PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

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sábado, 10 de dezembro de 2016

UM CONTO DE FÉRIAS


UM CONTO DE FÉRIAS
(Genaura Tormin)

Férias! 
Oba! 
Uma ocasião muito esperada. 
Planos muitos bailavam em nossos corações, cheios de fantasias. 
Eu tinha quase quinze anos nessa época. 
Reclusa num Colégio de Freiras desde os 9 anos de idade. 
Aprendi a viver assim.

As colegas, a rotina, a disciplina e o aprendizado eficaz eram a preparação para a vida. 
Cuidados responsáveis do meu pai. 
Eu era feliz!

Esperta, traquina, diziam que eu era inteligente. 
Naquele tempo, eu já fazia poemas levada pelos sonhos que bordavam a minha juventude, desnudada em sorrisos doces e trejeitos faceiros.
O meu mundo era muito pequeno, embora eu fizesse o curso ginásial fora dos muros do internato. 

Era bolsista no Colégio Santo Agostinho, dirigido por freiras agostinianas.
Egressa da zona rural, sentia saudades. Sonhava com a liberdade da natureza florida do meu torrão natal: o riacho que passava no fundo do quintal, o monjolo no seu árduo e cadenciado cantarolar, acompanhado pelo sonoro jato dágua, que impulsionava o seu trabalho. 

Saudade dos passeios pelos caminhos floridos, no lombo do cavalo. 
O céu, o cheiro do mato, da terra arada, o trinar dos pássaros alegravam a minha vida. 
Como eu era feliz e não sabia! 

Isso foi uma fase. Tudo é fase na vida. E tem que ser assim.
Agora, significavam saudades, naquele lugar distante, de arrojada arquitetura de concreto, bem diferente do meu antigo teto. 
Ali, a vida era pautada pela disciplina, muito longe do palco de tantos folguedos de menina, do mugido do gado, do cheiro de café sendo coado e leite fervendo, pela manhã. 
Mas isso era preciso!

O futuro batia à porta e papai pensava no melhor para nós. 
Homem austero, centrado, trabalhador, com grande senso de responsabilidade pela prole.
Ouriçadas com a chegada das férias, esperávamos ansiosas a hora da partida. 
Fazíamos vinhetas e cantarolávamos ao léu:

“Tá, tá chegando 
A hora das internas irem embora.
Papai me espera no portão!
Ai como é que vai ser bom!"

Dessa feita, fomos para a casa de uma tia, na fazenda, onde um córrego gorgolejava, com muitos seixos rolados e muitas árvores frutíferas, gado, cavalos... 

E à noite o céu estrelado bordava o limpo terreiro, rendilhando o chão. Que tempo bom!
Era quase a estampa da fazendinha de papai que nos viu crescer e tantas fantasias nos legou.

Ali, a fartura do pomar, as pamonhas roliças e gostosas, a comidinha feita no fogão à lenha, o feijão preto com arroz quentinho e costelinha de porco são lembranças que, ainda hoje, aguçam-me o paladar. 
Que saudade! 

A carne era frita e enlatada na banha de porco, para conservação, pois não havia geladeira. 
Tudo muito empírico, gostoso e sadio. 
Eu era quase uma mocinha. Sentia-me aflorar a libido. 

A feminilidade fazia-me bonita, faceira. 
As mudanças estampavam-se no meu corpo de menina-moça, exibindo-me as curvas, fazendo-me elegante. 

Nessa ocasião fomos à uma festa, um baile (um pagode, como era por lá conhecido), numa fazenda vizinha.
Era a primeira vez que iria à uma festa dançante. 
A empolgação tomava-me o coração! 

Tudo muito novo, diferente! 
E agora na condição de mocinha, cujas pretensões afofavam a mulher que pulsava em mim.
Na zona rural as meninas namoram cedo, assim, logo me apareceu um pretendente. 
Sorriso fácil, olhar cativante... 
Uma máscula figura que me ouriçou os hormônios, num gostoso tremor.
Um mancebo principesco que se conduzia num majestoso cavalo. 
Só faltava ser branco.

No verdor de sua idade, era falante, galanteador. 
Isso é inerente, como arma de conquista.

Sei que o meu sorriso o encantou. 
A corte logo se fez e meu coração pulsava altaneiro, descontrolado, abismado com a nova fase.
Não sabia que o amor era tão gostoso.
Como me lembro disso! 

Mas papai jamais aprovaria e as férias estavam no final. 
No dia seguinte retornaríamos ao Colégio. 
O ano letivo estava prestes a começar e eu teria que me esforçar.
Como lembrar é viver, eis a lembrança que guardei de um tempo tão distante. 
O meu ingresso na arte de ser mulher!

Não sei se posso chamar de primeiro namorado. 
Mas que gostei, ah, isso eu gostei muito. 
A noite não pode conciliar o meu sono, pois a alegria sacudia-me, aos borbotões, em desejos mil, diante das lembranças do que me havia acontecido. 
Lindo episódio que marcou um tempo, machucou meu coração e se foi qual revoadas de pássaros ao entardecer. 

