.
O caminho parece ainda tão longo
Aos meus passos varridos pelo tempo.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

PÁSSARO SEM ASAS


PÁSSARO SEM ASAS
(Genaura Tormin)

PÁSSARO SEM ASAS surgiu com a dor. É uma história de vida ou memórias romanceadas. Nele, devasso-me sem reticências depois de uma inesperada paraplegia. Conto todas as dificuldades, batalhas e aprendizado para sobrepujar a fatalidade. Para ser adotada pela vida.

Falo de mim, falo de amor, falo de dor, de vitórias e muito mais. Solto a lira de meus versos. Curto minha imobilidade. E os meus retalhos adormecidos ganharão movimentos algum dia. Quem sabe noutra galáxia.

PÁSSARO SEM ASAS é um misto de momentos lúdicos, sofridos, emocionados. Chega a porejar sangue. É o driblar de uma bola sem chutes, mesmo ao arrepio da vida.

A crença em mim mesma devolveu-me não pernas, mas ASAS. Sinto-me alada depois de tanta tempestade. Com elas cruzei horizontes, voei com os condores em terras calcinadas, extrapolei mares, venci tormentas e me encontrei.

As escarpas do caminho fortaleceram minha couraça rumo aos objetivos. Dentro de minhas limitações sou livre: corro em idéias, em versos, em trabalho...

Não sou vista diminuída, mas até acrescida. O meu trabalho tornou-me um ser humano inteiro. Por incrível que pareça, tornei-me uma Delegada de Polícia! Atuei na vanguarda contra a escalada do crime, como uma profissional inusitada, pelo menos, em visual.

Depois, também por concurso público, ingressei no Judiciário Federal, onde me sinto honrada de emprestar minha participação de trabalho. Afinal somos herdeiros dos nossos atos e senhores de nossas colheitas.

Que as minhas experiências conduzam o leitor à reflexão, fazendo-o descobrir que cada um pode ser a pessoa mais feliz do mundo, procurando ascender sempre rumo ao bem, creditando as dificuldades como mérito seu, uma vez que não há limites que obstaculize uma mente determinada.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

ALICERCES IMPORTANTES


ALICERCES IMPORTANTES
(Genaura Tormin

Ao contrário de muitos outros pacientes, minhas aquisições estagnavam-se, isto é, não possibilitavam o meu caminhar, não ouriçavam os meus nervos esquecidos em algum lugar. Nada de alentador. Nada!

Havia aprendido todos os exercícios e os fazia com ganância. Cheguei a esfolar a pele do cóccix pela prática de duzentos e cinqüenta abdominais ininterruptos.

Lembro-me de que certo dia, quando andávamos pelo pátio do Hospital Sarah Kubitschek, deparamos com uma figura inusitada: uma senhora, possivelmente vítima de grande acidente que, ao andar, bruscamente jogava uma perna para um lado, fazia um rodopiado, esticava o braço em sentido contrário, meneava a cabeça, tempo em que emitia um som gutural.

Na base do pescoço, havia uma abertura com um orifício metálico (traqueostomia). Em uma das mãos, retesada e comprometida, via-se uma tabuleta com o abecedário, o que significava que ela havia, também, perdido a voz. Mesmo assim, andava, locomovia-se sozinha rumo ao ginásio de fisioterapia. Entre suspiros e voz embargada, eu disse ao Alfredo:

— Queria tanto andar, mesmo que o meu caminhar fosse igual ao dela!

Alfredo, comovido, abaixara-se defronte da minha cadeira e, praticamente, fizera-me uma jura de ajuda eterna, uma linda e emocionante declaração de amor. Enchera-me de forças, de energias positivas, de elogios, solidarizando-se com o meu caminhar perdido, afirmando-me que não se anda apenas com os pés.

Dissera-me que o mais perfeito caminhar é executado com o coração, com a alma translúcida e bela que às vezes chega a voar, planar sobre os grandes ideais.

Mesmo entre lágrimas de ambos, eu aceitei, enxuguei o pranto e juntos fomos para o ginásio. Com ele sentia-me segura, protegida. Ele sempre significou o meu chão, o meu equilíbrio.

E agora, muito mais! Significa a minha metade, o meu complemento, a âncora que me alavanca para que eu não me esqueça dos passos, mas veleje o mar bravio da coragem. Sem ele não há unidade. Eu sou parte do todo e o todo está em mim.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

JANTAR DANÇANTE




JANTAR DANÇANTE
(Genaura Tormin)



Ontem fui a um jantar dançante da associação de Delegados de Polícia. Sentada à mesa, ouvindo a seleção musical, por sinal, tão bem escolhida, veio-me à mente um fato, ainda recente, que me fez acirrar os meus conhecimentos como detetive. Aqui o narro a vocês:

Aprendi a conviver pacificamente com as amarras da deficiência. Não me reconheço no passado. Acho que sou uma nova mulher. Gosto-me assim. Consigo driblar dificuldades e isso significa muito para mim.

De todas essas dificuldades, a falta de sensibilidade é a que mais dói e a que mais deve ser observada.

