PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

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quinta-feira, 6 de março de 2014

FALANDO DE PÁSSAROS E DE GENTE

FALANDO DE PÁSSAROS E DE GENTE
(Ludovina Maria Braga)

Conheci a autora de Pássaro Sem Asas, Genaura Tormin, já em sua decantada cadeira de rodas. Ela trabalhava na Sexta Delegacia de Polícia de Goiânia. Eu ingressava na carreira, como Delegada de Polícia, após um longo concurso e um ano de preparação na Academia de Polícia Civil. Não vou falar desse coleguismo porque ela o faz em sua obra, contando as nossas trocas de experiências no campo da investigação policial e na missão de conciliar a profissão com as tarefas de mãe, esposa e dona de casa.

Muitas matérias foram publicadas sobre o seu livro, opiniões bonitas foram escritas a respieto, com elogios de gente que tem competência para falar do assunto. O que manifesto agora é como leitora, pra dizer da emoção que o livro transmite, do exemplo de vida claro e sem adereços, da linguagem viável, mas nem por isso menos rica de expressões. Recomendo, como professora de servidores públicos (policiais), a leitura desse livro, que passa lições de grande valia.

Lições de como enfrentar com dignidade a difícil tarefa de ser e fazer polícia. Mas antes de tudo, a obra orienta sobre como adquirir esperança e crer contra tudo e contra todas as adversidades. Mostra como acreditar em si mesmo quando essa crença não é sentida pela maioria das pessoas. Mostra como vencer com o próprio esforço, sem buscar escoras. A todos que dizem não posso, não vou conseguir... indico Pássaro Sem Asas, para que adquiram fé e acreditem, mesmo quando o mundo não lhes der crédito.

O ser humano é ilimitado na busca do aprendizado e da perfeição, mostra Genaura em seu livro que, não vale pelo título e nem é bom pela sua bela capa, mas tudo vale e tudo serve pela mensagem de coragem que leva ao leitor, descrevendo uma história verdadeira, da qual fui testemunha de alguns capítulos. Por isso mesmo, sem ter bagagem que me qualifique para opinar sobre literatura, atrevo-me a comentar com o único objetivo de dizer que valeu a pena.

Um dos melhores livros que li nos últimos tempos sobre pensamento positivo. O homem vale pela cabeça que tem. As pernas transformam-se em asas quando a mente é livre, sadia e independente, como a de Genaura. Não retrata um episódio vivido no Brasil e descrito como se tivesse ocorrido em terras européias, como muitos livros do gênero. É algo real, palpável, verdadeiro, acontecido bem perto de nós, enfocando o dia-a-dia repleto de egoísmos, medos, vaidade, frustrações, descrença e preconceitos de todos os níveis sociais.

Por isso o livro de Genaura Tormin é bom. Fala de pessoas reais, de gente que respira em nossa comunidade. Nele, a coincidência não é mera coincidência, pois a figura principal vive e não foi feliz para sempre como nos contos de fadas. Faz-se feliz, viva e atuante. Afinal, de uma pessoa valorosa só se poderia esperar alguma coisa de valor. Por isso, parabéns e pronto é pouco. Resta esperar que Genaura possa nos brindar com outros pássaros alados, valorizando aquilo que melhor exibe: coração e inteligência. Se lhe faltam pernas, conquistou um brevê para voar livre nos espaços da sabedoria. 

Ludovina Maria Braga é delegada de Polícia de carreira em Goiânia – 21.09.1991

sábado, 17 de agosto de 2013

ESCADA QUE SOBE, DESCE!



ESCADA QUE SOBE, DESCE! 

(Genaura Tormin)

A vida é efêmera!
Passa tão depressa!

Tudo se esvai feito as águas do rio que tenta se agarrar às margens, levando consigo o que nelas encontram. Tudo tem a sua fase no seu tempo certo. O tempo de plantar e o tempo de colher. O nascimento, as travessuras de criança, a juventude risonha e doce, a fase adulta e a velhice. 

As experiências adquiridas servirão de alicerces evolutivos para a ascensão a novas experiências. Não se está na vida por acaso. Ninguém veste esta farda de carne sem um propósito, sem uma missão, sem um compromisso. 

O bem deve ser o gestor dos atos, pois o tempo é curto. Essa estada na vida significa apenas uma pequena fase, um estágio, um curso de especialização na matéria em débito, e o passaporte, com certeza, chama-se AMOR. 

Nesse caminho, há também o estrelato que satisfaz o ego, eleva a auto-estima, acalenta o orgulho, a vaidade, a prepotência, mas é passageiro, o que vale dizer que os mesmos degraus que elevam aos píncaros, conduzem aos calabouços. Ora pode-se dar as cartas, dar as ordens, ora recebê-las e cumpri-las humildemente.

A vaidade perniciosa tem preço muito elevado, onerando a matéria e o espírito. Cargos, status, saúde, sofrem a ação do tempo e os rigores da vida. Bens materiais são perecíveis, transitórios. Posições sociais se revezam na gangorra da existência. 

O descer, por vezes, parece injusto, mas é sempre regido pelas sábias leis na natureza em favor do crescimento humano. 

É preciso essa inversão para que se exerça a humildade, ferramenta indispensável para o recomeço, para o autoconhecimento, para a valorização da oportunidade de trilhar esse caminho, chamado vida. 

Entretanto ele é mestre implacável. Justo, por excelência. 

De repente tudo atirado ao nada sem um motivo plausível. Por quê? Porque chegou a hora de mais uma nova lição. Chegou a hora de rever se a trilha está correta e se o objetivo está sendo alcançado.

Antes que a prova bata à porta, é bom que se entenda que a retidão de caráter, a benevolência e o amor são atributos necessários aos caminheiros dessa estrada. Nela, os degraus esgueiram-se à frente. Ora subindo, ora descendo. Escadas avaliam os passantes. Muitos sobem, muitos descem. 

Os que se encontram no topo, por vezes, são arrogantes, prepotentes, impiedosos, cruéis, porque se julgam poderosos, esquecendo-se de que se há o caminho para a subida, com certeza, há também um outro que traz de volta. A escada que sobe, desce também. 

Outros, já na descida da escada, apoiando-se nos corre-mãos, ostentam sentimentos de revolta, de indignação, e até de conformação e piedade, lançando-se, muitas vezes, aos mais execráveis lamaçais e até ao suicídio. É uma questão de individualidade por causa das disposições mentais diferenciadas. 

O espírito bem direcionado, comedido e consciente do seu papel na jornada, significa uma bússola para o bem, ajudando a melhorar o meio em que vive.


Lembro-me de um pequeno poema, de autor desconhecido, que bem estampa esse entendimento: 

Dois pobres encarcerados,
das mesmas penas culpados
jaziam na mesma cela.

À claridade da lua,
chegam ambos à janela.
Um vê a luz das estrelas.
O outro a lama das ruas.


Nessa descida, muitos pedem ajuda, esquecendo-se de que para receber, geralmente, é preciso que se tenha dado. 

Quando se tenta aliviar a dor alheia, a nossa é aliviada por acréscimo. O que fizermos aos outros receberemos em dobro, quer seja bem, quer seja mal. 

Quantos experimentam a miséria e o ostracismo, depois de haver transitado pelos corredores da fama, do sucesso, dos aplausos... 

A Lei de Causa e Efeito é uma verdade e o maior tesouro que se pode construir aqui, resume-se no AMOR. Amor fraternal, conjugal, transcendental...E isso se começa pela família, alicerce seguro de todas as conquistas. É ela o batalhão sempre disposto a socorrer o soldado que tomba na trincheira. 

Consciente desse papel e embasado no bem maior, sob as sábias leis da Criação, é possível exercitar o amor transcendental, que se espargirá pelo caminho, impregnando a todos e fazendo valer essa passagem pela vida.

sábado, 10 de dezembro de 2011

O HOMEM É AQUILO QUE PENSA


O HOMEM É AQUILO QUE PENSA
(Genaura Tormin)

Por isso se desejamos fazer mudanças em nossas vidas, comecemos mudando os nossos pensamentos!

Viver com confiança e otimismo é abrir as portas para a paz e a felicidade. É investir no "eu interior".

O segredo é mesmo vigiar os pensamentos, mantendo-os numa faixa elevada. Exercer o ofício de jardinagem, ajeitando a vibração mental como se fosse um jardim florido e perfumado. Separar o joio do trigo. Assumir as responsabilidades, tentando fazer o melhor perante a vida e perante Deus que nos espera para outra empreitada. E que essa seja melhor, construída da bagagem que hoje estamos a coletar aqui.

Chega um momento em que você fica tão feliz, tão feliz, inundado de paz, e não sabe o porquê. É que você mudou a sua maneira de pensar.
Quando nos sentirmos em paz com a nossa consciência, alegres e felizes, todas as outras coisas convergirão para o nosso bem. Estaremos começando a ser vencedores. Por isso eu desejo:

Que o coração nunca seja agasalho para as coisas espúrias...

Que as intempéries do caminho signifiquem lições de vida, degraus para o progresso, setas indicadoras para o bem.

Que floresça a pureza da criança interior que tanto tem a nos ensinar.

Que o sorriso seja constante, espontâneo, verdadeiro, uma prece que inebria, uma canção que consola... O sorriso é prece. É Deus dentro da gente!

Que a chuva seja o bálsamo para aliviar o pranto, curar as dores, cicatrizar as feridas.

Que os amores contenham a magia, o encanto em cada encontro, o beijo da alegria.

Que a cada amanhecer os olhos possam mirar a vida, dispostos a enxergarem o melhor de cada um e, além de tudo, a coragem, a bravura para as boas aventuras.

Que os dias sejam azeitados pela poesia, propiciando que a alma possa alar voos na alegria de viver, crescer e vencer.

Que em cada contato, em cada diálogo, possas deixar marcas benfazejas inesquecíveis.

Que na solidão e no cansaço, lembra-te de  que tudo passa, tudo se transforma. Haverá sempre um outro dia, uma outra oportunidade.

Que o coração seja contente, solto, voante... E nas asas da espiritualidade, alcance patamares superiores de evolução.

Que por onde andares, a força do AMOR esteja sempre presente, sinalizando direções, amainando as intempéries da estrada.

Que este amor seja a meta, o rumo, a estrela-guia, a tramontana, pelas veredas do bem, transformando os dramas em soluções e o caminhar cansado em passos saltitantes de alegria e felicidade.

Que DEUS  te abençoe sempre e que esta existência seja plena de paz, de aprendizado, de luz...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

MACABRA ARMA ASSASSINA




MACABRA ARMA ASSASSINA
(Genaura Tormin)

Não obstante as muitas campanhas educativas do trânsito, sinto-me compelida a emprestar minha cota-participação na busca de maior entendimento, maior conscientização sobre o trânsito, tanto dos condutores dessa arma assassina chamada veículo, quanto dos seus usuários e pedestres que por ela passam.

As estatísticas apontam crescente índice de atropelamentos, colisões, abalroamentos e choques com objetos fixos (árvore, postes etc) no trânsito das grandes cidades, resultando muitas vítimas fatais e ou de lesões corporais, até de natureza gravíssima, com sequelas irreversíveis.

A falta de respeito às normas de trânsito, distribuídas por todas as malhas viárias, é uma constante para a ocorrência dos muitos acidentes. Nem mesmo o slogan: “Perca um minuto na vida, mas não perca a vida num minuto” é capaz de levar ao grande contingente armado a consciência de que a sua arma (o carro) é por demais perigosa e sem complacência pode matá-lo.

