PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

UMA CASA PLENAMENTE INCLUSIVA




UMA CASA PLENAMENTE INCLUSIVA


Reportagem exibida hoje (22.08.2017) no Jornal "O Popular" de minha cidade - Goiânia - sobre arquitetura e decoração inclusivas. 
Uma reflexão sobre um segmento da sociedade que também produz, cria e se evidencia em competência, predileções e sonhos. Por que não? 
De maneira sutil, os profissionais dessa área têm mostrado talento e sensibilidade ao criar ambientes bonitos, confortáveis e harmônicos para pessoas com deficiência que deambulam, principalmente de cadeira de rodas, como é, em especial, o meu caso. 
Uma nova concepção de beleza, sem os rastros de algemas que deprimem, limitam com ares de tristeza. 
Novo mercado se engaja nesse ministério, em nome da beleza e do viver saudável e feliz.
Deficiência não é uma opção pessoal. 
É uma experiência natural da vida humana!


sexta-feira, 21 de março de 2014

CUIDADO COM OS BURROS MOTIVADOS


CUIDADO COM OS BURROS MOTIVADOS
(Matéria publicada na Revista ISTOÉ)
Eu achei excelente essa entrevista e resolvi republicá-la aqui. Espero que os meus leitores também gostem!

O entrevistado é Roberto Shinyashiki, médico psiquiatra, com Pós-Graduação em administração de empresas pela USP, consultor organizacional e conferencista de renome nacional e internacional.
Em “Heróis de Verdade”, o escritor combate a supervalorização das Aparências, diz que falta ao Brasil competência, e não auto-estima.
ISTOÉ – QUEM SÃO OS HERÓIS DE VERDADE?
Roberto Shinyashiki — Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe.
O mundo define que poucas pessoas deram certo. Isso é uma loucura.
Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes.

E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados.
Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu a pena porque não conseguiu ter o carro nem a casa maravilhosa.

Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa possa se orgulhar da mãe. O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes.
Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros.
São pessoas que sabem pedir desculpas e admitir que erraram.
ISTOÉ — O SR. CITARIA EXEMPLOS?
Shinyashiki — Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos,empregado em uma farmácia .
Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis.
Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem.
Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito “100% Jardim Irene”.
É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes.
O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana.
Em países como Japão, Suécia e Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se mata?
Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher que, embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.
ISTOÉ — Qual o resultado disso?
Shinyashiki — Paranóia e depressão cada vez mais precoces.
O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim.
Aos nove ou dez anos a depressão aparece.

A única coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança.
Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos.
Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas.
Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.

ISTOÉ – Por quê?
Shinyashiki — O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento.
É contratado o sujeito com mais marketing pessoal.
As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência.
Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras.

Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas, como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa.
Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei-a na hora.
Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

ISTOÉ — Há um script estabelecido?
Shinyashiki — Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um Presidente de multinacional no programa O aprendiz ?
“Qual é seu defeito?”

Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal:
“Eu mergulho de cabeça na empresa.
Preciso aprender a relaxar”.
É exatamente o que o Chefe quer escutar.

Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido?
É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder.
O vice-presidente de uma as maiores empresas do planeta me disse:

” Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir”.
Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor?

ISTOÉ — Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?
Shinyashiki — Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento.
Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência.
CUIDADO COM OS BURROS MOTIVADOS.
Há muita gente motivada fazendo besteira.
Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado.
Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão.

Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado.
Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia.
O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.
ISTOÉ — Está sobrando auto-estima?
Shinyashiki — Falta às pessoas a verdadeira auto-estima.
Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa.

Antes, o ter conseguia substituir o ser.
O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom.

Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer.
As pessoas parecem que sabem, parece que fazem, parece que acreditam.
E poucos são humildes para confessar que não sabem.
Há muitas mulheres solitárias no Brasil que preferem dizer que é melhor assim.
Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

ISTOÉ — Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?
Shinyashiki — Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis.
Quem vai salvar o Brasil? O Lula.
Quem vai salvar o time? O técnico.
Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta.

O problema é que eles não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia:
“Quando você quiser entender a essência do ser
humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham”.
Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia.
Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo.

A gente tem de parar de procurar super-heróis. Porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.
ISTOÉ — O conceito muda quando a expectativa não se comprova?
Shinyashiki — Exatamente.
A gente não é super-herói nem superfracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso.

Hoje, as pessoas estão questionando o Lula em parte porque acreditavam que ele fosse mudar
suas vidas e se decepcionaram.

A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.
ISTOÉ — Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?
Shinyashiki — Tenho minhas angústias e inseguranças.
Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente.
Há várias coisas que eu queria e não consegui.
Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos).

Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos.
Com uma criança especial, eu aprendi que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse.
Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo.

O resto foram apostas e erros.
Dia desses apostei na edição de um livro que não deu certo.

Um amigão me perguntou:
” Quem decidiu publicar esse livro?”
Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu.
Não preciso mentir.

ISTOÉ – Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?
Shinyashiki — O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las.
São três fraquezas.
A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança.
Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram.
Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno.

Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards.
Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates.

O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.
ISTOÉ — Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?
Shinyashiki — A sociedade quer definir o que é certo.
São quatro loucuras da sociedade.
A primeira é instituir que todos têm de ter
sucesso, como se ele não tivesse significados individuais.

A segunda loucura é: Você tem de estar feliz todos os dias.
A terceira é: Você tem que comprar tudo o que puder.
O resultado é esse consumismo absurdo.
Por fim, a quarta loucura:
Você tem de fazer as coisas do jeito certo.

Jeito certo não existe!
Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade.
Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito.
Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento.
Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou com amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo a praia ou ao cinema.
Quando era recém-formado em São Paulo,
trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes.

Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte.
A maior parte pega o médico pela camisa e diz:

“Doutor, não me deixe morrer.
Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz”.
Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada.

Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas.
Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou perdido várias oportunidades para aproveitar a vida .

A

sábado, 2 de janeiro de 2010

GENAURA FALA DE LIVROS


PINÇADOS DE UMA ENTREVISTA

PV - Quantos anos a senhora tem?

Já vivi meio século, conheço bem a jornada. Fui menina, rebelde, barulhenta, traquina. Mulher, hoje sou. Laboriosa, complicada, parideira, dona de casa... Ardo em orgasmos, arquejo em lágrimas... Acredito que a idade está relacionada com a mente, com o encantamento de viver, com a decisão de sermos bons para conosco e para com o próximo, pelo menos o mais próximo. É um compromisso com o sorriso que me estampa o rosto, como você disse. Por isso, reputo-me sempre com 20 anos, pois as faces se enrugam, mas o essencial não pode se enrugar nunca! Estou certa?

PV - E a sua família?

Sou casada com o odontólogo Alfredo Tormin e temos quatro filhos. Uma família que me ama e não me castra as oportunidades. Pelo contrário, é um nascedouro de forças, incentivos que me fazem caminhar mesmo sem o uso das pernas. E isso é de importância vital. Talvez seja o segredo de todo o sucesso que tenho conquistado.


PV - Fale dos seus livros

PÁSSARO SEM ASAS , em 6ª edição, é um livro autobiográfico, de pensamento positivo, em que eu tento transformar derrotas em conquistas. Mostro-me por inteira, escudando as dificuldades com o positivismo que decidi adotar. É um relato escancarado de quem protagonizou no palco da vida uma história diferente, cujas machucaduras tento reverter. Além de tudo, é um romance, um compêndio de ensinamentos para quem ganha uma deficiência e não sabe como proceder. Tento passar uma mensagem de otimismo, de coragem, que poderá ajudar outras vidas, provando que o "querer é poder". Defensora do trabalho como religião da vida, também como terapia, sentimento de utilidade, rebato paternalismo e ouso dizer que "não se deve dar ao homem o que ele pode conseguir com o fruto do seu trabalho, sob pena de roubar-lhe a dignidade". Um de seus capítulos, " O deficiente físico sob a luz da Lei" é uma resenha jurídica da legislação que trata de toda a sua problemática e, com certeza, é de grande valia. Encontra-se na internet, em forma de artigo, em vários sites, inclusive jurídicos.