Certa vez fui a um jantar dançante. Dias depois, minha família percebeu um enorme hematoma na minha região lombar, nível da cintura. Surpresa! Lógico, uma grande interrogação. Imbuindo-me do costumeiro papel de detetive de mim mesma, concluí que teria sido provocado pela dança na cadeira de rodas. Certamente, o cinto de metal formado de elos que eu usava naquela noite, provocara atrito nas protuberâncias da coluna vertebral. Hoje, danço sem o cinto de elos, mas importa-me muito os elos de afetividade que consigo ligar entre os meus leitores, entre amigos, entre as pessoas com quem desenvolvo algum diálogo. Minha meta é a paz interior e eu sei que a vida me aponta caminhos para isso. Como partícipe, sei que preciso dividir e a melhor maneira de pensar em mim, é pensar em todos. A felicidade coletiva necessita de coadjuvantes. Ela não pode existir sem esforços. E, com certeza, fiz-me recruta, estou alistada no batalhão desses servidores, por princípio, por convicção.

Não lamento o que fazia antes, mas fico satisfeita com o que ainda posso fazer. Acho-me perfeccionista e esmero-me na execução. Não sou narcisista, mas gosto de sentir o mérito da conquista.

Acredito em Deus como integração, por isso os meus retalhos adormecidos ganharão movimentos algum dia, quem sabe noutra galáxia.

Numa semelhança quixotesca, vou cruzando horizontes em vôos alados, impulsionada pelo reconhecimento e o carinho das pessoas que me cercam. O meu trabalho abre caminhos, cria consciência popular, valoriza seres humanos olvidados. E é isso que me gratifica. Vale por todos os salários recebidos. É o que posso fazer pelo meu irmão de barco, pela pessoa com deficiência física, geralmente, tão preterida neste País.

domingo, 22 de novembro de 2009

DISCRIMINAÇÃO EXISTE, SIM!


DISCRIMINAÇÃO EXISTE, SIM!
(Genaura Tormin)

Certa vez, na delegacia, recebi um bilhete, encaminhando uma senhora que estaria tendo problemas com o marido para as providências cabíveis. Minutos depois, a vítima entrara no meu gabinete.

O problema referido era, apenas, uma questão doméstica de ajuste familiar, paciência, relevação, em que ambos mereciam ser advertidos.

À luz do meu entendimento, a vítima era a principal provocadora da situação. O caso não carecia de medidas policiais.

Aproveitei do ensejo para dar "uma de psicóloga ou assistente social", ensinando à pretensa vítima um pouco de relações humanas, convivência, práticas logoterápicas, para melhorar o relacionamento em família.

Pouco tempo depois, encontrei-me com a autora do bilhete e perguntei por sua protegida.
— Ela voltou muito triste. Disse-me que não conseguira falar com a senhora na delegacia. Encaminharam-na para outra pessoa, que talvez nem delegada fosse, pois nenhuma providência tomara, limitando-se a dar conselhos, botar "panos quentes" e falar de paciência, afetividade como se fosse uma pessoa evangélica — disse-me a autora do bilhete.

É um fato típico de discriminação e falta de cultura popular sobre pessoas com deficiência física. Tenho certeza de que se eu não estivesse na cadeira de rodas, não teria sido vista dessa maneira, pois, visualmente, encontrava-me num gabinete condizente com o meu cargo, além da consciência de que tenho postura, competência e respeito pelo meu semelhante.

Depois dessa ocorrência, adverti o pessoal do apoio de que cada pessoa deveria ser informada do nome do delegado que lhe daria o atendimento.

É tão marcante esse tipo de discriminação, exercido por pessoas de todos os níveis, que, quando passei a trabalhar nessa Delegacia, a moça contratada para os serviços gerais servia cafezinho em bandejas às demais colegas delegadas, acompanhado, é claro, do tratamento hierárquico e as formalidades da boa educação.

Ao contrário, entrava no meu gabinete sem bater, com uma xícara entre os dedos, a qual deixava sobre a minha mesa, sem qualquer aceno de cortesia. Quando me dirigia a palavra, chamava-me pelo nome de "coisinha".

É possível que, além do meu nome, desconhecesse também o meu cargo, uma vez que ele induz autoridade e respeito.

Tão logo me foi possível, interessei-me por ela, dando-lhe um pouco de afeto, informando-a de que gostaria de ser chamada pelo meu próprio nome, ocasião em que lhe contei sucintamente a minha história, gerando um pouco de calor humano, propiciando-me até auxiliá-la na compra de material escolar para os filhos.

Além disso, com o meu trabalho, provei a ela e aos que não me conheciam, que a pessoa com deficiência é uma pessoa normal, não obstante as rodas da cadeira, como era o meu caso.

sábado, 21 de novembro de 2009

FATO EMOCIONANTE


FATO EMOCIONANTE
(Genaura Tormin)

Fato emocionante acontecera-me numa das últimas viagens ao litoral. Estávamos no calçadão, à beira da praia, defronte do hotel enquanto Alfredo passava-me filtro solar, pois o sol escaldante e radioso cascateava sobre as águas num convite irrecusável para um banho de mar. Com olhos sempre novos, observava tudo.

