PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

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sábado, 20 de julho de 2013

JUSTIÇA DAS AFLIÇÕES



JUSTIÇA DAS AFLIÇÕES
Cap. V do Evangelho segundo o Espiritismo

Cumprimento a todos, incluindo os espíritos desencarnados aqui presentes. Que a paz esteja conosco.

Hoje, eu não quero pedir pelos oprimidos e desesperados do mundo, mas por aqueles que sendo livres e cheios de oportunidades, passam o dia a queixar-se, reclamar e revoltar-se sem saber do que ou por que.

(Cada um formule, mentalmente, um pedido para que numa só sintonia vibratória, juntos cheguemos até o Pai, neste momento) .

O nosso tema: JUSTIÇA DAS AFLIÇÕES

Deus é a Inteligência suprema, causa primária de todas as coisas. - Livro dos Espíritos
É poder, justiça, bondade. Se assim não o fosse não seria Deus.

E nós, como filhos dEle, somos espíritos inteligentes, uma centelha etérea, uma pequena luz, que se transporta pela força do pensamento. - Livro dos Espíritos

Toda criatura é uma expressão do vasto Espírito Infinito. Matéria é uma forma provisória do corpo. Enquanto nele, aprendemos, erramos, acertamos.

Engraçado que, ostentando a nossa farda física por aqui, imaginamos Deus à nossa imagem e semelhança, em forma de um bom velhinho, de barbas brancas, sorriso farto... esquecendo-nos de que essa semelhança é em relação ao espírito, não ao corpo físico. Essa figura é chamada de antropomorfismo.

Somos seres espirituais, agora agasalhados numa vestimenta de carne, novamente numa experiência humana neste Planeta, objetivando a perfeição, tentando consertar os desacertos cometidos em existências anteriores.

Estamos a executar um projeto por nós criado, estudado, analisado, revisto e aceito, que aqui, nos permitirá o exercício de fraternidade e de amor com os nossos desafetos do passado, agora nossos familiares.
É como uma possibilidade de recuperação na matéria em que fomos reprovados.

E quem sabe que:
"Antes do berço, na Espiritualidade, examinando as nossas próprias necessidades de aperfeiçoamento possamos ter pedido:
A deficiência corpórea que nos induza à elevação de sentimentos;

A enfermidade de longa duração, capaz de nos educar os impulsos;

Essa ou aquela lesão física que favoreça os exercícios de disciplina;

Determinada mutilação que nos iniba o arrastamento à agressividade exagerada;

O complexo psicológico que nos renove as idéias;

O lar amargo onde possa aprender quanto vale a afeição;

O traço de prova que nos imponha obstáculos no grupo social, a fim de esquecer exacerbações do orgulho;

O reencontro com os adversários do passado, agora na forma de parentes difíceis, atendendo a resgate de antigos débitos;

A impossibilidade temporária para a obtenção de um título acadêmico, de modo a nos frenar contra desmandos intelectuais;

A internação passageira em ambiente de miséria, de pobreza extrema, de maneira a desenvolver a própria habilitação no trabalho pessoal.

As dificuldades e desafios da existência, na maioria das circunstâncias, são respostas da Providência Divina aos nossos anseios de reajuste e sublimação".

Vivemos num planeta de provas e expiações, próprio à nossa condição, ao nosso estágio, onde as aflições pautam a nossa vida, conforme as palavras de Jesus: “Na Terra tereis aflições”. Todos nós vivemos em aflições!

A vida não erra e tudo representam verdades e razões. Os indivíduos que aqui jornadeiam expiam desatinos cometidos nesta existência ou em existências anteriores.

Nós, espíritas, sabemos que, embora aparentemente não pareçam ter causas que justifiquem muitas dessas aflições, elas são justas.

Essa justiça é uma lei nata, que está impressa nas tábuas da consciência da gente, independente da crença que professarmos. 

Nada nos vem que não tenhamos merecido agora ou logrado com anterioridade, como disse Paramahansa Yogananda.


A multiplicidade das existências no corpo físico não constitui apenas uma afirmação evangélica, mas uma verdade científica e filosófica, explicada pela Lei de Progresso, claramente estampada nas diferenças sociais, nas doenças congênitas, além de muitos acontecimentos atribuídos a fatalidades. As aflições nos aparam as arestas na construção da reforma íntima.

A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória! Só colhemos o que plantamos. É a justeza de Deus. Pensar diferente é desprezar a Justiça Divina, na sua função de dar a cada um segundo as suas obras, como disse o Cristo.
Ele disse também: Caminhai enquanto é dia!

"Nossos atos tecem asas de libertação ou algemas de cativeiro, para a nossa vitória ou nossa perda". - Chico Xavier

Se todos os erros passados podem ser simplesmente apagados, qual seria então o sentido das nossas ações na Terra? É uma questão de raciocínio que nos leva à imortalidade e às responsabilidades da alma.

A questão 257 de o Livro dos Espíritos afirma que muitos dos nossos sofrimentos atuais se devem à nossa incúria nesta própria existência. Os excessos, a ambição, o egoísmo, as paixões, o orgulho, são os causadores de muitas dores. O mau uso do livre-arbítrio em detrimento de nossas responsabilidades, tem-nos causado terríveis aflições.
Amamos mas não sabemos exercitar o respeito com os nossos pares. Estamos ainda na faixa da mediocridade.

Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua imprevidência, do seu orgulho e da sua ambição!

Quantos se arruinam por falta de ordem, de perseverança, pelo mau proceder, ou por não terem sabido limitar seus desejos!

