PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

segunda-feira, 29 de março de 2010

RE-ENCONTRO


São essas menções de carinho que me deixam sem palavras, muda, extática... Essas são as muitas mestras que encontramos pelos caminhos, e que nos impulsionam ao autoconhecimento.
A Selma, todo o meu carinho, a minha admiraçao e um enorme respeito pelo ser iluminado que é.
Nada há a criticar.
Quem sou eu?
Diante de tão belo poema, quedo-me encantada.
Faz bem à alma, ao coração e à amizade que une os nossos espíritos nesse trajeto por aqui. O carinho é recíproco, viu!
Beijo grande da
Genaura Tormin

(...)Escrevi uma coisinha, em lembrança ao que me descreveu do seu recanto de final de semana, dedicada também à alegria e ao privilégio de tê-la comigo. Confesso que fico envergonhada, mas tem tanto carinho em cada palavra, que me atrevo a lhe enviar.
Receba e leia com seu coração, mas critique com sua razão!
Deus a abençoe!
Com amor, a abraço.


RE-ENCONTRO
(Selma Regina de Moraes)

Passarinhos entoam um hino ao Criador
Sob a orquesta do vento que os embala
A tarde ensaia uma coreografia com a natureza
Com as árvores todas em animação festiva
Pelos olhos de uma fada, acompanho o ritual
O pulsar do seu coração denuncia o êxtase
Capaz de alcançar e contagiar o meu próprio

Não estamos sós na imensidão dos mundos
Há sempre sintonia entre os que se irmanam
E mesmo a anos-luz de distância e de silêncio
Caminhando no percurso necessário das existências
A afinidade se encarrega de conduzir ao (re) encontro.

quarta-feira, 24 de março de 2010

PRIMEIRA VIAGEM DE ÔNIBUS DEPOIS DE PARAPLÉGICA



Assistindo ao capítulo da novela VIVER A VIDA, que exibiu Luciana se transportando de önibus coletivo, vi-me na personagem e voltei no tempo.
Colei aqui excerto do meu livro PÁSSARO SEM ASAS, em que conto façanha similar.
Aproveito do ensejo para elogiar a feliz escolha do tema da novela, com tantos pormenores, alicerçados na realidade fática.
Significa um plantio, uma valoração que, com certeza, redenderá muitos frutos, melhorando a nossa inclusão social e estimulando o respeito.

PRIMEIRA VIAGEM DE ÔNIBUS DEPOIS DE PARAPLÉGICA
(Genaura Tormin)

Mesmo exercendo a titulância de uma delegacia contestadora e pesada, à noite eu lecionava. O magistério sempre me fascinou. Pesa-nos a responsabilidade pelo direcionamento eficaz, mas gratifica-nos pela obra que poderemos erigir.

Dessa vez, a matéria era Deontologia Policial, ciência do que é justo e conveniente que o policial faça. É a ética agindo sobre ele. Estabelece normas diretoras sob o signo da honestidade.

A ética estuda o caráter das pessoas, os usos e costumes com o estabelecimento de um conjunto de normas, regras e valores que se referem ao que a gente chama de: a conduta livre, a conduta justa, e a conduta feliz. Trata da liberdade, da responsabilidade e da felicidade no mundo das paixões, explica Marilena Chauí.

Apesar de não existir, na época, muita matéria didática sobre o assunto, os anos de vivência policial davam-me o passaporte para a cadeira. Minha força de expressão, a capacidade de fazer amigos e a identificação com a matéria majoravam-me a vontade de viver. O conhecimento que passava sempre centrado em exemplos vivos lapidava alguma faceta humana.

Lecionava para agentes, escrivães, escriturários, comissários e para os novos delegados que faziam o curso de formação. Nunca vira turma tão entusiasta como a desses delegandos. Egressos de seleção acurada apresentavam grandes conhecimentos jurídicos e distinguiam-se como pessoas excelentes no contexto social. Muitos tinham sido advogados militantes, assessores jurídicos ou desempenhado outros encargos de responsabilidade. Como exemplo, a Dra. Ivatônia, moça determinada, estudiosa, hoje, juíza no Distrito Federal, além de muitos outros que se destacam em cargos de direção, mandatos eletivos etc.

Felizmente, consegui realizar a tarefa a contento e fazer-me benquista entre eles. Parecia que força maior corroborava os meus ensinamentos.

Numa confraternização do curso, eis-me a caminho do Rio Araguaia, divisa de Goiás. O convite fora-me feito de maneira tão carinhosa que não poderia recusar. A amizade é o elo de estima entre os seres humanos; é ato de valoração e deve ser recíproco.

Dois ônibus conduziam os alunos delegandos. Era a primeira vez que me transportava de ônibus desde que ficara paraplégica. Meu espírito combativo, aventureiro, não hesitara em concorrer à normalidade dentro de um ônibus coletivo. Não existem problemas insolúveis. Entendo que não se deve pautar a vida pela espera sempre. É como esclarece José Ingenieros: “O amanhã é a mentira piedosa com que se iludem as vontades moribundas”. Com criatividade, tudo fica acessível, sem descalabro nem tristeza.