PV - A senhora também é poetisa?

Tenho um livro, APENAS UMA FLOR, um voo pelos veios da poesia para acalentar a vida, colorir os instantes desbotados. Não me importa se canto o amor, a vida, a morte... O que importa é cantar, extravasar, curtir as palavras lindas, tristes ou fortes. E a vida continua. Ainda sou perseguidora de sonhos. As portas me fascinam. A vida ainda acontece inteira no meu coração. Acredito no amanhecer, no poder recomeçar a cada dia. Sou a síntese dos meus desejos, compilação de inércias extáticas, mas, ainda, uma inesgotável fonte de encantamento pela vida, pelos amores, pelo belo, pela arte de fazer versos. Tenho ainda mais dois outros: Nesgas de Saudade e Borboleteando, também de poemas. Esses são virtuais, um avanço que faz a diferença.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

SEXUALIDADE DE MULHERES COM DEFICIÊNCIA


SEXUALIDADE DE MULHERES COM DEFICIÊNCIA FÍSICA
(Genaura Tormin)

Entrevista feita com Genaura Tormin, pela assistente social, Marly Machado Bento Bueno, para suporte do tema: “Sexualidade de Mulheres com Deficiência Física”, cuja monografia alcançou a nota máxima.

— Qual é o seu nome?
— Meu nome é Genaura Tormin.

— Qual sua profissão? Trabalha? Onde?
— Sou serventuária do Judiciário Federal. Meu cargo é o de Analista Judiciário, área judiciária. Trabalho no Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região, em Goiânia. O trabalho funciona para mim feito uma terapia. Significa vida e me acrescenta a autoestima.

— Participa de alguma organização social? Qual? Faz o que lá?
— Sim. Sou afiliada à ABMCJ — Associação Brasileira de Mulheres de Carreira Jurídica; à UBE – União Brasileira de Escritores de Goiás; à ADPEGO — Associação dos Delegados de Polícia de Goiás; à ADFEGO — Associação dos Deficientes Físicos de Goiás; e outras mais, além de ser Consulesa do POETAS DEL MUNDO em Goiás.

— Qual é o seu estado civil? Se casada, qual é a profissão do marido?
— Sou casada com um grande amor. Meu marido, Alfredo de Paiva Tormin, é odontólogo.

— Têm filhos? Quais as suas profissões?
— Temos quatro filhos: Lara Patrícia, Flávio, Fernando e Frederico. Todos eles são formados em Direito e o Flávio formou-se também em odontologia. A Lara ocupa o cargo de Oficiala de Justiça Avaliadora da Justiça Federal, o Frederico é Procurador do Estado de Goiás e os outros dois são serventuários do Tribunal Regional do Trabalho, onde ocupam cargos de direção.

— Qual é a sua religião? Qual a freqüência de sua participação na igreja? O que faz lá?
— Sou egressa de um colégio de freiras, onde morei durante nove anos. Queria ser freira, entretanto, hoje, depois da paraplegia, sou espírita convicta. Não freqüento muito, mas leio muito. Às vezes profiro palestras na Irradiação Espírita e no PAE (Posto de Auxílio Espírita). A doutrina espírita respondeu todas as minhas perguntas.

— O que aconteceu para que você ficasse com essa deficiência? Quando ela ocorreu?
— Nada! Dormi sã e acordei assim. Eu tinha 36 anos de idade. Há muito não convivo com os meus passos, a minha sensibilidade tátil, a liberdade de ir-e-vir. Estou inerte do peito para baixo. Uso sonda vesical para escoar a urina acumulada e o resto comando com a codificação mental, além do exercício da paciência, do improviso e da capacidade para me adaptar. Segundo diagnóstico médico, trata-se de uma Mielite Transversa Virótica, o que significa ter sido uma infecção na medula. A medula é basilar para o ser humano. É por meio dela que o cérebro envia as ordens para o funcionamento de todo o organismo. A mielite danifica os nervos e interrompe os fluxos nervosos com perda de sensibilidade. É uma lesão gravíssima. Chama-se Mielite Transversa porque acontece no sentido horizontal. São inúmeras as suas causas. É uma síndrome incapacitante, paralisa tudo o que esteja abaixo dela: pulmão, bexiga, intestino e aparelho sexual, além da locomoção. Se acontecer na porção cervical, a pessoa fica tetraplégica. Pode matar. Leigamente falando, acho que fui vítima de uma anestesia na região lombar. Talvez tenha sido a Raquidiana ou a Peridural. No meu livro, Pássaro Sem Asas, a partir da 3ª edição, acrescentei um capítulo intitulado ‘Pode ter sido anestesia’, em que conto todos os pormenores a respeito disso.

— Qual foi sua reação ao ser comunicada desse diagnóstico?
— Fiquei em pânico, em cacos. É indescritível! Acordei com a sensação de que me havia tornado num boneco: não sentia os membros inferiores, não tinha equilíbrio. Foi difícil! Uma impotência terrível! Não me lembro do que pensei, mas parecia o fim, uma morte por tabela.

— O que fez para aceitar o fato de não andar mais?
— Bom. Primeiro envidei muitos esforços para ver se revertia o descalabro da situação. Depois, quando percebi que meu caso era irreversível e o remédio era mesmo me aceitar, resolvi arregaçar as mangas e dar a mim mesma um voto de confiança, tendo em vista ter uma família para cuidar, um marido, uma vida... E os filhos eram pequenos: 11, 10, sete e seis anos. Eles eram a estampa do tamanho da força que eu deveria ter. Eu tinha que lutar. Afinal estava viva! O motivo dessa luta até hoje se chama AMOR.

— Quais as maiores dificuldades que enfrentou ou enfrenta após a paraplegia?
— No início eu enfrentei muitas dificuldades, mesmo. Senti-me fechada, enclausurada, prisioneira por crime que não havia cometido, pelo menos nesta existência. A impossibilidade de ir para o trabalho da cozinha, alçar aos folguedos com os filhos, ajudá-los, cobri-los à noite, fazia-me sofrer muito. Realmente, eu não sabia viver daquele jeito e não havia literaturas que me dessem alguma luz. Não sabia como fazer as necessidades fisiológicas, pois não havia vontades. Foi muito difícil! O que doeu muito foi a falta de sensibilidade que enfrento até hoje. Quebro perna e não sei que quebrei, só percebo quando vejo o inchaço. Eu gostaria de sentir dor, pois ela é um mordomo, é um arauto que nos avisa, que nos chama à preservação. Entretanto as dificuldades têm o seu lado positivo: concitam-nos ao desafio. Julgo-me um soldado sempre pronto para novos combates.

— O que mudou na sua vida após a paraplegia?
— Em paraplegia adaptar-se é irreversível. Até que me adaptei rápido. A cadeira me leva dentro de casa, eu dirijo o carro nas ruas... A casa teve de ser adaptada, as portas alargadas, o piso nivelado... Uma nova vida. Até os amigos mudaram. O engajamento da família foi e é de suma importância. Não sou tida como paraplégica. Meu marido nunca me tirou a autoridade com os filhos ou com o lar. Tudo como antes. Retomei às minhas atividades, quis ser produtiva. Trabalhei 13 anos como Delegada de Polícia, e já trabalho há alguns anos no Judiciário Federal. Muita coisa mudou para melhor.

—Quais os limites adquiridos com o fato de não andar mais?
— Há! Muitos limites, muitos, uma vez que eu andava a cavalo, corria, andava de bicicleta, subia às árvores, pegava onda no mar, nadava... Ainda tento ser ousada, mesmo que seja apenas para guardar a façanha numa fotografia. Já tentei andar a cavalo, de trator, de carroça, de jet sky, de motocicleta, de lancha, de ultraleve, de caiaque, de veleiro... Hoje ainda nado, porém com um colete salva-vidas. De vez em quando faço mergulho autônomo... Eu era um tipo meio irreverente. Acredito que se eu tivesse que me comparar a um bicho, comparar-me-ia a um camaleão, porque o camaleão sempre está mudando de cor, sempre está se adaptando, e eu sempre fui assim. Sou muito risonha e era muito mais. Sempre fui daquelas pessoas ‘cheguei, estou aqui’. Hoje, visualmente, sou diferente, até engraçada: pernas de roldanas, pois ando sentada e uma de minhas orações é a de me encantar com a vida.