Até hoje, parece que vejo e sinto aquele olhar másculo, que fitava com carinho, afagando o meu ser/mulher, encantado e enamorado.

Naquela noite, ao som de um violão, aos refegos de passos de dança, lastreado pelo salão, eu me senti MULHER!

Simples assim, a minha estreia!

terça-feira, 1 de novembro de 2016

A FORÇA DO AMOR



A FORÇA DO AMOR
(Genaura Tormin)

A vida seguia seu curso.
A família unida e engajada.
Podia-se dizer que era regida pelo slogan: Um por todos e todos por um, desde os mais tenros anos.

Problemas sempre vencidos e vitórias conquistadas.
Quatro filhos, o que favorecia as brincadeiras, passeios, amizade, tarefas... e a interação de amor que era partilhado no sorriso e na gratidão.

Todos bons filhos, bons amigos, bons alunos, e os mais lindos do mundo no meu coração de mãe.

Uma bênção em nossas vidas!
Agora já cursavam a Universidade.
Nós, os pais, éramos a estampa do contentamento, do sorriso farto e da alegria.
O caçula ingressara aos dezessete anos de idade, no Curso de Direito da Universidade Federal. Os filhos, geralmente, tentam seguir a profissão dos pais.

A adolescência, transcorrera sem problemas, numa família onde o diálogo se fazia presente e a autoridade também. Acredito mesmo, que ela deve ser uma empresa, por isso carece de uma boa gerência em todos os sentidos.

Errados princípios, dificultosos fins, costumava dizer sempre a minha mãe.
As etapas devem ser queimadas ao seu tempo, sem atropelamentos.

A fiscalização cabe aos pais, na tarefa responsável de endereçar suas crias na senda do bem, estimulando a fé e a crença no porvir, através do estudo, da educação e do trabalho, sempre sob as forças do bem, do amor e da fraternidade.

Como nós, eles também serão pais um dia.
A história dessa caminhada significam livros escritos na memória da família, no vagar do tempo, para a posteridade.

Frederico, como o último da prole, perquiria seu lugar nos escaninhos do nosso afeto.
Certo dia, chegou em casa acompanhado por uma linda garota que, ao me ver, estampou um largo sorriso e me chamou de tia.

Foi amor à primeira vista.
A danadinha, embora ainda criança, conquistou o meu afeto.
Cursava o segundo grau do colégio.

Posteriormente a sua família viera morar no nosso prédio. Agora éramos vizinhos!
Dessa época, eu me lembro que se alargaram os horizontes da amizade, fazendo-nos amigos de verdade.

De vez em quando, a menininha de cabelos pretos, olhos brilhantes, ternura à flor da pele, chegava em visita à nossa casa.

O sorriso iluminava o rosto daquele ser, ainda tão criança. Era o verdor dos seus quatorze anos de idade.

Chegava depressinha, feito a abelha que viceja a flor. Logo se despedia, sob a alegação de tarefas escolares.

Nos meandros de mim eu pensava: que menininha que estuda!? Será que estuda mesmo? Tantas tarefas assim?

Vou investigar. Afinal, sou delegada _ pensei eu.
Dias depois, lá vem a mocinha! Era a namoradinha do meu filho e a pergunta era quase sempre a mesma.

_ Tia, o Fred está?
E logo vinham as despedidas, com a explicação de que tinha que estudar.
_ Por que você estuda tanto, além da frequência à Escola? - Arrisquei perguntar.
_ Sabe, tia, meu pai morreu quando eu era bem pequena.

Somos três irmãs!
Minha mãe trabalha muito e é ela quem nos paga a escola e tudo o mais que precisamos. É mesmo uma guerreira e eu sinto que tenho que ajudar de alguma forma.

Na minha Escola, quem consegue classificar-se em primeiro lugar entre os demais alunos, não paga a mensalidade.

E é isso que tenho feito. É o mínimo que posso fazer! É o jeito para demonstrar-lhe minha gratidão, minha participação. Emociona-me dizer-lhe ao final do mês:
_ Mãe, eu tirei primeiro lugar de novo!

Foi uma explicação tão linda, que me embargou a voz, marejando-me os olhos, numa admiração incontida por uma garotinha de 14 anos.

E a vida a passar... dias, meses, anos!
Agora, a mocinha terminava o colegial e, sem cursinho, fora aprovada no vestibular para o Curso de Direito da Universidade Federal.

Ao término do curso, vieram as muitas aprovações em concursos públicos.
Hoje, ela é uma Promotora de Justiça!

Invertendo o refrão de minha mãe, eu digo, sem medo de errar:
Princípios certeiros, finais felizes!

E o amor a gerir toda uma vida!
Ele é sempre a maior e a melhor de todas as opções!
É Deus dentro da gente!

terça-feira, 9 de setembro de 2014

UMA SESSÃO EXTRAORDINÁRIA INUSITADA



UMA SESSÃO EXTRAORDINÁRIA INUSITADA
(Genaura Tormin)

Cuidar da família é uma sublime carreira, pois, o investimento maior é dedicado aos filhos, missão nossa, cabendo-nos a responsabilidade de endereçá-los à trilha do bem.

