PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

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terça-feira, 17 de novembro de 2020



A Melhor Parte de Mim



A Melhor Parte de Mim

(Genaura Tormin)


A melhor parte de mim, é o meu pensamento, meu sentimento o meu alento, não é o meu andar nem o meu bailar.

É o meu sentir, o meu agir me fez assim, simples e completa. 

Apaixonada pela vida, perdi o medo de viver, superei obstáculos, venci!!

Tracei caminhos, deixei rastros e hoje sinto que vou sentir falta da melhor parte mim.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

COLÉGIO DE FREIRAS


Colégio de freiras
Genaura Tormin
Era um lar, o colégio! Daqueles que não existem mais. A educação disciplinada, permeada de trabalho, lazer, esporte e instrução, construíra os alicerces que fizeram de nós o que somos hoje.

M
inhas recordações voltavam à fazenda do meu pai. Ele comprara um caminhão e partira para o nordeste brasileiro para trazer peões, pessoas para o serviço de lavrar a terra. A colheita aproximava-se e ele não poderia prescindir da mão-de-obra.
Na volta, papai encontrara o lar desfeito. A esposa o abandonara. Triste, papai não abdicara das filhas, embora os tios se prontificassem a ficar conosco: eu, Josefa e Zélia. As duas últimas do segundo casamento.
Naquele ano, com o impasse, houvera grande prejuízo nas atividades da fazenda, bem como da casa de farinha. Papai não desanimara. Sempre tivera pulso forte e determinação. Embora não tivesse estudo didático, sabia expôr as suas ideias e conseguir o desejado.
— Vou internar vocês num colégio de freiras. Quero que vençam na vida pelo estudo, pela boa educação. Somente elas poderão ensinar isso a vocês — exclamara papai.
Eu tinha nove anos, naquela época.
Numa madrugada fria, saímos de Minas. A lua branca ainda passeava no céu estrelado, banhando de luz a silhueta do papai. O terreiro de chão batido, o tamboril, o curral, os pés de laranjeiras carregadinhos de frutos, a casa da fazenda de janelas fechadas na calada da noite, ficaram impregnados em mim feito um presságio de saudade e gratidão. Não posso esquecer do seu telhado vermelho, iluminado pela luz da lua, distanciando-se a cada vez que olhávamos para trás. O ar frio daquela madrugada exalava perfume de flores silvestres, misturando-se ao zumbido de insetos e ao chilrear de pássaros notívagos.
Éramos seguidos pelas próprias sombras que se esgueiravam ao lado. O caminho fazia curvas entre os arvoredos e parecia não ter fim. As montanhas se delineavam à frente, como a se despedirem de nós. De vez em quando a lua brincava de esconde-esconde nas frondes das árvores e dos coqueiros, alumiando a plantação de algodão que se debulhava em flocos brancos entre a ramagem verde e viçosa. Ninguém ousava conversar, embora o iminente desbravamento do desconhecido acalentasse as nossas almas. Num clima nostálgico, ouvia-se ao longe o cantar de galos, anunciando os albores da manhã.
Na ponte, o riacho gorgolejava entre as pedras, exibindo os alvos lírios à sua margem, enfeitado pelo cricrilar de grilos no rumorejo do mato denso. As libélulas, em vaporosa dança, faziam reverências ao amanhecer, que despontava em tênue claridade por trás serra. O vapor do riacho deixava visível seu curso pelas terras da fazenda, feito a fumaça de um trem de ferro. Eram lágrimas evaporadas num adeus inaudível. Ao atravessá-lo, não pude conter o pranto. O coração ficava naquelas águas, naquelas margens que nos proporcionaram tanta alegria. Era ali que a nossa fantasia criava asas, voava em histórias de príncipes montados em cavados brancos, de bruxas malvadas, castelos assombrados, portas subterrâneas para lugares encantados, fabricados pela fertilidade do nosso mundo de criança, debulhado em magias.
O cheiro da manhã, impregnado de odores tão queridos, cravava em mim as últimas flechas. Até uma coruja entoara seu canto triste por despedida. A saudade da casa da fazenda, dos folguedos, da comida gostosa feita no fogão à lenha, já se fazia sentir. A ordem era sermos fortes apesar da pouca idade. Assim íamos deixando para trás parte de nós rumo a um novo destino. Com certeza, seria um marco divisor que marcaria o resto de nossas vidas.
Na rodovia, ao tomarmos o ônibus, o coração apertara-se no peito, agitando-me o corpo frágil em tremores e náuseas. Uma saudade cortante remexia-me as vísceras. Era a certeza de um adeus definitivo que se misturava à poeira da estrada deixada para trás. Eu não podia chorar! Percebia que papai estava fazendo o melhor por nós. Mesmo criança, eu entendia que mudar era necessário. O meu espírito já estava sendo previamente preparado para suportar as intempéries da vida. Talvez eu fosse rocha e não soubesse.