Tendo trabalhado, em cadeira de rodas, numa delegacia que apura as responsabilidades penais no trânsito, representava um paradoxo para a maioria que perguntava sempre: — foi acidente?

Com essa experiência, tenho a dizer que o trânsito tanto mata como causa deficiências permanentes mais do que todos os revólveres dos bandidos, todas as doenças e calamidades públicas juntos. Atribuo como causa principal a falta de cultura popular sobre essa macabra arma assassina chamada veículo.

Se todos a entendessem como tal, acredito que o ser humano seria mais preservado em sua integridade física, evitando vidas de tantas batalhas sob o jugo de deficiências irreversíveis ou a dolorosa partida prematura de entes queridos, deixando outros à mercê da própria sorte, aumentando os problemas sociais.

O brasileiro, geralmente, quer auferir vantagem em tudo. É um marco do seu estilo de vida. Especificamente no trânsito, se não tem guarda, avança o sinal, entra na contramão, faz conversões proibidas, exercitando à vontade a imprudência, cujo ônus chega, por vezes, a ser pago com a própria vida e a de outrem. Daí a sábia frase: “É preciso dirigir para si e para os outros”. É a chamada direção defensiva, tecnicamente falando.

Estarrece-me ver e sentir que o crime do automóvel está sendo compartilhado de pai para filho menor de idade. Faltam consciência, valores éticos e probidade. Nem sequer as normas fundamentais de conduta axiológica estão sendo repassadas aos próprios filhos que, à direção do carro, brincam com vidas, sentimentos, vendo em cada pedestre uma baliza para o aprendizado; em cada veículo, um escudo para pancadas, deixando as marcas sangrentas pelas rodovias, ruas, vielas e praças, fulcrados sempre no desrespeito às normas de trânsito, placas, dísticos e semáforos. E, ainda, sob a guarda corajosa do pátrio poder. Os famigerados rachas, os cavalos-de-pau,largamente divulgado pela mídia, deveriam ser severamente apenados. Abomino tal conduta e a classifico de crime doloso: tentativa de homicídio. Risco assumido.

As leis existem para serem respeitadas. Somos uma Nação organizada, tutelada. Até as normas consuetudinárias dentro da relação familiar deveriam merecer respeito. Por isso os pais jamais podem abdicar da missão educadora, respaldando-se sempre no exemplo, com a execução e a mostra do certo, pois as palavras comovem e passam, enquanto os exemplos se arrastam, permanecem, erigindo ou destruindo.

Quantas vidas são ceifadas, e quantas outras são condenadas a verdadeiros martírios: vegetando, arrastando-se em cadeiras de rodas, muletas ou tateando em trevas pela perda traumatológica dos olhos em sinistros de trânsito. É um verdadeiro colapso na trajetória da vida humana.

Tudo isso é o retrato fiel da ineficácia educativa, legada por ação ou omissão nos lares, na comunidade e na esfera governamental, pois educar é transmitir o gosto pela vida; é tentar descobrir os valores positivos e exteriorizá-los para uma vida feliz.

Vivemos numa sociedade rica de meios, mas pobre de vida. É preciso doar-se! O homem moderno, nessa corrida pelo TER, não aprendeu a viver, a amar transcendentalmente pelo menos aos que o cercam. Ele não sabe viver a experiência de ser ferido. E é por isso que presenciamos uma avalanche de condutores loucos no trânsito a exigirem respeito às suas barbaridades e transgressões, blasfemando palavrões e fazendo gestos obscenos. Não devemos responder a tais impropérios. É bom que sejamos diferentes! Isso nos devolve o sentimento de dignidade, além de estarmos plantando uma fagulha de amor que, por certo, multiplicar-se-á.

Costumo dizer que “errados princípios, dificultosos fins”. Por isso ao possuidor da arma assassina tenho a dizer o seguinte: ame-se em primeiro lugar! Respeite a sua vida e a vida do seu próximo! Previna-se! Jamais dirija embriagado! Seja honesto consigo mesmo, respeitando a sinalização, as normas de trânsito, mesmo sem a presença do guarda. Cuide do seu carro, pois ele poderá ser a própria arma que matará você.

Genaura Tormin - escritora, autora dos livros Pássaro Sem Asas, Apenas Uma Flor, Nesgas de Saudade, Borboleteando, e ainda,  Marola, Veleiro e Vento,
é ex-delegada de Trânsito de Goiânia, hoje,
Analista Judiciário do TRT/GO

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

IMPORTANTE PAPEL DA PONTE


O IMPORTANTE PAPEL DA PONTE
(Genaura Tormin)

Ponte significa ligação. É o elo que permite união. Há várias modalidades de pontes: de alvenaria, de madeira, de ferro, de concreto e muitas outras que a criatividade e a tecnologia possam apontar.

Mas, a ponte a que me refiro não tem formas concretas, é abstrata, absolutamente abstrata e amorável. Se não podemos ser fim, devemos, pelo menos tentarmos ser pontes: levar boas informações, ensinamentos, incentivos... Passar sempre uma mensagem que construa.

Tudo seria tão diferente se tivéssemos a consciência da necessidade de erigir boas pontes. Acredito que o mundo seria bem melhor: mais humano. Afinal somos seres carentes de afetividade em todos os sentidos. Precisamos nos amar mais. Precisamos repartir a afetividade que nos vai no peito.

O poder da palavra faz milagres ou desastres. Uma afirmação desairosa, negativa, às vezes pode destruir uma vida inteira. É bom ressaltar que o elogio é uma excelente maneira de conseguirmos impulsionar as pessoas na busca de seus objetivos. Corrija o erro, mas elogie o certo. Ajude! Há tanta gente, no seu rol de amizades, que talvez esteja precisando muito de uma palavra sua!

Precisamos construir caminhos para o sucesso, por meio de boas pontes, encorajando sempre: “você pode, você é capaz”! Afinal somos responsáveis pelas pessoas que formam o nosso próximo mais próximo e até por aquelas com quem mantivermos algum diálogo. É tão bom vê-las conquistando divisas, palmilhando melhores caminhos.

E pensar que pudemos dar uma minúscula ajuda de incentivo... Quantas não sabem aonde ir ou não vão por não acreditarem em si mesmas. Dê a elas um pouco de fé. Aja enquanto é tempo. Dê a si mesmo a satisfação de estar sendo útil na construção de um mundo melhor.

Há, ainda, as pessoas que auto se vitimam, registrando problemas que não existem ou que poderiam ser vistos de outra forma. Aliás, os problemas só são reais quando nós os registramos como tais. Somos nós que os criamos e os damos tanta importância.

Depois, tudo é resolvível! Basta que a mente esteja direcionada à sua resolução e o agir enquadre-se dentro do código da honestidade, respaldado pelo princípio: “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você”.

É preciso que usemos a nossa força interior na construção de castelos, de torres de solidariedade humana.

Por que destruir se podemos erigir? Não há ninguém, que não tenha potenciais. Todos são capazes de crescer. Basta acharem o caminho, a ponte, ou alguém que os mostre, que os conduza, que os faça reconhecer que têm capacidade.

Tudo que falamos ou fazemos repercutirá nos quatro cantos do mundo, modificando sempre alguma coisa. Por isso procure plantar uma boa semente. Antes de passar uma mensagem à frente, submeta-a ao crivo de sua consciência, perguntando sempre: ajudará alguém? Será que poderei construir? Quantos lerão a sua mensagem, a qual se multiplicará conforme a individualidade e maturidade de cada um.

Seja responsável e satisfaça-se em ver que os outros ao seu redor estão ascendendo rumo ao bem. Lembre-se do sândalo que perfuma o machado que o corta; da abelha que fabrica o mel para o deleite dos outros. E você que pode fazer tanto, construir tantas pontes, jamais poderá eximir-se desse trabalho.

Entre os seus feitos, talvez seja esse o mais significativo e o mais digno nessa caminhada terrestre. Exercite o seu papel de boa ponte! Quando fazemos o bem, recebemo-lo sempre de volta de outras formas.

Quantas vezes personificado, materializado, abstrato... Mas, o certo é que a gratificação por uma boa ação, mais cedo ou mais tarde, baterá à sua porta.

O bem é o gestor de felicidade. Não se esqueça disso!
Seja uma boa ponte!
No final, não se assuste se for você a pessoa mais feliz, pois há mais felicidade em dar do que em receber.

sábado, 19 de junho de 2010

MENTE E CORAÇÃO ENERGICAMENTE ANDANTES


MENTE E CORAÇÃO ENERGICAMENTE ANDANTES
(Genaura Tormin)

"A diferença fundamental entre o homem comum e o guerreiro, é que o guerreiro encara tudo como desafio, enquanto o homem comum encara tudo como bênção ou maldição."
(Carlos Catañeda)

Ter uma paraplegia representa uma significativa limitação. Isso não é uma sentença que nos condena ao ostracismo, ao desalento e ao pessimismo, registrando como primeira opção a nossa condição física, com passos recolhidos, como desculpa para avocar a compaixão alheia. Ostentar a bandeira de nossa determinação e procurar alternativas, outras maneiras, outras portas para continuarmos a ser produtivas e felizes é a melhor opção.

A mente ilesa cria inúmeras soluções. Há motivos suficientes para continuar dirigindo o destino, mesmo que por meio de um corpo com funções mutiladas. A limitação não diminui direitos diante da sociedade, que só tem a ganhar, aprendendo a dividir espaço e se permitindo lidar com a diversidade humana. É o exercício da inclusão.

A obstinação e a ousadia vão quebrando barreiras e vencendo obstáculos, conquistando aceitação, respeito e reconhecimento.

Hoje é crescente a disposição legal que nos permite participação na sociedade e no mercado de trabalho. Temos que fazer a nossa parte, vestir a camisa e seguir firmes e resolutas, na certeza de vencer. Se não houvesse o desafio, os circenses não ganhavam a vida em grandes acrobacias. A conquista significa o mérito que laureia o nosso esforço. Tem-se um limão, que tal uma boa limonada?

É preciso ultrapassar as formas físicas e vislumbrar a essência. É preciso empunhar a deficiência com honradez, encontrando, por meio dela, as escadas de ascensão à nossa conduta moral, ao entendimento e à aceitação dessa nova condição. A limitação física significa simplesmente fechamento de uma porta e abertura de um portão, com mais disposição, mais aprendizado e mais consciência, legando exemplo para outras que virão.

Muitas vezes, as provas, as agruras e a limitações físicas, quando bem entendidas, podem reverter-se em privilégio. O alvo é o sucesso, e as pedras do caminho são as ferramentas para alcançá-lo.

Precisamos desenvolver a autoestima, perseguir ambições e habilidades no exercício de nossa crescente capacidade. As pessoas tristes, fatalistas, choronas e reclamadeiras são, geralmente, evitadas. A vida é dura demais para macularmos aos outros com o nosso pessimismo. O fardo só cai em ombros que possam carregá-lo.

Bandeira do Otimismo
(Genaura Tormin)

Não deixem que calem
O amor que me alenta,
A dor que me faz viva,
A ternura do meu peito
E todo este jeito
Que a vida me deu.

Não deixem
Que o meu canto morra,
Que feneça o meu sorriso
E parta de mim
O compromisso
Desta bandeira de otimismo,
Deste meu desejo de querer viver.