— Como seu parceiro reagiu diante desses limites?
— Meu marido é uma luz na minha vida. Eu acredito que sem ele não haveria unidade. Realmente nós somos metades e nos completamos. Somos cúmplices. "Não há nada que mais estreite dois corações do que haverem chorado juntos (Jean-Jacques Rousseau)".
Ele sempre esteve comigo em todos os momentos, não como um prestador de cuidados, mas como um sócio. E tudo isso é justificado por uma pequena palavra chamada amor, comprovada pelos anos de casamento e pelos frutos dessa convivência.

— Esse limite interfere no desempenho de sua sexualidade? Como?
— Lógico! Eu conheci o outro lado. Fui inteira até os trinta e seis anos de idade. A minha lesão é muito alta. Está nivelada em T-4, o que significa dizer que a paralisia começa logo abaixo dos seios. Desse nível para baixo, sou toda dormente, não sinto nada, além de não haver coordenação motora. Entretanto sexo não significa apenas contato físico. Ele está muito mais na cabeça, no coração e no amor que engloba tudo isso. Há, ainda, a criatividade que nos aponta outros meios, outras maneiras de fazer amor. Aprendemos a encontrar a essência do prazer de outras formas. Procuramos fantasiar e atentar para o que me sobrou ileso, embora eu possa satisfazê-lo plenamente, tendo em vista, anatomicamente, tudo se encontrar em forma, apenas sem sensibilidade. Posso afirmar que tudo vai bem, e a família também.

— Como você lidava com a sexualidade antes da paraplegia?
— Antes, nosso clima de sexualidade era muito bom. Os olhos, os sorrisos, estampavam o desejo. Havia uma necessidade enorme de estarmos juntos. A atração era, realmente, muito forte. Coisa de pele. Nós éramos mais jovens, os hormônios ouriçados... Havia muito encantamento e a química do prazer no ponto certo.

— E agora? O que mudou?
— É ainda muito bom. Tudo dentro do cronograma etário, e sei que vai continuar por muitos anos ainda. A gente sempre arranja um jeitinho para que o clímax fique melhor. O desejo de amar já é amor. Hoje não há orgasmo, tecnicamente falando, mas ele se manifesta de outras maneiras: no olhar, no suor, nos olhos, nas lágrimas, no aconchego, no estar junto sem dizer nada, na divisão de um copo de suco, na chegada estampada em passos... Tudo me ouriça, me cativa, me faz querer sempre mais. Tudo está na maneira de pensar e na disposição para achar soluções. Não podemos viver de lembranças. Nada nos acontece por acaso. Não cai fardo pesado em ombros que não possam carregá-lo. Contudo o contato físico, sexualmente falando, existe, sim, e bom, capaz de levar-nos à satisfação plena, o que eu costumo dizer: longe da terra e perto do céu.

— Como ficou sua relação com a vida após a paraplegia?
— Como disse, sou egressa de um colégio de freiras, onde aprendi os valores da vida, razão por que sempre tive a humildade por escudo. Olhando para trás, não me vejo uma pessoa má, uma pessoa que precisasse de uma lição. Eu era uma dona de casa dentro dos parâmetros da normalidade, mãe, estudante, uma vez que fiz faculdade depois de casada. Fiquei paraplégica um ano e meio depois que me formei em Direito. Entretanto a vida ficou melhor, tem mais sentido, é mais real. A cada esforço para me transferir para cadeira de rodas, reputo ser um tipo de oração, uma oportunidade para valorizar a vida, valorizar a família e a mim mesma. Assim a minha relação com a vida ficou melhor. Passou a ter mais sentido. É tão verdade, que tive crescimentos extraordinários, tanto profissionalmente quanto espiritualmente. Escrevi três livros: Pássaro Sem Asas, que já está na 6ª edição, Apenas Uma Flor e Nesgas de Saudade. Estes dois últimos são de poesias. Escrevo artigos para jornais, revistas, profiro palestras por aí, no Estado e fora dele. Cresci como pessoa e me gosto mais hoje. Minha imagem, sentadinha na cadeira de rodas, toca as pessoas. Isso me faz bem e é motivo de agradecimento. Surge a oportunidade de passar uma mensagem de otimismo, de ajuda, de garra, para significar que é possível viver. A deficiência é uma experiência natural da vida humana, e não é por causa dela que a gente tem de ser obstaculizada de perseguir sonhos, conquistar profissionalismo como todas as pessoas normais. Sou uma perseguidora de sonhos até hoje.

— O que sonha para você e a sociedade?
— Sei que as pesquisas científicas avançam. Estamos diante de uma revolução médico-tecnológica, sem precedentes, desencadeadora de processos curativos extraordinários. É o marco deste novo milênio, que enfoca o uso da clonagem de embriões, principalmente nas pesquisas das chamadas células-tronco, tentando buscar a superação dos problemas do ser humano. E essa experiência já está saindo do papel para a prática. Eu não sei se isso vai resolver para mim, mas no meu sentimento de amor desejo que essa pesquisa crie asas, crie formas, para devolver os movimentos a tantos paraplégicos, a tantos meninos que estão aí em cadeiras de rodas, e também saúde para outros casos. Gostaria que a sociedade soubesse mais sobre as condições de vida das pessoas com deficiência, para que as discriminações fossem banidas. Sonho com a ‘igualdade de oportunidades para todos’, e que o deficiente físico, principalmente o cadeirante, fosse visto pela competência e não pela cadeira que ocupa. Para mim, não consigo nem pedir porque tenho mais do que mereço ou preciso. Tenho uma família, um amor, um abrigo, um emprego e uma paraplegia que me faz melhor. Enfim, tenho paz, que mais poderia desejar?

— Em seu livro ‘Pássaro Sem Asas’ você mostra que fez várias adaptações domésticas para facilitar o seu dia-a-dia. E no trabalho e quando viaja, em hotéis, como você enfrenta as barreiras existentes?
— Hoje há uma consciência popular maior sobre a situação da pessoa com deficiência. Na minha casa, o meu marido desde os primeiros anos preocupou-se com as adaptações para que eu descobrisse o meu novo mundo, para que eu voltasse a ser produtiva. Tentamos sempre adquirir tudo o que me facilite o caminhar. É o que chamo de muletas externas. O Tribunal onde trabalho é servido por rampas, e tenho um banheiro decente que atende às minhas dificuldades, às minhas limitações. Recente foi instalado um elevador, especialmente para que o deficiente cadeirante pudesse acessar o andar superior. É o respeito às leis, além do real entendimento do slogan ‘igualdade de oportunidades para todos’, o que significa que os dirigentes do Tribunal são pessoas de espíritos evoluídos. Tenho tido dificuldades para entrar nos banheiros dos hotéis durante as viagens. Aí a criatividade e o improviso se encarregam, preocupando-me para não ficar triste. Às vezes, lavo o rosto com toalha molhada, fico sem tomar banho, lavo as axilas, as partes íntimas [risos]... Tendo o marido por perto, tudo fica fácil, embora não deixe de reclamar (da falta de adaptações) para criar consciência popular. Não me constranjo em subir escadas nos braços de alguém. Faço isso para que outras pessoas vejam. Pode ter ali um futuro arquiteto, um futuro engenheiro, solo fértil para o plantio da semente.

— Como você vê o preconceito em relação à pessoa com deficiência?
— Ele existe e não será banido tão cedo, não só em relação às pessoas com deficiência, mas em relação às minorias. Isso é cultural. Vem de longas datas. Na Grécia antiga, as crianças que nasciam com deficiência eram tidas como seres sem alma, abandonadas para morrer. Os cristãos achavam que era um castigo de Deus. Ainda hoje a cadeira rodas passa uma idéia de mendicância. Há sempre sentimento de piedade, de medo, e quase nunca o de respeito. Mas isso a gente vai tirando de letra, mostrando o outro lado. Não há discriminação que resista à competência. O importante é ostentar a coragem e seguir em frente, desafiando as impossibilidades.

