
ALICERCES IMPORTANTES
(Genaura Tormin)
Lembro-me de que certo dia,
durante um intervalo das sessões de fisioterapia,
eu e Alfredo andávamos pelo
pátio do Hospital Sarah Kubitschek,
quando deparamos com uma figura inusitada:
uma senhora, possivelmente vítima de grande acidente que,
ao andar, bruscamente jogava uma perna para um lado,
fazia um rodopiado,
esticava o braço em sentido contrário,
meneava a cabeça,
tempo em que emitia um som gutural.
Na base do pescoço,
havia uma abertura com um orifício metálico (traqueostomia).
Em uma das mãos via-se uma tabuleta com o abecedário,
o que significava que ela havia, também, perdido a voz.
Mesmo assim, andava, locomovia-se sozinha rumo ao ginásio.
Entre suspiros, eu disse ao Alfredo:
— Queria tanto andar,
mesmo que o meu caminhar fosse igual ao dela!
Alfredo, comovido, abaixara-se defronte da minha cadeira e,
praticamente, fezera-me uma jura de ajuda eterna,
uma linda e emocionante declaração de amor.
Enchera-me de forças,
de energias positivas, de elogios, solidarizando-se
com o meu caminhar perdido,
afirmando-me de que não se anda apenas com os pés.
Dissera-me que o mais perfeito caminhar é executado
com o coração, com a alma translúcida e bela,
que às vezes chega a voar, planar sobre os grandes ideais.
Mesmo entre lágrimas de ambos, eu aceitei,
enxuguei o pranto e juntos fomos para o ginásio.
Com ele sentia-me segura, protegida.
Ele sempre significou o meu chão, o meu equilíbrio.
E agora, muito mais!
Significa a minha metade, o meu complemento,
a âncora que me alavanca para que eu não me esqueça dos passos,
mas veleje o mar bravio da coragem.
Sem ele não há unidade.
Eu sou parte do todo e o todo está em mim.
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