As pernas são acessórios e ganham a valoração que a elas impingimos. Costumo dizer que a tecnologia nos oferece, com galhardia, muitas muletas externas.
Todos nós carregamos as cicatrizes do nosso “ontem”, e elas não nos impedirão de sorrir. Tudo se transforma. O que ontem foi tempestade, hoje pode ser bonança.Temos que acreditar!

O pensamento move a vida! Se pensarmos em medo, em doenças, em problemas, tudo isso se instala, causando verdadeiras tormentas. Ademais, as dificuldades só se tornam problemas quando as registramos como tais. É a maneira de ver as coisas.
Somos individualidades, mas poderemos fazer a diferença! O poema abaixo retrata isso.

Dois pobres encarcerados,
Das mesmas penas culpados,
Jaziam na mesma cela.
À claridade da lua,
Chegam ambos à janela.
Um, vê a luz das estrelas,
O outro a lama das ruas.
(Autor desconhecido)

“Viver é muito perigoso” para qualquer pessoa, disse Guimarães Rosa. E viver com uma deficiência física, mais ainda. Por isso, forjadas a ferro e fogo sempre teremos condições de nos erguer quando a dificuldade bater. Não podemos ser excluídos do direito de participar, pois VIDA, não significa somente pernas, ou pernas e braços, mas, sobretudo cabeça, raciocínio, espírito e coração. Enfim, pulsa em nós o fôlego da vida!

Vítimas de problemas congênitos, enfermidades ou causas traumatológicas, o Brasil conta com 24,5 milhões de pessoas com alguma deficiência, de acordo com o último censo elaborado pelo IBGE, no ano de 2000. Isso significa 14,5% de todo o seu contingente. Sabe-se que no mundo inteiro esse montante chega a mais ou menos 625 milhões de pessoas.

Ter um defeito físico, andar numa cadeira de rodas, geralmente significa, aos olhos do leigo, ser inválido, estar cerceada do sagrado direito de se sustentar com o fruto do próprio trabalho. Chamamos a isso de rotulagem despreziva. É um vezo cultural.

Muitos exemplos de determinação e coragem foram legados pela história.
Graças a Deus, não estamos vivendo nos dias do médico alemão Josef Mengele, o “Anjo da Morte”, que sob o comando de Adolf Hitler exterminava as pessoas com corpos imperfeitos, tentando estabelecer a pureza da raça ariana. Era a teoria em que as vidas humanas sem valor vital deveriam ser eliminadas.

Quantos gênios existiram e existem em corpos imperfeitos! O inglês Stephen Hawking, com esclerose lateral amiotrófica, que lhe paralisou os movimentos, emudeceu-lhe as cordas vocais, é um testemunho perfeito, pois, mesmo assim, continua produtivo e é considerado o mais brilhante físico teórico desde Albert Einstein. O príncipe Hamlet, na peça de Shakespeare, sentia-se aprisionado na Dinamarca pelas angústias que lhe atormentavam. Mas, ao mesmo tempo, dizia que ainda que dentro de uma casca de noz poderia sentir-se rei do espaço infinito. Creio que, para Hawking, ocorre a mesma coisa. Para o cientista, o universo tem a sua história em tempo imaginário como esfera minúscula.

Exemplo digno de nota é o de Beethoven, o maior gênio da música clássica de todos os tempos, que mesmo depois de ficar surdo em plena atividade musical, continuou compondo, produzindo sua obra mais importante: A nona sinfonia. “O que está em meu coração precisa sair à superfície. Por isso preciso compor” — dizia ele.

Outro exemplo, aqui bem perto de nós, é o de Cláudio Drewes Siqueira, que ficou tetraplégico por causa de um mergulho em águas rasas, quando era adolescente, e mesmo assim, por méritos próprios, mediante acirrados concursos públicos, ascendeu aos cargos de Procurador do Estado de Goiás e em seguida ao de Procurador da República, um dos mais elevados cargos da República Federativa do Brasil. Por meio de uma adaptação presa a um capacete, o competente Procurador folheia livros e processos, além de digitar suas próprias peças, elogiadas pelo excelente conteúdo jurídico. É um exemplo e a certeza de que o querer é poder. É preciso somente que os sonhos estejam acesos.

Quando uma parte do corpo se fragiliza, as outras se encarregam do trabalho, provando que não há problema sem solução.
Foi por isso que, mesmo sendo recém-chegada ao mundo dos que não caminhavam com os pés, quis conquistar uma vaga de Delegado de Polícia. Ainda poderia caminhar com a mente, leve, livre e solta!

A força não provém da capacidade física e sim de uma vontade indomável, disse Mahatma Gandhi. Vontade era o que não me faltava. Dei asas à imaginação e o meu desejo tomou formas, cores e vida.

O ambiente desafiador é o sucesso do guerreiro, a arma de sua luta, o front de sua trincheira. E eu estava e estou sempre disposta a posicionar-me à frente do batalhão, mantendo acesos os meus sonhos.

A vida a gente faz. Na verdade, é o que fazemos dela. Viver bem ou mal é o que decidimos por princípio, por altruísmo de caráter. Somos individualidades. O que me faz sorrir, às vezes, não faz sorrir ao vizinho. O importante não é o que nos é mostrado, mas como conseguimos enxergá-lo. Os casebres tornam-se castelos e os castelos podem se tornar casebres.

Somos nós que elegemos os valores da vida, desenvolvendo qualidades como o carinho, a bondade e a compaixão, embora sejamos os mais necessitados delas. Com isso se evidencia o significado do nosso esforço.

A felicidade é o estado d’alma, é a maneira pela qual vemos as coisas; é o prisma encaixado em nossas retinas; é a margem de paralax de uma máquina fotográfica. Se a máquina é minha, por ela vou focalizar apenas o que me fizer bem: a transcendência, a paz, a esperança...

Quantas pessoas vislumbram a lua, o sol da manhã, os refegos de ventania, a flor orvalhada, por meio da telha quebrada ou da parede erigida em pau a pique. Tudo é uma questão de ótica. Tenho que ser do tamanho do que consigo enxergar. Dessa forma, com certeza, vou chegar lá, pois tenho os olhos fitos no infinito e o espírito no comando do sucesso. Minha busca não terminará jamais, mesmo que morra na estrada.
Estar feliz não significa percorrer caminhos floridos, estar imune às tempestades... Estar feliz é enfrentar os desafios para torna-se forte, digno de excursionar por este Planeta.

Tinha que recompor o avesso do meu bordado. Tinha que andar nem que fosse sem o uso das pernas. Andar em ideias, em trabalho, em exemplo de vida!

Nos meandros de mim mesma, pensava: e se eu ficar paraplégica para o resto da vida? Receberei mísera pensão por invalidez, que mal dará para comprar remédios. E a inércia, o não fazer nada, a ociosidade... NÃO! Não aceito essa sentença. Vou lutar por mim mesma! Tenho mente sã e posso ser uma delegada! É um cargo de comando, cartorário. Poderei servir de exemplo a outras pessoas com deficiência física. Poderei abrir caminhos. Não vou permitir que a vida me transforme num cadáver vivo! Tenho muito ainda a fazer! Tenho flechas na aljava e mantimento para o caminho.
Tendo o desafio como âncora a me alavancar, comecei a velejar por esse mar bravio da coragem.

Por ser Comissária de Polícia, bacharela em Direito, pertencer aos quadros da Polícia Civil há dezesseis anos, resolvi enfileirar-me entre os concorrentes ao cargo de Delegado de Polícia. Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder. Era a oportunidade que me batia à porta. Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica! Registrei a ideia e parti para o confronto. Talvez o mais ousado de toda a minha vida. Era tudo ou NADA!

“Se teu sonho for maior que ti, alonga tuas asas, esgarça teus medos, amplia teu mundo, e parte em busca da estrela.” (Leda Selma)

Não dera outra: quarto lugar entre os aprovados. Não sabia como adquirira tanta determinação, tanta bravura. Estava pasmada. Reputava de façanha o que acabava de fazer. Ajudara muito o fato de, anteriormente, estar inscrita e estudando para o concurso ao cargo de Defensor Público, embora as matérias não fossem tão correlatas. Com certeza, era uma preparação remota para alicerçar o meu desejo de vencer diante de uma deficiência física tão grande.

Quantas madrugadas ouvindo aulas através de fones de ouvido, quantas lágrimas reprimidas, disfarçadas... Por dentro tudo chorava, mas me encorajava ao desafio, confirmando que a mente pode superar os limites físicos. Eu não ia deixar que os sonhos morressem dentro de mim. Ainda que recuperasse todos os movimentos locomotores, jamais esqueceria dessa façanha. Mereceria todos os diplomas possíveis. Quanta dificuldade tive que enfrentar!

A polícia entrara na minha vida como meio, como ponte para que eu pudesse escalar novos horizontes. Jamais pensei que ela se tornasse fim um dia. As contingências da vida indicaram o caminho. Hoje sou uma Delegada de Polícia e me honro disso. Acredito no trabalho e gosto do que faço.

É uma missão espinhosa, mas farto campo para se fazer uma boa ação. Devemos servir onde precisam de nós. Quanto mais difícil a tarefa, maior satisfação do dever cumprido. Ser delegado é também fazer sacerdócio. É amar o ser humano no sentido total da palavra. É saber admoestá-lo na hora certa ou acalentá-lo nos momentos mais difíceis.

De repente, o mestre tempo, em sua celeridade, alertara-me de que dentro de um ano teria que me aposentar, por tempo de serviço. Quase trinta anos trabalhados! Quem diria! Parece-me que fora ontem: uma mocinha franzina, 18 anos, com mais jeito de menina do que de mulher, deixava um colégio de freiras e o primeiro emprego que conseguira foi na Polícia. Quanto contraste!

Preocupada, vi-me em perfeita forma. Cabeça boa e pernas descansadas, além de pouca idade, pois a vida não começa aos 40? Como seria a vida sem a rotina do trabalho?

“A vida tem dois valores absolutos,
O amor que renova a humanidade,
E o trabalho que dignifica o homem
E impulsiona o progresso.
Do mais - consequências, correlações”.
(Cora Coralina)

A preocupação levara-me a requerer uma licença-prêmio a que fazia jus, e incentivada pela filha Lara Patrícia, que me inscrevera num concurso público, em Brasília, passei a estudar a matéria. De repente, estava fazendo cursinhos, estudando em grupo e me inscrevendo para mais outros concursos.

Fiz uma reciclagem jurídica e consegui assimilar bastante do ensinado. Usei o método do gravador, determinação, persistência, força de vontade e muita disciplina, tão importantes para o sucesso na consecução de qualquer objetivo.

Quando retornei ao trabalho, simultaneamente executava as minhas atividades, ouvindo, por meio de minúsculo fone de ouvido, a aula gravada, cujo gravador era guardado na gaveta central da mesa. Como a repetição faz o mestre, estava sempre a aprender. Quando procedia a inquirições para o bojo dos autos do inquérito policial, apenas desligava o gravador, sem, entretanto tirar os fones dos ouvidos, os quais ficavam escondidos sob as fartas madeixas dos cabelos. Quando a minha escrivã percebeu que eu estava ouvindo aulas, havia-se passado quatro meses.

No retorno a casa, já que necessito ficar deitada para descansar, pois a pessoa paraplégica fica de pé na horizontal, ligava a televisão sem som (para permanecer desperta), e, novamente repunha os fones nos ouvidos para ratificar a aula que assistira pela manhã. Se na madrugada perdia o sono, aproveitava o tempo para ouvir as aulas. Por vezes, o Alfredo, meu marido, na escuridão da noite, emaranhava-se nos fios dos fones de ouvido. Coragem era o que não me faltava, além de uma confiança inabalável na capacidade do meu esforço.