E isso se faz com presença, diálogo, carinho, orientação e exemplo. Por isso o casal pode se separar, os pais, nunca! É preciso saber fazer a diferença. É preciso preocupar-se com o desenvolvimento seguro dos filhos, pois serão eles os homens do amanhã. Dizem que quando vivemos na unidade, nossa morada torna-se um paraíso.

Basta pensar no grande número de crianças abandonadas, com pais vivos e ricos, que têm por amigos o aparelho de televisão, iPad, iPhone, videogame, redes sociais, internet, com seus benefícios e malefícios, sempre ditados pela solidão e revoltas da idade.

São os filhos dos pais “sem tempo” que, irremediavelmente, atribuem importância maior aos cifrões dos seus negócios, respondendo sempre: “Não posso agora, estou atrasado, é hora do jornal, do noticiário, da bolsa de valores etc.” Tentam materializar carinho e compensar a ausência com exageradas permissividades e presentes caros.

Ao exacerbar em oferecimentos materiais, os pais estão barateando a capacidade de luta dos filhos, diminuindo a busca e o desejo de conquista, o que os tornam frágeis. Como estão errados esses pais!

Quase sempre, esses menores, com todos os desejos materiais satisfeitos e as emoções diminuídas, e estando ainda verdes para o autoequilíbrio, o discernimento responsável, começam a perder a estima de si mesmos, tornando-se inseguros, tristes, rebeldes, enveredando facilmente pelo mundo das drogas à procura de carinho, de emoções maiores, iniciando o caos, que deixa marcas profundas, cicatrizes eternas.

O que adianta vencer profissionalmente, mas perder a família a qual é mais do que parte de nós? É missão e razão de toda a nossa luta na vida. É preciso conciliar família, trabalho, respeito e autoridade. “A melhor escola ainda é o lar, onde a criança deve receber as bases do sentimento e do caráter.” Acrescento que o maior e melhor remédio para tudo chama-se AMOR!

E esse tão lindo amor que dá sentido à vida é também uma questão de inteligência e responsabilidade. É preciso que se determinem limites e metas para a organização familiar, pois a energia também é amor.

O tempo não espera. Um belo dia você descobre que fez tudo errado. E o mais lastimável é que não há conserto. Não há dinheiro que consiga recuperar o que foi perdido.
(Este texto é parte do meu livro Pássaro Sem Asas – 6a. Edição.)

Ainda recente, num amistoso diálogo com uma colega de trabalho, ela me disse que teria que presidir a uma Sessão Extraordinária naquele dia em sua residência.

Aguçou-me a curiosidade e eu quis saber mais.
Explicou-me ela:

Temos 2 filhos: de 7 e 9 anos. É costume fazermos de vez em quando uma Sessão Extraordinária para discutirmos família, vivência, responsabilidades e falarmos de amor. Um momento de abertura e carinho só nosso.
Encantou-me o tema e ela continuou:

É, colega, é uma Sessão de verdade, nos moldes das Sessões Plenárias aqui do Tribunal. Uma mesa forrada, um livro de ata, uma jarra de suco, horário certo e os problemas a serem apresentados, que foram previamente listados por nós, os pais, e por eles. Por vezes, costumamos dizer que tal problema será posto em pauta e discutido na próxima Sessão. É um momento solene para todos.

Ali acha-se sempre a solução para todos os impasses: notas escolares, feitio de tarefas, boas maneiras, incentivos, alimentação, banho, arrumação das camas, uso e guarda de objetos e brinquedos, horários para diversão, passeios, projetos, além de conscientizá-los sobre o lugar que ocupam na família e no coração da gente, como importantes membros, credores de todo o nosso amor e razão de nossas vidas.

A seu turno, a palavra é dada a todos: papai, mamãe e os filhotes, o que é bem respeitado. Já é um hábito adquirido que muito os ajudará pela vida a fora

Há, também, uma fala sobre
Deus, como gestor de tudo, a quem devemos gratidão. Enaltecemos a solidariedade, o companheirismo, culminando em elogios em que todos nos sentimos partes, valorizados e amados.

Falamos sobre economia doméstica, futuro, explicando a razão de não podermos exacerbar em presentes... Começa a se formar aí a filosofia da vida.

Por um bom tempo tudo fica bem. Todos nós cumprimos o que foi ali tratado, respeitando a faixa etária e as lindas crianças que enfeitam a nossa vida, o nosso lar, a quem temos a responsabilidade de endereçar ao futuro que os espera.

E assim, vamos formando hábitos e construindo a base de nossa família, endereçando-a à trilha do bem e do amor.

Finalmente, eu lavro a ata, em que constam também os deveres e direitos ali debatidos.

Todos assinam e dali começamos um novo modelo de ajustamento.
Encerramos com uma prece, além de abraços e beijos.
Que maravilha é termos uma família para amar, um lar para voltar!

