PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

ESTOU NO CAMINHO


ESTOU NO CAMINHO
(Genaura Tormin)

Faça sol ou faça frio,
Eu sigo contente
A minha estrada!
O fardo é pesado
E o meu jugo oprime,
Mas o amor me redime.

Faz-me seguir o destino,
Fruto de minhas escolhas!
O amor é o escudo,
A bússola que me orienta,
A estrela que me guia.

Na aljava seguem as armas,
A proteção para os meus pés,
O alimento para a alma.
Estou no caminho!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

TETO DO MUNDO


TETO DO MUNDO
(Genaura Tormin)

Ao amanhecer
O sol desponta no horizonte.
A natureza se rejubila em festa,
Desfolhando versos
Nos ninhos que se multiplicam.
A brisa acaricia a ramagem,
Sobe às colinas...
Os riachos correm dançando,
Abraçam os rios,
Alimentam várzeas e peixes,
E seguem cantarolando para os mares.

É a vida fluindo contente
Na policromia dos vales e montes,
Das flores e fontes.
Não há lamentos!
Tudo a seu tempo renasce,
Floresce e encanta,
Na orquestra de cada manhã.
Depois, o sol vai descansar.
Vem a noite em seu manto de gala
Integrar a perfeição do Universo,
Rendilhando de estrelas,
O TETO DO MUNDO.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O TREM NÃO ATRASA

Flores de minha casa espiam a rua por mim.

O TREM NÃO ATRASA
(Genaura Tormin

Existência guardada
Na caixa do tempo,
No relógio da vida,
Onde vaga a memória
Na justeza dos atos,
Da consciência tranquila.

Viver é isso:
Evoluir, crescer...
Para depois partir.
A passagem de volta,
Há muito foi agendada
E o trem não atrasa,
Parte na hora marcada.

Em títulos da alma,
Transcende a bagagem
Na paz do caminho,
No final da estrada.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

CARINHO DE UM POETA PORTUGUÊS


Costumo postar os meus textos também no HORIZONTE DA POESIA, um site português, uma Confraria de execelentes poetas daquele país lusitano, terra-mãe do nosso Brasil. Primam pelos bons textos, pela sensibilidade e pelo calor humano.

O poeta é um plantador, e a ele cabe alistar-se na semadura do bem, na construção de um porvir melhor.

Preocupo-me com isso e curvo-me com respeito diante desses sensíveis trabalhadores, cujos escritos em verso e prosa se multiplicam mundo afora na construcão de tanto bem, de tanto alento, de tantas lições benfazejas, hoje veiculadas, como num passo de mágica, por essa maravilhosa rede mundial de computadores que abraça a todos, mesmo em países cujo vernáculo é diferente. Isso é ascensão!

Ainda recente, publiquei um capítulo do meu livro PÁSSARO SEM ASAS, intulado "EU PRECISAVA CHORAR", naquele Site.

Realmente, eu precisava chorar mesmo, pois os relatos ali enfeixados são verdadeiros, escritos com a dor de quem protagonizou ou protagoniza na escola vida, uma história de dificuldades, de machucaduras, cuja opção é apenas VENCER OU VENCER.

Contudo, sinto-me uma campeã. Venci a batalha, subi ao pódium e recebi o troféu.
Por isso divido o caminho a que me propus enfrentar com os meus leitores, para justificar o meu pedido de alistamento como recruta nesse batalhão do bem.
_________________

Assim, percebi com espanto que o texto ganhara muitas leituras e, além dos muitos comentários postados, encontrei também um poema.

Encantou-me o carinho do colega, o que me faz dividir com vocês a grandeza desse poeta, bem como a excelência de seus versos que me fizeram muito contente.

CARINHO DE UM POETA PORTUGUÊS

"Eu li com emoção o que escreveste:
A confissão da pena, da tristeza,
Que fez desaparecer no azul-celeste
O Ser que te gerou, sua grandeza

Grandeza que ao dizeres transparece
Em todos estes termos comoventes;
Grandeza que ganhaste e fortalece
As pernas que sem força estão dormentes

E como tu recordas a criança
Que num dia tão triste quis dar colo...
Numa atitude digna de esperança
Que esses conselhos seus dessem consolo...