Admirava as pessoas, o mar com suas cristas espumantes, abraçado por um céu de azul turquesa, orquestrado pela sinfonia da folhagem dos coqueiros levada pela aragem marítima. Encantava-me com a garoa que respingava meu corpo ao som cadenciado das ondas. E foi aí que um grupo muito alegre de pessoas passara por nós. Ainda o olhei distanciando-se rumo às areias brancas da praia.

O ser humano ocupa o maior e o mais importante lugar no meu coração. São sempre seres plenos a enfeitarem os meus caminhos, nesse efêmero passeio pela vida. Reputo-os mestres, mesmo sem cartilha, sem palavras. Qual não fora a surpresa, quando o grupo inteiro retornara como se tivesse esquecido alguma coisa ou desistido do mar. Todos, com sorrisos estampando os rostos e numa só voz perguntaram-me: Você é a Genaura, não é? Lemos o Pássaro Sem Asas!

Aquilo foi emocionante. Pessoas esplêndidas! Que capacidade superior de afeto! Ficamos encantados e, por incrível que pareça, passamos aquele último dia do ano com elas. Tinham um apartamento de veraneio naquela praia.

Depois, fomos convidados para uma visita ao sítio da família. Dado o carinho, a sinceridade do convite e a alegria que nos tomava a alma, não podíamos mesmo deixar de aceitar. Acertamos que um cicerone viria nos guiar até o sítio. Ainda no hotel, antes da saída, recebi um telefonema perguntando-me qual a cor preferida entre o vermelho e o amarelo. Imaginei tratar-se de flores e respondi: VERMELHO!

A viagem fora ótima e curta. A recepção, excelente. O sítio assemelhava-se a um cartão postal. Avistado ao pé de uma montanha, parecia a terra prometida. Sua natureza verde contrastava a aridez das terras do local. Parecia um oásis. Poucas vezes havia-me deparado com paisagem tão linda. A casa estava em festa. Fomos recebidos com churrasco de carneiro e muita amabilidade.

Logo fomos encaminhados ao nosso quarto. Surpresa! Era uma linda suíte. Toda a roupa de cama de linho vermelho bordado, com toalhas felpudas vermelhas, além de linda rede da mesma cor. Também, um único botão de rosa vermelha ornava o recinto num solitário de prata. Da janela, um descanso para os olhos e festa para o coração: uma vasta planície de relva verde ao pé da montanha, enfeitada por coqueiros que tremulavam ao açoite do vento, feito bandeiras hasteadas.

Um cheiro de flores silvestres, de fruta madura, invadia o recinto numa suave brisa. O sol incandescente, daquela manhã, transmitia magia, mistério, e dava viço à relva, onde pastava um rebanho de brancas ovelhas sob um céu primaveril, bordado de nuvens movediças, feito flocos de algodão doce.

Logo pude compreender o segredo das cores: o quarto destinado aos nossos filhos era igualmente decorado de amarelo-ouro. Ficamos encantados!

A sala de jantar enorme, provida com duas grandes mesas de centros giratórios superpostos, exibindo as mais diversas e finas iguarias da região. Os serviçais amáveis e devidamente vestidos lembravam-me os requintes das tradicionais famílias imperiais. Tudo enfeitado por grande ternura.

No almoço, houve até discurso. E que discurso! A oradora era nada menos do que uma doutora em lingüística e mestra na Universidade. Elogiava meu livro e falava do bem que havia feito à anfitriã quando recomendado por um médico da Capital. Fiquei pasmada e realmente feliz. Quase não acreditava que era dirigido a mim. Precisava beliscar-me.

Além do carinho daquela gente, chamou-me muito a atenção a casa do sítio. Verdadeira casa-mor. Construída de pedras, suas paredes possuíam um metro e oito centímetros de largura. Teria pertencido a uma condessa nos primórdios do Brasil. Lembrei-me das Capitanias Hereditárias, dos títulos honoríficos... Como gostaria de pesquisar toda aquela história!

A casa muito grande, com muitos cômodos devidamente decorados parecia levar-nos ao passado. Arsenal de armas e montaria, muita prata, objetos e móveis antigos, por vezes, davam-me a impressão de que iria deparar-me com uma daquelas damas antigas vestidas a rigor, ou com um cavalheiro com penacho no chapéu.

Que passeio lindo! Que gente afetiva! Parece um sonho ou um filme a descortinar-se diante das minhas retinas. Como lembrar é viver, eu revivo sempre esses momentos lindos!

Ainda no litoral, fiquei sabendo que frases de Pássaro Sem Asas, em letras garrafais, encontravam-se afixadas em murais e paredes de clínica. É uma grande responsabilidade, mas pode ser também alguma ajuda para tornar acesos os sonhos adormecidos — pensei agradecida, mais uma vez, por haver tido a ideia de escrever o livro.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

EU PRECISAVA CHORAR


EU PRECISAVA CHORAR
(Genaura Tormin)

Acabo de assistir à uma cena da novela "VIVER A VIDA", em que a personagem Luciana, agora tetraplégica, atinge o auge do desespero e dá vazão à emoção que lhe escorre por todos os poros, por toda a sua alma, numa impotência que grita, rasga dimensões, extrapolando os limites do insuportável. Conheço essa limitação, embora em menores proporções, quando, também abruptamente, o destino achou por bem aparar-me as asas, tolher-me o caminhar faceiro pelas alamandas encantadas dos caminhos daquele tempo.

Quanta magia, quanta alegria, quanta vida estampada em passos ligeiros, jocosos, manhosos, dançarinos, enfeitados pela leveza e sensualidade de um corpinho lindo e um rostinho de um ser ainda tão menina.

O futuro bailhava-me na mente e o mundo era de muitas cores, com as quais eu desenhava um porvir risonho e doce.
Bela vida, vida bela!

Mas são sábios os designos da existência, e como a Luciana, o meu teto caiu muitas vezes, em convulsões e perguntas sem respostas, no silêncio ensurdecedor de mim mesma.

E uma voz inaudível gritava sem tréguas dos compartimentos da alma:
_ vá à luta! Sê forte!
Vc é soldado e não pode fraquejar!
A causa é únicamente sua, e outras batalhas ainda virão!

Hoje, muitos anos se passaram, e meus passos ainda não deixam as suas pegadas no chão, mas eu me sinto inteira, viva e contente!

Muito aprendizado nesse novo modelo de viver.
Arrisco-me a dizer, sem medo de errar, que sou muito, muito feliz assim.

Aprendi tantas coisas, as quais formam a minha bagagem, sem calos nos pés, que agora tentam ser mais velozes no deslanchar de quatro rodas para andar.

Voltando ao meu passado, àqueles caminhos de tantos predegulhos, registro aqui uma vazão daquele tempo, descrita no livro PÁSSARO SEM ASAS, de minha lavra, quando a tirania do destino, sem dó nem piedade, num preparo prematuro, talvez tentando reforçar a minha couraça para resistir os tornados que viriam, arrancou-me o ser que eu tanto amava - A MINHA MÃE! Às vezes penso que foi melhor assim. A vida não erra! Não gostaria de vê-la sofrer por mim! Tantos cerceamentos, tantas amarras gritantes, tanta paciência a exercitar, mas muitos aprendizados!
De repente, uma criança outra vez! :

Agora eu estava ali, lado a lado, nas mesmas condições daquelas pessoas, agravadas pelo pavor e a inexperiência da primeira vez. Era como se estivesse em camisa-de-força, presa por algo que não havia cometido.

O coração contorcia-se. As mãos fremiam enquanto um entalo tomava-me a garganta, enrubescendo-me o rosto e turvando-me as retinas. Não mais enxergava. O líquido escaldante escorria-me pelas faces. O coração latejava como se fosse explodir e o grito prisioneiro se agasalhava medroso em mim. Uma convulsão arrebatava-me, sacudindo-me todo o corpo. Estava chorando.

Ganhei a traseira de um caminhão parado nas imediações. Ali, estava a salvo. Poderia transbordar todo o Oceano Atlântico em lágrimas. Era desconhecida, estava só, abandonada por causa da tirania do destino, precisando partilhar comigo mesma tanta desventura.

Minhas forças estavam minadas e, mais do que nunca, queria ter mãe, deitar-me em seu regaço e deixar-me embalar. Até Deus banira-me desse direito, levando-a, prematuramente, numa noite fria. Será que ela estava vendo o meu sofrimento, o que restara de mim?

Ainda está gravada em minhas retinas a última presença física do seu rosto amigo, com as mãos inertes cruzadas ao peito no leito frio. Mãos que semearam, trabalharam, abençoaram, afagaram tanto! A lembrança do seu cortejo fúnebre...

O dia acabava! O sol esvaía-se na linha do horizonte, num matizado nesgado de cores pálidas, cujos raios filtravam-se, através do arvoredo, em sombras rendadas, visíveis à margem da estrada.

O esquife com os restos mortais de minha mãe era transportado ladeira acima, acompanhado pela fileira de carros que ziguezagueava pelas curvas, deixando para trás o casario, a vida agitada pelo convívio humano.

Ficava para trás um lar vazio e uma saudade eterna. Embora a brisa daquele resto de tarde fosse amena, o filme impregnado de tristeza nunca desertou de mim. Era a despedida de uma guerreira! A última homenagem que a vida lhe fazia. Uma mulher simples que, além dos muitos valores, havia-me deixado sua coragem por legado.

Mesmo do outro lado da vida, o seu espírito, certamente, estaria ali a me acalentar. Inexperiente, eu precisava chorar. Estava indefesa. A paraplegia era recente e eu não sabia como proceder diante de tanta impotência.

Um garoto, com desajeitada caixa de engraxate às costas, violara o meu esconderijo. Encontrara-me. Assustado, cheio de compaixão, tentou consolar-me:

— Não chore, não! A senhora quer água?
— Não — respondi.
— A senhora poderia ir à igreja dos crentes. Lá eles curam as pessoas. A senhora vai andar. Eu garanto!

Não podia, também, causar-lhe pena. Mesmo entre lágrimas, agradeci sorrindo. Era a solidariedade de uma criança desconhecida, porém, meiga e carinhosa. Talvez um anjo da guarda para enxugar-me o pranto.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O ESPIRITISMO


O ESPIRITISMO
(Capítulo I, 5 a 7)


É um prazer encontrar-me novamente nesta Casa Espírita!!
Saúdo a todos, incluindo os espíritos desencarnados
aqui presentes. Que a paz esteja sempre entre nós!