_ Que lindo ensinamento, registrei emocionada! Impulsionada pelas lágrimas, abracei a colega e parabenizei-a. As palavras ficaram entaladas na garganta.

A emoção tomava-me a alma e eu achei uma excelente forma de educar, construir e amar.

Uma linda e responsável família!

Imaginei a ata sendo assinada por aqueles pequenos.
A letrinha, os petitórios e a discussão de cada um...

Ah, eu amei essa conduta e pensei em multiplicá-la, trasladando o episódio num conto, o que acabo de fazer.

Obrigada, amiga querida, por me permitir aprender tanto com você!


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A PROFECIA DA LUÍSA



A PROFECIA DA LUÍSA
(Genaura Tormin)


Somos uma família unida, coesa e contente.
Os filhos moram perto da gente, o que facilita o compartilhamento de carinho e cuidados.
São quatro os nossos filhos. Todos casados e endereçados na vida. Os netos aumentam a nossa razão de viver, fazendo-nos mais felizes.

O filho, Frederico (o caçula), mudara-se para um apartamento duplex próximo de nossa casa. O afeto crescera e nós estamos sempre entre eles e vice-versa.

Durante as minhas estadas lá, posto-me no primeiro piso, tendo em vista ser paraplégica e as minhas pernas de roldanas não subirem às escadas para alcançar o piso superior, onde ficam os quartos.

Tendo em vista o pé direito duplo da sala, aureolado por um pergolado na parte superior, é-me possível identificar portas.

Luísa, criança inteligente, linda, esperta, falante, dos “cabelos negros feito as asas da graúna”, imaginava várias maneiras para que eu acendesse ao andar superior.

_ Vovó, quero que você veja o meu quarto, o da mamãe e do papai, o do Pedro e o da Fernanda.

_ E quem é a Fernanda, Luísa?
_ É a minha irmã, vovó!
_ Mas você não tem irmã!
_ O Papai do Céu ainda vai mandar pra gente!
_ Como você sabe disso?
_ Porque sei!

Luísa é a primogênita da família e à época tinha quatro anos. É uma criança doce, terna, amiga do irmãozinho a quem dedica carinho e cuidados. Diz-se a professora dele e se responsabiliza por tudo que ele sabe.

Sempre que eu lá chegava, ela me lembrava de que teria que arranjar um jeito de eu subir as escadas, que costumeiramente me espreitavam de soslaio. Vez por outra eu sentia saudades dos passos saltitantes e faceiros que ficaram num passado tão distante. 

Quase 30 anos sem os seus trejeitos dançarinos. Mas os passos imaginários sempre me alongam as possibilidades de outras formas.

Enfim, surgira o esperado jeito para alçar voo aos dormitórios no piso superior. Carregada nos braços, lá ia eu! Luísa e Pedro eram só sorrisos. Subiam na frente como a preparar o caminho. Verdadeiros cicerones. 

As vozinhas estridentes atropelavam-se faceiras na descrição dos aposentos. 
Tudo muito bonito, decorado com motivos próprios, cheios de graça e bom gosto.

_ Aqui é o quarto da Fernanda, vovó! _ dissera-me Luísa, ensimesmada. Ato contínuo passara a abrir o armário e exibir as roupinhas, fraldas, sapatinhos e outros pertences, com farta descrição sobre a irmãnzinha que o PAPAI do céu mandaria.

_ E quando ela chegará, Luísa?
_ Vovó, a mamãe falou que vai pedir ao Papai do Céu.

_ Ah! Sim! Pois é, eu vou ficar muito contente, sabia? Eu amo vocês! E vou amar também a Fernanda.

O tempo passava célere. E alguns meses depois, via celular, o filho Frederico compartilhava comigo a alegria em ser pai, novamente.

_ Mamãe, você será vovó outra vez! Liana está grávida. Acabamos de pegar o resultado do exame!
_ Que bom, filho! Mais um coadjuvante para arrebanhar a nossa família no caminho do amor, na senda do bem. Quase um time, hein? Serão três filhos, três amores! A Luísa e o Pedro já sabem sobre a criança que está a caminho?
_ Ainda não.
_ Imagino a felicidade de ambos esperando o bebê. Estou muito feliz!

A vida tomara novos contornos na casa dos Antunes Tormins, bem como na casa dos avós e demais parentes.
Era o amor que, mais um vez, batia à porta, em forma de uma gentinha nova.

E a sementinha crescia no ventre da mamãe, cujas formas tornavam-se rechonchudas a cada dia, denudando-lhe a alma agradecida na fisionomia e na ternura do sorriso sempre presente. 

Liana é uma menina bonita, cativante e amiga. Para mim, uma filha! Carinhosamente, chama-me de tia. E eu gosto disso.

A família estava sendo agraciada, pois um filho é sempre um presente de Deus para vida! Uma centelha do Seu amor.

Os dias passavam-se lentos, aguçando a espera, estampada na alegria estridente das crianças, que contavam a novidade a todos. O contentamento era visível em toda a família.