A vida te foi dura e de embaraço
Para a fazeres em pleno em teu desejo!
E sei não te curar com um abraço...
E sei, também não curo com um beijo

Mas hoje que estás mais habituada
E encaras como dizes já feliz,
Desejo que tu vás vencendo a estrada!
Que o Amor seja pra ti sempre a raiz!

Um beijo
Joaquim Sustelo"

Querido amigo,
Que prazer ler tão lindo poema e sabê-lo feito para mim. Sua carga de sentimento e ternura acalenta-me a alma, faz-me contente e feliz. Mais uma vez, sinto que acertei ao enfrentar as agruras do caminho, transformando-as em aprendizado e ascensão rumo aos objetivos a que me propus. Você é um excelente poeta, cuja sensibilidade escapa-lhe, ornando os versos, sublimando num benfazejo plantio. Não mereço tanto, mas agradeço. Vou guardar o seu gesto no meu coração.
Obrigada
Beijo grande da
Genaura Tormin
Gyn 05.05.2011

domingo, 17 de julho de 2011

BREVÊ


BREVÊ
(Genaura Tormin)

Embora brancos estejam os cabelos,
Eu me vejo criança a pedir colo,
Implorar guarida.

Ainda tenho medo de ficar sozinha!
Medo da escuridão,
Do vento que soluça ao meu ouvido.
Tenho medo da chuva
Que tamborila na vidraça...
Medo do bicho papão,
Da minha infância tão distante!

Ainda preciso que me segurem a mão.
Tenho medo de fantasmas.
E quantos fantasmas bordaram a minha vida!
A fragilidade bate-me à porta.
Toma-me a alma em desalento.
A máscara caiu, obsoleta e fria.
Já não preciso dela.

Quero o direito de ser boba, frágil, idiota...
Estou pedindo alforria.
Não quero mais ser gente grande.
As crias cresceram e partiram.
Estão seguindo as suas trilhas.

Cumpri o dever e exerci o pacto do amor,
Que impregnado, melhorou-me o ser.
Mais aprendi que ensinei.
Agora, eis que estou a devolvê-las.
Afinal é a sina de todas as mães,
Pois os filhos não são nossos.
São empréstimos de Deus,
Cabendo-nos o feitio de suas asas,
E o brevê para voarem sozinhos,
No céu de suas vidas.

sábado, 16 de julho de 2011

IMAGEM BONITA


IMAGEM BONITA
(Genaura Tormin)

Estou no teu pensamento,
Numa imagem bonita,
No sentimento que me dedicas.
Sou jovem, sou velha,
Sou o tempo, a experiência,
A caminhada, ladeiras e decidas...
Sou argamassa em tuas mãos.

O barro do oleiro,
A arte do artesão.
Sou a canção de uma noite fria,
A solidão do seresteiro,
Ou o canto dolente do boiadeiro.
Quero escalar o infinito,
E deixar meu grito para o mundo inteiro.

terça-feira, 14 de junho de 2011

O MÉRITO NÃO FOI MEU


Eis mais um capítulo do meu livro - PÁSSARO SEM ASAS! Um brinde aos meus leitores. Espero que gostem, pois a premissa maior alicerça-se na coragem e na vontade de seguir em frente!

O MÉRITO NÃO FOI MEU
(Genaura Tormin)


Passaram-se alguns anos desde a última vez que, voluntariamente, dirigi meus passos, impregnando formas no chão. Fisicamente não consegui andar, mesmo envidando muitos esforços. Entretanto minhas pegadas avolumaram-se na caminhada do bem servir e no conhecimento do existir, tornando-me forte e altiva, apesar do rangido brusco de quatro rodas pelo chão.

Dentro de minhas limitações, sou livre: corro em idéias, em versos, em sorrisos, em trabalho, em transcendências ao infinito.
Ouso dizer que o mérito não foi meu, mas de toda a família, parentes, colegas de trabalho, amigos e conhecidos, a quem cabe a responsabilidade pelo meu desejo, cada vez maior, de vencer.