De bermuda, tênis e camiseta, num traje especificamente esportivo como os demais, lá estava eu, ocupando a quarta poltrona do ônibus, logo apelidado de “escolar”, junto ao Alfredo.

A viagem fora animada, como não poderia deixar de ser. O violão soltava sua lira na parte traseira do ônibus, regido pelo Dr. Rosival Reis. Músicas e mais músicas. Agüenta coração!

Na madrugada, cortávamos a cerração que se condensava no alto das colinas feito picos gelados, no desejo de penetrarmos às praias feiticeiras do grande Rio Araguaia. Queríamos sentir o cheiro agreste das matas impregnadas de segredos e lendas, ver o crepúsculo, as revoadas de pássaros, o sol bailando nas águas e a lua namorando a praia.

No trajeto, tomávamos cerveja em lata e até uma pinguinha de engenho por lá aparecera como “cachimbo da paz”.

Como não podia descer para ir ao banheiro, usava a latinha de cerveja como invólucro do mais precioso líquido — xixi. Alfredo havia-me passado uma sonda vesical (foley) para condicionar-me às oito horas de viagem. Assim estava tranqüila. De vez em quando introduzia meu fino pênis (a sonda) na lata e, disfarçadamente, resolvia o problema. Que felicidade! Como tinha a agradecer àquela minúscula latinha que dividia comigo a sua utilidade! A mangueirinha bege, de 20 cm de comprimento, servia de ponte para o jeitinho brasileiro.

Por que ficar triste por isso? Realmente era uma solução diferente, mas não deixava de ser uma solução, o que era mais importante. Quando a gente se aceita como é, tudo fica normal e simples. As dificuldades são creditadas como mérito nosso.

Com o sol avermelhado, qual bola de fogo mostrando a sua cara no horizonte, aos primeiros refegos do vento, colorindo a manhã de púrpura incandescente, chegamos ao Rio Araguaia. Tudo estava envolvente como as imagens que bailavam em nossas mentes. O prefeito de Aruanã, cidade às margens do rio, esperava-nos com foguetes e
churrasco.

Sujeito engraçado, o prefeito! Amável e brincalhão. Conseguira barracas do Exército e montara uma cidade ribeirinha para nós, numa das muitas ilhas do rio.
Logo, formamos um comitê na barraca do casal de delegandos Míriam e Manoel, legítimo representante da turma. Que casalzinho porreta, diziam todos.

Doutor Manoelzinho,
Da turma é a mascote,
Anima o pessoal,
Mas também tem pulso forte,
Ao lado de sua Mirinha,
Conquista de Sul a Norte.

O som do violão, o murmúrio da brisa na fronde das árvores, o remanso das águas e a cadência dos nossos cantores formavam um corolário de amor. Que paz, que transcendência, que convite ao infinito, tão diferente do cotidiano de um Delegado de Polícia em meio à turbulência de uma delegacia — pensava eu, ao tomar a última gota de cerveja do copo.

— Está bem servida, doutora? — perguntara o Dr. Eduardo.
— Estou me sentindo no melhor dia da vida! Sou pacifista e também passional! Gosto da singularidade da natureza. É o verdadeiro altar da existência. O cheiro de mato, o gorjeio dos pássaros, esse sol transverberado nas águas comovem-me, atiçam a minha sensibilidade. A alegria de vocês, a areia deslizando sob os meus pés, e ainda, a lira desse violão, acariciam minha alma, transportam-me ao céu. Se desencarnasse agora, partiria feliz. Vivo todos os momentos como se fosse o último. Mas este momento, este lugar, este ar bordado de aromas excedem os limites de uma mulher-amante. Arranje-me uma caneta e um pedaço de papel. Vou saudar o Rio Araguaia:

Ao Rio Araguaia

Você, que corre sereno,
E a natureza floresce,
Formando ilhotas tão lindas,
Que a nossa alma enaltece,
Oh! Querido Araguaia,
Você parece uma prece!

Os nossos olhos vagueiam
Nas águas deste gigante,
Envolto em orquestras mil
E gorjeios delirantes
De revoadas de pássaros
E pôr-do-sol ofegante.

É a tela mais bonita
Feita pelo Criador,
Com desnudo matizado
Mesclado de aroma e cor,
Que se banha em suas águas
Num espetáculo de amor.

Oh! Meu querido Araguaia!
Pedaço de coração,
Regaço de leite e mel,
Berço de emoção,
Orgulho do chão goiano,
Versos de minha canção!

A turma eclodiu em palmas. Elogios dali, daqui e a vida passando da melhor maneira que podíamos aproveitá-la.

De vez em quando, fazia uma trovinha para ouriçá-los. Sempre em caráter brincalhão, aproveitando as frases soltas em conotações diferentes. Sempre havia um jeitinho para mexer com alguém, provar a esportiva...