_ Papai do Céu vai mandar pra mim uma irmãzinha vovó! A Fernanda! Eu não falei?
_ Falou, meu amor! E a vovó acreditou. Papai do Céu é muito legal, mesmo! Ele atendeu ao seu pedido e ao da mamãe, não foi?

Ainda não se sabia o sexo.
Tão logo fora possível, o exame foi feito e acusou ser um menino.

Novamente, Frederico passara-me uma mensagem avisando. O casal ficara preocupado sobre como dar a notícia a Luísa.
Chegou-se à conclusão de que isso seria feito com cautela e vagar.

Durante uma de minhas visitas, tentando ajudar, eu comentei sobre o Antônio, o novo irmãozinho que eles iriam ganhar.

Luísa ouvira o meu comentário e, imediatamente, interveio enérgica:
_ Vovó não é não é o Antônio! É a Fernanda! Eu já falei!
_ Mas o exame disse que é um menino!
_ Não é! Vovó, o exame errou! O que apareceu no exame foi o dedinho da Fernanda! A mamãe vai fazer outra vez e é menina, eu sei! É a Fernanda!

Acontece que, realmente, algum tempo depois, em um novo exame, comprovou-se ser uma MENINA. 
Isso não significou surpresa para Luísa, a qual sempre se mostrara segura quanto a vinda da irmã Fernanda.

O tempo passava e, num finzinho de tarde de um dia lindo do mês de fevereiro, quando o sol recolhia-se contente ao horizonte, bordando o céu de róseas pinceladas, chegava a Fernanda para alegrar a vida da gente!

A Luísa, agora com mais de cinco anos de idade, não se cabia de tanta felicidade em ter no colo a irmãnzinha tão esperada, para quem ela mesma escolhera um novo nome: Marina! 

Dizia que tinha que ser um nome que ela soubesse escrever. O finalista foi Malu e depois Marina, bem desenhado com a letrinha de uma criança amante.


Hoje, Marina tem cinco meses. Uma criança linda, sorridente que nos transporta ao Criador de Vidas. Costumo ver Deus nas crianças!

À luz da Doutrina Espírita, sabe-se, que até os sete anos de idade, é comum a criança viver em duas dimensões. É um  período de adaptação à sua nova reencarnação. Nesse período as lembranças são muito fortes. Isso é muito natural para ela. Chega a ter amigos que a gente não vê. Fala deles em histórias fantásticas. 

Por isso a Luísa referia-se a Fernanda com muita convicção e sabia que ela viria.

Nós, os pais, ainda desinformados, pensamos que se trata de fantasia e quase sempre procuramos ajuda psicológica.

A REENCARNAÇÃO É UMA VERDADE! E o véu do esquecimento sobre as existências passadas é uma benção, que nos permite aprender e evoluir sem entraves rumo à perfeição, a qual todos chegaremos um dia.

E assim, cumprira-se a PROFECIA DA LUÍSA!

sexta-feira, 15 de junho de 2012

UMA CARTA QUE VIERA DO CÉU


Esta é a Talma Alvim

UMA CARTA QUE VIERA DO CÉU
(Genaura Tormin)

Era uma manhã de segunda-feira. Os movimentos ganhavam vida no ir-e-vir lépido da casa. O cheiro de café exalava da cozinha, chegando até o quarto. O marido, odontólogo, já se encontrava na lida, preparando-se para atender ao primeiro paciente daquele dia, cujo consultório era contíguo à residência.

Eu ainda estava na cama quando a paciente que, por sinal era minha colega, adentrou ao meu quarto mostrando-me um calhamaço de papel, cujo manuscrito a lápis, continha letras enormes. Eram 64 laudas.

_ É um texto psicografado que eu quero lhe mostrar em primeira mão. Recebemos no começo dessa madrugada, em Trindade-GO. Leia! É uma mensagem da Talma para a mãe _ dissera-me ela.

Fiquei perplexa. Nunca tinha visto, tão de perto, escrita ditada por alguém que já houvesse falecido. Mas, apesar do ceticismo próprio que me impingira o colégio de freiras, quis saber, pois conhecera a Talma no hospital, quando fiquei abruptamente paraplégica. Ela fora me visitar a pedido de alguma pessoa amiga, no sentido de mostrar-me que a vida ainda era possível.

Ficamos amigas. Fora ela a minha professora na arte de conviver com os passos recolhidos. Por vezes, era o meu divã, o referencial que me indicava direção. Com ela, aprendi a nova maneira de viver bem, sem lamentar o que fazia antes, mas valorizar o que ainda poderia fazer.

Vítima de um tiro acidental de arma de fogo, durante um seminário de capacitação de líderes da América Latina, realizado no Rio de Janeiro, Talma partira primeiro para a outra dimensão da vida, em pleno Dia das Mães. E agora, um ano depois, manifestava-se por meio de uma psicografia.

Eis a mensagem:

“CARTA A UMA MÃE

Querida mãezinha Maria,

Peço ao nosso Deus, sempre misericordioso, que nos envolva em bênçãos de paz e luz, iluminando nossos caminhos com a serena certeza de que Ele sempre esteve do nosso lado.