Chegando a Goiânia, ficamos em casa de um amigo do papai por alguns dias. No Colégio Santo Agostinho, papai fora bater. Era dirigido por freiras. Infelizmente, não pudemos ficar lá. Os encargos financeiros não estavam ao alcance de um lavrador que, de rico, tinha apenas o espírito altruísta e determinado.
— Vou falar com o Governador para ver se arranjo colégio conveniado. Não posso pagar preço tão elevado!
Um vereador, amigo dos donos da casa onde estávamos hospedados, prometera ajudar papai. Sabia que jamais ele falaria com o Governador. O jeito de lavrador e o chapéu o impediriam.
Dias depois, estávamos no escritório da Madre Hortênsia, diretora do Lar Escola Nossa Senhora de Lourdes.
Papai ficara encantado com as instalações e o trato dispensado às crianças. Muito espaço físico, majestoso refeitório e a algazarra da meninada que brincava ao vento. Havia uma capela, onde entramos por alguns minutos. Na simplicidade de homem do campo, papai ajoelhara-se e nós também. Talvez, agradecesse ou implorasse alguma ajuda.
O certo é que tudo se encaminhava da melhor forma possível. Deus estava mesmo do nosso lado. Parece que a Madre Superiora gostou da gente. Após longa entrevista (tipo cadastro), informou que o colégio era mantido pela Legião Brasileira de Assistência e que papai nada pagaria.
Os primeiros dias de internato foram difíceis. Estávamos acostumadas com a liberdade da natureza, com a produção farta do pomar, com as asas-de-moleque nos píncaros das mangueiras, cajueiros, amoreiras; os banhos, todo fim de tarde, no remanso do riacho. O primeiro copo de leite tomado no curral. Tudo, trocado agora, por uma liberdade metódica, disciplinada, relativa.
Assim vivemos no internato durante nove anos. Crescemos lá. Quanta saudade daquele tempo! Quanta saudade das férias, das festas, dos teatros, das colegas e das freiras. Eram muitas, as nossas mães. Freiras abnegadas que nos emprestavam amor de mãe sem nunca haverem transado a maternidade real. Como as respeito! Num misto de gratidão e saudade, guardo-as no coração.
Era um lar, o colégio! Daqueles que não existem mais. A educação disciplinada, permeada de trabalho, lazer, esporte e instrução, construíra os alicerces que fizeram de nós o que somos hoje.
Quanta saudade dos trabalhos manuais, da culinária, das aulas de violão, encadernação, cartonagem! Quanta saudade! Era o preparo para a criação da família: o passaporte, principalmente, para o casamento.
Lembro-me tanto da festa natalina! Quanta guloseima! As mesas enfeitadas para a ceia, à meia-noite, logo depois da missa. Que alegria, que ansiedade para ver os presentes e os muitos bombons coloridos, sem nunca faltar o pão-de-mel do qual eu gostava tanto. Tudo era feito em segredo, o que aumentava a nossa curiosidade, fazendo-nos sonhar com o grande dia. Quando se abria a larga porta do refeitório, parecia a entrada para o céu. O teto abundantemente iluminado, com estrelas brilhantes de todas as cores e a tradicional música de Natal, fazia-me sentir a criança mais feliz do mundo. Não havia tristeza no Natal. Todas nós exibíamos roupas e sapatos novos, coloridos, lindos... Parecia que, de repente, virávamos princesas. Nesse dia, as freiras não conseguiam conter a algazarra que fazíamos nos dormitórios com a passagem do Papai Noel. O bom velhinho deixava presentes para todas nós. Os olhinhos brilhavam de felicidade. Muitas choravam ao abrirem os presentes e confirmarem que o pedido da cartinha havia sido atendido. Que papai Noel legal!
O café da manhã e o almoço do dia de Natal eram sempre muito gostosos, ouriçando o nosso paladar, tornando grande a espera. Que dia lindo! Até hoje sou encantada com a data natalina e o Jesus-Menino volta-me sempre às origens. Os anos regridem e eu me sinto menina outra vez.
Lembro-me da concepção do Deus que criei para mim. E eu era “Filha de Maria”, uma congregação de moças que usavam traje branco com faixa azul na cintura durante as cerimônias litúrgicas. Lembro-me das missas em latim, das procissões, dos retiros, do aniversário da gente, quando ganhávamos estampas de santinhos com lindas dedicatórias, além dos “parabéns a você” no refeitório repleto de meninas, onde a amizade era o elo da fraternidade, do afeto, dos folguedos cheios de encantamento e sorrisos.
A lembrança das músicas sacras do velho órgão da capela traz de volta o passado tão distante.
Os primeiros sonhos e a primeira poesia. Eu tinha treze anos. De repente senti-me fêmea. Com isso viera o sentimento de que amaria um homem, faria um ninho de amor cheio de bombons, morangos e muitas borboletas, além de um jardim florido, enfeitado de crianças. Na última folha do caderno de matemática grafei a poesia, a confirmação de minha feminilidade e o dom de poetisa.