O senhor Brasil, tio do Manoelzinho, assava o churrasco e jamais me esquecia. Lógico! Meus passos eram muito pesados na areia. As pernas de aço cavavam o solo, querendo enterrar-se nele. Não vencia distância em pleno areal. O meu direito de ir-e-vir estava comprometido. Só a minha imaginação sobrevoava todo o sacrário ecológico do Araguaia, admirando os fenômenos, a beleza da natureza selvagem desnudada em troncos curtidos, deixados abandonados à margem do remanso.

— Da próxima vez, vou mandar apensar rodas de buggy na minha cadeira.

Cantei uma música em castelhano (Sabor a mi). O Dr. Reni acompanhou-me ao violão. É também um saudosista. A turma gostou. Mas alguém gostou muito mais. Quem sabe, trouxera-lhe o passado, abrira-lhe a cicatriz. Era o “seu” Brasil, que deixou o espeto e deu-me um beijo com a afirmativa de que o fazia como se fosse à sua própria mãe.

Está aqui o Brasil,
Patriota de verdade,
Que guarda a simpatia,
E também a lealdade,
Fala o que é preciso,
Mas só dentro da verdade.

Até um beijo me deu
E de mamãe me chamou.
Eta, bichinho danado,
Que pode ser meu avô,
Pensou em não me ofender,
Mas no meu cordel dançou.

domingo, 21 de março de 2010

UMA REFLEXÃO


UMA REFLEXÃO
(Genaura Tormin)

Um encontro nacional de pessoas com deficiência física, realizado na minha cidade. Eu estava lá, estreando, aprendendo, participando, conhecendo o meu novo habitat.

Como principiante, sentia-me intrusa naquele ambiente que jamais havia sido meu. O visual impregnava-me de compaixão, apesar de os deficientes serem alegres e extrovertidos. Faziam brincadeiras e elogiavam a hospitalidade goianiense e até a alimentação (mísera marmitex industrializada).

Eram humildes, acostumados às crueldades da vida. Via-se que a maioria apresentava baixo poder aquisitivo. Alguns ocupavam cadeiras de rodas, em cujo encosto lia-se em letras garrafais: “DOAÇÃO DO PALÁCIO DO GOVERNO”.

Era o inverso do enunciado bíblico: “Quando deres, faça-o com a mão sem que a outra perceba”.

O ônus pago pela cadeira de rodas, necessidade número um da pessoa que não pode dela prescindir para deambular, era elevado demais. Significava dizer a todos: “Sou tão inválido e pobre que não pude comprar a minha própria cadeira de rodas”.

Era o preço da humilhação, portanto, mais caro do que uma cirurgia de grande porte, pois a ferida não sara e fica sempre à mostra para o escarneo público.

Aquilo para mim era cruel. Era a exploração camuflada de solidariedade para arrebanhar a anuência da massa de manobra, numa vil propaganda. Por isso eles eram a estampa do Cristo Crucificado; espectros de seres, sem auto-estima, vivendo por viver e, ainda, ostentando, aonde quer que vão, a propaganda do GOVERNO-PAI.

Abomino tal conduta, a qual se enquadra como ato típico perfeito de roubo da dignidade. E dói muito quando feito pelos governantes que apenas administram as receitas oriundas dos nossos impostos e têm por obrigação o soerguimento social.

É preciso que haja consciência, que haja voz para denunciar tais deslizes que, por vezes, aleijam mais do que a própria deficiência, pois comprometem a mente, o equilíbrio, a auto-estima e o desejo de continuar vivendo.

Ali, eu era a mais recente paraplégica. Era caloura na profissão de não marcar passadas no chão.

domingo, 14 de março de 2010

MEU FILHO, ÉS UM PRESENTE!


MEU FILHO, ÉS UM PRESENTE!
(Genaura Tormin)

Psiu!!!
Mais um aniversário!
Aqui estou pra te abraçar,
Te dar o meu carinho,
E de amor te falar.

Hoje, volto no tempo.
Sinto-me ainda a paparicar a cria.
Uma gentinha nova envolta em panos,
Que para mim sempre sorria.
Quase não acredito que sou a tua mãe,
Que te peguei no colo, te contei histórias,
Ninei pra te embalar o sono.

Amores são tantos,
Multiplicados, somados, divididos...
Mas o de mãe é sempre único,
Grande, feito o universo.
É um poema que lateja,
Rimado no calor de muitos versos.

O liame de afeto nunca se rompe!
Provém da eternidade,
Quando ainda éramos só espíritos,
E selamos essa cumplicidade.

Vim na frente
Para te preparar o berço,
Te receber em meu ventre,
Ser o adubo para cresceres contente.

Meu filho,
És um presente!
Deus te abençoe,
Hoje e sempre!

Beijo grande da
Mamãe.

TIMONEIRA DO TEMPO


TIMONEIRA DO TEMPO
(Genaura Tormin)

Abrolham em mim
Os espinhos dos penhascos,
As nascentes dos riachos,
E tudo se faz dolente
Ao morrer o sol.

Não há estrelas no firmamento.
Sem magia, sem fantasia,
Sou a timoneira do meu tempo.
A noite é fria e a vida vazia.

Velejo no dorso do vento.
Ancoradouro, já não existe.
Perdeu-se na ribanceira.