Mamãe, querida mãezinha, este é um momento de agradecer a Deus por todas as dádivas que recebemos, embora muitas vezes sem merecê-las.

Estou presente respondendo ao seu carinho que jamais esteve ausente. Nossos pensamentos estiveram sempre interligados com as NOSSAS orações.
E, hoje, mãe, vim pedir-lhe que me aceite nessa nova vida em que me encontro.

Ah! Mamãe, a vida aqui é maravilhosa! Tantas surpresas! Tantas novidades!
Aprendi que a vida é sempre um caminho... Um caminho para mais nos aproximarmos de Deus.

Não pense que estou alheia ao seu sofrimento, à sua saudade.
Estamos juntas. Somente peço que não permita que a saudade assuma um caráter de forte algema a aprisionar em lágrimas as nossas carinhosas lembranças.

Mãe querida, a senhora sabe, através de todas as lutas que travei enquanto estava no plano físico, sempre foi por mim um motivo para continuar adiante... Jamais me entreguei ao desânimo, sempre caminhei com resolução para alcançar as metas a que me propunha alcançar.

Não por mim, mas por uma luta de ideais, onde os meus semelhantes conseguissem um espaço nessa interessante luta que se chama “VIVER”.
Todo o meu trabalho eu o realizei com amor. Os que conviviam comigo aprenderam ser este o meu lema de vida.

Naquele dia de maio, enquanto eu estava à procura de maiores chances para demonstrarmos que éramos pessoas capazes de competir com as dificuldades da vida, havia acordado sentindo-me bem disposta.
Cheguei a comentar com a Luiza que estava sentindo uma paz interior muito grande.

Preparei-me para as atividades do dia e, enquanto conversava com a equipe, passando-lhe apontamentos, foi como se de repente houvesse sido tocada por uma descarga elétrica que me percorreu todo o corpo.

Percebi que a bala havia-me alcançado e confesso que tentei esboçar um sorriso de compreensão para aquele amigo que me olhava sem nada entender.

Pude escutar ao longe os gritos, a confusão que se instalou e não vi mais nada. Foi como se tudo de repente sumisse ao meu redor. Senti um sono suave invadir-me e entreguei-me a ele. Dormi, por quanto tempo não sei.

Quando acordei, senti-me disposta e estava bem. Procurei com os olhos, ao meu lado, a minha companheira inseparável (a cadeira de rodas) de tantos anos e não a vi.
Procurei esclarecer meus próprios pensamentos, quando voltei à lembrança daquele dia de maio.

A princípio, julguei-me estar em um hospital e aguardei com paciência que alguém viesse ao meu encontro. Entraram ali algumas pessoas que me encaminharam, confirmando o que eu sentia: estava muito bem.

Fiquei deitada, e foi nesse momento que um senhor de feições simpáticas e bondosas se aproximou de mim e disse:

_ “Filha, levante-se, você agora é perfeitamente normal”.

Aquela voz fez-me ver que estava diante do vovô Joaquim e, a essa simples conclusão, percebi que a verdade de outra vida estava diante dos meus olhos. Naquele instante, lágrimas de emoção escorreram-me pelas faces.
Segurei naquelas mãos que me estendia o vovô e consegui me sentar.

Como uma criança receosa, consegui mover minhas pernas e colocá-las no chão. Havia conseguido ficar de pé.

Chorando de pura emoção, dei os meus primeiros passos na vida espiritual. E foram passos um pouco vacilantes, afinal, as pernas ficaram muito tempo sem fazer esse exercício.

Agradeci a Deus por tudo que me havia proporcionado. Depois fiquei sabendo como estavam todos vocês e pedi calma e confiança.

Desde aquele dia, que não tinha a intenção de deixá-la inconsolável no seu Dia das Mães, logo depois venho me esforçando para conseguir maiores conhecimentos na área que atuava.

Mãezinha, peço-lhe que sempre incentive a minha equipe.
Peça a todos para continuar lutando com coragem para vencer com otimismo as dificuldades do dia-a-dia.

Muitas pessoas não compreendem a luta diária de um paraplégico, mas muitas outras se sentem impelidas a ajudar.

Desejo que diga a eles que não há dor sem razão, que todos nós devemos nos esforçar muito para vencer as imperfeições, principalmente as da alma.
Estarei ao lado de todos, como sempre estive. Minha luta foi de ideais e princípios.

E aqui, quando contemplei meu próprio corpo, vi que a minha amiga “inseparável” (a cadeira de rodas) havia se tornado para mim oportunidade alcançada e iluminada de que necessitava para o reajuste de meus débitos.

Peço a todos os nossos familiares que não culpem situação alguma à minha retirada do plano físico.

Havia chegado a minha hora. A bala disparada acidentalmente encontrou a pessoa certa que a merecia.

Todos devem aceitar plenamente o que nos aconteceu.
Mamãe, peço-lhe que não chore mais. Estamos muito juntas.

Ajudo-a na educação dos meus “amores”. Avisam-me que devo finalizar. Voltarei em outra oportunidade.
Sua filha está feliz, muito feliz.

