PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

QUEREM CARREGAR O MEU FARDO


Eis mais um dos capítulos do meu livro - PÁSSARO SEM ASAS!
Um brinde aos meus leitores. Espero que gostem, pelo menos da sinceridade e da coragem de abrir o coração, mostrar a minha privacidade e, especialmente, o tamanho das dificuldades que tive que enfrentar. Hoje, digo: SEM CORAGEM NÃO SE VAI A LUGAR NEHUM!

QUEREM CARREGAR O MEU FARDO
(Genaura Tormin)

Papai estava em nossa casa. Era a primeira vez que nos visitava depois que eu saíra do hospital. Tinha medo de me ver na cadeira de rodas. Como estava bonito, o meu pai! O seu semblante era marcado por preocupação e tristeza, embora escondidas sob a barba que deixara crescer desde a fatalidade que se abatera sobre mim, ou melhor, sobre nós. Para os pais, a gente é sempre criança e necessita de cuidados. Papai não deixara de trazer-me algum agrado: mel de abelha para tomar nas manhãs; doce de leite, requeijão e, ainda, banha de carneiro para fazer-me andar.

— Filha, aqueça esta banha, esfregue nas pernas e enfaixe com ataduras de crepom que vai ajudá-la muito. Fiquei sabendo de um homem que estava como você e andou.
— