ALICERCES IMPORTANTES
(Genaura Tormin
Ao contrário de muitos outros pacientes, minhas aquisições estagnavam-se, isto é, não possibilitavam o meu caminhar, não ouriçavam os meus nervos esquecidos em algum lugar. Nada de alentador. Nada!
Havia aprendido todos os exercícios e os fazia com ganância. Cheguei a esfolar a pele do cóccix pela prática de duzentos e cinqüenta abdominais ininterruptos.
Lembro-me de que certo dia, quando andávamos pelo pátio do Hospital Sarah Kubitschek, deparamos com uma figura inusitada: uma senhora, possivelmente vítima de grande acidente que, ao andar, bruscamente jogava uma perna para um lado, fazia um rodopiado, esticava o braço em sentido contrário, meneava a cabeça, tempo em que emitia um som gutural.
Na base do pescoço, havia uma abertura com um orifício metálico (traqueostomia). Em uma das mãos, retesada e comprometida, via-se uma tabuleta com o abecedário, o que significava que ela havia, também, perdido a voz. Mesmo assim, andava, locomovia-se sozinha rumo ao ginásio de fisioterapia. Entre suspiros e voz embargada, eu disse ao Alfredo:
— Queria tanto andar, mesmo que o meu caminhar fosse igual ao dela!
Alfredo, comovido, abaixara-se defronte da minha cadeira e, praticamente, fizera-me uma jura de ajuda eterna, uma linda e emocionante declaração de amor. Enchera-me de forças, de energias positivas, de elogios, solidarizando-se com o meu caminhar perdido, afirmando-me que não se anda apenas com os pés.
Dissera-me que o mais perfeito caminhar é executado com o coração, com a alma translúcida e bela que às vezes chega a voar, planar sobre os grandes ideais.
Mesmo entre lágrimas de ambos, eu aceitei, enxuguei o pranto e juntos fomos para o ginásio. Com ele sentia-me segura, protegida. Ele sempre significou o meu chão, o meu equilíbrio.
E agora, muito mais! Significa a minha metade, o meu complemento, a âncora que me alavanca para que eu não me esqueça dos passos, mas veleje o mar bravio da coragem. Sem ele não há unidade. Eu sou parte do todo e o todo está em mim.
Minha querida amiga
ResponderExcluirE o todo que está em você ainda se reparte, sem voltar a ser apenas parte.
Os inteiros de nossa alma são canteiros na nossa vida, em que as sementes germinam, transformam-se em flores e frutos, que em cada nova estação se repetem, até serem colhidos, deixando-nos a seiva que evapora em eterna energia.
A saudade do que se foi é a base para o que temos sem sabermos o que será.
Beijos
Meu nome hoje é divagação