Espera

Espero-te,
Porque sei que virás!
Lindo,
Como o vejo em pensamento.

Tu, que me dás saudades!
Tu, que não conheço,
Serás meu,
Somente meu!

A ti, contarei dos dias de vigílias
E falarei da solidão.
Sei que tu virás um dia.
E o meu mundo
Será de muitas cores.

Tu, meu amor,
Serás realidade,
Eu sei.

É por isso
Que não me canso
De esperar-te sempre,
No calor dos dias,
No frio das madrugadas.

Quando chegares,
Tudo será dourado,
Cheio de encanto,
Sem pranto.

Esta saudade louca,
Que de ti eu sinto,
Será esquecida
Com a tua presença.

Tu, insubstituivelmente tu,
Serás meu!
Serás ternura!
E eu serei tua,
Amor!

Lembro-me, também, com saudade, da oração da noite, do canto de agradecimento antes e depois das refeições que cultivo até hoje. Lembro-me do jogo de tênis todas as tardes de domingo. Os passeios de trem de ferro. O sucesso na escola. E eu estudava fora dos muros do Colégio. Era bolsista do Colégio Santo Agostinho, onde fiz o ginásio.
De menina-moça fui me tornando mulher. As formas curvilíneas faziam-me altiva, faceira... Desabrochava para a vida. Os ensinamentos recebidos ajudaram-me muito.
Aos dezoito anos, deixei o colégio. Tinha que construir a própria vida, agora sozinha, gerindo os sucessos e incertezas. Josefa e Zélia havia saído antes do Colégio e moravam com o papai em Minas Gerais. Eu optara pelos estudos. Mesmo sem a companhia de minhas irmãs, permaneci no internato. Eu sabia que não era fácil viver. As peripécias que havia enfrentado confirmavam essa verdade. Entretanto acreditava nos meus potenciais e sempre pensei grande. Desde pequena pensava num futuro bordado de estrelas. Mas ele não viria sozinho, é claro, eu precisava ir atrás dele, conquistá-lo, fazer a minha parte. A gente só fracassa quando desiste de tentar.
Embora ao arrepio do papai, mamãe viera morar comigo, ou melhor, viera para que eu morasse com ela. Viera me oferecer apoio para que eu pudesse deslanchar em busca dos sonhos.
Ingressei na Secretaria da Segurança Pública e Justiça do Estado de Goiás como escrituraria contratada, cuja indicação devo-a ao jornalista Altamir Vieira e sua esposa Rosete, que, solidariamente, ofereceram-me o caminho para que eu construísse os passos. Devoto-lhes gratidão. Precisava continuar os estudos e o emprego propiciava isso.
Com a entrada de novo Governador e por contenção de despesas, rescindiram o meu contrato e os de quarenta e seis outros servidores.
Com a pertinácia que me ensinara a vida, não deixei o trabalho e fui nomeada a primeira Delegada Municipal comissionada do Estado de Goiás, pelo então secretário, Dr. Gonzaga Jayme, a quem devo as orientações de verdadeiro pai naquela fase tão primária de minha vida.
Com base na isonomia constitucional é que se pleiteara o cargo de Delegado Municipal, até então inusitado para mulher. Deu certo. Caso contrário, teria perdido o tempo trabalhado e, quem sabe, não seria uma delegada de carreira, formada em Direito, condição indispensável para o ingresso, além do concurso, é claro.
Por ter ascendido a cargo tão esdrúxulo, com tão pouca idade, o jornal Cinco de Março publicara, na ocasião, a manchete: “Moça inexperiente nomeada para combater bandidos no interior de Goiás”. Depois o cargo de escrivão fora regulamentado e submetido a concurso. Prestei-o e efetivei-me na carreira. Era o que melhor me parecia no momento. Os planos eram muitos e eu precisava alcançá-los.
Terminando o curso Técnico de Contabilidade, casei-me com o também funcionário da Segurança Pública, Alfredo de Paiva Tormin, formado em Odontologia, a quem namorava há três anos. Irmanamos os ideais e construímos um lar feliz.
A cada ano, um presente especial: um filho. Formamos um pequeno time de futebol de salão: quatro filhos. Lindos, inteligentes, aumentavam a nossa razão de viver.
Grávida do último filho, Alfredo e eu ingressamos no curso de Direito. Antes de terminá-lo fui promovida ao cargo de Comissário de Polícia.
Quando me preparava para o concurso ao cargo de Defensor Público, que se realizaria em Brasília, eis que a mão da fatalidade cerceia as minhas pernas, paralisa a destreza dos meus passos. Dois dias antes da aplicação do concurso, estava no hospital. Também me submetendo a provas; e que provas! A prova que me aplicava, inexoravelmente, a vida!
A fraqueza teria que se transformar em forças, compulsoriamente. A palavra de ordem era LUTAR.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

PÉRGULAS DO DESTINO



PÉRGULAS DO DESTINO
(Genaura Tormin)

Sei que incomodo!
Estou além do meu tempo!

Construo pontes, vou às fontes,
Enfrento tornados,
Rebato o desalento,
E me faço contente.

Se brilho?
É só consequência.

Não me rendo! 
As armas empunho.
Procuro sobrevivência.

Pego o meu fardo 
E vou seguindo,
Catarolando pelos caminhos,
Pérgulas do destino.

O coração está sereno,
A alma em paz,
E trânquila 
Está a Consciência.

UM PAPO DESCONTRAÍDO



UM PAPO DESCONTRAÍDO
(Genaura Tormin)

Duas amigas: a Cida e a Nanda, 
sentadas para 
um “papo” descontraído. 
Do que falam, eu não sei.

São minhas crias. 
Há muito amor envolvido, muito prazer, 
chegando a ser terapia... como gosto de dizer. 

São os meus poemas de panos, versos que só agora 
aprendi a fazê-los para suprir lacunas, 
espantar a solidão, 
a saudade do marido que partiu para a 
outra dimensão da vida 
 e fabricar felicidade.

sábado, 28 de abril de 2018

UM ANO SEM AMOR



UM ANO SEM AMOR
(Genaura Tormin)

Lembranças de um tempo que ainda eclode no meu coração desavisado
 e ainda tão machucado!

Eu não fui avisada. 
Não houve acordo nem aviso prévio e nem despedidas!
Tudo, tão de repente! Sem recomendações, sem agendamentos! 
Simplesmente uma ida sem volta, uma janela aberta e uma saudade eterna.
E o tempo célere contabiliza os dias.