Abrace papai, abrace a todos por mim: meus filhos, familiares e irmãos, agradecendo-os o bálsamo da oração e o carinho das lembranças.

Com o carinho respeitoso de sempre, sua filha, agora de pé, que beija suas mãos, depositando nelas a gratidão eterna.
O carinho e o amor da sua

TALMA

(Mensagem psicografada no Centro Espírita Apóstolo Paulo, na noite de 11/03/89, em Trindade-GO, pela médium Mary Alves A. Silva)”

Pasmada com tudo aquilo, embora os cantos inaudíveis de minha alma há muito questionassem tantos "porquês", eu reli muitas vezes aquela mensagem, tentando encontrar alguma dúvida, algum ponto discordante que dissipassem as certezas.

Mas tudo me confirmava ser ela - a Talma. Era como se a ouvisse falar. Tantos detalhes! O estilo, as palavras marcantes, como “meus amores”, como ela se referia aos filhos... A equipe, o trabalho, a veracidade de nomes, o afeto dedicado à mãe, os irmãos... O cenário que eu tão bem conhecia.

Realmente, eu estava diante de uma nova tarefa! Procurar portas, abrir janelas, seguir por atalhos e veredas para descobrir algo mais além de mim. E a palavra de ordem era: Estudar, pesquisar para entender e escolher. A fé cega nos anula o raciocínio. Senti que buscava espiritualidade e não religião.

Como dissera a colega, eu estava lendo a mensagem em primeira mão. E isso fora de muita importância para derrubar o meu arraigado ceticismo, numa sabatina em que todos os itens obtiveram nota 10.

E eu cresci, aprendi, evolui! E, principalmente, entendi que: "SOMOS SERES ESPIRITUAIS PASSANDO POR EXPERIÊNCIAS HUMANAS".

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(Esse texto, à época, foi publicado em "O POPULAR", Diário de renome de Goiânia- GO. Trindade é uma cidade pequena, localizada a uns 30k de Goiânia.)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

EXPERIÊNCIA QUASE MORTE – EQM



EXPERIÊNCIA QUASE MORTE – EQM
(Genaura Tormin)

De repente, a existência atirou-o num leito de hospital sem motivo convincente aos olhos do leigo e principalmente dos familiares.

Tudo mudou! A vida quis dar uma rasteira no atleta. Intervenções cirúrgicas, antibióticos, apreensões, visitas de parentes e a preocupação zelosa e amorosa da família. Notícias eram sempre repassadas, procurando o jeito de amenizar o quadro e consolar a prole. Tudo por causa de um câncer, que chegara sem aviso prévio, com sintomas simples e inocentes.

O nosso rapaz estava ali, cordato, resignado e obediente. Tudo dentro dos conformes e das expectativas médicas, até que outro reparo cirúrgico fez-se necessário. Um 
acidente de percurso. Uma pedra no meio do caminho

As complicações vieram à baila, encarcerando-o num leito de UTI, durante  um mês, com incidência de ascite, pneumonia, septicemia (infecção generalizada), coma, escaras, transfusão de sangue, hemodiálise, intubação e um capacete que lhe penetrava o couro cabeludo, como se fosse uma coroa de Cristo. Isso para reter o oxigênio que lhe penetrava às vias respiratórias. Sem ele, os sinais vitais lhe faltariam.

Em estado gravíssimo, os prognósticos caminhavam para o pior ou mesmo para a cidade de “pés juntos”. Em desespero, mas guardando o controle e o otimismo, a família se revezava, em plantões permanentes, por vezes à porta do hospital, à cata de informações, procurando servir de alguma forma.

Embora num corpo estático, emagrecido, perfurado por muitos tubos e conectado a equipamentos que o mantinham vivo, fisicamente ele estava ali, um espectro humano. Esquálido e fragilizado. A fisionomia gritava por socorro e os que o viam, saíam com os olhos marejados e o coração apertado.

Talvez o melhor remédio, naquele momento, fosse o forte amor da família unida e coesa num só pensamento. Força e positivismo eram as palavras de ordem. Uma dura experiência! Afinal, não se costuma pensar que o indesejado possa nos acontecer.

E, depois, o homem era um atleta, comedido nos hábitos higiênicos e alimentares. Uma pessoa, realmente, bem esculpida nos bons costumes. Um profissional da área de saúde. Ninguém esperava por isso. Um câncer de intestino? Nunca!

Acontece que o moço recuperou-se! Uma bênção, um milagre, uma festa! E eis que voltou ao lar. Embora com algumas pequenas sequelas, podemos dizer que está ótimo. Otimismo é a sua bandeira.

Num desses amistosos diálogos sobre a sua estada fora do mundo, perguntei-lhe:

_  Na UTI, sozinho, no silêncio das madrugadas, você pensava em quê?

_  Eu não ficava lá, respondera-me ele convicto. Nunca fiquei lá! Eu viajava, passeava pelo mundo... Ia  aonde queria, sem quaisquer entraves.