Rendo gratidão aos espíritos evoluídos dos meus superiores da Secretaria da Segurança Pública e Justiça do Estado de Goiás que me conservaram no cargo, valorizando a minha competência, embora a natureza do trabalho exercido ali fosse, em princípio, um paradoxo à minha condição física. Entenderam que o maior potencial está na disposição para vencer, além do preparo técnico-científico inerente ao exercício do cargo. Naquela época, trabalhar numa cadeira de rodas era um fato estranho, quase inusitado, embora a deficiência constitua uma parte natural da experiência humana. E o exemplo ficou para todos os órgãos públicos e privados.

Atribuo o maior mérito ao meu querido Alfredo que em nenhum momento tem-se cansado da caminhada. Combativo, determinado, não tem poupado esforços para me devolver não duas pernas, mas uma miríade delas. Sinto-me uma centopéia. Estou cheinha de pernas. Mais do que preciso. Ambos chegamos a uma autotransformação mediante um processo de evolução consciente. Mesmo quando eu menos mereço, ele é capaz de me amar. A ele, reitero o meu carinho, a minha gratidão. Nossa cumplicidade tornou-nos imbatíveis e unos. A ele o carinho dos meus versos:

INDIVISIBILIDADE

Quando tu partires
Irei contigo.
Levarei o aconchego da noite
Para te fazer feliz.

Serei suave,
Feito o balanço do mar,
Para te amar,
Amor.

Irei contigo
Aonde fores.
Tuas pegadas
Serão as minhas pegadas,
E eu te amarei
Em todos os momentos.

Não choraremos
Porque as lágrimas secaram
Com o sol da manhã,
Fazendo-nos fortes
A qualquer embate.

Irei contigo
Até o infinito,
Onde tudo é perfeito,
Sem dor,
Sem mutilação,
Sem medo.

Irei contigo,
Amor,
Porque faço parte de ti,
E tu és tudo
Que sempre cultivei em mim.
Assim,
Seremos indivisíveis,
Unos e eternos.

Alfredo estava sempre comigo nas primeiras vezes. Juntos, ganhamos a corrida. Subimos ao pódio. Ganhamos o troféu.
Voltei a fazer tudo o que fazia antes. Às vezes a situação torna-se apenas engraçada, nunca impossível.

Trabalho todos os dias e nos feriados e fins de semana vou à cozinha, arrumo armários, conserto roupas como toda dona de casa. O fazer não está sempre adstrito em subir escadas para alcançar armários embutidos, mas administrar, estar presente, coordenar, dar as cartas. Assim as barreiras não existem. Os encargos são-me atribuídos como antes. Não sou vista diminuída, mas até acrescida. Permito-me todos os afazeres: comigo, com o marido, com os filhos e com o meu trabalho. Se o avançado da hora se registra e o dever me chama, aceito ajuda como qualquer pessoa andante, não como dependente.

A vida social continua. Participamos até de bailes. Temos uma Associação de Delegados, com excelente sede e farta pista de dança, onde praticamos lazer, trocamos idéias, tomamos uma cervejinha e dançamos. No início, os colegas paparicavam-me muito. Aproximavam-se de nossa mesa para fazer-nos companhia e externar solidariedade. Usavam o elogio para compensar a disfunção dos meus membros inferiores, tão indispensáveis para a dança, o que eu retrucava com galhardia:
— Você não leu o “Meu pé de laranja-lima”, de José Mauro de Vasconcelos, Saint Exupery... “O essencial é invisível aos olhos, é preciso buscar com o coração”. Por isso, colega, fui eu quem iniciou a dança, quem inaugurou a pista. Adoro dançar! Danço em cada um de vocês e com cada um de vocês. Em cada passo, estou atenta para não errar. Danço com a alma, com o coração e sinto que a cada dia bailo melhor, encontro-me com a vida e sou feliz.

Aprendi a conviver pacificamente com as amarras da deficiência. Não me reconheço no passado. Acho que sou uma nova mulher. Gosto-me assim. Consigo driblar dificuldades e isso significa muito para mim.