Quantas uniões desgraçadas, porque resultaram de um cálculo de interesse ou da vaidade e nas quais o coração não tomou parte alguma!

Quantas dissensões e funestas disputas se teriam evitado com um pouco de moderação e menos melindres! 

Quantas doenças e enfermidades decorrem da intemperança e dos excessos de toda ordem!

Quantos pais são infelizes porque não souberam combater as más tendências dos filhos! Deixaram que neles se desenvolvessem os germens do orgulho, do egoísmo, da vaidade...

Mais tarde, quando colhem o que semearam, choram com a ingratidão dos filhos. Mas o tempo passou célere e o arbusto agora é árvore. O caule fino e vergável se fez maduro. Já não está sob o seu comando!

Responsabilizar quem por todas essas aflições, senão a si mesmo? Em vez de reconhecer-se culpado, acha menos humilhante acusar a sorte, a Providência, a má estrela, ao passo que tudo foi fruto de sua negligência.

Somos cobrados por nossas irresponsabilidades nesta existência. São as causas atuais das aflições.

O homem evitará essas aflições quando trabalhar para se melhorar moral e intelectualmente, esforçando-se para se transformar em pessoa melhor e em domar suas más inclinações, geradas pelas imperfeições milenares que todos carregamos na alma imortal.

Pela ação de uma rigorosa justiça distributiva, o homem sofre o que fez sofrer aos outros. Lei de causa e efeito. Lei de justiça.

São os sofrimentos que nos fazem sentir a necessidade de melhorar.
Quantas vezes, essa necessidade de melhora chega tarde demais, quando a vida já foi desperdiçada e turbada. Não há mais tempo.

E aí vem a Reencarnação que nos permite voltar e refazer o que fizemos errado, aproveitando a experiência do passado e as boas resoluções para o futuro.

Alcançados pela Justiça Divina, esses espíritos pediram uma nova oportunidade para consertarem o desmantelo. Todo efeito tem uma causa e essa tem de ser justa, pois Deus é Justo.

Basta observar. Por que crianças (que segundo algumas Doutrinas, não possuem pecados) nascem aleijadas, cegas, surdas, mudas, com câncer...?
Por que tantas deformidades, idiotias, paralisias? Quantas pessoas paraplégicas? Propósito de Deus? Deus possui propósitos bons para alguns, e ruins para outros?” 
Nada disso!
Deus é JUSTO! 
Com certeza, trata-se de causas anteriores.

Como explicar a deficiência de um e a genialidade de outro? A questão 372 de o Livro dos Espíritos afirma: os cretinos e os idiotas são Espíritos em punição, habitando, temporariamente, corpos deficientes que representam uma prisão também temporária, onde podem refletir sobre os desequilíbrios cometidos perante as Leis da Vida.

A resposta combina a Bondade e a Justiça Divina por meio da reencarnação! O Espírito recebe uma pausa para refletir sobre si mesmo. É a única explicação para esses dois extremos da genialidade e da deficiência mental, muitas vezes numa mesma família!

Pela pluralidade das existências, de que tão bem trata a questão 222 de o Livro dos Espíritos, e pelo destino da Terra explica-se essas anomalias distributivas da felicidade e da desgraça entre bons e maus.

Somos livres para fazer o que quisermos. É o que se chama livre-arbítrio. A existência atual é o resultado de nossas escolhas, segundo a bagagem que aqui coletamos na existência passada.

A Reencarnação não é uma criação do espiritismo, mas uma Lei Natural que no decorrer dos tempos foi sendo provada e comprovada por vários cientistas, como Dr. Barnegir, na Índia, Dra. Kluber Ross, na Suíça, e vários outros que fizeram experimentos para comprovar se existia vida antes da vida e vida depois da vida, chegando a conclusão que sim.

Depois veio o francês, Hyppolyte Leon Denizard Rivail, sob o pseudônimo de Allan Kardec, que estudou, compilou, ordenou, provou e trouxe à luz o Livro dos Espíritos, surgindo assim a Doutrina Espírita.

O Espiritismo cumpre o papel de "O Consolador Prometido" que Jesus nos falou no início, iluminando consciências e consolando corações, fazendo-nos compreender as tribulações da vida, mostrando-nos o porquê dessas tribulações e o caminho para superá-las. O espiritismo não é a religião do futuro, mas o futuro das religiões.

Que Deus maravilhoso! E que Doutrina Consoladora essa, que nos dá tão abençoada oportunidade! E ainda lança o véu do esquecimento sobre o nosso passado para nos afofar o coração, o caminho e facilitar o convívio com aqueles com quem aqui viemos para nos reajustar. É uma doutrina de bom senso, de razão e de lógica!  Amai-vos e instruí-vos, apregoa ela. Realmente, o conhecimento abrem-nos portas e irradia Luz, pois mentes elevadas não se envolvem com picuinhas, mas com ideias benfazejas. Por isso mãos à obra!

As provas significam alicerces em prol do próprio progresso. Se nos postarmos com amor e respeito nesse aprendizado, não haverá sofrimento, embora ele seja o guia para mais uma lição a caminho da Casa do Pai, num processo evolutivo, educativo em caráter de urgência. 
E a forma como essa educação vai nos alcançar é uma escolha nossa. Com maior ou menor vagar.

A expiação é o remédio para limpar as feridas e curar o doente, às vezes extensivo ao grupo familiar. Conforme a necessidade, pode ser muito amargo.

Para minimizar esses sofrimentos expiatórios podemos usar o otimismo, aproveitando as lições e tentando vivê-los com paciência e resignação. A revolta só atrapalha. Nada acrescenta. Se somos parceiros do amor no caminho do bem, o jugo fica leve, o fardo suave, como disse Jesus.