Finalmente, fui aprovada em dois concursos e com boa classificação. Embora fossem em Brasília, aceitei.

Apresentei-me no Ministério Público da União, em cujo concurso havia-me classificado em quarto lugar. Infelizmente não pude ficar lá. A pessoa que me recebera, certamente, nunca tivera contato com trabalhadores deficientes e principalmente com cadeirantes. Senti, perfeitamente, que não seria bem recebida ali. Foram-me apontados vários obstáculos, principalmente a falta de adaptação que me dificultaria as condições de trabalho. Nenhum incentivo, registrando-se a sensação de que “havia lutado tanto e morreria na praia”. Acho que faltara um sentimento de empatia. A cadeira de rodas era a responsável, pois eu tentava me mostrar cordata e afável, além de estampar um sorriso grande.

Restava-me, ainda, outra opção: o Tribunal de Justiça do Distrito Federal, onde, também, havia sido aprovada em concurso. Dessa vez, em quinto lugar para o cargo de Analista Judiciário, área judiciária. Sem delongas, dirigi-me até lá.
Numa das avenidas de Brasília, encontrava-se o bonito prédio do Tribunal. Viera-me à mente, a figura da deusa Themis — símbolo da Justiça. Um calafrio tomara-me o corpo e a voz estrangulara-se em mim. Um gosto de sentença, decisão, isonomia, divisor de águas, grassava meu interior. Imbuí-me de coragem, ergui a cabeça, temperei a garganta, conferi a voz e segui resoluta, com a certeza de que não me deixaria vencer. A Constituição Federal resguardava-me direitos, e era fulcrada nela que me defenderia se fosse preciso.

Tomei posse numa cerimônia simples, mas com a certeza de que mais uma vez daria a volta por cima e o trabalho acrescentaria mais entusiasmo à minha razão de viver. Enfrentei muitos sacrifícios em ter que sair de Goiânia. A saudade de casa era muita, mas precisava ficar ou trocar o cargo por uma ociosidade que, certamente, conduzir-me-ia à inutilidade e à depressão, quem sabe?

Finalmente fui cedida ao Tribunal Regional do Trabalho de Goiânia, o qual se adaptou para me receber. A recepção foi carinhosa. Parecia uma compensação pelas dificuldades a que me propusera desafiar.

Acredito que a maior limitação é aquela que criamos por afirmações psíquicas. Muitas vezes, damos contornos catastróficos a problemas tão pequenos e tão fáceis de serem resolvidos. Os problemas têm também o seu lado positivo: conduzem-nos à busca de soluções, emprestando-nos crescimentos extraordinários. Neles está sempre presente a semente da oportunidade a serviço de nossa própria evolução. Eles nos levam aos desafios, ressaltando o mérito que conquista a alma, devolvendo-nos a felicidade que é a provedora da qualidade de vida.

Assim, a cada dificuldade vencida, tenho a sensação de que valho mais, sirvo mais e vou me amando mais. Não sei, exatamente, se minha cadeira de rodas constitui problema ou dádiva. Sei apenas que começo a devotar-lhe gratidão. É por meio dela que ando, lido, participo da vida lá fora e nivelo-me aos demais.

Mente e Coração energicamente andantes
(Genaura Tormin)

Quero curtir minha imobilidade,
Mobilizando corações,
Marcando passadas
Em cada gesto,
Em cada grão de areia,
Carreando-os para o infinito.

Quero sentir
O gosto de ter pernas.
Acariciá-las,
Com o tato dos dedos,
Mobilizando todas as moléculas.

Quero sentir-me dançando
Ao som de Beethoven ou Bach,
Transando a paz de minha paraplegia
Ao compasso do coração
E à sincronia do cérebro.

Quero andar,
Mais do que todas as pessoas,
Embora saiba que,
Se externamente,
Não marco o chão
Com minhas pegadas,
Meu espírito se alicerça
Em pernas fortes,
Com mente e coração,
Energicamente andantes.

Mais do que nunca, sinto-me senhora do meu pleno equilíbrio. “Sou como a rocha nua e crua onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo. Posso cair. Caio. Mas caio de pé por cima dos meus escombros”.

Hoje, reputo-me uma pessoa completa, com uma deficiência física que me faz melhor. Por isso eu agradeço às dificuldades que me fazem forte, aos amores que me tornam terna, e aos desafios que me fazem guerreira de minha própria batalha.

sábado, 12 de junho de 2010

MULHER PARAPLÉGICA


MULHER PARAPLÉGICA
(Genaura Tormin

"O importante não é o que fizeram do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele".
(Jean Paul Sartre)

O designativo PESSOA PORTADORA DE DEFICIÊNCIA, largamente usado até os anos 90, o qual se encontra também nos artigos da Constituição Federal de 1988, foi substituído por PESSOA COM DEFICIÊNCIA, abrangendo as deficiências física, mental, auditiva e visual.

A legislação tem ratificado essa terminologia, bem como o Decreto n. 6.949, de 25 de agosto de 2009 que promulgou a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007. Há um consenso mundial sobre a aceitação desse designativo. Na verdade, portar significa uma situação voluntária, como portar um objeto, uma carteira, por exemplo. Nesse caso, poderíamos dispensar a nossa deficiência?

MULHER PARAPLÉGICA – geralmente é aquela que num dia qualquer da vida perde o direito de caminhar com os próprios pés, tornando-se paraplégica. E tem que o fazer com a mente, deambulando por meio das rodas inanimadas de uma cadeira de rodas. Entretanto há as pioneiras que, por motivos diversos, já nascem com deficiências. A elas, rendo homenagens, chamo-as de mestres e curvo-me com respeito.

As fatalidades não avisam nem escolhem status, raça, cor, hora, sexo ou credo. E num passo de mágica, eis a paraplegia! Os sonhos esfacelam-se às conjecturas do nada.
Mesmo assim, a ordem é correr atrás da vida! Aprender outra maneira de viver.

Recriar-se! Ir à luta para não ficar à mercê do coitadismo, vendo a vida passar. Realmente, uma grande empreitada. Um desafio que nos fará subir ao pódio, sagrando-nos campeãs do torneio de nós mesmas.

Mudam-se parâmetros, paradigmas, mas não muda a garra nata da mulher que, por excelência, traz no sangue a gênese do esforço para se superar, vencer obstáculos e dificuldades.

Necessário e urgente se faz dar uma faxina na caixinha dos pensamentos, reorganizando ícones, criando possibilidades, redimensionando valores. A meta é reinventar a vida, num projeto arrojado e corajoso, sem deixar espaços para os males psicossomáticos. Revisá-lo, como se revisa um texto, corrigindo diálogos, substituindo parágrafos inteiros.

Nessa lapidação, o amor deve ganhar maiores proporções, bem como a responsabilidade, a compreensão e, sobretudo, a aceitação e a paciência. Entretanto, cortam-se alguns zeros metafóricos de um caso-verdade que nunca poderá ser apagado ou destruído da história de uma existência. Mesmo revisto, retocado, sua essência permanecerá indelével na alma. Uma saudade.
Agora tudo terá que ter um único comando: CORAGEM!


ARQUITETA DE MIM
(Genaura Tormin)

Vou reinventar a vida!
Fazer consertos,
Aplicar remendos.

Prenhe estou de disfarces
E esgueira-me pelo corpo
A plangência do tempo,
Restos de batalhas
Que se reiniciam sempre.

A incoerência dos retalhos
Fragmentam-se pelos dias.
Recolho os estilhaços.
Sou enigma no existir!
Fabrico fantasias e metáforas.

Por vezes a paraplegia é abrupta. De repente a fatalidade e em seguida o quadrilátero de um quarto de hospital. Passamos a abrigar novos vocábulos no nosso dicionário: esfíncter, cateterismo, sonda... Muitas seringas, comprimidos, raios-X, dietas, ultrassonografias, ressonâncias magnéticas e toda uma parafernália antes conhecida só de longe. Cirurgias, imobilidade e leito o tempo todo, tudo respaldado por enorme vontade de viver.

Na fase hospitalar, o tratamento medicamentoso ou cirúrgico tem de ser coadjuvado com a mente bem direcionada, sem nos esquecer de que, acima de tudo, somos energia e a altivez da postura mental é muito importante. A coragem ganha força hercúlea e o barco tem que seguir enfrentando borrascas, ribanceiras e tempestades. É uma tarefa exclusivamente de quem ganha uma paraplegia. Outras pessoas não a farão por nós! Temos que abraçar a causa.

É questão de sobrevivência, ou excelência de vida. Elevamo-nos à altura do que nos propusermos. Não somos as primeiras e nem seremos as últimas mulheres a experimentar tais condições que, embora doloridas, podem também nos arremessar a um final feliz.

Esse novo modelo não está em tratados alopáticos, nem é imposto. Temos que ser o nosso professor! O aprendizado é compulsório. Nele, não há portas que não se abram. Nem mesmo a Lei é um bloco estanque. Basta bater que brechas aparecerão. É aí que fincaremos os nossos comandos, elaborando uma sentença de sucesso.

Eu sou paraplégica e posso contar.
Meu nome é Genaura Tormin. Estou paraplégica há 28 anos.
Agora eu não pulo corda, não ando de bicicleta... Estava nos píncaros do sucesso e inexoravelmente fui atirada ao caos. Recebi uma dura sentença por crime que não cometi nesta vida. Mataram minhas pernas em mim.

De repente uma marcante mudança! Mesmo assim, ainda corro atrás da vida. Esforço-me para ser a campeã dos meus aprendizados. O meu coração é vivo e o sorriso aflora sempre até os cantos das orelhas. Eu estou viva!

Numa manhã de março acordei paraplégica, vítima de uma virose ou de um erro médico. Lembro-me de que as limitações eram estarrecedoras, mas eu as enfrentava como as enfrento até hoje, procurando driblar o impossível, para conseguir independência, pelo menos comigo.

Eu ficava hora montando estratégias, analisando circunstâncias para realizar os intentos. Eu queria desenvolver uma autoconfiança que me conduzisse à ousadia mental de perseguir novos objetivos, construindo caminhos para o meu novo mundo. Afinal, dizia Einstein: “A mente que se abre a uma nova ideia, jamais voltará ao seu tamanho original”.

Eu tinha medo da solidão, medo da convivência comigo mesma. Na verdade, o medo era o de que os pensamentos de conquista fossem subjugados. A vida estava sendo muito complicada, muito difícil! Afrontava-me sem tréguas, estampada na imobilidade e na disfunção fisiológica do meu corpo, além de uma eterna e apavoradora dormência.

Sempre que abriam o guarda-roupa à minha frente, os sapatos e as sandálias de salto alto agrediam-me sem compaixão. Expulsei-os de lá. Doei-os, seguindo o ditado popular: “O que os olhos não veem, o coração não sente”.

Tinha que respeitar a minha individualidade e olhar para frente e para o alto. Não podia viver de passado, embora a saudade de mim, por vezes, lavasse as minhas faces em lágrimas doloridas. A gente não esquece o que viveu apenas aprende a separar as coisas e encaixá-las em prismas diferentes. Isso é sabedoria.

E a vida à frente! Um turbilhão de dificuldades nunca imaginadas. Uma jovem mulher reduzida à cabeça, seios e braços. O resto, morbidamente alheio ao meu comando: dormente, como se não fosse meu.