De todas essas dificuldades, a falta de sensibilidade é a que mais dói e a que mais deve ser observada. Certa vez fui a um jantar dançante. Dias depois, minha família percebera um enorme hematoma na minha região lombar, nível da cintura. Surpresa! Lógico, uma grande interrogação. Imbuindo-me do costumeiro papel de detetive de mim mesma, concluí que teria sido provocado pela dança na cadeira de rodas. Certamente, o cinto de metal formado de elos que eu usava naquela noite, provocara atrito nas protuberâncias da coluna vertebral. Hoje danço sem o cinto de elos, mas importa-me muito os elos de afetividade que consigo ligar entre os meus leitores, entre amigos, entre as pessoas com quem desenvolvo algum diálogo. Minha meta é a paz interior e eu sei que a vida me aponta caminhos para isso. Como partícipe, sei que preciso dividir e a melhor maneira de pensar em mim, é pensar em todos. A felicidade coletiva necessita de coadjuvantes. Ela não pode existir sem esforços. E, com certeza, fiz-me recruta, estou alistada no batalhão desses servidores, por princípio, por convicção.
Não lamento o que fazia antes, mas fico satisfeita com o que ainda posso fazer. Acho-me perfeccionista e esmero-me na execução. Não sou narcisista, mas gosto de sentir o mérito da conquista.

Acredito em Deus como integração, por isso os meus retalhos adormecidos ganharão movimentos algum dia, quem sabe noutra galáxia.

Numa semelhança quixotesca, vou cruzando horizontes em vôos alados, impulsionada pelo reconhecimento e o carinho das pessoas que me cercam. O meu trabalho abre caminhos, cria consciência popular, valoriza seres humanos olvidados. E é isso que me gratifica. Vale por todos os salários recebidos. É o que posso fazer pelo meu irmão de barco, pela pessoa com deficiência física, tão preterida neste País.
Fiquei muito feliz ao ser valorizada pela então miss Brasil, Jaqueline Ribeiro Meireles, quando de uma matéria jornalística intitulada: “As mulheres impõem a Lei”. O texto discorria sobre o meu trabalho policial, encimando minha fotografia de cadeira de rodas, descortinando nuances até sobre Pássaro Sem Asas.

A misse endereçou à reportagem a seguinte missiva: “A chefe de jornalismo da Revista Presença. Parabenizo-a por legar a Goiás uma revista bonita em visual e, mais ainda, em conteúdo. Na qualidade de misse Brasil, achei linda a Delegada de Menores de Goiânia, em plena atuação e numa cadeira de rodas. Sua beleza interior, sua sensibilidade, sua coragem e sua abnegação enchem-nos de entusiasmo e vontade de viver. Genaura é mais que uma pessoa da Lei; é mais que uma esposa e mãe; é mais que um exemplo de vida! É, sobretudo, uma paraplégica que consegue ‘voar’ bem alto sem as suas preciosas asas. Que vocês possam continuar publicando essa linda revista, com assuntos tão enobrecedores, para que o mundo fique um pouquinho melhor, e as pessoas que possuem ‘asas perfeitas’ possam também alçar vôos de beleza, de alegria e de trabalho como Genaura. Beijos. (assinado) Jaqueline Ribeiro Meireles”.

Eu não merecia tantos elogios. Confesso que fiquei emocionada, principalmente partidos de uma misse Brasil. Para Jaqueline, o meu agradecimento sincero e toda a minha admiração.

Realmente, nesses anos todos não consegui melhora no quadro locomotor. Tudo permanece inalterado desde aquela noite fatídica, no Hospital Neurológico, em que os cobertores não aqueceram o meu frio, o qual se agregara a mim, compulsoriamente. Contudo as minhas conquistas tornaram-me andante: tiro e ponho sozinha a cadeira de rodas no carro e corro ao seu volante, o que caracteriza uma grande independência, além de haver conquistado o meu espaço de cidadã, tentando nivelar-me aos andantes.
Mais do que nunca, sinto-me senhora do meu pleno equilíbrio. “Sou como a rocha nua e crua onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a esmo. Posso cair. Caio. Mas caio de pé por cima dos meus escombros”. Embora não haja a força motora para fisicamente conservar-me ereta, alicerço-me nas asas da coragem para sobrevoar com dignidade esses escombros.

Transpus muitas barreiras até mesmo a do sexo. Não há impossíveis quando envidamos esforços verdadeiros para a superação ou a substituição por valores semelhantes.
A natureza é sábia e a lei da compensação é uma verdade. Quando há uma disfunção ou falta de um órgão, os sentidos encarregam-se do trabalho e ficam muito mais aguçados. O cego, por exemplo, possui a audição perfeita e, por meio dela, compensa a sua disfunção visual, bem como desenvolve as percepções sensoriais e extra-sensoriais, podendo perceber cores por suas vibrações através do tato.

Assim o que me restou ficou muito mais sensível: o beijo mais gostoso e o prazer muito maior com as carícias nos lóbulos das orelhas, cabelos, olhos, ombros, pescoço, seios e, principalmente, nas axilas que, para minha satisfação, substituiu os enleios de prazer do órgão genital. Posso afirmar que não fico a ver navios. Amo e sou amada.

Sexo, para mim, não significa somente contato genital, mas envolve aura, mente, sublimação... Por isso exercito a minha sexualidade num olhar de ternura, num articular de lábios, numa palavra de amor ou, simplesmente, num copo de suco tomado a dois.

Sexo é a sublimação do amor. Fora desse parâmetro, é fisiologismo. O amor procura o sexo e o sexo coroa o amor, ambos alimentados pela vivência, pelas trocas diárias, pelos frutos desse amor...

Amor é procura do eterno.
É a consciência cósmica penetrada em nós.
É a forma mais linda que Deus encontrou para que o homem fosse criatura e criador: propagasse a espécie.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

QUEREM CARREGAR O MEU FARDO


Eis mais um dos capítulos do meu livro - PÁSSARO SEM ASAS!
Um brinde aos meus leitores. Espero que gostem, pelo menos da sinceridade e da coragem de abrir o coração, mostrar a minha privacidade e, especialmente, o tamanho das dificuldades que tive que enfrentar. Hoje, digo: SEM CORAGEM NÃO SE VAI A LUGAR NEHUM!

QUEREM CARREGAR O MEU FARDO
(Genaura Tormin)

Papai estava em nossa casa. Era a primeira vez que nos visitava depois que eu saíra do hospital. Tinha medo de me ver na cadeira de rodas. Como estava bonito, o meu pai! O seu semblante era marcado por preocupação e tristeza, embora escondidas sob a barba que deixara crescer desde a fatalidade que se abatera sobre mim, ou melhor, sobre nós. Para os pais, a gente é sempre criança e necessita de cuidados. Papai não deixara de trazer-me algum agrado: mel de abelha para tomar nas manhãs; doce de leite, requeijão e, ainda, banha de carneiro para fazer-me andar.

— Filha, aqueça esta banha, esfregue nas pernas e enfaixe com ataduras de crepom que vai ajudá-la muito. Fiquei sabendo de um homem que estava como você e andou.
— Obrigada, papai! O senhor é um amor de pessoa! Se eu não voltar a andar, não fique preocupado, pois prometi a mim mesma que vou voar. Vou ficar alada, papai! Vou ter asas e ficar mais veloz. Vou voar com os pássaros na amplidão, nesse infinito azul cheio de liberdade. Vou até as constelações. Quem sabe visitarei a estrela do meu tempo de criança? Lembra-se? Aquela que piscava, piscava e o senhor dizia que ela estava me chamando.

— Você não deixa de fazer brincadeiras. Com coisa séria não se brinc! Lembro-me de que, quando pequerrucha, queria trabalhar no circo. Queria ser artista, equilibrando-se até sobre a sela do cavalo, quando, às vezes, tinha que levar umas palmadas.

— É papai, isso mesmo! Está vendo que a gente consegue o que deseja! Talvez eu quisesse ser trapezista. Agora, vou mesmo exercer algo parecido pelo menos em desafio. Escute só: não vou aposentar-me. Amanhã vou assumir o cargo de Delegado de Polícia no Nono Distrito Policial! Valeu? Vou desafiar paizinho! O senhor já ouviu falar de alguma delegada de cadeira de rodas? Vou ser a primeira! Talvez queiram pôr na minha cadeira um motorzinho V-8, com injeção eletrônica, turbinado... E eu vou botar pra quebrar com um trinta-e-oito na cintura. Já pensou numa estrada reta, a 280 km por hora! Ninguém fará melhor trabalho que eu, o senhor não acha?