À deriva meu barco flutua.
Na pele o chicote da noite
Sob a solidão e o clarão da lua

domingo, 7 de março de 2010

MULHER, MUSA DO AMOR



MULHER, MUSA DO AMOR
(Genaura Tormin)

Mulher, doce escultura,
Musa de todos os versos,
Invólucro de paixão.
Do teu semblante
Irradia a ternura,
A bondade,
O benquerer, a compaixão,
O que a faz criadora e criatura.

Mulher/menina,
Anjo de candura.
Adolescente,
Palco de todos os sonhos.
Sorrisos escancarados,
Cabelos soltos ao vento
Nas algazarras do mais verde tempo.

E os papéis se multiplicam
Em partilhas de amor.
Namorada,
Esposa, mãe, confidente, amiga,
Profissional aguerrida,
Trabalhadora,
Incansável intercessora.
Fada/madrinha,
Sempre benfeitora!
Uma rainha!

Seus ombros
Podem carregar o mundo
E em seu ventre
A vida floresce
Num ninho de amor fecundo.

quarta-feira, 3 de março de 2010

MINHA CRIA, MINHA VIDA


MINHA CRIA, MINHA VIDA!
(Genaura Tormin)

Trago o meu abraço,
Meus versos, minha canção,
Para um menino bonito
Que mora no meu coração.

É meu filho muito amado,
Elo de minha corrente,
Caráter determinado,
O que me faz muito contente,
Pois além de tudo isso,
Ainda é meu confidente.

Mais um ano palmilhado!
Aqui estou eu pra lhe abraçar,
E dizer que é um prazer,
Ter sempre ao meu lado você,
Até nas lides do Judiciário!

Meu rebento, minha cria!
Hoje é o seu ANIVERSÁRIO!
Muita paz, muita alegria,
Meu colega de trabalho!

Parabéns, FERNANDO!
Amo muito você!
Beijo grande da
Mamãe.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A PARÁBOLA DOS TALENTOS


A PARÁBOLA DOS TALENTOS
(Genaura Tormin)

"Não se pode servir a Deus e a Mamon"
(Capítulo XVI, 6 a 8)


É um prazer encontrar-me novamente entre vocês!
Saúdo a todos, inclusive aos espíritos desencarnados aqui presentes.
"Que a paz esteja sempre entre nós!"

Pedindo a intercessão dos espíritos protetores para, mais uma vez, ajudar-me a tocar os nossos coração no plantio de uma boa semente, vamos, numa só voz, reafirmar o nosso compromisso de amor: "Irmãos de toda Terra, amai vos uns aos outros!!!

O tema de hoje é o capítulo XVI, 6 a 8, do Evangelho Segundo o Espiritismo.

Como sempre, Jesus falava por meio de parábolas. As Parábolas, geralmente têm dois sentidos: o material e o espiritual. O material é de fácil entendimento porque são os fatos do nosso dia-a-dia. O espiritual, depende da evolução do espírito, da capacidade de assimilação de cada um. Por isso, as interpretações podem ser diversas. As parábolas nos convidam a uma profunda meditação. É preciso senti-las e vivê-las para compreender os ensinamentos contidos.

Desta vez, é a Parábola dos Talentos.

Jesus conta que um homem tendo que fazer uma grande viagem, chamou os seus servidores, colocando em suas mãos os seus bens. Para um deu 5 talentos, para outro 2, e para o último 1 talento. Os dois primeiros trabalharam de tal forma que os talentos se duplicaram, enquanto que o último, achando pouco e pensando na severidade do seu patrão, enterrou-o para garantir a sua restituição.

No retorno, o patrão chamou-os a prestar contas, ocasião em que os dois primeiros servidores foram elogiados por haverem duplicado os talentos e o patrão, ainda, acrescentou-lhes os haveres, admoestando severamente o último servo que se mostrou preguiçoso, indolente, pessimista e nada produziu. O patrão ordenou que o talento lhe fosse tomado e dado ao que agora tinha 10 talentos, além de determinar que o servo indolente, preguiçoso, fosse lançado nas trevas exteriores, onde haveria choros e ranger de dentes.

Conotativamente falando, é o que acontece conosco. Deus nos deu o dom da vida e nos agraciou com muitas possibilidades para conseguirmos alcançar o Reino de Deus. Cabe a nós a disposição para tal. Além de um coração transbordante, Deus deu-nos a inteligência, o livre arbítrio e as ferramentas para a feitura de uma boa jornada, como por exemplo: dois braços, duas pernas, ouvidos, olhos, a fala... E muitas vezes, ficamos na ociosidade ou empregamos o que ele nos deu para praticar o mal.

Lógico que dessa forma teremos de arcar com responsabilidades, que são representadas pelos percalços, os sofrimentos que aqui passamos. Ele quis que entendêssemos que não se deve dar ao homem o que ele pode ganhar com o fruto do seu trabalho, sob pena de roubar-lhe a dignidade. É a lei da justeza. E isso é bíblico, estampado na célebre frase: “Comerás o pão com o suor do teu rosto”.