Jesus querido, pai, amigo e mestre, que tuas vibrações
de amor possam ser sentidas em nossos corações.

Pedindo a intercessão dos espíritos protetores
para mais uma vez ajudar-me nesta tarefa,vamos,
numa só voz, reafirmar o nosso compromisso de amor:

"Irmãos de toda Terra, amai-vos uns aos outros!!!
(3 vezes)

Falarei sobre o Espiritismo, tema do capítulo I,
itens 5 a 7 do Evangelho segundo o Espiritismo.

O espiritismo veio revelar aos homens,
por meio de provas irrecusáveis, a existência
e a natureza do mundo espiritual, e as
suas relações com o mundo corporal.

As manifestações dos Espíritos sempre existiram,
em países e épocas diferentes.

Um dos maiores eventos da história do mundo é
o espiritismo, que teve seu início há mais de um século,
em 1848, na vila de Hydesville, Nova York, EUA, quando
ocorreram manifestações mediúnicas mais significativas,
devidamente comprovadas na Idade Moderna.

A família Fox, (composta de pai, mãe e duas filhas, Kate e Margareth),
passou a residir numa casa alugada na vila, onde começou
a ouvir ruídos e batidas sem origens.
Naquele mesmo ano descobriu que tais batidas
eram produzidas pelo espírito de um mascate que naquela
casa havia sido assassinado e "enterrado".
Foi comprovado o fato, anos depois,
com o encontro da ossada do mascate enterrada ali.

Foi na França que os fenômenos mediúnicos
alcançaram maior expressão, através das MESAS GIRANTES:
que eram pequenas mesas, ao redor das quais
sentavam-se as pessoas, a fim de que elas lhes respondessem perguntas,
através de pancadas, o que para elas significavam diversão.

Um professor francês, Hippolyte Léon Denizard Rivail,
qualificado, moral e intelectualmente, viu nesse
fenômeno mais do que uma diversão e resolveu estudá-lo.

Deveria haver uma lei física por trás de tudo aquilo. Em 1855, depois de ter feito um exaustivo estudo comparativo das comunicações recebidas por meio de médios conceituados, em diversos locais, Hippolyte adotou o pseudônimo de Allan Kardec e
fundou a DOUTRINA ESPÍRITA, publicando "O Livro dos Espíritos", que é o núcleo central dessa doutrina.

No Brasil, foi em 1865, que realmente oficializou-se o Espiritismo, com a fundação do 1º Centro Espírita, na cidade de Salvador-BA.
No ano de 1875, o Livro dos Espíritos foi traduzido para o português, aumentando, sem dúvida, os seus simpatizantes.

O Espiritismo é uma lei universal e, sem ela, a existência terrena representaria desordem e injustiça. Dela, promana a explicação de todas as aparentes anomalias
da vida humana, de todas as desigualdades intelectuais, morais e sociais, facultando ao homem saber donde vem, para onde vai, para que fim se acha na Terra e por que aqui sofre.

A doutrina espírita tem a finalidade de nos despertar para as nossas responsabilidades enquanto no corpo físico e depois dele, pois o espírito é eterno.
Nenhuma ovelha é abandonada à margem da estrada.

Através do Espiritismo chegou à Terra uma enorme e revolucionária novidade sobre fé, e uma infalível vacina contra o fanatismo. A fé verdadeira é aquela que pode defrontar-se com a razão em qualquer tempo. A fé cega nos anula a liberdade de pensar.

"O Espiritismo é uma filosofia de bases científicas e consequências éticas que trata do mundo dos espíritos e sua relação com o mundo corporal". É a essas relações que o Cristo fez referência em muitas circunstâncias, e é por isso que muitas coisas que ele disse permaneceram sem entendimento ou foram falsamente interpretadas.
Pode-se dizer que é o Consolador prometido.

A doutrina espírita acredita na sobrevivência do espírito após a morte do corpo físico. As relações dos Espíritos com os homens são constantes, e sempre
existiram. Os bons Espíritos nos atraem para o bem, nos sustentam nas provas da vida e nos ajudam a suportá-las com coragem e resignação.
Os imperfeitos nos impelem para o mal.

Alicerça-se o espiritismo em 3 aspectos importantes:
o filosófico (que trabalha com o pensamento e as idéias),
o científico (que trabalha com a experimentação e a prova)
e o religioso ( que engloba os ensinamentos morais e a fé raciocinada).
Tem o dom de unir os povos em um ideal de fraternidade
preconizado por Jesus de Nazaré, permitindo que
o homem se encontre com o próprio Criador.

O próprio Kardec disse: "fora da caridade não há salvação."
Por isso ela é a nossa maior bandeira.

Com o Espiritismo chegou à Terra o tratamento da problemática obsessiva, que consiste na ajuda e na orientação tanto de obsediados como de obsessores.

Antes do Espiritismo, a humanidade era completamente ignorante a respeito dos fenômenos e fatos "paranormais", principalmente os mediúnicos.

Naquela época, muitos ainda falavam de mistérios,
fantasmas, e "fenômenos sobrenaturais".