— Em outras entrevistas com mulheres que ficaram deficientes físicas pude perceber que elas falam pouco sobre a questão da sexualidade. Dentro de sua experiência de vida e também como autora de um livro que aborda também essas questões, gostaria de saber a sua opinião. Por que há esse receio quando o assunto é sexualidade?
— É falta de amor para consigo mesma; é falta de auto-estima e até de conhecimento, porque estar deficiente não significa estar morta ou assexuada. A mente e o coração estão ilesos, além do sentimento de amor que temos pelo parceiro. O ato sexual não é somente a penetração do membro viril, envolve muito mais. Assim não cultivar essa forma de amar é se menosprezar, é se anular e, além de tudo afastar o companheiro ou não atrai-lo. Sempre há uma saída. Não há portas que não se abram. Particularmente, tenho um fascínio por portas. Estou sempre imaginando o que há por trás. Temos que usar a criatividade, a fantasia, a ternura, os enleios das mãos, da voz, do sorriso e saber aproveitar o que nos encanta no parceiro, procurando dar e receber. Com uma lesão alta igual a minha, a ausência da sensibilidade é total. Não sinto sequer a penetração durante o ato sexual. Mas quantas outras carícias eu posso fazer? A natureza é sábia! O prazer, geralmente, é transferido para outras áreas do corpo. Basta procurar. No meu caso, e para minha satisfação, as axilas substituíram os enleios de prazer do órgão genital. Entre duas pessoas que se amam, no recôndito de quatro paredes, tudo é normal. Vamos procurar, vamos pesquisar... Por que não procurar outros pontos eróticos que não nos deixem a ver navios!? O importante é a gente pensar que é boa no que faz e procurar o prazer na mente, no coração, no aconchego, numa encostadinha de rosto, num beijo... Tudo isso tem muita importância. Descobri que o beijo ficou mais gostoso, as carícias nos lóbulos das orelhas, no pescoço, nos seios, nos cabelos... Eu nunca havia pensado nisso antes. Realmente, as pessoas que assim não agem estão se anulando, fazendo-se refém da paralisia, mentalmente, inclusive. Eu sou mente, sou comando, não vou permitir que umas pernas estáticas, uma dormência afoita comandem-me o cérebro e o coração. Isso, nunca! Continuo fêmea e me orgulho dessa condição. Tenho um artigo intitulado “Não somos assexuados” em que abordo esse assunto, pois a mídia é a grande responsável por essa pecha que recai sobre nós, incluindo as novelas. Como formadora de opiniões, a mídia deveria construir, arremessando-nos à busca de soluções, tentando melhorar o porvir.

— E como você vê os profissionais que não se voltam para a questão da sexualidade da pessoa com deficiência?
— Eu fui reabilitada no Hospital Sara Kubitschek, em Brasília. No início, fiquei avessa a esse assunto, tendo em vista pensar que iria recuperar tudo. Entretanto, lembro-me bem de que a minha fisioterapeuta, Mércia, mostrara-me revistas americanas, explicando-me como eu iria fazer amor. Só que não dei importância, razão por que tive que pagar o preço com as próprias experiências, as próprias buscas. Às vezes, os prestadores de cuidados não nos incentivam nesse particular, por não sermos detentores dos movimentos físicos e da sensibilidade, acreditando que a sexualidade não se faz mais necessária. É como se estivéssemos sendo condenados ao exílio. O crime: prazer sexual. Ledo engano! São necessários estudos e nova mentalidade que qualifiquem os profissionais dessa área, além de literatura informativa, também para o paciente e sua família.

— Durante estudos bibliográficos, descobri que para o homem que adquiriu uma deficiência física a medicina está munida de recursos para garantir a sua vida sexual. Como por exemplo: próteses penianas, drogas vasoativas, viagras entre outros. Para as mulheres restam apenas os cremes, os perfumes, essências para o corpo todo... O que você pensa a esse respeito?
— Nós mulheres temos um privilégio sobre os homens: não carecemos de ereção para fazer amor. Nosso órgão genital é côncavo, próprio para o encaixe do membro masculino. Somos agentes passivas, recebedoras. Assim, a nossa maior parte fica por conta da criatividade, da ternura, da astúcia, do que só nós na condição de fêmea sabemos engendrar. Além disso, temos que querer ficar atraentes, agradáveis, entrando aí o uso dos cremes, óleos, que ouriçam o desejo. Se a paralisia não melhora, melhoremos nós. A dormência não vai regredir. A receita é transferir para outras áreas a sensação que sentíamos na genitália, além de procurar encantar-se com o parceiro, uma vez que a relação sexual jamais acontecerá plena, solta, bonita e sublime, sem um sentimento de admiração, pois é uma transferência mútua de energia que nos abastece, tornando-nos plenos, renovando-nos a felicidade do existir.

— O Fabiano Puhlmann, no livro ‘A Revolução Sexual Sobre Rodas’, fala que a pessoa quando adquire uma deficiência acaba desenvolvendo habilidades e sensibilidades antes desconhecidas. E você, em seu livro Pássaro Sem Asas, diz que desenvolveu essa sensibilidade principalmente nas axilas. Poderia falar mais sobre isso, como foi essa descoberta para você?
— É. Alguns leitores ficaram surpresos com a idéia de fazer amor nas axilas e até pesquisaram, comprovando a existência de prazer. Restaram-me as axilas, por que não as experimentar? É uma preparação, antes da cópula propriamente dita, que me deixa feliz, que me faz mulher. Também mereço sentir prazer. O beijo mais vagaroso, mais profundo, mais silencioso, com exploração do palato, acompanhado, é claro, da masculinidade e dos odores tão queridos do parceiro, deixam-me muito fêmea e emocionada, chegando a tremer o que me resta ileso. Continuo dizendo: o homem só fracassa quando desiste de tentar. Costumo afirmar como Aristóteles Onassis: todos os dias eu me levanto para vencer!

— Eu gostaria de saber, se você tem algo mais para acrescentar que acha que seria importante dizer e que não foi dito.
— Eu agradeço muitíssimo pela entrevista. Durante todo o tempo estive devassando a minha privacidade, mas sei que com isso contribuo para dias melhores de nossa categoria. Ouso dar um último conselho à pessoa com deficiência: cultive sua auto-estima! Vá à luta! Você deve ser a arquiteta do próprio destino. Reinvente a vida. Aplique remendos, faça consertos... Aprenda a ver os pontos positivos que existem em você, pois não há nada tão feio que não tenha alguma beleza e nem tão bonito que não tenha alguma feiúra. E disso tudo, o que mais importa é a mente bem direcionada, enfeitada pelo desejo de querer viver bem. Nunca deixe de sorrir, nunca deixe de procurar, porque quem procura acha. Nunca deixe de sonhar. Você é do tamanho do seu sonho.

Genaura Tormin

Genaura Tormin
Publicado no Recanto das Letras em 01/03/2007
Código do texto: T397636

sábado, 11 de abril de 2009

GENTE QUE FAZ HISTÓRIA



Saiu na revista PEOPLE, de março/2009. Caso queira visualizar melhor entre em: www.revistapeople.com.br
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domingo, 29 de março de 2009

SAIU NO JORNAL OPÇÃO


SAIU NO JORNAL OPÇÃO
(Genaura Tormin)

VITÓRIA RÉGIA

Genaura Tormin ficou paraplégica, vítima de uma virose em 1982, quando ocupava o cargo de comissária de polícia. Parou de andar, mas não de correr atrás dos sonhos. No mesmo ano, mediante concurso, tornou-se delegada de polícia, ficando em 4º lugar entre os concorrentes. Pós-graduou-se em Direito Penal, Processo Penal, Administrativo e Constitucional, pela Academia de Polícia de Goiás. Exerceu a função de delegada de polícia em várias delegacias distritais e em algumas especializadas, como a Delegacia da Mulher, Delegacia de Crimes de Acidentes de Trânsito, Delegacia de Vigilância e Proteção de Menores.