Nesta parábola vemos o valor do trabalho, da fidelidade, do esforço para vencer barreiras, e principalmente de nossa missão para com o planeta, pois formamos uma única família. Não estamos aqui por acaso. Estamos em missões na busca do caminho para Deus.

E isso não é fácil. Demanda atributos da alma, determinação... É preciso que sejamos laboriosos, pois sabemos que todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus e ao próximo, pelo menos os mais próximos. Quando procuramos ser úteis à vida, ela nos agradece compensando-nos. É a lei do retorno.

Por isso, mãos à obra! Trabalho, trabalho e mais trabalho. Cabeça oca é sempre oficina para o diabo. Trabalho não mata. É não se fazendo nada que se aprende a fazer o mal. O trabalho ocupa o tempo. Constrói prodígios. Além de tudo, significa prece! É uma das mais lindas formas de orar!

O tempo que é o senhor da razão, vai bendizer o fruto do nosso esforço, colocando-nos em semelhantes condições à do servo fiel e laborioso. E isso se chama SUCESSO!

É crescimento espiritual, é ascensão rumo a Casa do Pai, desde que o façamos dentro dos parâmetros da dignidade, do amor ao próximo e da justiça. Com certeza, quando os nossos pensamentos são leais, Deus nos auxilia.

Com o trabalho, lógico que se amealha riqueza. E Deus não a abomina, pelo contrário, a abençoa. Ele nos criou para sermos felizes.
Por isso é necessário sermos sábios para sabermos conservar a caridade, a compaixão, e não fazermos do materialismo o nosso senhor, acarretando mais débitos para existências futuras.

A riqueza não é nociva à salvação. Se o fosse, o trabalho que a consegue seria condenável. E com certeza, viveríamos em um mundo de miséria, fadado a doenças, lamúrias, sem progresso.

É verdade que a riqueza é uma prova muito perigosa e se mal administrada, leva-nos facilmente à soberba, ao orgulho, a patamares terráqueos exacerbados de egoísmo, de sensualidade, que nos fazem esquecer o caminho para o céu.

É por isso que o rico tem sobre os ombros uma carga maior de responsabilidades para não se deixar levar pelo apego exagerado aos bens terrenos, esquecendo-se da lei do amor. Isso sim, é um grande obstáculo ao propósito a que Deus nos destinou.

O homem tem por missão o aprimoramento do globo, preparando-o para receber, alimentar e educar a população que sua extensão comporta. Razão por que precisa de riquezas para custear pesquisas, no sentido de desenvolver o progresso, a tecnologia, a cibernética, a relação entre os povos para troca de conhecimentos, incluindo aí a troca de solidariedade. É a riqueza que permite o recolhimento de impostos que se revertem em bem para a coletividade, de modo geral.

Não há igualdade distributiva de riquezas entre os homens da terra em razão de suas individualidades, no tocante à inteligência, aptidões e disposição para conservá-las... Isso é natural. Somos individualidades. Cada um persegue seus sonhos com maior ou menor vagar.

Os escritos espíritas dão-nos conta de que a riqueza é deslocada incessantemente para não se tornar improdutiva. Cada um tem a sua vez, possuindo-a a seu turno. Quem não a tem hoje, já a teve ou terá noutra existência. Tudo são provas para exerecitar a paciência, a caridade e a abnegação, contribuindo para o nosso processo evolutivo.

A maneira de demonstrar o nosso amor a Deus é intrínseca, peculiar, mas encontra-se, principalmente, no amor, compaixão e solidariedade que devotamos aos nossos semelhantes, independentemente de quaisquer que sejam as suas religiões, pois pessoas diferentes têm disposições mentais diferentes. A melhor religão é aquela que nos faz melhores. Daí a variedade de religiões. Porém, Deus é o centro de tudo. É o timoneiro da embarcação que não nos deixa à deriva.

Quanto mais nos aproximarmos da caridade, tanto mais destemidos nos tornamos, mesmo diante de circunstâncias desastrosas. É a caridade o estandarte maior da Doutrina Espírita.

Orar e vigiar os atos para não cair em tentação é uma boa prática, pois significa um constante lembrete dos nossos princípios e convicções diários mais arraigados. Orar não significa que tenhamos, impreterivelmente, que exercitá-la apenas em templos. Orar é policiar os pensamentos, é avocar o bem, de maneira que os nossos atos, a nossa fala impulsionem sempre o nosso interlocutor à senda do amor, ou simplesmente, possam ser exemplos dignos de serem seguidos. A verdadeira espiritualidade é uma atitude mental que se pode praticar a qualquer hora.

A vida não erra! Se um fato nos parece errado, é porque não estamos conseguindo ver a verdade. Devemos pedir entendimento. É na queda que os rios adquirem forças. Mais aprendemos com os erros do que com os êxitos, porque eles se gravam mais profundamente em nossa consciência. O espírito sabe tirar proveito evolutivo das experiências adversas para convertê-las em ascensão.