Os meus passos foram banidos. Perdi o meu ir e vir cheio de graça, de trejeitos, de muitos encantos. Poderia ter sido uma bailarina na vida, mas tive a vida para bailar, gingar até encontrar os meus próprios caminhos, lapidar os meus cantos, aparar as arestas.

A minha vida sofria grande transformação. E eu tinha urgência de que essa metamorfose não se resvalasse para o negativismo. Pertinácia e otimismo seriam as minhas armas. Revesti-os de poderes mágicos. Fiz dessa hora um marco divisor de águas.

Lógico que envidei muitos esforços para reverter o descalabro da situação. Sou guerreira de muitas batalhas para não ser escória de uma sociedade que, geralmente, só aceita os fortes, perfeitos e vencedores, alienando a pessoa com deficiência, sem entender que ela também é forte e vencedora de si mesma, compulsoriamente. É um resquício da cultura legada pelo modelo filantrópico.

Precisava retomar o meu lugar de esposa e mãe no meu lar. Na época meus quatro filhos, ainda pequenos, precisavam muito de mim. Ainda não tinham asas para alçar voos sozinhos. Isso me impulsionou a entender que precisava seguir a caminhada, mesmo sem marcar passadas no chão.

Consciente de que seria irreversivelmente uma paraplégica, preparei-me e classifiquei-me muito bem para o cargo de Delegado de Polícia de Goiás. Exerci-o com presteza, durante 13 anos, ocasião em que, também por concurso público, ingressei no Judiciário Federal, atuando por alguns anos na Diretoria de Recursos Judiciais do Tribunal Regional do Trabalho Goiás, onde fui, também, subdiretora. Hoje, trabalho na Secretaria de Coordenação Judiciária do mesmo Regional.

Quem falou que a pessoa com deficiência física não pode trabalhar? Ando de cadeira de rodas e trabalho. Conquistei até o título de “Servidor-padrão”.

Deficiência não é uma opção pessoal. É uma parte natural da experiência humana. Mesmo que nos empreste um visual diferente e algumas dificuldades locomotoras, a mente sã cria soluções para tudo. O trabalho devolve-nos sempre o sentimento de utilidade e supera a defasagem do caminhar.

Há preconceito? Há! Ele existe e não será banido tão cedo, não só em relação às pessoas com deficiência, mas em relação aos grupos vulneráveis. Isso é cultural. Vem de longas datas. Na Grécia antiga, as crianças que nasciam com deficiência eram tidas como seres sem alma, abandonadas para morrer. Os cristãos achavam que era um castigo de Deus.

Ainda hoje a cadeira rodas passa uma ideia de mendicância. Há sempre sentimento de piedade, de medo, e quase nunca o de respeito. Se a pessoa for do sexo feminino, principalmente, presume-se logo que jamais encontrará companheiro. Se a sequela for recente, fatalmente será abandonada por ele. É como se, de repente, o ser humano se transformasse num objeto sem valor.

Mas isso a gente vai tirando de letra, mostrando o outro lado. O importante é: “Levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima!”

Baseada no desafio integro-me bem aos grupos de trabalho. Insisto por tratamento igualitário, mesmo por que, esculpida nas dificuldades, tenho por lema a coragem e o desejo de vencer. Jamais me subjugo às subserviências em busca de protecionismo, benesse, sob o álibi da deficiência. Preocupo-me em mostrar competência, conquistando respeito pelos meus próprios méritos.

Sinto-me adaptada à vida! Sei que ela se adaptou a mim também. De minha catarse, sou mestra. Tenho uma família que me ama e não me castra as oportunidades. Pelo contrário, ela é um nascedouro de forças e incentivos. Isso me é de importância vital e respalda o segredo do sucesso que tenho conquistado.

Sou escritora. Escrevi PÁSSARO SEM ASAS, um livro autobiográfico, corajoso, em que me desnudo, viro-me do avesso e conto ao leitor toda a minha trajetória depois dessa nova condição de ‘rodante’: avanços, derrotas, conquistas, aprendizados, até as verdades mais reclusas na cela do peito.

Relato tudo, não como uma história que haja acontecido no estrangeiro, num lugar distante, mas um fato verdadeiro, acontecido aqui mesmo, entre nós, cuja protagonista, apesar de não ter tido um final como nos contos de fadas, faz-se feliz, viva e atuante.

Mais três livros foram também editados. Apenas uma flor, Nesgas de saudade e Borboleteando. Neles eu enveredo pelos veios da poesia para acalentar instantes e fabricar fantasias.

A vida se exibe à minha frente! Ainda acontece inteira no meu coração. Eu cumpro e assumo o direito de ser MULHER em toda a sua plenitude.

Continuo perseguidora de sonhos. Acredito no amanhecer, no poder recomeçar a cada dia. Sou a síntese dos meus desejos, compilação de inércias estáticas. Encanto-me com a vida, com os amores, com o belo, com a arte de fazer versos. Acho prazeroso brincar com as palavras. Por meio delas exponho-me por inteira. Desnudo-me! Mostro a alma, o coração e a poesia que há em mim.

sábado, 1 de maio de 2010

TRABALHO SIGNIFICA DIGNIDADE


TRABALHO SIGNIFICA DIGNIDADE
(Genaura Tormin)

Somos uma Nação organizada, tutelada! Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido, diz a nossa Lei Maior.
Como princípios fundamentais encontram-se a cidadania, a dignidade da pessoa, os valores sociais do trabalho, entre outros.

E o trabalho remonta aos tempos do homo sapiens, das cavernas, por estar ligado à sobrevivência. Trabalho significa dignidade. É a possibilidade de o ser humano conseguir o sustento da família, sem ajudas vexatórias. Daí a frase que costumo repetir: Não se deve dar ao homem o que ele pode conseguir com o fruto do seu trabalho sob pena de roubar-lhe a dignidade.

Com o passar dos séculos e com a evolução dos povos, naturalmente, necessário se fez a normatização das condutas, consuetudinária ou não, para garantir direitos às relações entre os indivíduos.

E no século passado, mais precisamente, nos idos de 1934 a 1937, no nosso torrão brasileiro, sob o domínio de um Presidente altruísta e determinado, o gaúcho Getúlio Vargas, homem de grande visão política das condições existenciais daquela época, nascia as Comissões Mistas de Conciliação e Julgamento, embrião que veio a se transformar na JUSTIÇA DO TRABALHO, braço do Poder Judiciário, vislumbrada na Constituição do Brasil, ainda getulina, de 1946, ano de minha estréia como ser vivente em terras nordestinas deste meu querido Brasil! Conotativamente, o meu desvelo pelo trabalho, pela satisfação de poder emprestar minha participação, embora, agora, numa cadeira de rodas.

Conhecedora da sua eficácia, por integrar-lhe os quadros há alguns anos e por me preocupar com o lado sociológico do nosso povo, posso afirmar sem medo de errar, que se trata da justiça mais acessível, mais célere e a mais democrática deste país! Uma conquista e uma necessidade para resguardar as relações sociais, também advindas do crescimento da tecnologia, principalmente da informática, industrialização, globalização, cujas lides processuais sobrecarregam o Judiciário.

Trata-se de uma Justiça Especializada, como a de vários outros países do mundo, como a da Alemanha que se parece muito com a nossa, a da Inglaterra, a da Suécia, a da França, a da Bélgica e outras mais.

E hoje é o DIA 1º DE MAIO, dia mundial do trabalho! É com o trabalho que se erradica a pobreza, a marginalização, reduzindo as desigualdades sociais, garantindo-se o Estado Democrático de Direito.

É de bom alvitre lembrar que somos a décima economia do planeta, graças ao trabalho daqueles que com o suor do rosto e com as mãos laboriosas sustentam o país nesse patamar.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

GENAURA FALA SOBRE ENCONTRO LITERÁRIO EM RIO VERDE-GO


GENAURA FALA SOBRE ENCONTRO LITERÁRIO EM RIO VERDE-GO

Aconteceu na cidade de Rio Verde nos dias 6 e 7 de novembro último o I Encontro Cultural Rio Verde/Goiânia. Uma reunião de escritores conhecidos da cultura goiana de ambas as cidades. Um intercâmbio erudito e proveitoso.

O convite fora-me feito com tanto carinho que a alegria de cumpri-lo grassava meu espírito aventureiro. O seu idealizador, o escritor Filadelfo Borges, era credor de minha admiração por causa de seus constantes e edificantes escritos no Jornal "O Popular " de Goiânia, minha cidade .

A Fundação Municipal de Cultura e o Jornal "Vale do Verdão" encarregaram-se do êxito do Encontro. Tudo planejado com perspicácia e denodo, evidenciando-se a alma linda, translúcida e bandoleira de Francisco Bentinho.

A caminho, podíamos avaliar o progresso da região, notadamente pela agricultura, em extensas glebas de plantios, que ladeavam a rodovia.

De repente, à nossa frente, uma linda cidade! Uma mistura de modernismo e tradição, estampando a fartura e o cuidado de um governo responsável. Numa arquitetura arrojada, os espigões erguidos em pontos estratégicos, além do mobiliário da cidade, denotavam exigência e bom gosto do povo rio-verdense. Também o hotel que nos hospedou - Rio Verde Pálace - nada deixou a desejar. Excelentes acomodações, bom trato, beleza e um corpo de servidores refinado, destacando-se sua gerente Ilza, aliás, Dra. Ilza, moça culta, competente, mestra na Universidade que, com seus olhos azuis como safiras e o sorriso peculiar, conquistou a nossa simpatia.

Acompanhada do marido Alfredo, companheiro inseparável de todos os passeios, e do filho Flávio, eis-me no local do evento: O "Palácio da Intendência" – um casarão antigo, devidamente restaurado, que guarda toda a história política de 150 anos de tradição dessa cidade goiana.

Era o povo em festa! As autoridades constituídas, escritores, e a fina flor da cidade ali se encontravam, com destaque para a prefeita Nelcy Spadoni que, pela postura, elegância, harmonia de voz e trato, deixou jorrar a simpatia que a todos impregnou.

Ela, a mulher que se preocupa com o lado poético, com a sensibilidade do homem, enquanto caminheiro dessa estrada. Ela sabe que escrever é um ato de amor. É driblar barreiras, alar o mundo feito borboletas. Escrever é desnudar-se. Sem dúvidas, escrever é ter a coragem por escudo, perscrutando sonhos, definindo realidade. Ela, a mulher que, pela grandeza de coração sabe ouvir o inaudível, os sentimentos mudos, os versos silenciosos da sua gente. Mulher ousada, corajosa, destemida, a criadora da Secretaria de Cultura! Uma prefeita na virada do século! _ pensei encantada.

Após a composição da mesa, a festa rolou até altas horas, regada pelas músicas da pianista Ruth, de quem levantou-se uma detalhada biografia, mostrando o seu valor, cujas raízes remontam à tradicional família rio-verdense.

Muitos discursos, ensinamentos históricos, novas amizades e, naturalmente, uma linda noite de autógrafos. Entre os escritores da terra, como a Zilda Pires, estava eu com o meu livro Pássaro sem asas, o Brasigóis Felício, para mim, o monstro sagrado da literatura goiana, diante de quem curvo-me com respeito. Ainda, o Getúlio Araújo, o poeta-médico da terra dos coqueirais balouçantes, do mar encrespado, das ondas dançarinas...