— Credo! Pára de falar besteiras! Imagine se Alfredo e eu vamos permitir tal coisa! Fale sério! Pare de rir. Nunca vi uma pessoa numa cadeira de rodas com tanta alegria! Todas que pude ver em Minas Gerais tinham semblante de sofrimento.

— Paizinho, eu vou trabalhar! Vou ser uma Delegada de Políci! Passei no concurso e já fui nomeada. O senhor não se orgulha de mim? Ser delegado é ser chefe. Não vou sair com trinta-e-oito nenhum. Nunca levei jeito para isso. O que vou fazer é instaurar procedimentos policiais, dar ordens, inquirir testemunhas, requisitar perícias, exames de lesões corporais e muitos outros. Terei uma equipe de policiais a meu serviço. Amanhã será o meu primeiro dia de trabalho e o senhor irá comigo. Não posso perder tempo. Vamos conversar na varanda. Tenho que fazer os exercícios, senão, além de não andar, vou ter problemas de osteoporose e calcificação nas articulações. Estou estudando Medicina, sabia? Acho que depois dessa paraplegia vou ser médica charlatã.

Com roupa de malha, fomos para a varanda onde papai ajudou a colocar-me sobre o acolchoado, no chão, para os primeiros exercícios daquele dia: os manuseios feitos pela Edna, minha prima, que voltara a morar conosco.

Para auxiliar-me, ela fizera estágio no Hospital Sarah Kubitschek e, como técnica de fisioterapia, é uma excelente profissional. Moça alta, vistosa, de uma simpatia à flor da pele; muito brincalhona, carregava no rosto um aspecto trigueiro, sempre com um sorriso. Gostava de comparar as pessoas com as aves, e até imitava os seus gorjeios. Ela floreava as frases e a gente acabava sempre às gargalhadas. Edna era mesmo uma pessoa especial em época também muito especial. Frequentemente encontrava uma maneira engraçada para resolver os problemas. Às vezes, saíamos juntas para as visitas, supermercados e até para o cinema. Com ela, sentia-me protegida.

Numa dessas andanças, perguntaram-lhe se eu falava. Após uma mesura e uma olhadela estupefata da Edna, não pude manter-me séria. Ambas caímos na gargalhada, como se não fôssemos mais parar.
A pergunta não ficara sem resposta.
— Não! Ela não fala, só ri — dissera a Edna, limpando os olhos.

— Não me olhe com essa tristeza, papai! As pernas não estão finas. É a falta de controle sobre elas que transmite “peninha”. Estou ótima! Não vê que estou alegre?! A gente não pode ser misse a vida inteira. Os anos já lhe pesam, mas o senhor está muito bonito nessa idade! Entre as pessoas com deficiência, também posso ser vistosa, o senhor não acha?

Papai continuava calado. Olhava-me sempre e seguia os manuseios que a Edna fazia nas minhas pernas.
— Agora de gatão! — exclamara a professora.
Imediatamente obedeci e eis-me feito um grande bebê, querendo engatinhar.
— Para frente! Para trás! — comandava ela.

Por vezes, perdia o pouco equilíbrio e caía para a lateral. O esforço era muito grande para me levantar. Sob meu comando, apenas estavam a cabeça, os braços e as escápulas. Pouco para puxar uma jamanta, como dizia a Edna. Então, ileso era o “cavalo”, isto é, a parte dianteira de um caminhão. A jamanta, talvez carregada de aço, era o resto do meu corpo. Engraçada a comparação. Moça criativa, a Edna!

Alfredo costumava supervisionar os trabalhos. Dava sempre uma chegadinha ao nosso ginásio de fisioterapia. Elogiava os avanços e fazia exigências, fazendo-me querida.
Depois do gatão, Edna declinava o próximo exercício:
— De joelhos!