Já faz um ano que esse amor partiu para não mais voltar! O meu marido! 
Meu parceiro de tantas jornadas!
Eis-me sem dono e sem companhia!
Eu não me formei em solidão! 
Não tinha essa matéria no meu currículo.

Minha casa está grande e fria! Estamos no outono!
As flores murcharam, caíram ao relento  do frio, 
do vento, do tempo e do meu coração ferido.
E aqui estou eu! 
Resta-me seguir! 

Há uma grande fila indiana, na qual há muito estamos listados, 
de mochilas às costas para o embarque.
O que alenta é que não há finitude nesse processo, mas apenas transição.
Somos eternos! 

A farda de carne perece, como uma veste gasta e obsoleta que se fragmenta pelo caminho.
Assim, o espírito, feito uma borboleta, alçou seu voo ao infinito de onde partiu um dia, aportando em terras brasilianas, especialmente para que eu seguisse com ele nesse jornadeio de experiências e crescimentos. 

Sou agradecida!
Acredito que crescemos e propagamos a espécie!
Meu lema é foco, força e fé!
Sigo resoluta e firme!

Hasta luego, meu amor!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

CRISTAL QUEBRADO



CRISTAL QUEBRADO
(Genaura Tormin)

Náufraga de sonhos,
Tenho saudades de mim mesma.
Guardiã estática
De uma performance em cacos,
Já não sei quem sou.

Quebrou-se o cristal!
Incendeiam-se restos de esperanças,
Multiplicando a inércia dos instantes.
A solidão se faz...
Sonho frustrado.
Permito-me o impossível
Porque as portas me fascinam.

Vivo emoções do tempo que se foi.
Das derrotas,
Guardo o aprendizado.
Não fujo de nada!
Nada em mim petrificado está.
Há muito sentimento
Ainda.

Mergulho nos meus cantos,
Escudo-me na coragem,
Pois inteira sou
Para esta viagem seguir.


domingo, 25 de maio de 2014

BASTIDORES DO CUIDADO





BASTIDORES DO CUIDADO
(Genaura Tormin)


Acabo de ler o livro BASTIDORES DO CUIDADO, um diário da arte de cuidar, escrito por Nébia Maria Almeida de Figueiredo, quando no deslanchar da existência as mãos da fatalidade ofereceu-lhe um acidente de percurso triste numa pessoa querida que lhe privava os compartimentos do coração em afeto e carinho. Parceiros de ideais científicos – ambos docentes da área de enfermagem.

Tocou-me muito a emoção a compungente história desse rapaz bonito, inteligente, empreendedor que, nos píncaros da glória, no auge de sua mais bela idade, viu dificultados tantos sonhos, tantos projetos. A animalidade da violência humana o escolheu por vítima num final de tarde sombrio, quando o sol se recolhia ao horizonte.
Os seus passos foram banidos, recolhidos inertes ao canto da alma naquela tarde, para nunca mais voltar.

Uma caminhada íngreme descortinou-se à sua frente. O céu vestiu-se de negro e a dor plangente engoliu o gosto do viver. Gigantesco esforço no enfrentamento de muitas peripécias, nunca imaginadas para si, era preciso. Muitas lágrimas lavaram as suas faces. Por momentos, a gritante impossibilidade de continuar o caminho.

O anjo guardião, autor desses relatos, chegava de mansinho e insuflava coragem, estampada em pequenos mimos, afeto, cuidados e docinhos.  Meu Deus, quanto carinho pode brotar de um ser predestinado, benfazejo e amigo! É, realmente, “A MÃO QUE ALISA O CORPO”, título de um dos trabalhos que ambos estavam fazendo naquela época.

Uma história tocante, numa escrita diferenciada, minuciosa no trato do corpo e da alma, onde se observa um servir com conhecimento, amor e brandura. 

Em forma de um diário de bordo, a autora coleta todos os dias as impressões físicas e espirituais desse cuidar, aportando sempre no afeto gostoso de sua alma linda e dessa partilha, que reputo transcendente e antiga, embora envolta em disfarces que não se olvidam no tempo. Um encontro postergado, um coração machucado. 

Numa bela roupagem, o livro se assemelha a um caderno, com manuscritos datados, pequenos poemas para extravasar os sentimentos e alegrar o paciente, além de desenhos significativos que elucidam tanta dor. Um caminho a ser aberto, uma vida a ser moldada nas contingências do destino.

Ser ou não ser. Seguir ou ficar eis a questão nessa encruzilhada de tantos aprendizados, novos saberes, tantas dificuldades. Um buril esculpindo a obra.

Por vezes, a cuidadora, com a alma esfacelada, o coração dolorido diante de impotência tão grande, sem encontrar o remédio curador para tanto desmantelo, parece sucumbir. Sua alma sofre. A oração é o seu guia. Grande ser humano num espírito protetor e despojado, que sabe se doar numa linda transcendência de amor.

Um anjo guardião que o paciente teve a sorte de encontrar nessa fase tão difícil, tão dolorida de sua vida.

Por muitos momentos a sensibilidade aflorou-me as lágrimas e eu chorei. No entanto, sei que tudo são eficientes aprendizados que nos tornam seres melhores no campeonato de nós mesmos. O remédio é sempre amargo quando se faz necessário.