Aposentou-se por tempo de serviço, mas não ficou estacionada. Prestou mais um concurso e hoje é analista judiciária do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, e, por decisão plenária daquela corte, foi cedida para o Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região em Goiânia, onde foi designada para a Diretoria de Serviço de Recursos e Distribuição. Por sua atuação, recebeu o título de “SERVIDOR PADRÃO”.

Casada com o odontólogo Alfredo de Paiva Tormin, é mãe de quatro filhos. Genaura é autora de dois livros: Pássaro Sem Asas, que já vai para a 6ª edição, e Apenas uma Flor, de poemas.

Ceticismo tem cura?

Precisamos acreditar nos sonhos para fazer escolhas. Entretanto, o ceticismo também é necessário como ponto de equilíbrio, pois geralmente somos presas fáceis de crendices. Os extremos são sempre prejudiciais.

Quando o pouco vale muito?

Quando esse pouco foi construído com dignidade, com sacrifício, com o valor da moralidade e do respeito ao semelhante.

Que problema não tem solução?

Só a morte.

O que merece um mandado de busca e apreensão?

O nosso dinheiro, suado, sofrido, afanado desavergonhadamente por nossos políticos.

Quem vive fazendo justiça?

Partindo do conceito de que política é a arte de conciliar os interesses próprios, fingindo conciliar os dos outros, acredito que os pretensos justiceiros, que se dizem salvadores da pátria, constituem-se na maioria dos políticos.

Quem tem complexo de vítima?

As pessoas fracas, covardes, inseguras, sem auto-estima, que não se permitem crescer, negando a si mesmas a oportunidade de lutar.

O que nunca cicatriza?

A perda de um filho.

Como alterar o curso da vida?

Conhecendo a si mesmo e permitindo-se desafiar as intempéries advindas dessa façanha.

Que caminho é mais produtivo?

Aquele que é erigido com trabalho, verdade e determinismo.

Mente poderosa é aquela que...

É capaz de transformar derrotas em conquistas, recriando a vida na busca de novos caminhos.

Onde está a força vital?

Na coragem e no otimismo.

Construir é...

Melhorar o mundo, pois pensar em todos é a melhor forma de pensar em si.

Destruir é...

Matar um sonho sem ter lutado por ele, pois o homem só fracassa quando desiste de tentar.

ENTREVISTA COM A GENAURA TORMIN PARA O JORNAL DA POUSADA DO RIO QUENTE-GO


ENTREVISTA COM A GENAURA TORMIN
(Genaura Tormin)

Genaura Tormin é uma pessoa especial, diferente, não só no visual, mas na sensibilidade que lhe comanda o coração, a vida. Ela é uma escritora. Não só uma escritora: uma mulher de garra, de fibra. Um exemplo de vida. Uma mulher da Lei. Vítima de uma paraplegia que lhe meou o corpo, não se deixou ficar à margem da vida. Foi à luta! Embora não marque o chão com os passos, ela anda com a mente, com o coração. Caminha em ideais, em trabalho, em afetividade, deixando sempre o sorriso estampar-lhe o rosto. Pernas não são problemas para ela. Mesmo andando numa cadeira de rodas, Genaura exerceu, com galhardia, o cargo de Delegado de Polícia de Goiás até assumir o de Analista Judiciário no TRT-GO, em Goiânia, onde exerce suas atividades na Diretoria de Serviço de Recursos e Distribuição . Se um deficiente de cadeira de rodas pode ser até um delegado de polícia, o que mais ele não poderá fazer?

PV - Em qual delegacia a senhora atuava?

Atuei em várias delegacias distritais, afinal, trabalhei 30 anos na Polícia Civil do meu Estado. Entre outros, fui delegada adjunta da Delegacia da Mulher, Delegacia de Trânsito e Delegada Titular da antiga Delegacia de vigilância e Proteção de Menores, com circunscrição em toda a grande Goiânia, além de exercer o magistério na Academia de Polícia de Goiás, nas cadeiras de Organização Policial e Deontologia Policial.

PV - Com a experiência no trato com crianças e adolescentes, o que a senhora acha da adoção de crianças brasileiras por estrangeiros?

Acho que o bem maior não tem nacionalidade. Entretanto, o Brasil é um País viável e dentro dos parâmetros de ser humano somos capazes de criar nossas crianças. Basta conscientização e solidariedade social, além de um pouco mais de responsabilidade governamental. Talvez uma campanha como: "Troque seu cão por uma criança" poderia ajudar. Por outro lado, sempre houve muita burocracia para o processo legal de adoção de crianças.

PV - Qual a conseqüência do tóxico para o adolescente?

As conseqüências são desastrosas, haja vista que 90% dos adolescentes que passavam pela delegacia eram usuários de substâncias tóxicas, até as drogas injetáveis que causam dependências e grandes perdas à saúde física e mental, levando, à s vezes, à morte, sem se falar nos prejuízos morais. É drogado que o indivíduo perde o juízo crítico, entrando na permissividade para praticar delitos hediondos que o marcarão até o fim de seus dias.

PV - Quantos anos a senhora tem?

Já vivi meio século, conheço bem a jornada. Fui menina, rebelde, barulhenta, traquina. Mulher, hoje sou. Laboriosa, complicada, parideira, dona de casa... Ardo em orgasmos, arquejo em lágrimas... Acredito que a idade está relacionada com a mente, com o encantamento de viver, com a decisão de sermos bons para conosco e para com o próximo, pelo menos o mais próximo. É um compromisso com o sorriso que me estampa o rosto, como você disse. Por isso, reputo-me sempre com 20 anos, pois as faces se enrugam, mas o essencial não pode se enrugar nunca! Estou certa?

PV - E a sua família?

Sou casada com o odontólogo Alfredo Tormin e temos quatro filhos. Uma família que me ama e não me castra as oportunidades. Pelo contrário, é um nascedouro de forças, incentivos que me faz caminhar mesmo sem o uso das pernas. E isso é de importância vital. Talvez seja o segredo de todo o sucesso que tenho conquistado.

PV - Fale dos seus livros.

PÁSSARO SEM ASAS , em 5ª edição, é um livro autobiográfico, de pensamento positivo, em que eu tento transformar derrotas em conquistas. Mostro-me por inteira, escudando as dificuldades com o positivismo que decidi adotar. É um relato escancarado de quem protagonizou no palco da vida uma história diferente, cujas machucaduras tento reverter. Além de tudo, é um romance, um compêndio de ensinamentos para quem ganha uma deficiência e não sabe como proceder. Tento passar uma mensagem de otimismo, de coragem, que poderá ajudar outras vidas, provando que o "querer é poder". Defensora do trabalho como religião da vida, também como terapia, sentimento de utilidade, rebato paternalismo e ouso dizer que "não se deve dar ao homem o que ele pode conseguir com o fruto do seu trabalho, sob pena de roubar-lhe a dignidade". Um de seus capítulos, " O deficiente físico sob a luz da Lei" é uma resenha jurídica da legislação que trata de toda a sua problemática e, com certeza, é de grande valia. Encontra-se na internet, em forma de artigo, no site Recanto das Letras, no meu blog http://genaura.blogspot.com e em outros mais.

PV - A senhora também é poetisa?

Tenho um livro, APENAS UMA FLOR, um vôo pelos veios da poesia para acalentar a vida, colorir os instantes desbotados. Não me importa se canto o amor, a vida, a morte... O que importa é cantar, extravasar, curtir as palavras lindas, tristes ou fortes. E a vida continua. Ainda sou perseguidora de sonhos. As portas me fascinam. A vida ainda acontece inteira no meu coração. Acredito no amanhecer, no poder recomeçar a cada dia. Sou a síntese dos meus desejos, compilação de inércias extáticas, mas, ainda, uma inesgotável fonte de encantamento pela vida, pelos amores, pelo belo, pela arte de fazer versos.

PV - A senhora está sempre na Pousada do Rio Quente, não é?