Nesse momento, papai indignado interpelara:
— Isso não! Assim é judiar demais! Você não vê que ela está paralítica? Por que ainda fazer penitência?
Caímos na gargalhada e até o maridão não deixara de acompanhar-nos. Contudo exclamara:

— É, meu sogro, ela precisa fazer penitência para recuperar os passos. Mas a Edna exagera muito. O senhor verá muita coisa ainda!

Pobre papai! Homem do interior que vivera a maior parte da sua vida no campo, na lavoura, cuidando do gado, não havia acompanhado o progresso das grandes cidades. Com o seu coração de pai, tentava me proteger. Não entendia que eram exercícios, e indispensáveis, aquelas posições.

Agora seria a vez das paralelas. Edna acoplara-me ao aparelho ortopédico com botas e com a ajuda do Alfredo fui colocada na vertical, segurando-me nas paralelas (dois canos galvanizados, paralelamente dispostos à altura do quadril). Estava de pé. Olhava a todos testa a testa. Estava alta, arrogante. Será que era alta assim? Os saltos de quatro centímetros das botas, para compensar os tendões das pernas que se encurtaram, não poderiam ser esquecidos.

Papai, sisudo, parecia não gostar daquele espetáculo. Tantos amarrilhos, hastes de metal, cinto de metal, até que desabafou:
— Isso parece arreio de cavalo!
— Não, meu sogro, tutor longo com cinto pélvico! — retrucara Alfredo. — Isso é para fazer circular o sangue, melhorar as funções intestinais, urinárias, e ainda evitar osteoporose nas pernas, pois o cálcio que ingerimos em forma de alimento não é absorvido pelos ossos se eles não estiverem em uso. Assim, meu sogro, os ossos ficam fracos, como se estivessem brocados. Por isso Genaura precisa ficar de pé. As pernas precisam sentir o peso do seu corpo.

— Coitada de minha filha, paralítica! — entoara sentido, o papai.
— Paralítica, não! Deficiente! — Atalhou imediatamente o Alfredo, como se as duas palavras não fossem sinônimas. Era mesmo o desejo de não me machucar, não me ofender.
Acho que papai e Alfredo sofriam muito mais do que eu que estava sendo protegida por todos os lados. As crianças faziam as suas partes, dando-me carinho exagerado.

Nas paralelas, vendo-me estampada num grande espelho à frente, apetrecho imprescindível para a correção da postura e dos passos, observava o golpe que a vida havia-me desferido. Como criança indefesa, pensava em mamãe. Ah, se ela estivesse viva! Certamente viria morar conosco para amenizar-me a falta de locomoção.

Mamãe era disposta, alegre, extrovertida. Para ela, não havia impossíveis. Possuía um coração imenso e espiritualizado. A importância maior era dirigida aos filhos que, como ela sempre dizia, constituíam o seu tesouro. A felicidade da gente era muito mais a felicidade dela.

Mamãe era líder. Aonde chegava, encantava sempre. Fora muito bonita nos verdes anos. No entanto era a sua beleza interior que impregnava a todos. O sorriso largo, os olhos azuis e a imagem de fada madrinha enchiam de luz qualquer lugar. Gostava muito de cantar, declamar... Como gostava de ouvi-la cantar as românticas músicas do seu tempo. Poesias épicas, ela sabia de cor e as recitava com galhardia.

Agora como estava precisando dela! Que saudade dolorida arrebatava-me o peito! Será que estaria à minha espera na eternidade? Como não nos é dado decifrar o após morte, mas acreditando na imortalidade da alma, mamãe até poderia estar ali, num corpo etéreo, velando por minha vida, dando-me apoio e insuflando-me coragem como sempre o fizera nos meus momentos mais difíceis. Era no seu regaço que os problemas revertiam-se em “coisinhas banais, corriqueiras, plenamente resolvíveis”.

Hoje, pensar que a sua presença translúcida amaina o meu caminho, canta para dissipar minha tristeza, encoraja-me nos fracassos, diminui minha condição de órfã para arremessar-me ao alto, vendo-me pelo crânio e não pelos pés que, há muito, não impregnam formas no chão.

MINHA MÃE

Minha mãe!
Quanta saudade!
Brado o seu nome
E tenho o eco por resposta.