E tudo acontece tão inesperado! O certo é que somos devedores por aqui. Não sabemos o porquê, mas tudo tem a sua razão de ser. Chega na hora exata, no momento certo, convergindo para o nosso bem. É como se estivesse escrito nas estrelas.

E o diário de bordo teve o seu fim, com o desembarque numa cidade do interior, onde o nosso personagem viveria no aconchego dos seus familiares, tentando emendar retalhos, reconquistar as emoções e encontrar outra maneira de marcar passadas pelas estradas da vida.

E foi o que aconteceu. Embora, os dissabores, os sofrimentos desse novo redimensionar da existência, tudo voltou ao seu lugar, reflorescendo vidas, cuja colheita se faz farta e encantadora, abrindo muitas portas, no exercício do amor.

Nova maneira de viver estampou-se garbosa no tilintar sonoro de quatro rodas benfazejas. E o nosso rapaz cresceu tanto que atingiu os píncaros. Sua  experiência jorra como a chuva, adubando, alentando e defendendo vidas. 

O anjo poeta ainda tece devaneios nos veios da poesia. As asas ainda se cruzam, protetoras e risonhas.

Excelente leitura.

quinta-feira, 6 de março de 2014

FALANDO DE PÁSSAROS E DE GENTE

FALANDO DE PÁSSAROS E DE GENTE
(Ludovina Maria Braga)

Conheci a autora de Pássaro Sem Asas, Genaura Tormin, já em sua decantada cadeira de rodas. Ela trabalhava na Sexta Delegacia de Polícia de Goiânia. Eu ingressava na carreira, como Delegada de Polícia, após um longo concurso e um ano de preparação na Academia de Polícia Civil. Não vou falar desse coleguismo porque ela o faz em sua obra, contando as nossas trocas de experiências no campo da investigação policial e na missão de conciliar a profissão com as tarefas de mãe, esposa e dona de casa.

Muitas matérias foram publicadas sobre o seu livro, opiniões bonitas foram escritas a respieto, com elogios de gente que tem competência para falar do assunto. O que manifesto agora é como leitora, pra dizer da emoção que o livro transmite, do exemplo de vida claro e sem adereços, da linguagem viável, mas nem por isso menos rica de expressões. Recomendo, como professora de servidores públicos (policiais), a leitura desse livro, que passa lições de grande valia.

Lições de como enfrentar com dignidade a difícil tarefa de ser e fazer polícia. Mas antes de tudo, a obra orienta sobre como adquirir esperança e crer contra tudo e contra todas as adversidades. Mostra como acreditar em si mesmo quando essa crença não é sentida pela maioria das pessoas. Mostra como vencer com o próprio esforço, sem buscar escoras. A todos que dizem não posso, não vou conseguir... indico Pássaro Sem Asas, para que adquiram fé e acreditem, mesmo quando o mundo não lhes der crédito.

O ser humano é ilimitado na busca do aprendizado e da perfeição, mostra Genaura em seu livro que, não vale pelo título e nem é bom pela sua bela capa, mas tudo vale e tudo serve pela mensagem de coragem que leva ao leitor, descrevendo uma história verdadeira, da qual fui testemunha de alguns capítulos. Por isso mesmo, sem ter bagagem que me qualifique para opinar sobre literatura, atrevo-me a comentar com o único objetivo de dizer que valeu a pena.

Um dos melhores livros que li nos últimos tempos sobre pensamento positivo. O homem vale pela cabeça que tem. As pernas transformam-se em asas quando a mente é livre, sadia e independente, como a de Genaura. Não retrata um episódio vivido no Brasil e descrito como se tivesse ocorrido em terras européias, como muitos livros do gênero. É algo real, palpável, verdadeiro, acontecido bem perto de nós, enfocando o dia-a-dia repleto de egoísmos, medos, vaidade, frustrações, descrença e preconceitos de todos os níveis sociais.

Por isso o livro de Genaura Tormin é bom. Fala de pessoas reais, de gente que respira em nossa comunidade. Nele, a coincidência não é mera coincidência, pois a figura principal vive e não foi feliz para sempre como nos contos de fadas. Faz-se feliz, viva e atuante. Afinal, de uma pessoa valorosa só se poderia esperar alguma coisa de valor. Por isso, parabéns e pronto é pouco. Resta esperar que Genaura possa nos brindar com outros pássaros alados, valorizando aquilo que melhor exibe: coração e inteligência. Se lhe faltam pernas, conquistou um brevê para voar livre nos espaços da sabedoria. 

Ludovina Maria Braga é delegada de Polícia de carreira em Goiânia – 21.09.1991

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

SOU UM ALBATROZ





SOU UM ALBATROZ
(Genaura Tormin)

Minha alma samba, 
Cavalga em pensamento.
Sou viageira do tempo!
Em passos imaginários,
Nunca me senti estática,
Sentada, parada...
Crio versos e fantasias
E as pegadas se avolumam,
A cada dia.
Defendo a alegria.

As asas se esgarçam,
Crescem...
Sinto-me um albatroz
E cruzo os espaços.
Voejo plagas distantes.
Não tenho cansaços.

Acredito nas leis do universo,
Decanto tudo em versos,
E vou seguindo a estrada.
Nunca estive sentada!
Meu labor é luta,
Mas a conquista me agrada.


Gyn, 02.2014

domingo, 23 de fevereiro de 2014

ALFORRIA





ALFORRIA
(Genaura Tormin)

Tenho que reinventar a vida
Para espantar o medo,
Aprisionar a agonia.
Vou decretar alforria
Para a solidão!