Cinco princípios básicos regem o Espiritismo,
de onde procedem todas as suas práticas:

1 - A existência do Espírito e sua sobrevivência após a morte.
O Novo Testamento retrata a vida, obra e ensinamentos
do Mestre Jesus. Ele veio mostrar que a morte não existe
e que a alma sobrevive ao corpo carnal.

2 - A reencarnação.
Hoje, não há mais dúvidas sobre a reencarnação. Ao longo
de diversas vidas sucessivas o ser humano passa por
experiências que amoldam seu caráter, rumo à perfeição.

Cada nova existência, em ambiente e fatores diferentes,
despertam a sua consciência para o amor universal.
Somos fruto de nós mesmos, com nossos pensamentos
e ações tendenciosos ao bem ou ao mal, que cedo ou tarde
intercederão em nossa condição física e ditará as
contingências sociais que servirão melhor ao nosso aprendizado.

3 - A lei de causa e efeito.
"Então Jesus disse-lhe: Enfia no seu lugar a tua espada;
porque todos que lançarem mão da espada à espada morrerão" - (Mateus 26.52).
"... tudo que o homem semear, isso também ceifará" - (Gálatas 6.7).
O homem tem o livre-arbítrio para agir, mas responde pelas conseqüências de suas ações.

4 - A comunicação entre o mundo material e espiritual.
Sônia Rinaldi, coordenadora da Associação Nacional de Transcomunicação,
em entrevista ao "Panorama Espírita" disse que foi comprovado,
por meio de Laudo Científico, que a voz de um falecido
correspondia à sua voz quando vivo.

Dezenas de cálculos levaram à identificação
das vozes (morto x vivo). As ferramentas da Ciência são universais e nesse caso foi
comprovado pela primeira vez na História, matematicamente, a sobrevivência após a morte. A matemática não é discutível.Simplesmente é. - Entrevista com Sônia Rinaldi.

A transcomunicação instrumental, que é a oportunidade de que a Espiritualidade Maior está se valendo para trazer aos Homens a informação, de forma bem concreta, de que o Espírito sobrevive a morte do corpo físico.
Isso tem enormes benefícios. Por exemplo, o consolo.

Quantos pais que perderam seus filhos já conseguem aplacar a dor da saudade por ouvi-los novamente? Só de saber que o filho falecido VIVE no outro lado,
é um conforto profundo, pois se adquire a certeza de que um dia irão reencontrá-lo.
Isso, com certeza, ameniza a dor da separação.

5 - A evolução progressiva dos Espíritos.
Somos todos seres atrelados às leis divinas que regem o universo,
quer acreditemos ou não. Estamos aqui para evoluir.

Toda a prática espírita é gratuita, dentro do
princípio do Evangelho: "Dai de graça o que de graça recebestes".

A prática espírita é realizada sem nenhum culto exterior, dentro do princípio cristão de que Deus deve ser adorado em espírito e verdade.

Por isso o Espiritismo não tem corpo sacerdotal e não adota e nem usa em suas reuniões e em suas práticas: paramentos, incenso, altares, imagens, andores, velas,procissões, talismãs, amuletos, sacramentos, concessões de indulgência, horóscopos, cartomancia, pirâmides, cristais, búzios, rituais,
ou quaisquer outras formas de culto exterior.

O objetivo da Doutrina Espírita é o de explicar
os fenômenos naturais que envolvem o mundo espiritual e
o mundo material; estudar e analisar, filosófica e moralmente,
as conseqüências deste relacionamento e, finalmente,
procurar instruir as pessoas que demonstram
interesse em compreender o universo na sua Doutrina.

O Evangelho é um modo de vida, motivo de ação regeneradora,
pois define que tudo o que recebemos hoje, é conseqüência
de nossos atos no passado, e que tudo o que iremos receber no futuro,
é conseqüência de nossos atos de agora.

A moral do Cristo, contida no Evangelho, é o roteiro para a evolução segura de todos os homens, e a sua prática é a solução para todos os problemas humanos.
É o objetivo a ser atingido pela Humanidade.

Ao contrário de todas as demais doutrinas religiosas, o Espiritismo não tem “escrituras definitivas” impostas como verdadeiras e inabaláveis aos seus fiéis. Pelo contrário, a base doutrinária do Espiritismo foi claramente estabelecida
por Kardec e pelos milhares de espíritos que o assessoraram, mas ele mesmo esclareceu que, na medida em que aqueles ensinamentos fossem compreendidos e aceitos,
gradativamente novas revelações seriam feitas, como já foram e são feitas, e como continuarão a ser feitas.

Pode ser facilmente comprovado que o Espiritismo é uma
doutrina cristã, racional, lógica, lúcida e progressista.
Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação
moral e pelos esforços que faz em dominar suas más inclinações.
É a reforma íntima, com vistas ao aperfeiçoamento moral.

O Espírito da Verdade preconizou: “Espíritas!
Amai-vos; este é o primeiro ensinamento;
instrui-vos, este é o segundo”.
É na combinação do amor e do conhecimento que conseguiremos a evolução.
E o livro espírita é ferramenta indispensável.

Portanto eis as cinco obras básicas da Codificação:
- O LIVRO DOS ESPÍRITOS (1857). Obra de caráter filosófico.
É considerado a espinha dorsal do Espiritismo, já que todas as outras obras partem de seus princípios.