Valdivino Braz, Aidenor Ayres e o famoso cartunista Jorge Braga, moço de talento inigualável que com suas charges criativas e engraçadas encarrega-se de aflorar o humor dos goianos, lá se encontravam na troca de solidariedade e afeto com os intelectuais de Rio Verde.
Terminamos a noite numa linda churrascaria. Um jantar selou a nossa amizade com aquela gente erudita, cujo carinho estampava-se em sorrisos. Bentinho era a figura central de todo esse carisma: extrovertido, culto, franco... Um poeta do meu querido torrão nordestino!

Realmente, foi um encontro inesquecível! Costumo dizer que o poeta é como a chuva: dá nova roupagem à vida, faz brotar as flores, aninha-se no amor, nos veios da ternura, vestindo de verde todos os momentos.

E naquela noite CHOVEU em Rio Verde!


Genaura Tormin
Publicado no Recanto das Letras em 22/08/2007

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

MEIA HORA FAZ A DIFERENÇA


MEIA HORA FAZ A DIFERENÇA
(Genaura Tormin)

Sinto-me honrada em servir ao Judiciário Federal,
especificamente à Justiça do Trabalho do meu Estado,
onde exerço o cargo de Analista Judiciário
na Diretoria de Serviços Recursos e Distribuição.

Lembro-me de que não foi fácil o ingresso.
Freqüentei cursinhos e usei o método do gravador, além da determinação, persistência, força de vontade e muita disciplina, tão importantes para o sucesso na consecução de quaisquer objetivos.

Na solidão das madrugadas frias, tinha sempre as aulas por companhia,
através de minúsculos fones de ouvido.
Como a repetição faz o mestre, eu estava sempre a aprender,
embora essa aprendizagem seja um processo contínuo.
Aprendemos em qualquer quadrante da vida.
Somos sempre acrescidos pelas trocas, pelas lições,
tão necessárias à execução de um trabalho novo.
Assim vai se sedimentando o arsenal do nosso conhecimento.
Daí a capacidade para a feitura das mais diversificadas tarefas.

Na Diretoria de Serviço Recursos e Distribuição, a despeito de outros, temos o Projeto do Servidor Multiqualificado. Talvez seja ele o carro chefe da Diretoria. Para tal, os servidores se revezam em todos os setores e núcleos. Além disso, semanalmente é-nos dado, com antecedência, um tema do qual somos sabatinados numa pequena reunião que acontece às sextas-feiras.

É o chamado encontro do “BATATA QUENTE”.
E tem batata mesmo! Na hora aprazada, surge altiva e imponente uma batata majestosa, que atrevida se esgueira em olhadelas aos servidores sentados à mesa. No centro, um envelope contendo perguntas e ocorrências simuladas, com circunstâncias engraçadas, capciosas, chamam-nos a atenção.

Já nos reciclamos sobre o sistema push de auto-atendimento, peticionamento eletrônico (web-mail, fac-símile), protocolo postal, drive thru, procedimento de carga ao advogado, vapt vupt e teleTRT. Outros virão para formar a nossa bagagem.

Ao som de uma musiquinha inocente, amena e envergonhada, a altiva batata sai faceira, rebolante, dançarina, de mão em mão, porém com disciplina. A música pára! Ai, meu Deus! O Colega entre o susto e um sorriso maroto, ainda acaricia entre os dedos a batata, agora sua. Pena que está crua! A pergunta salta do envelope, altaneira, dona de todas as verdades.

Com galhardia ou sofreguidão o colega deve respondê-la.
E a batata só escuta, não ajuda!

_ Posso recorrer aos universitários? _ pergunta o colega.

_ Pode, sim, interfere o maior servidor da Diretoria. Maior em tamanho (tem quase 2 metros) e em autoridade. Ele é o Diretor. É um homem grande e um grande homem!

E, após o auxílio solidário, a batata torna a correr. Danadinha... alcança a todos. E as perguntas se mostram diversificadas, como diversificado é o nosso trabalho ali.

Um encontro agradável, um trabalho quase brincadeira!
Mas o resultado é excelente! Aprendemos todos ao mesmo tempo! Dirimem-se as dúvidas, uniformizam-se as informações, atualizam-se a legislação e a maneira do fazer estipulado no famoso PGC (Provimento Geral Consolidado).

_ Assim, estamos a crescer, diz a batata ensimesmada!

_ É isso aí!
Completa o Diretor satisfeito, explicando a finalidade do seu intento.

_ Em primeiro lugar, um relax para abastecer o físico e a mente, num pequeno intervalo. Depois, o conhecimento ideal que nos levará ao desempenho aperfeiçoado do trabalho, com a implementação do Servidor Multiqualificado, proporcionando uma prestação jurisdicional de qualidade, célere e competente. E a nós, serventuários, o sentimento do dever cumprido, a satisfação do aprender, do bem servir, e melhor relacionamento entre os colegas, que desempenharão sua missão num só espírito-de-corpo, com respeito, amizade e qualidade de vida.
E meia hora faz diferença, finaliza o Diretor.

Genaura Tormin é Analista Judiciário,
lotada na Diretoria de Serviço de Recursos e Distribuição
do TRT/GO

domingo, 20 de setembro de 2009

CAMINHOS QUE ME LEVAM...


CAMINHOS QUE ME LEVAM...
(Genaura Tormin)

Gosto muito de música, sempre de acordo com as ocasiões. Reputo-me versátil, passional... Adoro as músicas clássicas, orquestradas, assobiadas, os cantos gregorianos, óperas... Os mantras relaxam-me o espírito, a música sertaneja volta-me às origens. Gosto da magia, da paz de uma noite estrelada, da beleza do mar no açoite de suas vagas, da natureza verde prenhe de flores e frutos.

Gosto de um pôr-do-sol nostálgico, esgueirando-se entre montanhas, iluminando os restos de tarde debulhados em sombras; do marulhar de riachos, da ventania na copa das árvores, do gorjeio da passarinhada... Gosto de muitas outras coisas que tocam os meus sentimentos, ouriçam o meu espírito, ajudam o meu aperfeiçoamento enquanto caminheira desta vida. Gosto de tudo o que acalenta o coração, os ouvidos e olhos, fazendo-me melhor, aumentando o prazer, a crença em mim mesma e a vontade de viver. Por exemplo: gosto de chuva.

E agora está chovendo aqui! O sol ainda brilha. Na harmonia desses dois fenômenos, um arco-íris abraça a abóbada celeste, relembrando a aliança de Deus com os homens, conforme nos ensina a Sagrada Escritura (Gn 9,12). Nesses momentos sinto saudades de tudo. Fico carente e quero colo, quero mãe, quero amor... Passa-me sempre um sentimento de aconchego, de ternura...

No espelho da vida tento mirar-me! Já se vão gastos os dias de existência. Mergulho numa retrospectiva de mim mesma. Divago por caminhos mil. Imagino utopias. Escapam-me certezas! Quero erguer minha bandeira, carregar o meu fardo. Quero continuar carpindo versos, sendo aluna dos meus sentimentos e parceira do coração.

De minha catarse, sou mestra. A vida individualizou-se para mim. Vestiu a fantasia para me fazer sorrir! Vida, vida minha! Você deu tantas voltas, reviravoltas e levou-me as pernas, o meu caminhar faceiro, gostoso, ligeiro. Que saudade! Que saudade, mesmo!

E saber que nesta vida não voltarei a andar, às vezes cava-me uma cratera bem lá no cantinho da alma. Não posso ceder ao desalento. Sou guerreira de mim mesma, soldado de minha própria batalha.

SENTIMETNO INCÓLUME

O sentimento,
Guardião do tempo,
Ainda está incólume
Na cela do peito.
Um gosto de saudade
Impregna a vida.
A solidão se faz!

Paira no ar a indiferença.
Parece desconhecido o lugar,
Ermo, esquisito, sombrio...
E a casa está vazia
A sangrar um silêncio doentio,
Um tédio ambulante
Que mata a fantasia.
Fecham-se portas e janelas.
Quebra-se o encanto.

Fragmentada,
A emoção escapa,
Plangendo os cantos da alma,
Onde as sombras encolhidas
Entreolham-se estáticas
No sarcasmo do tempo.

E a chuva continua. Gosto tanto de vê-la, senti-la. Para mim, significa o poder de Deus. Como gostaria de emaranhar-me nela, misturar-me nos seus pingos, deixando-me embalar pela música de sua semeadura, feito alguém andante, sem tarjas, sem compromissos. Desta altura, esse prazer fica meio obstaculizado. Sou baixinha e não alcanço as janelas. Apenas a vejo na horizontal, por meio do paralelo dos seus parapeitos. Vejo, por meio de minhas celas, de minhas amarras. E a vidraça molhada chora comigo a saudade de um tempo que se foi.

Ainda devo agradecer, pois tenho os olhos para admirar o belo! Tenho o olfato para sentir o cheiro da terra molhada e de todas as demais fragrâncias. Tenho um coração que vaga desvairadamente pelos caminhos da fantasia. Que bom ser ele um coração vagabundo, aventureiro, coberto de andrajos desta vida, pois, com certeza, esta rota vestimenta receberá conserto. Quem sabe noutros mundos, noutras paragens, além da terra.

A luz do dia se foi. É noite aqui. O vendaval continua. A ventania sacode as janelas. A chuva me faz bem, traz-me de volta o passado tão distante! Os meus nove anos, na fazenda, quando debaixo do temporal corria pelo campo, pelo milharal e imaginava um Deus forte que tudo fazia: mandava a chuva para encher o riacho, os barreiros, fazer granar as espigas de milho que se tornariam alimento. Eu via Deus nas nuvens escuras, carregadas de chuva.

Costumava vê-Lo ao amanhecer, de rosto redondo, incandescente, no primeiro raio de sol que despontava no horizonte, qual facho de luz dissipando a escuridão. À tardinha, Ele varria o céu e viajava com as nuvens na luz mortiça do pôr-do-sol, escondendo-se na névoa escarlate do crepúsculo matizada de ouro e prata, para retornar na lua, que, ostentada no alto, feito um prato de fogo ou de ouro, era a rainha absoluta das noites frias de minha infância.

Houve um tempo em que eu pensava que o trovão acontecia porque Deus estava irado, nervoso. Significava um castigo. Costumava me esconder e rezar. Ah! Meu tempo de criança! Quanta saudade! Como eu era feliz, e não sabia! O meu correr saltitante e travesso pelas enxurradas, a desobediência que me elevava aos píncaros dos cajueiros, das amoreiras, das mangueiras... O galope no lombo dos cavalos me fazia livre, dona dos campos e senhora do meu tempo. Quanta travessura e quanta alegria, quanta vida!

Que mundo pequeno era o meu! Cheio de muitas laranjas, melancias, limas, bananas e um riacho para tomar banho, onde as libélulas faziam seus voos rasantes. A água clarinha, caída de uma pequena cascata, era o trabalho de Deus. Ele a havia feito. Havia pintado o céu de azul e encaminhado as águas para os rios, fazendo várias quedas até chegar ao nosso riacho.

Hoje sei que Deus não fica com raiva, mas as pessoas, essas sim. Não sabem perscrutar a essência. Falta compaixão. As pessoas que nos deviam querer bem usam desse sentimento como se gente a gente não fosse. O homem é o exterminador do próprio homem. É o seu próprio carrasco. Constrói o seu fado. Lamentavelmente, temos pouca noção de fraternidade. As diferenças sociais são gritantes. Estamos numa desvairada corrida pelo poder, pelos bens terrenos sem nos preocupar com os valores do espírito, com os dons humanísticos, uma vez que somos a imagem e a semelhança do Criador.