Somos livres para errar, porque a evolução deve nortear-se pela liberdade relativa. Porém é ônus nosso arcar com a certeza de conseqüências dolorosas. A evolução está no constante desabrochar de faculdades novas, erros, correções, reciclagens e aprimoramento. Por isso, devemos estar alerta sempre, pois somos herdeiros dos nossos atos e senhores das nossas colheitas.

Somos responsáveis por tudo que nos acontece na vida. Nossas atitudes criam nosso destino. Não existe injustiça. Deus está no comando de tudo. Se fomos atingidos por essa ou aquela tragédia, foi porque precisávamos aprender alguma coisa.

Geralmente são mestres que nos ensinam o caminho, diminuindo os nossos débitos aqui. Pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si. Temos de nos fortalecer num só espírito-de-corpo, como irmãos que somos em Cristo.

O Reino de Deus requer vivência. Ele nos vem pelo amoroso e altruístico servir aos nossos semelhantes. Na verdade, SERVIR é a palavra de comando, o caminho mais curto, o mais seguro e o mais agradável que nos conduz a Deus.

Aprenda a perdoar. Quando há entendimento, a mágoa desaparece e não há necessidade de perdão. Ele vem sorrateiro, sem que percebamos. Tudo se reveste de paz, pois o bem é Deus dentro da gente. Evite ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do cotidiano.

Evite ser desse tipo de pessoas que vivem a dizer: eu não disse!, eu sabia!, bem feito! Evite ser o professor sarcástico, pronto a escarnecer, sem nada fazer. Ajude, pois "benfeitor é o que ajuda e passa. Amigo é o que ajuda em silêncio. Vencedor é o que consegue vencer a si mesmo".

Não jogue fora esta extraordinária oportunidade de habitar este orbe terrestre, acomodando-se como o servo preguiçoso da parábola. Faça valer sua passagem por aqui, lembrando-se de que é ilusão pensar que a vida, que já é tão pequena, termina com a morte. O espírito é eterno.

No universo nada se perde, tudo se transforma. É como prega a lei de Lavoisier. A morte é uma transformação. Apenas mudamos de vestimenta. Mas o espírito continua do mesmo jeito, consciente de tudo, com os mesmos amores e desejos que sempre tivera, embora, quando reencarnado não tenha essa lembrança. Isso significa uma bêncão, para que possamos construir, crescer e evoluir. Sabemos, inclusive, que o espírito geralmente reencarna entre as pessoas com quem tenha desenvolvido laços anteriores, o que justifica a necessidade de ajustes pendentes para se cumprir a lei do Amor.

Jesus quis dizer claramente que: fora da caridade não há salvação
(Várias modalidades de caridade)

Lembremo-nos de que todo homem é um milagre de Deus e traz em si uma revolução, que é muito maior do que dinheiro, porque a importância está no espírito. Fomos criados para construir pirâmides e versos, para nos tornar anjos, habitar a Casa do Pai. Ele mesmo disse: A casa de meu Pai tem muitas moradas. Cada homem foi feito para fazer história.

O avançado da hora se registra. Caminhamos para o término deste meu gostoso convívio com vocês. Esperando ter conseguido construir algum bem, vamos arrematar com uma reflexão sobre o exercício desta caminhada que chamamos de vida, estampada na transparência acima:

"Viver ...
É ter consciência da realidade que se esconde atrás da aparência.
É ver além dos cinco sentidos.
É enxergar com os olhos da alma ...
A vida materializa nossos pensamentos.
Conforme acreditarmos, ela se torna.
Cultivando o medo, a falta de amor, o egoísmo e a descrença, não há nada a construir.
Não é esse o caminho.
As pessoas querem, mas suas atitudes revelam o oposto.
Para receber é preciso primeiro dar.
Para atrair é preciso irradiar.
Essa é a força da vida!
Se Deus colocou tanta beleza, tanta vida,
tanta alegria e perfume em simples flores,
o que não terá feito com o Homem?!?
Deus sempre faz o melhor.
Ele nos deu beleza, sentimento, alegria, bondade e a possibilidade de escolher.
A dor, o sofrimento, a maldade, o ódio,
a ignorância vêm da nossa necessidade de perceber.
Deus permite o contraste para que possamos enxergar claro.
De que adiantaria acender uma luz na claridade?
É nas trevas que ela é percebida.
Sem a tristeza, a alegria não seria apreciada.
Sem a carência, a abundância não teria significado.
Somos todos crianças na "escola da vida".
Durante nossa "infância", precisamos experimentar
para ganhar senso de r e a l i d a d e ...
O sofrimento é pano de fundo para que o bem seja notado.
Baseado na perfeição de Deus, a natureza nos ensina isso.
Basta olhar.
Não lhe parece que um Deus tão extraordinário, tão criativo,
que colocou tanta beleza, tanto perfume na simplicidade de uma flor, que enfeitou nosso mundo com um céu tão azul, um mar tão belo,
tudo para nos fazer felizes,
só nos destina à FELICIDADE e à ALEGRIA ... ( ?!?)"

A dor serve para nos levar aos cuidados da preservação.
É um alerta que nos adverte que algo não está bem.
Sem ela, não teríamos referencial.