- O LIVRO DOS MÉDIUNS (1861). Demonstra as conseqüências morais e filosóficas decorrentes das relações entre o mundo material e espiritual.

- O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO (1864).
Parte religiosa e moral da Doutrina Espírita, onde muitas "instruções" são passadas à Humanidade por um grupo de espíritos superiores, sob a assinatura de "Espírito da Verdade"

- O CÉU E O INFERNO (1865). Apresenta a verdadeira face do desejado Céu, do temido Inferno, como também do chamado Purgatório. Põe fim às penas eternas, demonstrando que tudo no universo evolui.

- A GÊNESE (1868). Mostra como foi criado o mundo, como apareceram as criaturas e como é o Universo. É a parte científica da Doutrina. Explica a Criação, colocando a Ciência e a Religião face a face.

A Doutrina espírita é o maior monumento de sabedoria para a Humanidade, uma vez que desvenda os grandes mistérios da vida, do destino e da dor, pela compreensão racional e positiva das múltiplas reencarnações.

O Espiritismo respeita todas as religiões, valoriza todos os esforços para a prática do bem, trabalha pela confraternização entre todos os homens independentemente de sua raça, cor, nacionalidade, crença ou nível cultural e social, e reconhece que
"o verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza".

O avançado da hora se registra.
Caminhamos para o término. Vamos arrematar com uma reflexão sobre nossa caminhada nesta existência.

É muito importante a consciência de que não estamos aqui por acaso.
A responsabilidade da caminhada é unicamente nossa e não podemos fraquejar.

Somos seres gregários, cabendo-nos a compaixão pelo próximo, pelo menos o mais próximo.

Assim, é sempre bom reafirmarmos os nossos propósitos de fé nos valores e no exercício do amor.

“Sei que toda caminhada tem um destino e uma direção, por isso, devo medir meus passos, prestar atenção no que faço e no que fazem os que por mim também passam, ou pelos quais, passo eu.

Que eu não me iluda com o ânimo e o vigor dos primeiros trechos, porque chegará o dia em que os pés não terão tanta força e se ferirão no caminho e se cansarão mais cedo. Todavia, quando o cansaço houver, que eu não me desespere e acredite que ainda terei forças para continuar, principalmente quando houver quem me auxilie.

É oportuno que, em meus sorrisos, eu me lembre de que existem os que choram. Que, assim, meu riso não ofenda a mágoa dos que sofrem.

Quando chegar a minha vez de chorar, que eu não me deixe dominar pela desesperança, mas entenda o sentido do sofrimento que me nivela, que me iguala, que torna todos os homens iguais.

Quando eu tiver tudo: farnel e coragem, água no cantil e ânimo no coração, bota nos pés e chapéu na cabeça, razão para não temer o vento e o frio, a chuva e o tempo,
que eu não me considere melhor do que aqueles que ficaram para trás,porque pode vir o dia em que nada mais terei para a jornada. E aqueles que ultrapassei me alcançarão no caminho. Poderão, também, fazer como eu fiz, e nada de fato
fazerem por mim, que ficarei sem concluir o meu trajeto.

Quando o dia brilhar, que eu tenha vontade de ver a noite, em que a jornada será mais fácil e mais amena.

Quando for noite e a escuridão tornar mais difícil a chegada, que eu saiba esperar o dia como aurora, o calor como bênção.

Que eu perceba que a caminhada só poderá ser mais rápida, mas muito vazia.

Quando eu tiver sede, que encontre a fonte no caminho.

Quando eu me perder, que ache a indicação, a seta, a direção, a estrela-guia.
Que eu não siga os que se desviam, mas ninguém se desvie seguindo os meus passos.

Que a pressa em chegar não me afaste da alegria de ver a simplicidade das flores à beira da estrada.

Que eu não perturbe os passos de ninguém.

Que eu entenda que seguir faz bem, mas, às vezes, é preciso ter-se a bravura de recomeçar, voltar ao ponto de partida, tomar outra direção.

Que eu não caminhe sem rumo.

Que eu não me perca nas encruzilhadas, mas não tema os que assaltam e os que embuçam.

Que eu vá aonde devo ir e, se eu cair no meio do caminho, que fique a lembrança de minha queda para impedir que outros caiam no mesmo abismo.

Que eu chegue, sim, mas, ainda mais importante, que eu faça chegar quem me perguntar, quem me pedir conselho, e acima de tudo, me seguir, confiando em mim.”

O amor produz sempre um efeito positivo em quem o recebe e de maneira mais intensa em quem o pratica.. Ele é e será a melhor opção.

Esperando ter contribuído de alguma forma,
agradeço a atenção e despeço-me pedindo ao Mestre Jesus que nos abençoe,
não só a nós deste recinto, mas a todos os habitantes do Planeta,
principalmente aos que estiverem em hospitais, em abrigos,
nos manicômios, nas penitenciarias, jogados pelas ruas, em conflitos...
Abençoa, também, Mestre amado, aqueles
que ainda não conseguiram te encontrar.

Obrigada!