Não a quero por companhia!
Prefiro o vento, a brisa,
Mistério, magia,
E os enlevos de ventania.

Quero um vendaval de sorrisos,
Escancarados, atrevidos,
Para gargalhar a vida!
Quero esquecer a saudade,
Na conquista da alegria.

Tenho que encontrar saída,
Para não acelerar
O relógio do tempo.
Não quero a vida vazia!
Estou pedindo alforria!

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

PROFISSIONAL DE PORTAS


PROFISSIONAL DE PORTAS
(Genaura Tormin)

Eu tinha que cantar!
Não sabia por quanto tempo.
O coração agasalhava o medo.
Tudo atirado ao caos,
Parecia matar-me a alma.

Não havia portas,
Nem janelas.
Eu as teria que fabricar,
Jogar o jogo do contente
E seguir em frente!

O lar cheio de algazarras,
Risadas e alaridos
Havia ficado triste
Em rostinhos inocentes.
Um tornado havia passado
E sem dó desarrumado
O que eu havia colecionado.
Por isso,
Eu tinha que cantar!

Pus-me no trabalho!
Juntei os cacos,
Estanquei lágrimas
E fiz-me forte aos rigores do frio.
Teria que carpir portas!

Hoje,
Abro a janela tempo
E converso com o vento,
Que me açoita os cabelos brancos.

Revejo os feitos e concluo:
Fui uma profissional de portas!
Serviço bom e bem feito.
Por isso,
Eu hoje canto e agradeço!
Tenho mais do que preciso e mereço!

(7 meses de um difícil aprendizado de mim mesma, numa postura de faz-de-conta na incrível busca pela sobrevivência)

segunda-feira, 17 de maio de 2010

SOU CORAGEM



SOU CORAGEM
(Genaura Tormin)

Nasci menina traquina,
Em meio à ventania
Numa manhã de julho.
O vento
Lambia a poeira dos caminhos,
Subia às colinas
E ouriçava a copa do arvoredo.

Por isso nasci sem medo!
Gosto-me assim!
As estradas foram-se esgueirando
À minha frente.
E eu as segui resoluta,
Firme, contente.
Hoje sou coragem!
Sozinha carrego a bagagem.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

AUSTERO ANJO DA GUARDA


AUSTERO ANJO DA GUARDA
(Genaura Tormin)

Eis-me de volta às atividades policiais. Agora na Delegacia de Crimes de Acidentes de Trânsito. O trabalho é sempre a melhor das terapias. Mesmo humilde, dignifica o homem, devolve-lhe o sentimento de utilidade. É o bom combate, como disse o apóstolo Paulo.

Por carência de escrivães e material permanente, no início fiquei alguns dias sem função, apenas com a obrigação de marcar presença, o que me passava a sensação de preterimento. Entretanto outro delegado adjunto fora lotado ali. Formamos uma dupla à espera de condições para atuar.

Com o meu jeito extrovertido, brincalhão e, às vezes ousado, apresentei-me ao colega, dei-lhe boas-vindas, contei que era recém-chegada, estava ainda sem função, porém, recursos humanos e materiais estavam sendo remanejados para suprir a necessidade e dar-nos condições de trabalho, pois trabalho era o que não faltava. Mesmo com uma vida inteira doada ao mister de fazer polícia, não conhecia o delegado nem ele a mim, embora fosse veterano na classe.

Sinceramente, o doutor parecera-me ensimesmado, enclausurado, deixando transparecer o garbo nas poucas palavras. O corpo atleta e a tez moreno-queimada eram marcantes de sua masculinidade, emprestando-lhe bonito visual.

Como sua colega de trabalho, seria de bom alvitre que desenvolvêssemos uma relação amistosa, mas o reticente doutor sempre estava a ler jornais ou introspectivo num lugar qualquer. Passara-me a impressão de não lhe haver sido simpática, pesando-me a obrigação de revertê-la.

Nossas conversas eram, praticamente, um monólogo de minha parte. Não desisti. Falei-lhe de política, de trabalho, das pernas de aço e até de Pássaro Sem Asas, enquanto ele, simplesmente, meneava a cabeça em afirmativas ou negações. Até hoje nada sei do enigmático colega com quem trabalhei por mais de dois anos. Porém, devo-lhe gratidão e já o inseri no rol dos meus benfeitores. Esporadicamente, chamava-o de “Anjo da Guarda” e ele não sabia o porquê.

Num desses monólogos, contei-lhe de minha atuação na delegacia anterior quando agilizava minha tarefa e diminuía o trabalho aos meus comandados, deixando lá uma cadeira de rodas que me era trazida à porta do carro por um policial, por meio do simples acionamento da buzina, convencionado como código. Manifestei a intenção de exercitar o mesmo procedimento, tão logo estivesse em plena atividade, pois assim diminuiria o trabalho de ter sempre que tirar e pôr a cadeira no porta-malas do carro, uma vez que me conduzo sozinha.

Para minha surpresa, o colega respondera:
— Não creio que os policiais queiram se prestar a tal trabalho de bom grado. Nas primeiras vezes, até pode ser... Mas o certo é que eles terão vergonha de empurrar cadeira de rodas.