O CAMINHO QUE O LEVARÁ À FELICIDADE
COMEÇA EM VOCÊ MESMO!!!


Trechos do livro:
" Pelas portas do coração "
Zibia Gasparetto

Palestra proferida por Genaura Tormin,
na Irradiação Espírita Cristã, em Goiânia Go.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

OBJETIVO



OBJETIVO
(Genaura Tormin)

Quero plantar o que aprendi,
Agradecer o que recebi,
Carpir o terreno em parceria,
Jogar sementes ao vento,
Reflorestar o pensamento.

Quero levar a alegria,
No solfejo do meu canto.
Por companhia quero
O encanto de uma noite estrelada,
O suave trinar de pássaros,
O remanso de riachos,
O cheiro de terra molhada,
E muitas flores em cachos.

O objetivo é
Alcançar distâncias,
Redimensionar valores,
E ver a semente vingar,
Banindo tristezas e dores,
Para tudo melhorar.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

AUSTERO ANJO DA GUARDA


AUSTERO ANJO DA GUARDA
(Genaura Tormin)

Eis-me de volta às atividades policiais. Agora na Delegacia de Crimes de Acidentes de Trânsito. O trabalho é sempre a melhor das terapias. Mesmo humilde, dignifica o homem, devolve-lhe o sentimento de utilidade. É o bom combate, como disse o apóstolo Paulo.

Por carência de escrivães e material permanente, no início fiquei alguns dias sem função, apenas com a obrigação de marcar presença, o que me passava a sensação de preterimento. Entretanto outro delegado adjunto fora lotado ali. Formamos uma dupla à espera de condições para atuar.

Com o meu jeito extrovertido, brincalhão e, às vezes ousado, apresentei-me ao colega, dei-lhe boas-vindas, contei que era recém-chegada, estava ainda sem função, porém, recursos humanos e materiais estavam sendo remanejados para suprir a necessidade e dar-nos condições de trabalho, pois trabalho era o que não faltava. Mesmo com uma vida inteira doada ao mister de fazer polícia, não conhecia o delegado nem ele a mim, embora fosse veterano na classe.

Sinceramente, o doutor parecera-me ensimesmado, enclausurado, deixando transparecer o garbo nas poucas palavras. O corpo atleta e a tez moreno-queimada eram marcantes de sua masculinidade, emprestando-lhe bonito visual.

Como sua colega de trabalho, seria de bom alvitre que desenvolvêssemos uma relação amistosa, mas o reticente doutor sempre estava a ler jornais ou introspectivo num lugar qualquer. Passara-me a impressão de não lhe haver sido simpática, pesando-me a obrigação de revertê-la.

Nossas conversas eram, praticamente, um monólogo de minha parte. Não desisti. Falei-lhe de política, de trabalho, das pernas de aço e até de Pássaro Sem Asas, enquanto ele, simplesmente, meneava a cabeça em afirmativas ou negações. Até hoje nada sei do enigmático colega com quem trabalhei por mais de dois anos. Porém, devo-lhe gratidão e já o inseri no rol dos meus benfeitores. Esporadicamente, chamava-o de “Anjo da Guarda” e ele não sabia o porquê.

Num desses monólogos, contei-lhe de minha atuação na delegacia anterior quando agilizava minha tarefa e diminuía o trabalho aos meus comandados, deixando lá uma cadeira de rodas que me era trazida à porta do carro por um policial, por meio do simples acionamento da buzina, convencionado como código. Manifestei a intenção de exercitar o mesmo procedimento, tão logo estivesse em plena atividade, pois assim diminuiria o trabalho de ter sempre que tirar e pôr a cadeira no porta-malas do carro, uma vez que me conduzo sozinha.

Para minha surpresa, o colega respondera:
— Não creio que os policiais queiram se prestar a tal trabalho de bom grado. Nas primeiras vezes, até pode ser... Mas o certo é que eles terão vergonha de empurrar cadeira de rodas.

Senti como se tivesse levado um bofetão ou ficado nua em público. Olhei-me e vi-me paralítica. O sangue aflorara-me às faces e o nariz ficara feito um pimentão maduro. Controlei a reação e disfarcei o desapontamento. Juro que senti vergonha e medo de mim mesma. Mas ele tinha razão. Era a verdade nua e crua que eu nunca tivera a oportunidade de experimentar. Na delegacia anterior era titular, tinha sob a minha égide toda a equipe de funcionários que se debulhava em préstimos e atenções, fazendo-me querida. Em casa e entre amigos, pela mesma forma. Por isso parara no tempo e jamais havia atinado para tão grande dependência.

Foi aí que me lembrei das esnobes madames que não carregam sacolas ou embrulhos. E uma cadeira de rodas seria motivo muito maior de constrangimento, principalmente em público.

O doutor tinha razão! Apenas, estava sendo sincero e direto, banido da preocupação de agradar-me ou não — pensei atordoada, sem conseguir esconder os olhos marejados e o coração dolorido.

Escritura do tempo

Acuada pelos preconceitos,
Cavalgo no dorso da vida.
Rasgo sonhos para engendrar versos.
Alongam-se pelejas.
Cálida, ainda estou
A semear afeto e lágrimas.