A Pousada do Rio Quente é um lugar de felicidade e paz com maravilhoso visual e piscinas de água corrente, clara como cristal, lendariamente, proveniente de um possível vulcão extinto. Sua natureza verde e florida nos proporciona momentos de gostoso lazer. Dizem, ainda, que as águas são notáveis por suas propriedades terapêuticas na cura das mais variadas moléstias. Possuem uma quantidade considerável de azoto e outros gases. O calor, o forte poder dissolvente e sua hipotonicidade ajudam a eliminar as toxinas do organismo e estimulam as funções do fígado, secreção biliar, intestino e a circulação.
Temos uma casinha de veraneio perto da Pousada, onde passamos todos os fins de semana. Assim, estamos sempre em suas águas, aproveitando da beleza da natureza e do afeto dos amigos, tendo a oportunidade de sempre conhecer outros mais, aumentando o círculo de amizade e o prazer de viver. Tenho um "scooter"(veículo tricículo, movido à bateria), que me permite uma liberdade muito maior. Assim, galgo todos os caminhos até as mais íngremes veredas, misturando-me às pessoas normais sem a rotulagem costumeira. Enrosco-me nas asas do vento e o meu caminhar fica leve, ligeiro... É uma mordomia que tem sabor de liberdade. Meu espírito transcende, fabricando felicidade. De roupa de banho, um camisão, um chapéu para proteger-me do sol, locomovo-me sozinha de minha casa à Pousada, que se encontra em terreno muito acidentado, o que é irrelevante para o meu veículo, por ser movido à bateria e especificamente desenvolvido para pessoas com deficiência física. Retorno quando quero, sem precisar ficar sob o jugo de terceiros. Além de tudo, consegui ser uma campeã. Atiro-me na piscina mais funda e atravesso-a, várias vezes, aos olhos dos espectadores que me viram entrar. Uso um colete salva-vidas para aumentar a minha liberdade na água, o que me permite, também, ficar na vertical sem que sofra arranhões. A profundidade da piscina permite-me esse conforto com segurança. Não tenho sensibilidade. Os que chegam depois nem percebem que sou uma deficiente física, e assustam-se quando me transfiro para o "scooter". É o exercício do meu show e eu gosto disso.

UNIÃO SEM SEXO


UNIÃO SEM SEXO
(Genaura Tormin)

Revendo uma pasta de recortes de jornais, encontrei essa entrevista, dada ao Diário da Manhã de minha cidade. Compartilho-a com vocês.


UNIÃO SEM SEXO



A escritora Genaura Tormin, 50 anos, 28 de casada, 4 filhos, não concorda com a idéia de casamento sem sexo, e afirma: _ É próprio do ser humano a atração física pelo sexo oposto e em conseqüência o desejo de acasalar-se. Daí o casamento, legalmente protegido, para o estabelecimento da família, que considero a mola mestra da sociedade. Um dos fins precípuos dessa união é o relacionamento sexual para a propagação da espécie. Além dessa finalidade, o ato sexual propicia muito prazer, amainando as desigualdades do casal, ajudando a construir a tão decantada felicidade. Ocorrendo fatalidades que causem impotência sexual, outras formas de “fazer amor” existem, ficando obstaculizada, apenas, a fecundação por vias normais. Contudo, ainda, pode-se lançar mão da medicina (reprodução in vitro e reprodução assistida) e da adoção.

DM - O que você prefere: a harmonia, a afinidade, o respeito mútuo ou o amor?
GT - Dentro da união conjugal esses ingredientes fazem ou deveriam fazer parte do amor maior que nos conduz à escolha do parceiro para uma união, que se imagina duradoura. E isso se faz por meio do namoro, não obstante hajam muitos desencontros e desencantos nessa caminhada. Talvez seja uma loteria, mas eu ainda acredito que o diálogo, os pontos comuns, o bom senso, a lucidez, a razão aliada ao coração, são boas ferramentas para o acerto.

DM - Será que com a espera da alma gêmea a pessoa não destrói outras chances de ser feliz?
GT - Geralmente, essa perfeição não existe. É preciso ser artista para esculpir uma aproximação do ideal. É preciso buscar o básico indispensável e daí construir uma obra de arte para alicerçar uma família sem mágoas, sem cicatrizes, fulcrada em exemplos diários. Contudo, sabe-se que a mulher, hoje, é uma nova mulher. Nada daquele estereótipo sociológico de objeto sexual, de fardo nos ombros do marido. Ela vai à luta, ombreia com ele, na conquista de seu espaço, sobressaindo-se com galhardia.

DM - Você acredita que nós temos almas gêmeas?
GT - À luz do espiritismo isso é explicável. Mas já é outro assunto e eu não quero misturar as coisas. Contudo, muitos relacionamentos levam-me a crer que existam, ou os casais foram privilegiados em sabedoria. E, ante esses artistas, curvo-me, com respeito. Chamo-os de mestres.

DM - Será que em vez de um grande amor seria melhor a gente ter um grande parceiro?
GT - Parceiro... só para sexo? Não acredito que seria grande. A mulher, geralmente, não encara o exercício do sexo como fisiologismo. Para ela o sexo é sublimação, o ápice do amor. Jamais poderia acontecer pleno, solto, bonito, sublime sem o grande amor.

DM - O que você acha da paixão?
GT - A paixão é um sentimento arrebatador, doentio, mas, extremamente gostoso. Entretanto é passageiro e costuma abrir verdadeiras crateras na saída. Um vazio imenso, um enorme gosto de dor. Para uma relação profícua, a paixão é prejudicial. Necessário se faz um amor maduro, consciente, respeitoso. Guimarães Rosa dizia que viver é muito perigoso. E, viver a dois, muito mais ainda.

DM - Você acredita que uma pessoa tem obrigação de fazer a outra feliz?
GT - Não, absolutamente. Se a gente ama, isso vem por acréscimo. É como aquela frase bíblica: Ama-me e fazes o que quiseres. O amor é espontaneidade e nunca imposição. E, a cada dia cresce ou desvanece conforme o trato. Por isso é necessário cuidar, regar todos os dias como se fosse uma plantinha. Jamais deixá-la murchar, por maiores que sejam as intempéries. É inteligência, sabe? Afinal, há mais felicidade em dar do que em receber.

DM - Será que o amor não é um tipo de embriaguez?
GT - Santa embriaguez! Se o fosse, eu gostaria de ser alcoólatra. Pelo contrário, o amor é lucidez, dinamismo... Não só o amor conjugal, mas o amor em sentido lato, o amor transcendental. Se você não tem o amor por escudo, torna-se uma pessoa vazia, amarga, sem brilho nos olhos, sem objetivo, concorda?

DM - Os tempos de hoje comporta um amor no estilo romântico piegas?
GT - O amor não tem receitas, determinações. Ele é intrínseco, peculiar. Cada um ama do seu jeito. O importante é amar e sentir-se amado. Eu sou romântica. Gosto de lua matreira, de chuva na janela, de ganhar flores, de ingredientes que aumentem a minha sensibilidade rumo ao amor, desde que sejam espontâneos e sinceros. Por que não cantar o amor? Quem não gosta de ouvir, repetidas vezes, a confirmação de que é amado, num guardanapo de hotel, num cantarolado jocoso, numa caricatura de jornal jeitosamente endereçada... E, isso eu não acho que seja piegas em qualquer tempo.

DM - Você acha que o nome AMOR poderia ser trocado por ternura?
GT - Não. Ternura é um componente do amor.

DM - O casal que se maltrata o dia inteiro e à noite chegam juntos ao orgasmo, isso é amor?
GT - No meu ponto de vista, não. A isso eu chamo fisiologismo, e abomino. O Amor engloba respeito e o exercício do sexo é como se fosse uma cerimônia litúrgica, necessita ritual, preparação. É preciso respeitar e respeitar-se. Faz parte do amor. É preciso não se anular, mas saber dialogar, ceder, reconhecer e, muito mais, aprender. É por meio dessas agressividades que o casamento torna-se compromisso de ninguém e as separações ganham índices avassaladores, com grandes prejuízos e desgastes psicossomáticos para toda a família.