A aflição é um sofrimento moral gerado por ansiedades, por preocupação, que nos aprisiona a alma. É essa incerteza por desconhecermos o futuro.

O que salva o homem, não é o que ele aparenta, mas o que ele é pela postura interior perante o bem, o respeito ao próximo, gerando a paz, o amor. É o servir, a si e ao próximo. É a reforma íntima administrada pelo guia da consciência.

Ninguém reencarna para fracassar, mas para progredir. Obedecemos a um projeto. Estamos sempre no lugar certo, com a família que escolhemos, oficina onde há todos os desafios para o nosso aperfeiçoamento e as ferramentas para um bom trabalho. A melhor delas é a ferramenta caridade que é o estandarte maior dessa Doutrina Consoladora.

De acordo com a Lei da reencarnação, é possível que por vezes estejamos diante de algozes do passado, estampados agora como um filho, um marido, um pai, um irmão... Isso é a oportunidade abençoada para que ajustemos as nossas contas no exercício do amor.

Aquele filho difícil foi planejado de acordo com a nossa necessidade.
Esses reencontros são feitos para a nossa felicidade.

A questão 933 de o Livro dos Espíritos enfoca a inveja e o ciúme como vermes roedores, verdadeiros suplícios voluntários que o homem cria para si, levando-o a viver o seu inferno íntimo.

O caminho para acertarmos é só um: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Sejamos recrutas no serviço do bem!

As simpatias ou antipatias estampadas aleatoriamente, significam a qualidade das relações de anteriores reencarnações que se religam agora, tentando unir a grande família de todos os tempos, no propósito de semear a fraternidade universal.

A Terra é a escola que temporariamente nos abriga. Como seres espirituais em experiências humanas na Terra, lógico que todos os dias, muitos de nós retornam à Pátria de origem.

E o que aqui fizemos foi benéfico? Qual a qualidade da nossa bagagem? O céu será representado pelo bem que tenhamos praticado. A nossa postura digna diante da vida, diante de nós mesmos. E o inferno será representado pela nossa rebeldia. Somos energias.

O amor cobre uma multidão de pecados!
Somos acompanhados por uma nuvem de testemunhas – Paulo de Tarso

“O espírito é ilimitado. Não somos nossos cérebros, nossos corpos, nossas roupas ou nossas casas. Não somos nossas contas-correntes, nossos empregos, nossos países, nem mesmo nossos nomes. Somos muito, muito mais. Somos seres espirituais cuja língua nativa é o Amor”.

Quando o poder do amor superar o amor pelo poder, o mundo conhecerá a paz, pois o egoísmo e o orgulho são os grandes males da humanidade.

Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim. - Chico Xavier

Se o homem compreendesse a lei da reencarnação, não teríamos tanta violência, tanta corrupção, tanta avareza: ricos enganando pobres, líderes
religiosos enganando os mais humildes com promessas impossíveis, a troco de dinheiro, como se houvesse transporte de grana na rota Terra/Céu.

O amor produz sempre um efeito positivo em quem o recebe e de maneira mais intensa em quem o pratica. 
Ele é e será a melhor opção.

O avançado da hora indica-me que devo terminar. Agradecida pela atenção e pela oportunidade em que mais aprendi do que compartilhei, rogo ao Mestre Jesus que nos abençoe, não só a nós deste recinto, mas a todos os habitantes do Planeta, principalmente os que estiverem em hospitais, em abrigos, nos manicômios, nas penitenciárias, jogados pelas ruas, entregues às drogas, em conflitos…

Abençoa, também, Mestre amado, aqueles que ainda não conseguiram Te encontrar.

PAI NOSSO
(Monsenhor José Silvério Horta)

Pai Nosso, que estás nos Céus
Na luz dos sóis infinitos,
Pai de todos os aflitos
Neste mundo de escarcéus.
Santificado, Senhor,
Seja o Teu nome sublime,
Que em todo Universo exprime
Concórdia, ternura e amor.

Venha ao nosso coração,
O teu reino de bondade,
De paz e de claridade
Na estrada redenção.
Cumpre-se o teu mandamento
Que não vacila e nem erra.

Nos Céus, como em toda a Terra
De luta e de sofrimento.
Evita-nos todo o mal,
Dá-nos o pão no caminho,
Feito de luz, no carinho
Do pão espiritual.

Perdoa-nos, meu Senhor,
Os débitos tenebrosos,
De passados escabrosos,
De iniquidade e de dor.
Auxilia-nos também,

Nos sentimentos cristãos,
A amar aos nossos irmãos
Que vivem longe do bem.

Com a proteção de Jesus
Livra a nossa alma do erro,
Neste mundo de desterro,
Distante da vossa luz.
Que a nossa ideal igreja,
Seja o altar da Caridade,
Onde se faça a vontade
Do vosso amor ...
Que assim seja.


Obrigada!

Palestra proferida por Genaura Tormin no Centro Espírita Maria de Nazaré, 
em 11.07.2013, em Goiânia-GO

quarta-feira, 13 de março de 2013

MULHER - UM SEGMENTO QUE DESPONTA, PRODUZ E ENCANTA




 MULHER - UM SEGMENTO QUE DESPONTA,
PRODUZ E ENCANTA

"As mulheres constituem a metade mais bela do mundo."
(Jean-Jacques Rousseau)

É um prazer encontrar-me entre vocês. Cumprimento a todos.
Comemoramos hoje, o “DIA INTERNACIONAL DA MULHER”!
Inicio as minhas palavras com um poema dedicado a esse extraordinário ser, chamado

MULHER
(Genaura Tormin)

Que na faceirice do encanto,
Guarda a garra de uma heroína,
O dom de uma artista,
A sensibilidade de uma poeta,
A graça de uma ninfa...