Senti como se tivesse levado um bofetão ou ficado nua em público. Olhei-me e vi-me paralítica. O sangue aflorara-me às faces e o nariz ficara feito um pimentão maduro. Controlei a reação e disfarcei o desapontamento. Juro que senti vergonha e medo de mim mesma. Mas ele tinha razão. Era a verdade nua e crua que eu nunca tivera a oportunidade de experimentar. Na delegacia anterior era titular, tinha sob a minha égide toda a equipe de funcionários que se debulhava em préstimos e atenções, fazendo-me querida. Em casa e entre amigos, pela mesma forma. Por isso parara no tempo e jamais havia atinado para tão grande dependência.

Foi aí que me lembrei das esnobes madames que não carregam sacolas ou embrulhos. E uma cadeira de rodas seria motivo muito maior de constrangimento, principalmente em público.

O doutor tinha razão! Apenas, estava sendo sincero e direto, banido da preocupação de agradar-me ou não — pensei atordoada, sem conseguir esconder os olhos marejados e o coração dolorido.

Escritura do tempo

Acuada pelos preconceitos,
Cavalgo no dorso da vida.
Rasgo sonhos para engendrar versos.
Alongam-se pelejas.
Cálida, ainda estou
A semear afeto e lágrimas.

Escritura do tempo,
Vou registrando os dias.
De instantes vazios
E certezas incógnitas,
Reconstruo a vida.
Teço a síntese de saudades fugidias,
Argamassa de sonhos,
E guardo no peito
Os retalhos do que sou.

No rosto,
O sorriso, a coragem
E o encantamento de viver.
Em estado de paixão
Tento superar as perdas
E o amor ainda se faz em mim.

Naquele dia, retornara a casa com mais uma preocupação: conseguir, eu mesma, colocar a cadeira de rodas dentro do carro a qualquer custo. Era a minha mais nova batalha. Havia driblado tantas outras, e por que não essa?

À noite, não conseguira conciliar o sono, pondo-me mais uma vez à procura de soluções para a esmagadora realidade. A voz do colega ficara gravada nos meus ouvidos e repetia-se sem tréguas: “... eles terão vergonha de empurrar cadeira de rodas.”

Amanhecera! Um dia lindo, meio peralta, exibindo um sol maravilhosamente brilhante que me acariciava as faces através da janela do quarto, bisbilhotando minha intimidade com feixes de raios incandescentes, feito colares de pedras transverberadas numa policromia indescritível. Alfredo acabava de chegar de mais uma noite de plantão. Sem nada comentar, tomei o elevador e fui até a garagem no subsolo.

Lá, o ambiente estava propício ao meu novo aprendizado. Não havia ninguém. Nem mesmo o faxineiro. Passei para o banco do motorista, tirei as rodas da cadeira, acomodei-as na poltrona traseira e tentei passar o seu corpo (da cadeira) por cima do volante, com a intenção de colocá-lo no assento do passageiro. Por mais que tentasse, o esforço era em vão. Não tinha equilíbrio e as forças estavam minadas com o peso da cadeira. Era como se uma formiga quisesse carregar um elefante. Não desisti. Permaneci ali, tentando, tentando, procurando o jeito, respaldada na afirmativa popular: “não é questão de força física, mas de jeito”.

Após três horas, voltara a casa com as vestes molhadas de suor e o rosto parecendo tampa de chaleira. Mesmo não tendo alcançado nenhum progresso, a minha determinação era ferrenha. Iria tentar tantas vezes fossem necessárias para conseguir o meu intento. Não podia subjugar-me ao corpo paralítico. A mente estava bem direcionada.
À tarde, no trabalho, não vi o colega delegado, mas começava a devotar-lhe gratidão.
Nas manhãs seguintes, os treinos continuaram cada vez mais acirrados e com efeitos proveitosos. Parecia que ganhava musculatura e força, mas quase sempre voltava com escoriações nas coxas, motivadas pelos parafusos da cadeira, além de danos materiais no volante, no painel do carro e nas minhas vestes.

Não podia perder a esperança. Lembrava-me de Martin Luther King: “Não podemos acabar com a noite, mas poderemos acender as luzes”. E eu esperava essa hora. Tinha que existir uma saída, uma luz. Até que encontrara o tão almejado jeito: sobrepus a traseira da cadeira sobre o batente da porta do carro e reclinei o banco do motorista, ficando quase deitada, quando me senti equilibrada e com força suficiente para levantar o corpo da cadeira, passá-lo por cima e posicioná-lo ao lado (a cadeira é compacta, não fecha em X, apenas o encosto dobra sobre o assento). Pronto! Havia conseguido! A persistência é mesmo o caminho para o sucesso! Eu havia vencido!!!!

Fiz tudo de novo para confirmar e voltei ao apartamento com o sabor da conquista estampado no rosto. Até uma vizinha que encontrei no elevador referira-se ao meu aspecto de felicidade. Nada comentei. Estava ainda sob o impacto da emoção. Acho que mereceria até um “Oscar” pela façanha. Não via a hora de fazer a demonstração para o Alfredo, os filhos, e, principalmente, no trabalho, quando esnobaria a minha nova condição igual a dos andantes: sem ajuda de ninguém. Que independência estava a experimentar! O coração estava em festa e mais essa vitória juntar-se-ia ao arsenal de minha trajetória pela vida.

Hoje, locomovo-me sozinha para qualquer lugar, sem ter de pedir favores ou ficar dependendo de terceiros. Realmente, Aristóteles Onassis tinha razão: “O homem só fracassa quando desiste de tentar.” O fracasso é companheiro das vontades moribundas.
À porta da delegacia, diante dos colegas, era motivo de felicidade fazer o meu “show” todos os dias, como costumo dizer ao colocar a cadeira no carro, dispensando ajuda.