Aquilo me despertara uma inusitada curiosidade e eu quis saber mais.

_ Meu corpo estava lá, mas eu excursionava, dirigindo a minha própria cama, que continha um volante dirigível e até tanque de gasolina.

O trânsito me era fácil, não obstante os muitos veículos que trafegavam céleres pelas vias. Sem problemas, eu atravessava ruas, avenidas e praças bem arborizadas e floridas, que me davam a sensação de paz! Tudo parecia mais bonito. Era uma liberdade indescritível! A distância era irrelevante para o meu veículo. 


Fazia-me presente em muitos lugares e eventos. Em palestras, eleições, associações de classes, igrejas, cujo tilintar dos sinos chegavam aos meus ouvidos. Ia ao meu lar, encontrava pessoas, familiares e muitos desconhecidos. Acompanhava minha mulher e até a vi discursar! Tudo normal, sem angústias nem constrangimentos.

E o engraçado é que, por vezes, era atendido em um consultório, que se fazia presente no local em que eu me encontrasse. E ainda pelo médico intensivista da UTI. Que respeito! _ Pensava eu agradecido.

Parecia-me tão real aquela situação, que numa determinada ocasião, vi que a gasolina do meu dirigível estava acabando, o que me preocupou muito. Embora, na realidade, fosse madrugada, nesse transe fiz o enfermeiro que me assistia fazer um telefonema ao meu filho, em que relatei a falta da gasolina. Uma conversa vaga, desconexa, que posteriormente me foi relatada pelo profissional e pelo filho.

Numa dessas andanças, eu seguia com a responsabilidade de atender a uma intimação. Coisa séria! Demandei, convicto de minha obrigação. Atravessei as avenidas arborizadas sob uma manhã clara e amena. Enfrentei um trajeto difícil, até chegar ao lugar determinado, numa região alta, de rampas íngremes.

Ali, existia uma empresa para exploração do lenocínio, cujo chefe, austero e bem vestido, acusava-me pelo descaminho daquelas mulheres, que se aglutinavam num grande salão. Mulheres bonitas e bem vestidas. Muitas eram casadas e a preocupação era a de serem flagradas pelos maridos. Embora não me lembrasse de culpa tão grande, algo dentro de mim acusava-me de haver sido o responsável pela infelicidade de todas elas.

Por isso, foi-me informado de que eu teria que me apresentar a uma autoridade, por quem deveria ali esperar. Tudo, sem palavras de terceiros. Apenas a acusação da voz de minha consciência, nítida e forte, sem nenhuma nuança de dúvidas. Eu podia ver sem o uso dos olhos físicos. Estando lá, eu via perfeitamente o cotidiano da UTI e também os médicos.

E ali, eu fiquei aguardando. Não sei por quanto tempo, tentando lembrar-me daquelas mulheres e do mal que as havia causado, embora eu já me sentisse um réu confesso, esperando pela sentença.

O tempo me era algoz naquele momento, até que fui introduzido num gabinete, bem aparelhado, amplo e limpo, chegando mesmo a ser luxuoso. Sentia-me apreensivo e tomado por um arrependimento angustiante que me mantinha calado. Sentado ali, estava um senhor e eu sabia que era ele a autoridade coatora que iria selar o meu destino.

Postado à sua frente, permaneci por longo tempo, que nem sei precisar. Enquanto isso ele me fitava atento, sem nada dizer. Muito depois, sem me dirigir reprimendas, dissera-me em tom grave: PODE IR!

_  E o que aconteceu depois – perguntei.

_  Sentindo-me sozinho naquele lugar, onde não mais havia pessoas, somente a voz inaudível do silêncio, eu retornei aos meus aposentos. Postei-me em meu lugar entre os pacientes, religando-se a mim toda aquela parafernália que me mantinha vivo, embora algumas tivessem seguido comigo durante as viagens. 


Depois disso não me lembro de outros passeios pelo mundo, principalmente pela minha cidade.

Os dias se passavam seguidos da rotina da UTI. Embora por poucos minutos, recebia diariamente a visita dos meus familiares, o que me dava muita força para seguir em frente.

Percebi que muitos pacientes permaneciam sozinhos, sem o aconchego da família nos horários de visitas. Atento a tudo, assistia, todos os dias, alguém retornar ao lar ou a outra dimensão da vida.

Minha força mental positiva revigorava os meus órgãos fragilizados. E assim, fui melhorando, até ser transferido para um apartamento, com os mesmos cuidados da UTI. Finalmente, em casa! _ concluiu ele.

Sei que estive muito mal, prestes a deixar o globo terrestre. A equipe que me assistia chegou a dizer que a minha recuperação significou uma inusitada vitória médica, pelo que se regozijava.
............

O atleta retornou a casa com 40k. Já recuperou o seu peso normal, voltou às caminhadas matinais, à malhação, ao convívio da família e dos amigos. Vida normal. Amém!

De tudo, uma certeza: NÃO PARTIMOS ANTES DA HORA!
E, ainda: NÃO ESTAMOS AQUI POR ACASO!


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LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

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Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)



"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)