Compartilha,
Vence preconceitos...
Evolui
E transforma o mundo.

E a mulher que embala o berço,
É a mesma que empunha armas
E em defesa batalha;
É a mesma que constrói,
Julga, ordena, perdoa,
Homologa, sanciona e determina.

Ao lado do homem,
Feito asas de um pássaro,
A mulher promove a harmonia,
O equilíbrio, a unidade.
Espalha amor, alegria,
Fazendo a vida melhor.

O dia 8 de março foi declarado “DIA INTERNACIONAL DA MULHER”, durante a 2ª Conferência Internacional de Mulheres - realizada na Dinamarca, em 1910. Lilás é o seu símbolo, a cor de sua luta.
E essa luta continua!

Neste século, em que se registra grande ascensão do espírito e da mente, observa-se uma mudança de comportamento, uma valorização do ser humano em sua plenitude: alma, corpo e coração. O homem em busca dos segredos da alma, em busca do seu Criador, em busca de sua essência. Tudo conspira para novos tempos.

Também a MULHER, num marco de ousadia e coragem, desfralda a sua bandeira, conquistando o lugar e o respeito que lhe são devidos, como ser matriz, criado à imagem e semelhança de Deus. Ela mostra garra. Impõe-se como somadora de esforços comuns, revelando-se também excelente profissional nas demais áreas do conhecimento científico.

É realmente uma nova mulher: aguerrida, decidida, determinada, corajosa...  Desponta, produz e encanta!
Mas tempos difíceis existiram.

Como guerreira nata que é, foi à luta. Conquistou, embora à duras penas, sua carta de alforria! Ainda há pouco era relativa a sua liberdade: Não podia eleger os governantes. O direito ao voto somente aconteceu no Brasil em 1932 e constou da Carta Magna de 1934.

Faço minhas as palavras da poetisa Glória Drumond, uma das primeiras feministas do Estado de Goiás a defender essa bandeira no Exterior. Jornalista aguerrida, nunca deixou fatos sem denúncias nem poupou esforços para que a mulher ascendesse em igualdade com o seu parceiro homem.

Na verdade, o homem e a mulher deveriam ser iguais às asas de um pássaro, que não se subjugam, mas se equilibram lado a lado para a plenitude do voo.

Numa retrospectiva histórica, Gloria Drumond fez em versos uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Num gesto carinhoso, endereçou-a a mim, quando na ocasião, eu era Delegada de Polícia da Delegacia da Mulher (cargo que assumi do alto de minha cadeira de rodas).
Faço questão de repeti-la aqui, pela excelência do conteúdo:

DIA INTERNACIONAL DA MULHER
(Glória Drumond)

A caminho das galáxias,
Neste século,
Ainda me pergunto:
De que matéria sou feita?
De quantos rótulos,
Preconceitos?
Serei de outro planeta?
Talvez, sou muro de projeções,
Negações...

Sei.
Tenho dimensões novas.
Sou Nova Mulher como Novo Omo?
Provoco vertigens, teses,
Relatórios, congressos...
Até no agreste discutem meus orgasmos.
Acresci-me de ideias loucas, sensatas
Ou sou apenas dado de consumo, estatística?

Tenho o amor em cada primavera,
Como primeiro e último.
Persigo a liberdade desde a aurora
E puseram grades, cadeados, algemas,
Cercas, arame farpado
Nos meus olhos, janelas,
Boca, pensamento, sexo.
Fui e sou todos os anjos,
Todos os demônios do apocalipse.

Nasci menina-feminina
E me queriam menino-masculino.
Desde as cavernas,
Conheço a idolatria dos meus seios
E nádegas.
Sou ainda Vênus esteatopigica
Nos concursos de bumbuns.

Brinquei de roda, bonecas,
Como todas as meninas
Que o sol e a lua viram.
Sonhei, enamorei,
Entrei no cio, adolescente.

Cortaram meu o clitóris na África.
Enterraram-me na pirâmide do Egito.
Cobriram-me de Vênus no Oriente.
Confinaram-me nos gineceus da Grécia.
Amatronaram-me em Roma.
Tolheram meus pés na China.
Alimentei fogueiras na Inquisição
(fui bruxa, mágica, Joana D'Arc).

Reprimiram meu corpo nos espartilhos,
Cintas, perucas da Revolução Francesa
E nas anquinhas do século XIX
(morri com madame Bovary e Ana Karenina).
Fiz revoluções com Anita Garibaldi,
Rosa de Luxemburgo e Dolores Ibarrurl.

Passei por todos os ritos,
Véus, grinaldas, cintos de castidade,
Desvirginamento e prostíbulo.
Rameira, não tive nome
Nem individualidade.
Só doenças, abortos, filhos da puta.
Mas o Cristo me absolveu como Madalena...
Grávida por fatalidade, não por escolha,
Forneci homens a todas as guerras
(hoje me esterilizam no Terceiro Mundo).

Fui e sou mãe: a vida frágil e rósea nas mãos...
Sofri e tive gratificações.
Vi as crianças crescendo, sumindo...
Chorei rios de lágrimas
Pelas traições do meu homem.

Adúltera, me apedrejaram,
Baniram-me.
Experimentei a síndrome do ninho vazio,
Da menopausa, da velhice.