Palestra proferida por Genaura Tormin no Centro Espírita. Jason Cunha,
em 05.05.2008, em Goiânia-GO

REBELDIA


Sou eu mesma!!
Um voo pelos ares para conferir o mundo!
Rebeldia, ousadia e atrevimento são minhas marcas registradas.
Ousar me faz bem, sinto-me no pedestal do curso de reciclagem que vim fazer aqui.


REBELDIA
(Genaura Tormin)

Rebelde e ousada
Sigo a minha estrada.
Não aceito cabrestos, nem peias.
Sou leve, livre e solta.
Não me subjugo,
Não me quedo a cadeias.

Nasci assim e o serei até o fim.
Peco, muitas vezes.
Não sou perfeita!
Reinicio sempre!
Tentar é o meu lema!
Tenho que experimentar
Para evoluir

Não sou anjo,
Nem demônio.
Sou mulher!
Guerreira por excelência,
Exibo a minha essência.
Faço a hora,
Confesso a minha culpa,
E escrevo a história.

domingo, 15 de novembro de 2009

MENDIGA POR UM INSTANTE


MENDIGA POR UM INSTANTE
(Genaura Tormin)

É preciso ter garra para enfrentar, pois, o preconceito é uma realidade que não podemos negar. Pouco se sabe sobre a nossa capacidade de trabalho, sobre o nosso direito à cidadania.

Ainda recente, inauguraram uma bonita padaria perto de minha residência. Numa dessas caminhadas (de scooter) para tomar um pouco de sol ou resolver algum compromisso, resolvi conhecê-la. Não conseguindo vencer o pequeno degrau, dirigi-me a um rapaz que me parecera ser o gerente e disse:

— Eu queria entrar aí, mas não posso por causa do degrau.
— Eu vou lhe dar um pedaço de pão — disse-me ele, solícito.
Imediatamente determinou a uma das servidoras que o fizesse, a qual, minutos depois, entregava-me o presente num saco de papel. Agradeci e coloquei-o no cestinho do scooter.

Claramente, percebi que, pelo fato de me encontrar num veículo próprio para deficiente físico e isso costumar passar uma ideia de mendicância, havia sido confundida, razão por que resolvi mostrar-me e executar um trabalhinho na seara da conscientização. Manobrei o meu esdrúxulo veículo e dirigi-me ao rapaz, que orientava um profissional que inspecionava a porta de vidro com defeito.

— Você sabe que porta de vidro estilhaça? É mesmo prudente que seja revista. O meu marido tem um consultório aqui perto, no prédio Aquárius Center, e a porta estilhaçou. Ele conseguiu a reposição porque o profissional ainda não lhe havia entregado o serviço. E é cara, sabia? — disse-lhe em tom conhecedor.
O rapaz olhou-me atento e retrucou:

— A senhora vai gostar do pão. É especialidade nossa!
— Com certeza! Faça uma rampinha, que serei sua freguesa. Virei aqui todos os dias.

Despedi-me, agradeci e saí. Ao chegar a casa, peguei o saco de papel e de lá retirei a dádiva: um pedaço de pão, tipo bisnaga, com uma fatia de queijo e uma folha de alface. Como sou meio gordinha, gostei por não conter manteiga ou maionese. Fiz um cafezinho e deliciei-me com ele.

De outra vez, fui conhecer uma boutique de carne, muito requintada, inaugurada na minha rua. As paredes espelhadas multiplicavam o ambiente e as vitrines exibiam as carnes, as mais diversificadas em variados cortes. Os servidores uniformizados indicavam higiene e bom trato.

Deixei-me ficar ali por alguns minutos, quando um senhor bonito, alto, bigode largo, bem vestido, saiu do interior da Casa de Carnes e veio me atender. Como estava apenas passeando, fiquei um tanto sem graça e simplesmente perguntei aleatoriamente o preço da carne em mantas da vitrine que eu estava defronte.

— É carne de sol e está em promoção — dissera-me ele.
— Será que não é muito salgada? — retruquei.
— Não! É especialidade nossa. Isto é picanha, minha senhora!

O preço, realmente, estava bem abaixo. Mas não havia saído para comprar carne. Hesitei um pouco, enquanto ele ainda esperava ao meu lado, não sei se num atendimento diferenciado ou preocupado com a minha presença no local. Para minha surpresa, usou da palavra e em tom educado dissera-me que me faria a carne pela metade do preço.

— Muito desapontada, pedi um quilo da carne, pois, por sorte, portava uma bolsinha que continha alguns trocados, praticamente moedas, que tive que juntar e recontá-las.

Em casa, botei-a no forno, e quando o marido chegou para o almoço achou a carne excelente, além de bem posicionada numa bonita travessa. Realmente dourada e no tempero certo. Também, tratava-se de picanha! Contei o ocorrido e o preço.

— Por que você não comprou uns dez quilos? Mesmo que tivesse que voltar aqui para pegar dinheiro ou cheque — dissera-me ele em tom de brincadeira, acrescentando que eu seria a compradora-mor da casa, a partir daquele dia.

Rimos muito, e mais esse episódio juntou-se ao arsenal de minha trajetória, comprovando que falta ainda muita consciência popular sobre as diversidades. Nossa estampa carrega o estigma do “coitadismo”, causando piedade, temor e quase nunca o respeito. É como se não fôssemos egressos da mesma sociedade.

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

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Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)



"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)