A chuva continua. Daqui, eu ouço o chiado da fricção dos pneus dos carros no asfalto. Imagino os vidros embaçados e os pingos d’água espirrando, as pessoas tentando achar abrigos e as flores da praça sorrindo. O cheiro da chuva, lavando a poeira, aguça os meus sentidos. É prazeroso para mim.

Está trovejando e o barulho estridente se faz ouvir. Com ele, uma emoção mareja-me os olhos. Bate-me à porta da alma uma certeza e uma grande saudade de Deus, que me era mostrado por meio do gorjeio dos pássaros encolhidos nas laranjeiras depois da chuva, do cantar do galo no alvorecer, das ninhadas de pintinhos encontradas de surpresa, além do anjo guardião invisível que me guiava os passos pelo pasto, entre o gado...

Tenho uma lembrança muito forte do meu tempo de criança. Quem sabe, tivesse uns três anos. Morávamos numa fazenda. Um temporal abalava as portas e as janelas. O vento assobiava forte, levando o que podia. Mamãe, na sua missão de protetora, forrara uma bacia, colocara-me dentro e em seguida posicionou-a debaixo da mesa. Assim eu estaria a salvo dos pingos de chuva. Devia ser mesmo bem pequena, pois, a meu ver, a mesa era muito grande e a bacia também. Tudo parecia um tornado que invadia o meu pequeno mundo. Mamãe, na lida, parecia não parar, acudindo as coisas.

Hoje, do alto de um prédio, erigido no coração de minha cidade, contemplo a chuva novamente. Não sinto o vendaval das enxurradas nem a fúria do vento sacudindo as portas, destruindo tudo. Numa análise, não sei dizer se sou ou não mais feliz: se observando do alto, como o faço agora, ou metida na chuva, como nos velhos tempos.

Da minha janela, ouço a música dos carros parados na avenida. Naquela época, era o piar da juriti, do pássaro preto e do inhambu. Era o mugido do gado, o alvoroço das galinhas no terreiro, o relinchar dos cavalos, o canto triste da seriema e o gemido do carro de bois. E mais lindo ainda, o barulho de folhas levadas pela ventania. Verdadeira sinfonia do meu sacrário de lembranças.

Lembrar é viver! E, se é assim, estou voltando ao meu passado. Quanto tempo ficou para trás! Parece um teatro, a vida! Uma sucessão de atos, de cenas... Não sei como pude viver tantos papéis! Não sei como adquiri tanta paciência, tanta resignação, tanta força. Sou um seixo rolado, polido pela dor.

SEIXO ROLADO
A. Carrijo

Eu era uma pedra,
Cheia de arestas,
De pontas agudas
Que feriam os que me tocavam.

Mas
Os meus sofrimentos
E os pés que me pisaram
Desbastaram-me as quinas,
Abateram-me as agulhas.

Hoje,
Quando apalpo o meu ser
Com as mãos da consciência,
Não me reconheço no passado.

Como estou diferente!
Sou um seixo rolado,
Polido pela dor.
Obrigado, Senhor!

Sou, realmente, um escravo obediente que esconde a sua rebeldia. Sou um condenado que caminha para a forca em silêncio. Se o faço com resignação, terei mérito. Se não conseguir, receberei o castigo nas inúmeras reencarnações que se seguirão para a escorreita evolução deste meu espírito rebelde e atrevido.

Sei que sou responsável por tudo o que me acontece na vida. Minhas atitudes criaram o meu destino. Não existe injustiça. Deus está no leme de tudo. Se fui atingida por essa fatalidade é porque precisava aprender alguma nova lição, conforme explica Zíbia Gasparetto.

Às vezes penso: o que terei sido em outras encarnações? Por que fiquei sem o meu caminhar? O que terei feito com ele? Tudo isso são bobagens, pensamentos externados nessa escrita besta e sem nexo.

O certo é que estou aqui, viva e na minha cadeira de rodas. Não tenho tanto tempo assim. Foram-se os verdes anos, a algazarra de minha juventude risonha e doce, os tempos de colégio de freiras... Não obstante o coração se ourice, tente romper a camisa-de-força, a mordaça tão bem ajustada à sua dona, resiste. É de ferro! Com certeza, resistirá durante minha jornada neste planeta.

Foi-se a minha liberdade! O meu ir-e-vir cheio de graça, de trejeitos. Poderia ter sido uma bailarina na vida, mas tive a vida para bailar, gingar até encontrar os meus próprios caminhos, lapidar os meus cantos, aparar as arestas. Agora o filme acabou, a peça foi truncada antes do término. O pano caiu!

Tenho por amiga quatro rodas de uma cadeira, a quem devoto gratidão pela tecnologia que permite misturar-me aos demais, sentir-me inteira outra vez. Mesmo assim sinto orgulho da caminhada. Cada um tem o que merece. Apraz-me a oportunidade de viver assim, pois sei que quando o discípulo estiver pronto, o mestre, com certeza, aparecerá.

A vida continua. Ainda sou perseguidora de sonhos. As portas me fascinam. A vida ainda acontece inteira no coração. Acredito no amanhecer, no poder recomeçar a cada dia. Sou a síntese dos meus desejos, compilação de inércias extáticas, mas, ainda, uma inesgotável fonte de encantamento pela vida, pelos amores, pelo belo, pela arte de fazer versos.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

A PESSOA COM DEFICIÊNCIA SOB A LUZ DA LEI


A PESSOA COM DEFICIÊNCIA SOB A LUZ DA LEI
(Genaura Tormin)

“(...) tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais,
na medida em que eles se desigualam “. Rui Barbosa


Vivemos num dos maiores Países! O terceiro em extensão territorial. É um País rico, detentor do maior ecossistema, destacando-se em todo o cenário mundial por suas matas, flora e fauna, além das riquezas minerais que o classifica entre os de maiores economias do planeta. Somos hoje a terceira maior democracia do mundo.

É um País sem guerras, sem vulcões, sem terremotos. Entretanto ainda se situa entre os de terceiro mundo.

Como todo País em desenvolvimento, tem os seus problemas: com a educação, com a segurança, com a saúde, e muitos outros. Entre esses, está a situação das pessoas com deficiência, cuja noção está ligada ao problema geral da exclusão. Vítimas de problemas congênitos, enfermidades ou causas traumatológicas, o Brasil possui  45,6 milhões de pessoas com alguma deficiência, o que representa 23,91%  de todo o seu contingente, conforme  informações do IBGE no censo realizado no ano 2010.

Como toda minoria, essas pessoas são relegadas a segundo plano, tendo em vista não existir consciência popular valorativa sobre os seus potenciais, como se a cabeça estivesse na disfunção de um membro locomotor ou no atrofiamento de um braço.

Ter um defeito físico, andar numa cadeira de rodas, geralmente significa ser inválido, estar cerceado do sagrado direito de sustentar-se com o fruto do próprio trabalho. É a chamada rotulagem despreziva que tanto mal nos faz. Os órgãos estatais fecham as portas. E para qualificar-se nem se fala, pois as barreiras arquitetônicas das escolas relegam o aluno, logo no primeiro dia de aula, bem como o mobiliário das cidades e o transporte coletivo, que não são planejados para esses “imperfeitos seres”.

A discriminação, também, por parte da própria família, que tem por tradição esconder os seus deficientes, é a mais crucial, numa mostra, sem dúvida, de preconceito e desumanidade. É o retrato de um País que não encara os seus problemas, não sabe transformá-los, aceitando, apenas, os fortes, perfeitos e vencedores.

Graças a Deus, não estamos vivendo nos dias do médico alemão Josef Mengele, o “Anjo da Morte”, que sob o comando de Adolf Hitler exterminava as pessoas com corpos imperfeitos, tentando estabelecer a pureza da raça ariana. Era a teoria em que as vidas humanas sem valor vital deveriam ser eliminadas.

Quantos gênios existiram e existem em corpos imperfeitos! O inglês Stephen Hawking, com esclerose lateral amiotrófica, que lhe paralisou os movimentos, emudeceu-lhe as cordas vocais, é um testemunho perfeito, pois, mesmo assim, continua produtivo e é considerado o mais brilhante físico teórico desde Albert Einstein. “Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me sentiria o Rei do Universo”.

Exemplo digno de nota é o de Beethoven, o maior gênio da música de todos os tempos, que mesmo depois de ficar surdo em plena atividade musical, continuou compondo, produzindo sua obra mais importante: A nona sinfonia. “O que está em meu coração precisa sair à superfície. Por isso preciso compor” — dizia ele.

Outro exemplo, aqui bem perto de nós, é o de Cláudio Drewes Siqueira, que ficou tetraplégico por causa de um mergulho em águas rasas, quando era adolescente, e mesmo assim, por méritos próprios, mediante acirrados concursos públicos, ascendeu aos cargos de Procurador do Estado de Goiás e em seguida ao de Procurador da República, um dos mais elevados cargos da República Federativa do Brasil. Por meio de uma adaptação presa a um capacete, o competente Procurador folheia livros e processos, além de digitar suas próprias peças, elogiadas pelo excelente conteúdo jurídico. É um exemplo e a certeza de que o querer é poder. É preciso somente que os sonhos estejam acesos.

A sociedade não sabe conviver com essas pessoas. Ainda não conseguiu entender que o maior potencial humano é a mente e, se essa está ilesa, a vida é possível e o trabalho é digno dentro da capacitação.

A informação e o espírito de solidariedade ainda são muito pequenos entre nós. Nunca paramos para pensar como é o dia-a-dia de uma pessoa que tem por pernas quatro rodas de uma cadeira. Estamos sempre ocupados com os nossos próprios problemas, esquecendo-nos de que as fatalidades não avisam nem escolhem status. Quando deparamos com alguém de muletas ou cadeira de rodas, a idéia é de que está aposentado ou aposentando, embora sirvam as pernas, apenas, para cumprir a simples missão de andar. Se a pessoa for do sexo feminino, principalmente, presume-se logo que jamais encontrará companheiro. Se a seqüela for recente, fatalmente será abandonada por ele. É como se, de repente, o ser humano se transformasse num objeto sem valor.

É raro vermos uma pessoa com deficiência ocupando um cargo público de comando. E quando isso acontece, ela terá de ser imbatível. Caso contrário, os pequenos e naturais deslizes, policialescamente vigiados, serão creditados à sua deficiência física, com o mero objetivo de torná-la inválida. Se a fatalidade ocorre durante o exercício do cargo, a aposentadoria é compulsória, sem nenhuma chance de readaptação dentro do órgão. Nem sequer se pensa numa transferência para outro cargo mais compatível com a limitação física adquirida. Simplesmente, descarta-se. Afinal estamos na era dos descartáveis. É um marco da personalidade brasileira e do preconceito arraigado da maioria dos governantes, tão desinformados e mal preparados, que não sabem buscar, transformar, aproveitar, mesmo tanto tempo depois da teoria de Lavoisier em que: “... nada se perde, tudo se transforma”.

Quando uma parte do corpo se fragiliza, as outras se encarregam do trabalho, provando que não há problema sem solução.

A mídia, como formadora de opiniões, é a grande responsável por essa imagem tão negativa do deficiente. Fulcrada em desinformações, as novelas banem até a sua sexualidade, forçando-o, mesmo, a tornar-se um cadáver vivo. Estar deficiente fisicamente, não significa estar assexuado. Sempre há uma saída, tendo em vista a lei da compensação e a perfeição da natureza.