Neste começo de século,
Não posso envelhecer.
E vejo os meus cabelos brancos,
As rugas em todos os espelhos,
Fontes, rios, lagos...
Apesar do ridículo e do disfarce,
Uso todas as tecnologias,
Política do corpo, cirurgia plástica,
Silicone, dietas, massagens,
Cremes, maquilagem.

Mesmo assim,
Encolhi-me com Greta Garbo
E me alcoolizei com Rita Hayworth.
Suicidei-me com Marilyn Monroe,
Janes Joplin, Elis Regina...

Solteira, feminista, cientista (ou coerente)
Morri sozinha no asilo com Bertha Lutz
E envelheci com Simone de Beauvoir.
Faço loucuras,
Autodestruo-me com separadas,
Divorciadas, tentando recuperar o tempo,
Driblar a dificuldade ou chatura,
Castração do marido que se foi.

Vazia, vaidosa, veemente, boa, bonita, burra,
Vendo coisas mil com meus olhos,
Boca, seios, coxas e abro as pernas nas revistas,
Mostro até o útero.
Aumento o consumo e a pornô comunicação.
Que fazer? Até Deus é Homem!...
Sou MULHER!...

Fui e sou branca, negra, índia, judia,
Cigana, pantera de ‘society’ e mulher de periferia.
Cansei-me de ser flor-mãe-santa-musa...
Virgem e puta.
Sou MULHER!
Nem santa nem rameira nem anjo nem demônio...
MULHER - um ser em (re) habilitação.

A discriminação e o preconceito contra a mulher são tão antigos quanto o mundo, cujos registros dessa inculturação remontam aos escritos dos mais célebres filósofos da Antiguidade, bem como códigos, constituições e tratados, incluindo poetas, santos e teólogos.

Até Napoleão Bonaparte, imperador francês teria dito que: “As mulheres nada mais são do que máquinas de fazer filhos”.

Por excelência, a mulher tem sido uma guerreira! Tem-se sobressaído com galhardia, enfrentado o desafio com unhas e dentes na tentativa de conquistar o seu espaço, a sua cidadania, o seu direito de competir e mostrar que é capaz.

Não obstante as muitas dificuldades provenientes do resquício desse obsoletismo, que ainda permeia as mentes acanhadas da sociedade e, particularmente, do machismo arraigado de muitos homens, a mulher tem mostrado a sua cara!

Hoje, representa 52% do eleitorado e se engaja nas mais variadas profissões no mercado de trabalho.
É uma parceira na sustentação da economia do País.

A Constituição Federal de 1988, por força do artigo 5º, inciso I, especificamente, resguardou-lhe direitos de igualdade.

Estamos no páreo!

Exemplos dignos nos concitam a batalhar pela cidadania plena, pelo direito de participar da vida socioeconômica e política do País, vencendo preconceitos velados, não nos subjugando às subserviências, mas, sobretudo, fazendo-nos respeitar pela competência e pela coragem que nos alicerçam, mesmo enfrentando jornada dupla de trabalho para conciliar os deveres domésticos e a criação da prole.

O estereótipo de fardo, de objeto sexual, foi banido. Podemos nos sustentar com o fruto do nosso trabalho. Estamos em transição. É chegada a hora de o homem descer do seu pedestal para dividir conosco as tarefas domésticas em nome dessa igualdade de direitos e da justeza. Hoje somos parceiras: dividimos responsabilidades financeiras e carinho. Seguimos lado a lado.

A condição de fêmea, sujeita à sublime missão da maternidade, tem sido impedimento para a consecução de empregos. E quantas vezes, é a Mulher a provedora única do sustento da família. E isso é bem vezeiro entre nós.
A diferenciação de salários para trabalhos iguais aos do homem é mais uma forma de opressão.

Contudo, sabemos que basta a oportunidade para provar o nosso poder de luta, a nossa competência para atuar em todas as frentes de trabalho, nas mais variadas áreas do conhecimento humano.
A mulher tem procurado nivelar-se ao homem em todas as frentes de trabalho, incluindo na gerência dos destinos de sua pátria.

É uma honra termos, hoje, uma mulher como Presidenta do Brasil.

À frente dos mais diversificados postos, a mulher se faz respeitar pela competência, pela organização, pela sensibilidade, pela liderança... Estamos ascendendo na escala de valores, na qualificação e no desejo de vencer. Os nossos ombros podem carregar o mundo!

Muitos avanços, muitas conquistas se fazem sentir neste milênio. O próprio progresso tecnológico, a informática, a globalização, as pesquisas científicas, têm propiciado justiça em defesa da Mulher, por exemplo, o exame de DNA.

Não há mais a figura dos filho sem pai, ou filho da puta.

A Delegacia da Mulher que, por si só, tem coibido parte da violência, também foi uma conquista.
É lamentável que essa violência seja quase sempre praticada por maridos, parceiros, pessoas que repartem sob o mesmo teto relações de afetividade, formando uma família.

É incrível como o amor pode gerar a dor, o ódio, a ponto de esfacelar o lar e comprometer os filhos. É mesmo um resquício de primitivismo.

Por vezes, essa camisa-de-poder leva o pretenso macho a usar da sua superioridade física para subjugar a fêmea, transformando-a num objeto de sua propriedade, embora a Constituição Federal ressalte a igualdade entre os sexos. E isso está em todas as camadas sociais, posso afirmar.

Embora seja denominada de sexo frágil, herdeira da submissão dos antepassados, a Mulher orgulha-se de sua condição de fêmea. Carrega na bagagem muitos preconceitos, muitos rótulos... As dificuldades dribladas dão-lhe oportunidades, e em nome dessa bandeira que ostenta, tece sonhos de igualdade.