Mesmo com tantas vitórias, lá no fundo da alma, batia uma saudade do tempo em que as conquistas eram outras e o caminhar era ato tão normal que eu nem me dava conta de sua importância. É, para sermos felizes é necessário que tenhamos sido infelizes antes. É o preço do conhecimento, da valoração. É lamentável que o caminho para tão importante aprendizado tenha de ser por meio da dor. O caminho das pedras...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

SIGO FIRME E RESOLUTA


SIGO FIRME E RESOLUTA
(Genaura Tormin)

Sou chama a crepitar na escuridão
Não me curvo, não me submeto.
Nessa cegueira, ostento o coração,
E arredia, não aceito cabresto.

A estrada é insana e longa,
Mas eu sigo firme e resoluta!
Na bagagem poucos acertos,
Pois o resto se resume em luta

A tramontana é o amor que me guia,
Além das armas que carrego na aljava,
Solfejo sempre um hino de alegria.

Enfrento tornados, escarpas e penedia,
Tentando encontrar o porto seguro,
Remédio eficaz para esta agonia.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

REFLEXÃO


REFLEXÃO
(Genaura Tormin)

Literalmente, estava paraplégica!
Uma vida de muitas batalhas, tentando reconquistar o que a vida me havia abruptamente roubado.

Nova vida, novas práticas e o coração esfacelado ante as conjecturas do nada.
Mas eu tentatava, agarrando-me com unhas e dentes.

Em casa tudo mudou.
Até os amigos mudaram. Tudo tão de repente!
A casa, agora, era visitada por profissionais diferentes, que me ensinavam coisas inusitadas, as quais o meu corpo inerte não conseguia aprender.

E eu sofria. Mas seguia resoluta e firme, pois poderia ser uma paraplégica no físico, mas já havia decidido que nunca o seria de mente, de alma e de coração.

E enquanto me deixava manusear pelo técnico, em silêncio, lembrava-me de uma reportagem televisiva, de caráter científico, em que cercearam a locomoção de um pequeno coelho que servia de cobaia a pesquisas experimentais, tornando-o paraplégico.

Com os olhos esbugalhados, querendo viver a todo custo, o pobrezinho, apenas com as patas dianteiras ilesas, arrastava seu pesado corpo desgovernado sobre a mesa do laboratório. Agora, como parecia com ele!

Mas a minha missão era menos digna: não me prestava a experiências para a consecução de antídotos ou descobertas beneficentes à humanidade. E não havia sido imolada. A paraplegia viera de graça, de presente numa noite de festa. Entretanto como queria viver! Tenho consciência de que o corpo físico nada mais é do que uma farda de carne que envergamos para cumprir o nosso desiderato.

Por isso a vida é uma curta viagem em que não se pode perder tempo. Até dos dissabores devemos tirar proveito. Quem sabe o coelho ensinava-me uma lição de resistência e crescimento. Teria que aproveitar a oportunidade. Por isso, mesmo depois de expirado o último fôlego de vida, ainda nos resta a oportunidade de servir.

Depois da morte do meu corpo físico, gostaria que todos os meus órgãos sãos fossem utilizados para, por exemplo, fazer pulsar um coração cansado; dar luz a olhos que nunca enxergaram...

Queria que até as mínimas partículas servissem de material de estudo aos futuros profissionais da área de saúde. Quem sabe para desenvolver a nanotecnologia, devolvendo a audição a quem nunca pôde ouvir uma música, o zumbido das abelhas, os refrulhos sonoros de um riacho, uma declaração de amor... Quem sabe, esses órgãos inanimados, essas partículas abandonadas, ainda possam contribuir para o estudo e o aperfeiçoamento da medicina, criando caminhos e mais saúde para todos. Gostaria que o resto, quando nada mais tivesse serventia, fosse deixado num lugar tranqüilo sob a terra pura, sem concreto, porque assim, ainda serviria de adubo para florescer um gerânio vermelho, símbolo de minha luta pela vida.

A ciência não conseguiu provar a inexistência de Deus. Ele existe! E eu acredito num Deus perfeito, do qual somos a criação. A alma não desce à sepultura, transcende à Casa do Pai. Daqui não levaremos nada, apenas o bem ou o mal que tenhamos praticado. Acredito que já vivemos muitas existências e viveremos muito mais outras. Elas agem em nós feito um processo lapidador, respeitando o livre-arbítrio.

A multiplicidade das existências no corpo físico não constitui apenas uma afirmação evangélica, mas uma verdade científica e filosófica, explicada pela Lei do Progresso, claramente estampada nas diferenças sociais, nas doenças congênitas, além de muitos acontecimentos atribuídos a fatalidades. E isso é necessário para que o espírito evolua, tendo por mestres a dor e as muitas experiências que, com certeza, o qualificará para o exercício do amor a si e ao seu próximo. Por isso este é um mundo de provações, próprio para o resgate de erros do passado. Ninguém reencarna sem uma cruz para carregar. É o que se chama de carma que pode ser de ordem física, moral ou financeira.

Com esse entendimento e partindo do princípio de que o Pai é justo, a aceitação do carma reverte-se em escadas para subirmos cada vez mais alto. Assim, aceitar a reencarnação significou aceitar a mim mesma. Significou a dura tentativa de relacionamento pacífico com o meu corpo paralítico.

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

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Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)



"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)