É costume, também, mostrar a penúria, a fatalidade, a invalidez da pessoa com deficiência, e nunca o seu trabalho digno, a sua competência, o seu esforço para vencer barreiras. Vê-se sempre o invólucro e nunca o conteúdo. É pena que não entendam que, do mínimo indispensável, é possível construir uma obra de arte. “O essencial é mesmo invisível aos olhos. É preciso buscar com o coração”.

Apesar de não sermos detentores dos nossos movimentos físicos, não precisamos da caridade pública e não devemos ser excluídos do sistema socioeconômico e político do País.

Precisamos ser reconhecidos como força de trabalho, com o direito de competirmos e mostrar que somos capazes, quebrando tabus, preconceitos e discriminações. Somos desigualdades, mas tem que haver respeito a essas diferenças pessoais, além de nos ser resguardado o sagrado direito de legar a nossa participação de trabalho.

A Constituição Federal de 1988, que aprovou as mais amplas garantias públicas da história, concedeu-nos direitos de cidadania como participantes da vida, da seguinte forma:

— Art. 7º, XXXI — proíbe quaisquer discriminações no tocante a salários e critérios de admissão do trabalhador com deficiência.

— Art. 23, II — determina competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios para cuidar da saúde e assistência públicas, da proteção e garantia das pessoas com deficiência. (O Decreto 914, de 6.9.93, instituiu a Política Nacional para a Integração da Pessoa com Deficiência).

— Art. 24, XIV — fala da proteção e integração social; (Lei 7.853/89 dispõe sobre apoio ao deficiente, institui a tutela jurisdicional, cria a CORDE, disciplina a atuação do Ministério Público, define crimes e dá outras providências).

— Art. 37, VIII (e Lei 8.112/90, art. 5º parág. 2º) — fala sobre os cargos e empregos públicos. Reconhece e abre mercado de trabalho aos deficientes físicos, destinando-lhes até 20% das vagas dos concursos públicos. Contudo, nos concursos em que são disputadas poucas vagas, somos preteridos, uma vez que os órgãos estatais, em suas leis regulamentares, não nos têm destinado mais do que 3 a 5% dessas vagas. Somos preteridos, também, porque se após o concurso surgirem mais vagas, nem sequer tivemos a oportunidade de concorrer, sem se falar de Estados e Municípios que até hoje não procederam à edição de suas leis.

— Art. 93, da Lei n. 8.213/91 (Decreto n. 3.298/99) — destina 2 a 5% das vagas em empresas, com mais de 100 empregados, a deficientes. Significa uma Reserva Legal. É um comportamento ético, porque não dizer, uma responsabilidade em busca de uma relação mais justa com a sociedade, diminuindo as desigualdades e aumentando o exercício da cidadania. À medida que a sociedade provê meios para que o deficiente possa atuar produtivamente no sistema capitalista em que vivemos, estará realizando um investimento social, uma vez que o deficiente deixará de ser um consumidor de políticas de previdência e assistência social para capacitar-se como produtor de receitas públicas, mediante o recolhimento de impostos sobre sua atividade profissional.

Não queremos paternalismo, nem diferenciação, queremos apenas respeito e oportunidades para mostrar a nossa capacidade de conquista, de trabalho, embasados na célebre frase de Rui Barbosa: “... tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na medida em que eles se desigualam”.

Referindo-me à política desenvolvida nos Estados Unidos sobre a reabilitação, acessibilidade arquitetônica e o trabalho do deficiente, gostaria de dizer que o retorno é de sete para cada dólar aplicado nesse sentido, pois, tornando-o reabilitado, independente e produtivo, não só ele estará liberado para o mercado de trabalho, mas também a pessoa que o assistia no ambiente doméstico.

Trabalho é saúde, é progresso. Cabeça vazia é sempre “oficina para o diabo”. E a ociosidade é um chamariz para as enfermidades mentais, redundando, muitas vezes, em depressão, suicídio e tristeza para a família e amigos.

— Art. 203, IV — garante a habilitação e reabilitação das pessoas com deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária.

— Art. 203, V (e Lei 8.742/93, art. 2º, V, de 7.12.93 — Lei Orgânica da Assistência Social) — garante um salário mínimo mensal ao deficiente carente que não possa manter-se, bem como ao idoso.

— Art. 227, parág. 2º e art. 244 — defendem o acesso adequado a logradouros e edifícios públicos, fabricação de veículos de transporte coletivo e adaptação dos existentes. Medida muito importante, pois precisamos conviver com as pessoas, executar o nosso caminhar pelas ruas da cidade, mostrar que existimos. Assim estaremos participando e ostensivamente reivindicando o nosso espaço, pois, primeiro o fato social, depois as normas. Sabe-se que as casas de diversões públicas, com capacidade para mais de 100 pessoas, deverão ter acesso e banheiros adaptados para deficientes, bem como restaurantes e hotéis. A acessibilidade é o pré-requisito básico para que o deficiente viva com dignidade.

Até na área de saúde, falta acessibilidade. Os banheiros não nos permitem acesso: as portas são estreitas, acontecendo por vezes de perdermos consultas por termos de retornar a casa para usar o banheiro, sem se falar do desconhecimento da Lei n. 10.048 de 8.11.2000, que nos garante atendimento prioritário, o que não é uma benesse, mas o cumprimento de um dever legal.

— Lei n. 10.098/2000 — estabelece normas gerais e critérios básicos para promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência. Na verdade, trata da feitura e execução de projeto universal, uma concepção moderna de arquitetura urbanística e ambiental voltada ao bem de todos, pois a sociedade é heterogênea. E o acréscimo para a execução de obras projetadas nesses parâmetros é menor do que 2%. Gasta-se tanto com supérfluos, por que não investir na qualidade de vida da nação? O que falta mesmo são conhecimento, vontade e visão política das condições existenciais da nação.

— Lei n. 8.899/94 — concede passe livre interestadual ao deficiente carente que, por motivo justificável, necessite deslocar-se para outro Estado.

Ao deficiente físico é, também, facultado adquirir veículo adaptado às suas condições físicas com isenção de IPI (lei 8.989/95), conseqüentemente ICMS e IPVA. Partindo do princípio de que o veículo, além de instrumento de trabalho é o substituto de nossas pernas, torna-se de muita importância essa isenção fiscal, pois nos permite a celeridade do caminhar, inserindo-nos com mais facilidade no mercado de trabalho e na convivência social.

— Lei 10.690, art. 1º, IV, de 16.06.2003 — facultou a aquisição de veículo, com isenção de IPI, às pessoas com deficiência visual, mental severa ou profunda, ou autistas, diretamente ou por intermédio de seu representante legal.

— Lei 7.713 de 22.12.1988, com redação dada pela lei 8.541 de 13.12.1992 — concede isenção de imposto de renda sobre proventos de aposentadoria motivada por paralisia irreversível e incapacitante. Mesmo que a paralisia aconteça depois da aposentadoria, a isenção é legal e deve ser requerida.

Sabemos que nem todos os artigos são auto-aplicáveis, necessitando de leis regulamentadoras (federais, estaduais e municipais) que morosamente se arrastam pela burocracia. Mas já é um avanço que tem melhorado a qualidade de vida do deficiente físico, aumentando-lhe a auto-estima e proporcionando-lhe o sustento com o próprio trabalho. Ouso dizer que não se deve dar ao homem o que ele pode conseguir com o fruto do seu trabalho, sob pena de roubar-lhe a dignidade.

O trabalho remonta aos tempos do homo sapiens, das cavernas, por estar ligado à sobrevivência. E para nós significa dignidade, além de uma verdadeira terapia ocupacional que nos devolve o sentimento de utilidade. É a oportunidade justa para provar que poderemos ser, não apenas força produtiva, mas força transformadora, aumentando a esperança num País justo e progressista, diminuindo-lhe os problemas sociais, além de servirmos também de motivação e incentivo aos muitos “paralíticos andantes”, que se alicerçam numa ociosidade crônica para nada fazerem ou mal fazerem.

— Ao art. 98 da Lei n. 8.112/90 — foi acrescentado, por força da Lei n. 9.527, de 10.12.97, o parág. 2º, concedendo horário especial ao servidor com deficiência, quando comprovada a necessidade por junta médica oficial, independentemente de compensação de horário. Portanto, mesmo com uma grande limitação, tendo o querer por escudo, é possível fazer do trabalho uma terapia e uma razão a mais para viver e deixar para o porvir as pegadas de esforço, obstinação e coragem.

Com a abertura do mercado de trabalho, por meio da Carta Magna, chegou a hora de provar a que viemos. Chegou a hora de mostrarmos à sociedade que o mais perfeito caminhar executa-se com a mente, além do famoso “querer é poder”. Chegou a hora de darmos o exemplo. A deficiência é apenas uma referência, pois o que importa mesmo é a disposição e a coragem que nos alicerçam, tornando-nos bons profissionais. O resto dá-se um jeito com os acessórios que a tecnologia nos empresta de acordo com a crescente escada do progresso, além do entusiasmo de viver.

“Se a gente não pensar que quer sempre mais, fatalmente terá sempre menos. O homem só fracassa quando desiste de tentar. Todos os dias me levanto para vencer” — disse Aristóteles Onassis.

É bom que nos engajemos em associações classistas para conseguirmos prática de vida, mercado de trabalho e qualificação para tal. É lá que encontramos pessoas iguais, com as mesmas amarras físicas, mas com grande desejo de conquista, pois poderemos ser vítimas do destino, não da indiferença.

Não obstante os muitos cerceamentos que sofremos na pele, impostos pela deficiência, temos que rebatê-los com uma só ação: CORAGEM! Coragem de ir à luta e vencer, deixando sempre à mostra a competência, o preparo técnico científico peculiar ao desempenho da função que conquistarmos, nunca nos escudando sob o pretexto da deficiência para auferir vantagens ou buscar protecionismo. Não há discriminação que resista à competência.

Por isso sou contente por viver num corpo com uma deficiência física. Sou contente por ter voz e oportunidade de acalentar e admoestar. Sou contente por tentar ajudar a construir um mundo melhor, formando mentalidades, fazendo denúncias, cobranças, exigindo respeito a quem, num dia qualquer da vida, vê romper-se a “farda de carne” para dar início a uma vida de sacrifícios e desafios diários.

“Importante saber que o Brasil é signatário da Convenção da Guatemala, documento aprovado pelo Congresso Nacional por meio do Decreto Legislativo nº 198, de 13 de junho de 2001, que deu origem ao Decreto nº 3.956 de 8 de outubro de 2001, assinado pela presidência da República. Pela primeira vez, então, foi explicitado em lei, o que é discriminar com base na deficiência. E segundo diversos membros do Ministério Público, o Decreto n º 3.956, tem tanto valor quanto uma norma da Constituição Federal, pois se refere a direitos e garantias da pessoa, estando acima de leis, resolução e decretos”.

Agora resta-nos exigir o cumprimento das leis na satisfação dos direitos. Necessário se faz um trabalho conscientizador a partir do próprio deficiente, da sua família (que deve se engajar) até a sociedade e governantes tão desinformados sobre os potenciais humanos. É preciso que a sociedade troque os sentimentos de paternalismo, compaixão ou desprezo, por outros valorativos, respeitosos e reconhecedores, devolvendo ao deficiente físico a cidadania, o direito de participar desta caminhada que chamamos de VIDA.

Genaura Tormin

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

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Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)



"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)