O telefone do céu está mudo.
Há muito tempo vivo órfã!
Preciso de um colo
Para descansar meu corpo,
Preciso de um ombro
Para chorar.

Mãe,
Preciso de você para me guiar!
Queria dar-lhe o carinho que guardei.
Dizer da vida,
Das dores, dos amores
E das quedas que levei.
Estou indefesa,
Uma criança outra vez.
São tantas as queixas...

Mãe,
Sua presença me devolve a paz.
A silhueta etérea me acompanha
E sob as suas asas sou amada.
Mas é sempre em sonho
E você me deixa quando alguém me toca.
A claridade quebra o encanto.
E ainda por um instante, deixa-me fitar
Os olhos azuis de quem eu amo tanto!

domingo, 8 de maio de 2011

SAUDADES DE MINHA MÃE


SAUDADES DE MINHA MÃE
(Genaura Tormin)

Mãe,
Mais um tempo se passou!
Os olhos lacrimejam
E ferido está o coração.
A caminhada ficou dolorida,
Alcantilada e fria,
Sem rumo, nem direção.

Como sinto a tua falta!
O cansaço faz-se plangente,
E os passos trôpegos
Vão machucando a gente.

Ainda sou refém do tempo,
Argamassa do oleiro,
Na esperança de ser pássaro
E poder voar aos teus braços.

domingo, 1 de maio de 2011

DIA MUNDIAL DO TRABALHO


DIA MUNDIAL DO TRABALHO
(Genaura Tormin)

Somos uma Nação organizada, tutelada! Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido, diz a nossa Lei Maior.
Como princípios fundamentais encontram-se a cidadania, a dignidade da pessoa, os valores sociais do trabalho, entre outros.

E o trabalho remonta aos tempos do homo sapiens, das cavernas, por estar ligado à sobrevivência. Trabalho significa dignidade. É a possibilidade de o ser humano conseguir o sustento da família, sem ajudas vexatórias. Daí a frase que costumo repetir: Não se deve dar ao homem o que ele pode conseguir com o fruto do seu trabalho sob pena de roubar-lhe a dignidade.

Com o passar dos séculos e com a evolução dos povos, naturalmente, necessário se fez a normatização das condutas, consuetudinária ou não, para garantir direitos às relações entre os indivíduos.

E no século passado, mais precisamente, nos idos de 1934 a 1937, no nosso torrão brasileiro, sob o domínio de um Presidente altruísta e determinado, o gaúcho Getúlio Vargas, homem de grande visão política das condições existenciais daquela época, nascia as Comissões Mistas de Conciliação e Julgamento, embrião que veio a se transformar na JUSTIÇA DO TRABALHO, braço do Poder Judiciário, vislumbrada na Constituição do Brasil, ainda getulina, de 1946, ano de minha estréia como ser vivente em terras nordestinas deste meu querido Brasil! Conotativamente, o meu desvelo pelo trabalho, pela satisfação de poder emprestar minha participação, embora, agora, numa cadeira de rodas.

Conhecedora da sua eficácia, por integrar-lhe os quadros há alguns anos e por me preocupar com o lado sociológico do nosso povo, posso afirmar sem medo de errar, que se trata da justiça mais acessível, mais célere e a mais democrática deste país! Uma conquista e uma necessidade para resguardar as relações sociais, também advindas do crescimento da tecnologia, principalmente da informática, industrialização, globalização, cujas lides processuais sobrecarregam o Judiciário.

Trata-se de uma Justiça Especializada, como a de vários outros países do mundo, como a da Alemanha que se parece muito com a nossa, a da Inglaterra, a da Suécia, a da França, a da Bélgica e outras mais.

E hoje é o DIA 1º DE MAIO, dia mundial do trabalho! É com o trabalho que se erradica a pobreza, a marginalização, reduzindo as desigualdades sociais, garantindo-se o Estado Democrático de Direito.

É de bom alvitre lembrar que somos a décima economia do planeta, graças ao trabalho daqueles que com o suor do rosto e com as mãos laboriosas sustentam o país nesse patamar.

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

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Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)



"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)