A Mulher é mãe da humanidade. É o único ser humano criador, uma vez que concebe, transporta, alimenta, dá à luz e cria um novo ser. A história nos faz recordar de todas as heroínas anônimas que, em nome do amor, transformaram-se em mães.

A mulher é a base das nações. O sustentáculo. A fornecedora de homens para todas as guerras, além do elo de amor que une, cala e consola. É um misto de criadora e criatura, “invencível pelas lágrimas e capaz de todos os martírios”.

Plagiando o poeta Victor Hugo, ouso dizer que:

“O Homem é um oceano, a Mulher, um lago.
O oceano tem a pérola que o embeleza, o lago tem a poesia que deslumbra.
O Homem é a águia que voa, a Mulher, o rouxinol que canta.
Voar é dominar o espaço, cantar é conquistar a alma.
O Homem tem um farol, a experiência, a Mulher tem uma estrela, a esperança.
O farol guia, a esperança salva.
Enfim, o Homem está colocado onde termina a Terra, a Mulher, onde começa o Céu!”

Levaria muito tempo para falar sobre a Mulher, essa criatura extraordinária, multiqualificada, sempre regida pelo amor, pela doação, principalmente o que a faz “feitora de vidas”.

Mas, tenho a responsabilidade de lhes falar, hoje, sobre outra mulher: aquela que num dia qualquer da vida perde o direito de caminhar com os próprios pés, tendo que o fazer com a mente. A mulher com deficiência física, que represento, cuja cadeira de rodas que ocupo exibe essa condição.

Quem sou
GENAURA TORMIN é o meu nome.
Nasci ao amanhecer de um domingo de julho, embalada pela sinfonia do vento e pelo cantar de pássaros.

Filha de pais camponeses, tenho por lema a coragem, a fé por legado e o amor por escudo. Já vivi mais de meio século.

Fui menina, rebelde, barulhenta, traquina. O colégio de freiras me fez moça educada, comportada, bem intencionada.

Sou casada e tenho filhos e netos. Enfim uma família que me faz sentir que vale a pena viver.
Nasci no nordeste brasileiro, mas reputo-me goianiense, pois aqui resido desde os nove anos de idade. Aqui conclui os meus estudos. Fiz o curso de Ciências Jurídicas e me especializei em algumas áreas. Sou Delegada de Polícia.

O tempo legou-me a aposentadoria. Irreverente que sou, arranjei outra ocupação. Estudei e fui aprovada em novo concurso público.

Sou Analista Judiciário do Tribunal Regional do Trabalho de Goiás.
Fui poeta, como toda adolescente, porém essa marca não passou por mim. Retenho-a até hoje.
Não me importa se canto o amor, a vida, a morte... O que importa é cantar, extravasar, curtir as palavras lindas, tristes ou fortes.

Sou sincera, sensível, amorosa, versátil e passional.
Um tipo meio irreverente. Acredito que se tivesse que me comparar a um bicho, comparar-me-ia a um camaleão, pela versatilidade de cores e de adaptação. Gosto-me assim e fabrico felicidade. Procuro sempre o som e a as cores das coisas.

Minha própria estampa é a presença da alegria: tenho pernas de roldanas, ando sentada e sorrio muito. O batom vermelho realça isso.

Canto o otimismo. Verbalizo palavras e as transfiro aos meus escritos. Faço desse arsenal um escudo às dificuldades.

Em versos vou levando a vida, desnudando anseios e deixando jorrar todas as emoções de viver. No meu caminhar tenho pressa. Vivo o hoje, o agora. Sou poeta.

MULHER PARAPLÉGICA

"O importante não é o que fizeram do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele". 
(Jean Paul Sartre)

O designativo PESSOA PORTADORA DE DEFICIÊNCIA, largamente usado até os anos 90, o qual se encontra também nos artigos da Constituição Federal de 1988, foi substituído por PESSOA COM DEFICIÊNCIA, abrangendo as deficiências física, mental, auditiva e visual.

A legislação tem ratificado essa terminologia, bem como o Decreto n. 6.949, de 25 de agosto de 2009 que promulgou a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007.

Há um consenso mundial sobre a aceitação desse designativo.  Na verdade, portar significa uma situação voluntária, como portar um objeto, uma carteira, por exemplo. Nesse caso, poderíamos dispensar a nossa deficiência?

MULHER PARAPLÉGICA – geralmente é aquela que num dia qualquer da vida perde o direito de caminhar com os próprios pés, tornando-se paraplégica. E tem que o fazer com a mente, deambulando por meio das rodas inanimadas de uma cadeira de rodas. Entretanto há as pioneiras que, por motivos diversos, já nascem com deficiências. A elas, rendo homenagens, chamo-as de mestres e curvo-me com respeito.

As fatalidades não avisam nem escolhem status, raça, cor, hora, sexo ou credo. E num passo de mágica, eis a paraplegia! Os sonhos esfacelam-se às conjecturas do nada.

Mesmo assim, a ordem é correr atrás da vida! Aprender outra maneira de viver. Recriar-se! Ir à luta para não ficar à mercê do coitadismo, vendo a vida passar. Realmente, uma grande empreitada. Um desafio que nos fará subir ao pódio, sagrando-nos campeãs do torneio de nós mesmas.

Mudam-se parâmetros, paradigmas, mas não muda a garra nata da mulher que, por excelência, traz no sangue a gênese do esforço para se superar, vencer obstáculos e dificuldades.