Escritura do tempo,
Vou registrando os dias.
De instantes vazios
E certezas incógnitas,
Reconstruo a vida.
Teço a síntese de saudades fugidias,
Argamassa de sonhos,
E guardo no peito
Os retalhos do que sou.

No rosto,
O sorriso, a coragem
E o encantamento de viver.
Em estado de paixão
Tento superar as perdas
E o amor ainda se faz em mim.

Naquele dia, retornara a casa com mais uma preocupação: conseguir, eu mesma, colocar a cadeira de rodas dentro do carro a qualquer custo. Era a minha mais nova batalha. Havia driblado tantas outras, e por que não essa?

À noite, não conseguira conciliar o sono, pondo-me mais uma vez à procura de soluções para a esmagadora realidade. A voz do colega ficara gravada nos meus ouvidos e repetia-se sem tréguas: “... eles terão vergonha de empurrar cadeira de rodas.”

Amanhecera! Um dia lindo, meio peralta, exibindo um sol maravilhosamente brilhante que me acariciava as faces através da janela do quarto, bisbilhotando minha intimidade com feixes de raios incandescentes, feito colares de pedras transverberadas numa policromia indescritível. Alfredo acabava de chegar de mais uma noite de plantão. Sem nada comentar, tomei o elevador e fui até a garagem no subsolo.

Lá, o ambiente estava propício ao meu novo aprendizado. Não havia ninguém. Nem mesmo o faxineiro. Passei para o banco do motorista, tirei as rodas da cadeira, acomodei-as na poltrona traseira e tentei passar o seu corpo (da cadeira) por cima do volante, com a intenção de colocá-lo no assento do passageiro. Por mais que tentasse, o esforço era em vão. Não tinha equilíbrio e as forças estavam minadas com o peso da cadeira. Era como se uma formiga quisesse carregar um elefante. Não desisti. Permaneci ali, tentando, tentando, procurando o jeito, respaldada na afirmativa popular: “não é questão de força física, mas de jeito”.

Após três horas, voltara a casa com as vestes molhadas de suor e o rosto parecendo tampa de chaleira. Mesmo não tendo alcançado nenhum progresso, a minha determinação era ferrenha. Iria tentar tantas vezes fossem necessárias para conseguir o meu intento. Não podia subjugar-me ao corpo paralítico. A mente estava bem direcionada.
À tarde, no trabalho, não vi o colega delegado, mas começava a devotar-lhe gratidão.
Nas manhãs seguintes, os treinos continuaram cada vez mais acirrados e com efeitos proveitosos. Parecia que ganhava musculatura e força, mas quase sempre voltava com escoriações nas coxas, motivadas pelos parafusos da cadeira, além de danos materiais no volante, no painel do carro e nas minhas vestes.

Não podia perder a esperança. Lembrava-me de Martin Luther King: “Não podemos acabar com a noite, mas poderemos acender as luzes”. E eu esperava essa hora. Tinha que existir uma saída, uma luz. Até que encontrara o tão almejado jeito: sobrepus a traseira da cadeira sobre o batente da porta do carro e reclinei o banco do motorista, ficando quase deitada, quando me senti equilibrada e com força suficiente para levantar o corpo da cadeira, passá-lo por cima e posicioná-lo ao lado (a cadeira é compacta, não fecha em X, apenas o encosto dobra sobre o assento). Pronto! Havia conseguido! A persistência é mesmo o caminho para o sucesso! Eu havia vencido!!!!

Fiz tudo de novo para confirmar e voltei ao apartamento com o sabor da conquista estampado no rosto. Até uma vizinha que encontrei no elevador referira-se ao meu aspecto de felicidade. Nada comentei. Estava ainda sob o impacto da emoção. Acho que mereceria até um “Oscar” pela façanha. Não via a hora de fazer a demonstração para o Alfredo, os filhos, e, principalmente, no trabalho, quando esnobaria a minha nova condição igual a dos andantes: sem ajuda de ninguém. Que independência estava a experimentar! O coração estava em festa e mais essa vitória juntar-se-ia ao arsenal de minha trajetória pela vida.

Hoje, locomovo-me sozinha para qualquer lugar, sem ter de pedir favores ou ficar dependendo de terceiros. Realmente, Aristóteles Onassis tinha razão: “O homem só fracassa quando desiste de tentar.” O fracasso é companheiro das vontades moribundas.
À porta da delegacia, diante dos colegas, era motivo de felicidade fazer o meu “show” todos os dias, como costumo dizer ao colocar a cadeira no carro, dispensando ajuda.

Mesmo com tantas vitórias, lá no fundo da alma, batia uma saudade do tempo em que as conquistas eram outras e o caminhar era ato tão normal que eu nem me dava conta de sua importância. É, para sermos felizes é necessário que tenhamos sido infelizes antes. É o preço do conhecimento, da valoração. É lamentável que o caminho para tão importante aprendizado tenha de ser por meio da dor. O caminho das pedras...

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

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Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)



"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)