DM - Você concorda com as traições rápidas?
GT - Antes de qualquer aventura, deve-se olhar primeiro se a porta de saída não é muito estreita. Às vezes, por uma simples curiosidade, embarca-se numa canoa furada, sem retorno. Depois, quem ama e é correspondido não se dá a essas aventuras.

SAIU NA TV RECORD


SAIU NA TV RECORD
(Genaura Tormin)


Hoje foi um dia feliz para mim, como tem sido todos os outros. Apenas, um pouco diferente, em que o entusiasmo e a espera do novo afagavam-me o coração, fazendo-o agitar-se dentro do peito.

Permaneci na cama por mais tempo. Hoje é domingo. Mesmo porque, ontem fomos a uma festa junina na Associação Brasileira de Odontologia. O meu marido é também odontólogo. A festa estava ótima, animadíssima, com quadrilha e um touro eletrônico que fazia a festa da meninada e dos adultos, com direito a prêmios.

Ao acordar, com o sol, em raios brilhantes, acariciando-me o rosto através da vidraça, e o Alfredo a cumprimentar-me, com faz todas as manhãs, com um sorriso terno de gente que ama, conferi o relógio e lembrei-me: A entrevista! (Havia sido gravada em minha casa, há mais de semana.) Seria exibida às nove horas na TV Record. Programa “Nossa gente nossas coisas". Poucos minutos faltavam. Às 9h em ponto, postamo-nos defronte da televisão. Eu e minha família. Muitas expectativas. Afinal quem não gosta de se ver no espelho, de receber carinhos, elogios de aprovação? Quem não gosta de sentir-se bem, produtivo e solicitado? Faz parte da vida, impulsiona o caminhar. Isso é se gostar. E eu não sou diferente. Tenho as minhas carências, os meus defeitos e muitas qualidades...

E, vamos às imagens, agora exibidas num telão.

Para melhor efeito fechamos as cortinas.

Um clic e a mágica se fez.

Em nossa casa, o apresentador, Dr. Salvador Farina, um senhor simpático, bonito e agradável. O cavanhaque, o sorriso aberto, com uma mistura de seriedade e mistério emprestavam encanto à sua mais de meia idade, além da elegância, estampada em tratos e trajes. Dr. Farina, é mesmo um ´gentleman´.

Após os cumprimentos, sentamo-nos à pequena mesa de vidro, a um canto de uma saleta, contígua à sala de visitas, utilizada para pequenas reflexões, leituras, um joguinho de baralho e outros que a criatividade apontar.

Antes, porém, numa manobra magistral: um passeio das câmeras pelo ambiente, deixando-se ficar no meu sorriso terno dirigido ao filho Flávio que acabava de entrar, o qual foi logo entrevistado.

Fiquei encantada, enamorada de ver e sentir, pela tela da TV, o sorriso largo do meu filho e as respostas amorosas, principalmente sabendo que eu era o motivo maior de todo aquele carinho. Sou uma mãe chorona, mas privilegiada. Todos os nossos filhos deslancharam em valores morais, além de haverem conquistado asas para alçar aos sonhos.

O cenário continuou. Uma paisagem colorida, realçando minha blusa rosa-choque que me diminuía os anos vividos.

Como num daqueles programas “Essa é a sua vida”, começou o passeio, uma retrospectiva no tempo.

A câmera focalizou o retrato de minha bisavó, que não cheguei a conhecer, mas que simboliza a gênese da minha família. E as fotos foram se exibindo marotas, ingênuas, voltando-me no tempo. Meus avós, meus pais, eu menina, as raízes na fazenda, quando a inocência fazia-me dona do meu tempo e senhora de todos os sonhos... Depois, o colégio de freiras, os quinze anos, o primeiro emprego, o namoro com o Alfredo (colega de labor), a formatura do Curso Técnico de Contabilidade, o casamento, os filhos pequenos, grandes, formados...

Pareceu-me um poema em aquarela, mostrado em fotos ao telespectador, acompanhado de minhas palavras explicativas, sempre cheias de saudades.

O curso de direito, feito juntamente com o Alfredo, embora ele já fosse graduado em Odontologia.

Um ano e meio depois de formada em Direito, eis que a vida leva-me as pernas. O meu caminhar ligeiro, faceiro... Era possível o registro dessa grande guinada de vida, por meio de recortes de jornais, revistas, o concurso, de maneira inusitada, para o cargo de delegado de polícia, mesmo sem o comando dos passos. A aprovação em 4º lugar (sorte é que eu estava preparada para um outro concurso, que não pude fazer, tendo em vista os passos haverem sido recolhidos antes. No dia, eu estava no Hospital, fazendo a prova para enfrentar-me numa cadeira de rodas), a nomeação e a decisão superior de aposentadoria por invalidez, o que eu não aceitei, sob protesto de entrar com mandado de segurança para garantir-me um direito líquido e certo, pois havia-me habilitado em concurso.

Gostei do posicionamento do Alfredo frente às câmeras. Não preciso voltar ao passado para reconhecer que sem o seu apoio eu não teria ousado tanto. E ouso ainda hoje. O suporte, o afeto, a certeza de que somos amados, produzem milagres. Transforma derrotas em verdadeiras conquistas.

O telão colorido exibia-se sem parar. Era o filme da minha vida. E eu ali, assistindo extasiada. As aventuras, estampadas em fotos, nadando, velejando, voando de ultra-leve, dirigindo trator... Admirava essa coragem. Os recortes de jornais, estampas, títulos, saltavam das mãos do apresentador.

Será que hoje teria a mesma disposição para fazer tudo de novo? Nos meandros da mente recordava as muitas dificuldades com o meu corpo, com a liberdade tolhida de ir-e-vir, a mudança de hábitos, de amigos, de tudo. Nova vida com muitos entraves e a responsabilidade de agüentá-los, e mais ainda, transformá-los.

Como delegada aprovada em concurso, fui nomeada. Quis servir numa delegacia, sinônimo do meu cargo. As fotos comprovavam o que eu verbalizava ao apresentador. Delegacias distritais, da Mulher, para a qual os jornais cogitaram o meu nome em primeira mão, como ajunta. Delegacia de Vigilância e proteção de Menores, da qual fui nomeada titular. E assim eu ia ascendendo... Muitos diplomas, certificados, congressos feitos, sucesso no trabalho, lançamento dos meus livros, Pássaro sem Asas e Apenas uma Flor, até que o tempo legou-me a aposentadoria por tempo de serviço.

Não podia entregar-me à paraplegia, numa indolente aposentadoria. Novo concurso. Dessa vez para o Judiciário Federal, onde, atualmente, exerço o meu cargo de Analista Judiciário, na Diretoria de Serviço Recursos e Distribuição do TRT/GO. Os impasses, as vitórias, o diploma de servidor padrão, mais certificados de cursos, tentando qualificar-me para melhor servir, justificando o meu ingresso ali.

Finalmente, as despedidas. Uma mensagem ao público que me assistia. Embora sendo de uma hora o programa, o tempo esgotou-se. Ah! Tempo, tempo meu! Tempo que me roubou os passos, mas que me legou muita segurança, muitas experiências, muitos valores aprendidos com a dor. Sinto-me uma nova mulher e gosto-me assim. Embora o meu caminhar tenha sido substituído pelas rodas de uma cadeira, não me sinto paraplégica. A vida ainda acontece inteira no meu coração e eu cumpro e assumo o direito de ser MULHER em toda a sua plenitude.

ENTREVISTA SOBRE VIRTUALISMO


ENTREVISTA SOBRE VIRTUALISMO
(Genaura Tormin)

Feita por CLÉSIO BOEIRA

Pergunto: quem é Genaura Tormin?
Ela responde de modo genial. Então publico a íntegra da auto-apresentação: “Genaura Tormin é uma pessoa diferente, não só no visual, mas na sensibilidade que lhe comanda a vida. É uma escritora, autora dos livros Pássaro Sem Asas e Apenas Uma Flor. Ela é colega de voces nesse Espaço Virtual! Embora não marque o chão com os passos, anda com a mente, com o coração. Caminha em ideais, em trabalho, em afetividade, deixando sempre o sorriso estampar-lhe o rosto. Faz da vida um varal de poesias, onde os versos esgueiram-se ousados para colorir momentos e falar de amor. Pernas não são problemas para ela. Mesmo deambulando numa cadeira de rodas, exerceu, com galhardia, o cargo de Delegado de Polícia de Goiás até assumir o de Analista Judiciário no TRT-GO, em Goiânia, onde exerce suas atividades. Essa, SOU EU!!".