Necessário e urgente se faz dar uma faxina na caixinha dos pensamentos, reorganizando ícones, criando possibilidades, redimensionando valores. 

A meta é reinventar a vida, num projeto arrojado e corajoso, sem deixar espaços para os males psicossomáticos. Revisá-lo, como se revisa um texto, corrigindo diálogos, substituindo parágrafos inteiros. Nessa lapidação, o amor deve ganhar maiores proporções, bem como a responsabilidade, a compreensão e, sobretudo, a aceitação e a paciência. 

Cortam-se alguns zeros metafóricos de um caso-verdade que nunca poderá ser apagado ou destruído da história de uma existência.  Mesmo revisto, retocado, sua essência permanecerá indelével na alma. Uma saudade.

Agora tudo terá que ter um único comando: CORAGEM!
É como se tivéssemos que fazer um projeto arquitetônico para a reconstrução da vida. Eu o fiz em versos.

ARQUITETA DE MIM
(Genaura Tormin)

Vou reinventar a vida!
Fazer consertos,
Aplicar remendos.

Prenhe estou de disfarces
E esgueira-me pelo corpo
A plangência do tempo,
Restos de batalhas
Que se reiniciam sempre.

A incoerência dos retalhos
Fragmentam-se pelos dias.
Recolho os estilhaços.
Sou enigma no existir!
Fabrico fantasias e metáforas.

Por vezes a paraplegia é abrupta. De repente a fatalidade e em seguida o quadrilátero de um quarto de hospital. Passamos a abrigar novos vocábulos no nosso dicionário: esfíncter, cateterismo, sonda...  Muitas seringas, comprimidos, raios-X, dietas, ultrassonografias, ressonâncias magnéticas e toda uma parafernália antes conhecida só de longe.  Cirurgias, imobilidade e leito o tempo todo, tudo respaldado por enorme vontade de viver. 

Na fase hospitalar, o tratamento medicamentoso ou cirúrgico tem de ser coadjuvado com a mente bem direcionada, sem nos esquecer de que, acima de tudo, somos energia e a altivez da postura mental é muito importante. A coragem ganha força hercúlea e o barco tem que seguir enfrentando borrascas, ribanceiras e tempestades. É uma tarefa exclusivamente de quem ganha uma paraplegia. Outras pessoas não a farão por nós!  

Temos que abraçar a causa.
É questão de sobrevivência, ou excelência de vida. Elevamo-nos à altura do que nos propusermos. Não somos as primeiras e nem seremos as últimas mulheres a experimentar tais condições que, embora doloridas, podem também nos arremessar a um final feliz.

Esse novo modelo não está em tratados alopáticos  nem é imposto. Temos que ser o nosso professor! O aprendizado é compulsório. Nele, não há portas que não se abram. Nem mesmo a Lei é um bloco estanque. Basta bater, que brechas aparecerão. É aí que fincaremos os nossos comandos, elaborando uma sentença de sucesso.

Eu sou paraplégica e posso contar.
Estou paraplégica há 31 anos.

Agora eu não pulo corda, não ando de bicicleta... Estava nos píncaros do sucesso e inexoravelmente fui atirada ao caos. Recebi uma dura sentença por crime que não cometi nesta vida. Mataram minhas pernas em mim. De repente uma marcante mudança! Mesmo assim, ainda corro atrás da vida. Esforço-me para ser a campeã dos meus aprendizados. O meu coração é vivo e o sorriso aflora sempre até os cantos das orelhas. Eu estou viva!

Numa manhã de março acordei paraplégica, vítima de uma virose ou de um erro médico. Lembro-me de que as limitações eram estarrecedoras, mas eu as enfrentava como as enfrento até hoje, procurando driblar o impossível, para conseguir independência, pelo menos comigo. Eu ficava hora montando estratégias, analisando circunstâncias para realizar os intentos.

Eu queria desenvolver uma autoconfiança que me conduzisse à ousadia mental de perseguir novos objetivos, construindo caminhos para o meu novo mundo. Afinal, dizia Einstein: “A mente que se abre a uma nova ideia, jamais voltará ao seu tamanho original”.

Eu tinha medo da solidão, medo da convivência comigo mesma. Na verdade, o medo era o de que os pensamentos de conquista fossem subjugados. A vida estava sendo muito complicada, muito difícil! Afrontava-me sem tréguas, estampada na imobilidade e na disfunção fisiológica do meu corpo, além de uma eterna e apavoradora dormência.

Sempre que abriam o guarda-roupa à minha frente, os sapatos e as sandálias de salto alto agrediam-me sem compaixão. Expulsei-os de lá. Doei-os, seguindo o ditado popular: “O que os olhos não veem o coração não sente”.

Tinha que respeitar a minha individualidade e olhar para frente e para o alto. Não podia viver de passado, embora a saudade de mim, por vezes, lavasse as minhas faces em lágrimas doloridas.
A gente não se esquece do que viveu, apenas aprende a separar as coisas e encaixá-las em prismas diferentes. Isso é sabedoria.

E a vida à frente! Um turbilhão de dificuldades nunca imaginadas. Uma jovem mulher reduzida à cabeça, seios e braços. O resto, morbidamente alheio ao meu comando: dormente, como se não fosse meu.

Os meus passos foram banidos. Perdi o meu ir-e-vir cheio de graça, de trejeitos, de muitos encantos. Poderia ter sido uma bailarina na vida, mas tive a vida para bailar, gingar até encontrar os meus próprios caminhos, lapidar os meus cantos, aparar as arestas.

A minha vida sofria grande transformação. E eu tinha urgência de que essa metamorfose não se resvalasse para o negativismo. Pertinácia e otimismo seriam as minhas armas. Revesti-as de poderes mágicos. Fiz dessa hora um marco divisor de águas.

Lógico que envidei muitos esforços para reverter o descalabro da situação. Sou guerreira de muitas batalhas para não ser escória de uma sociedade que, geralmente, só aceita os fortes, perfeitos e vencedores, alienando a pessoa com deficiência, sem entender que ela também é forte e vencedora de si mesma, compulsoriamente. É um resquício da cultura legada pelo modelo filantrópico.

Precisava retomar o meu lugar de esposa e mãe no meu lar. Na época meus quatro filhos, ainda pequenos, precisavam muito de mim. Ainda não tinham asas para alçar voos sozinhos. Isso me impulsionou a entender que precisava seguir a caminhada, mesmo sem marcar passadas no chão.

Consciente de que seria irreversivelmente uma paraplégica, preparei-me e classifiquei-me muito bem para o cargo de Delegado de Polícia de Goiás. Exerci-o com presteza, durante 13 anos, ocasião em que, também por concurso público, ingressei no Judiciário Federal, atuando por alguns anos na Diretoria de Recursos Judiciais do Tribunal Regional do Trabalho Goiás, onde fui, também, subdiretora. Hoje, trabalho na Secretaria de Coordenação Judiciária do mesmo Regional.

Quem falou que a pessoa com deficiência física não pode trabalhar? Ando de cadeira de rodas e trabalho. Conquistei até o título de “Servidor-padrão”.

Deficiência não é uma opção pessoal. É uma parte natural da experiência humana. Mesmo que nos empreste um visual diferente e algumas dificuldades locomotoras, a mente sã cria soluções para tudo. O trabalho devolve-nos sempre o sentimento de utilidade e supera a defasagem do caminhar.

Há preconceito? Há! Ele existe e não será banido tão cedo, não só em relação às pessoas com deficiência, mas em relação aos grupos vulneráveis. Isso é cultural. Vem de longas datas. Na Grécia antiga, as crianças que nasciam com deficiência eram tidas como seres sem alma, abandonadas para morrer. 

Os cristãos achavam que era um castigo de Deus. Ainda hoje a cadeira rodas passa uma ideia de mendicância. Há sempre sentimento de piedade, de medo, e quase nunca o de respeito. Se a pessoa for do sexo feminino, principalmente, presume-se logo que jamais encontrará companheiro. Se a sequela for recente, fatalmente será abandonada por ele. É como se, de repente, o ser humano se transformasse num objeto sem valor.

Mas isso a gente vai tirando de letra, mostrando o outro lado. O importante é: “Levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima!”

Baseada no desafio integro-me bem aos grupos de trabalho. Insisto por tratamento igualitário, mesmo por que, esculpida nas dificuldades, tenho por lema a coragem e o desejo de vencer. Jamais me subjugo às subserviências em busca de protecionismo, benesse, sob o álibi da deficiência. Preocupo-me em mostrar competência, conquistando respeito pelos meus próprios méritos.

Sinto-me adaptada à vida! Sei que ela se adaptou a mim também. De minha catarse, sou mestra. Tenho uma família que me ama e não me castra as oportunidades. Pelo contrário, ela é um nascedouro de forças e incentivos. Isso me é de importância vital e respalda o segredo do sucesso que tenho conquistado.

Sou escritora.

Escrevi PÁSSARO SEM ASAS, um livro autobiográfico, corajoso, em que me desnudo, viro-me do avesso e conto ao leitor toda a minha trajetória depois dessa nova condição de ‘rodante’: avanços, derrotas, conquistas, aprendizados, até as verdades mais reclusas na cela do peito.

Relato tudo, não como uma história que haja acontecido no estrangeiro, num lugar distante, mas um fato verdadeiro, acontecido aqui mesmo, entre nós, cuja protagonista, apesar de não ter tido um final como nos contos de fadas, faz-se feliz, viva e atuante.

Mais quatro livros foram também editados. Apenas uma flor; Nesgas de saudade; Borboleteando; e Marola, Veleiro e Vento. Neles eu enveredo pelos veios da poesia para acalentar instantes e fabricar fantasias.

A vida se exibe à minha frente! Ainda acontece inteira no meu coração. Eu cumpro e assumo o direito de ser MULHER em toda a sua plenitude.

Continuo perseguidora de sonhos. Acredito no amanhecer, no poder recomeçar a cada dia. Sou a síntese dos meus desejos, compilação de inércias estáticas. Encanto-me com a vida, com os amores, com o belo, com a arte de fazer versos. Acho prazeroso brincar com as palavras. Por meio delas exponho-me por inteira. Desnudo-me! Mostro a alma, o coração e a poesia que há em mim.

O avançado da hora se registra. Caminhamos para o término deste meu convívio com vocês. Agradeço a atenção de todos e sinto-me muito lisonjeada pelo convite para aqui estar.

Abraço carinhosamente a todas as mulheres, pelo nosso DIA!

Não obstante as muitas conquistas, resta-nos erguer a voz e deixar que o grito alcance os quatro cantos do mundo:  
–  Avante companheiras! Muito ainda temos a conquistar!

Obrigada!

Palestra proferida por Genaura Tormin, em  07.03.2013, na Procuradoria da União em Goiás – Advocacia-Geral da União, Rua 82, esq c/83, nº 179 – Praça Cívica – Setor Sul - em Goiânia-Go


LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

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Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)



"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)