1. O poeta nasce sensível feito poesia. Durante anos, como compatibilizou a doçura da letra poética com a letra fria da lei?

Genaura – Sou egressa de um colégio de freiras, onde morei de 9 a 18 anos de idade, quando ingressei na Polícia Civil de Goiás, como escrituraria. A Polícia entrou na minha vida como meio, como ponte, para que eu pudesse escalar novos horizontes. Jamais pensei que se tornasse fim um dia. As contingências da vida indicaram o caminho. Tornei-me uma Delegada de Polícia. É uma missão espinhosa, mas farto campo para o plantio de uma boa ação. Quanto mais difícil a tarefa, maior satisfação do dever cumprido. Ser delegado é também fazer sacerdócio. É amar o ser humano no sentido total da palavra. É saber admoestá-lo na hora certa ou acalentá-lo nos momentos mais difíceis.
Certa vez dei uma entrevista na televisão e terminei poetando a minha condição física, pois o cinegrafista não focalizava a minha cadeira rodas, como se me quisesse prestar um gesto de carinho. Em versos, tentei explicar. No dia seguinte os dois jornais da capital estavam à porta da Delegacia em que trabalhava. Eis a manchete: “De delegada à poetisa”. Confiram!

Quero dizer a vocês,
Que a mente não está nos pés,
E aqui, na minha cadeira,
Trabalho por mais de dez.

Quem me conhece, já sabe
Da minha capacidade,
Não me curvo por besteira
E luto com hombridade.

Mato a cobra e mostro pau.
Medo, não tenho não.
Já mandei prender bandidos,
De estuprador a ladrão.

Lembro-me do grande Franklin,
Dos Estados Unidos, presidente,
Em tempos reacionários,
Exemplo pra muita gente.

Por isso estou aqui,
Em condição inusitada,
Pois sei que neste Planeta,
Não tem uma delegada

Numa cadeira de rodas,
Que seja capacitada,
Faça inquéritos e flagrantes
Numa Especializada.

Mente sã é corpo são,
Por isso não tenho nada,
Sinto-me com pernas fortes,
Numa cadeira sentada.

Na rua dirijo carro,
Faço compras e viajo,
Trabalho, leciono e nado.
É só questão de estágio.

Para os que não me conhecem,
É essa a informação,
Moradores da cidade
E outros que aqui estão.

A criminalidade sempre me assustou. Mesmo tendo trabalhado na Polícia durante 30 anos, presenciando e atuando em inquéritos de crimes estarrecedores nas mais variadas delegacias, permaneço com a sensibilidade ainda mais aguçada. Sou uma manteiga derretida. Gostaria de ser uma fada-madrinha para fazer justiça social, principalmente às crianças que povoarão o futuro do País. Afinal que País queremos?

2. Não poucos inquéritos foram redigidos em versos. Verdade?

Genaura - É. Às vezes, para quebrar a aspereza do caráter do trabalho e dar evasão ao instinto poético, fazia o relatório do inquérito policial em versos, porém, com todos os pressupostos inerentes para não se tornar uma peça inválida.

3. Como reagiam os juízes?

Genaura – Um deles ligou para me cumprimentar pela façanha, acrescentando que os versos haviam levado alento a uma tarde conturbada de muitas audiências difíceis. A Polícia Judiciária tem caráter repressivo, atuando depois do crime cometido, apurando as infrações penais e sua autoria, impedindo que o fato criminoso fuja às malhas da Justiça.

4. A rede mundial de computadores não é o céu, mas abriu espaços aos escritores emergentes. O que falta para que sejam bem aproveitados?

Genaura – Com o progresso, aproximaram-se as distâncias, mas distanciaram-se as proximidades. Às vezes é no meio da multidão que nos sentimos mais sozinhos. A Internet veio suprir virtualmente esse vazio, possibilitando a amostragem de muitos talentos, de muitos intelectuais emergentes, a transmissão de bons aprendizados, a feitura de muitas amizades boas... Acredito que direcionada para bem, a Internet pode ser um veículo promissor na construção da paz e da disseminação do amor. Para um resultado global benfazejo, necessário se faz uma conscientização maior capaz de melhorar o mundo. Além disso, é necessário uma fiscalização, o que lentamente vem acontecendo, incluindo legislação punitiva dos crimes praticados pela Internet. Primeiro o fato social, depois as normas. Se todos os sites tivessem a conduta ilibada, com certeza, o mundo daria um salto rumo ao bem. Impor limites significa amar. O importante é construir sempre.

5. E que forma de reconhecimento o escritor do espaço virtual deve esperar? Quais são algumas compensações aprazíveis?

Genaura – O reconhecimento é imediato, uma vez que somos lidos em prazo recorde por pessoas de todos os quadrantes do Brasil e até do mundo, o que nos devolve grande satisfação. O escritor tem necessidade de botar para fora o que lhe vai na alma. Pode construir ou destruir. Isso é uma grande responsabilidade. Saint Exupéry dizia: “Tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que cativas”. Eu acredito nisso. Especificamente, nos sites que postamos os nossos escritos, constituímos uma grande família, uma confraria, onde todos se harmonizam levados pela poesia, pelo amor em seu sentido mais lato. As compensações são as mais prazerosas possíveis, pois estamos a erigir caminhos, a falar de amor e, embora, sem ver rostos, fazer parte, como elos da mesma corrente, de uma plêiade de amigos/poetas extraordinários. Sou feliz por estar entre essas pessoas.

6. Mas há dissabores também...

Genaura – Não me considero uma internauta, uma vez que ancoro o meu barco apenas em dois sites: Planetaliteratura e Recantodasletras. Entretanto sei que a Internet é usada também para os expedientes escusos que molestam a essência do ser humano, principalmente disseminando o uso de drogas e os desvios sexuais, aproveitando-se dos internautas incautos, cujo alvo certeiro são as nossas crianças, os nossos jovens... É lastimável!

7. Que perfil traça do internauta politicamente correto?

Genaura – A retidão, talvez venha do berço. O bem sempre é recompensado pelo próprio bem. Isso é uma verdade. O nosso maior juiz é a própria consciência. É muito bom ser correto com tudo e com todos e, principalmente com nós mesmos. Significa liberdade. O internauta politicamente correto é um pregoeiro do bem, pois o exemplo contamina. Virtualmente somos identificados pela alma, pelo coração, pelos bons escritos que permanecem para sempre, registrando a memória.

8. Para finalizar, uma mensagem aos escritores virtuais.

Genaura - Agradeço pela entrevista. Viver é maravilhoso! A vida é um dom. Devemos aproveitá-la. E se pudermos, através virtualismo, alcançar um próximo um pouquinho mais longe, seremos multiplicadores, espalhando o amor, a paz, a união. A auto-estima é o carro chefe. Todos os dias devemos nos levantar para vencer. Somos produto da mente. Os pensamentos são os gestores de nossas ações boas ou más. Ser entusiasta é importante. Sorrir sempre! O sorriso é o exercício da afetividade: abre caminhos, cria laços, enfeita a alma e o coração. O sorriso traduz paz, ternura, perdão... Sonhar é preciso, pois Charles Chaplin costumava dizer: “Quando deixares de sonhar, poderás continuar vivendo, mas, com certeza, terás deixado de existir”. Somos sempre instrumentos a serviço da vida, portanto herdeiros dos nossos atos e senhores de nossas colheitas. Existirá sempre uma esperança num lugar qualquer! Não podemos desistir! Somos responsáveis! Fomos feitos para vencer, escrever a história e poetizar a vida!


LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

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Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)



"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)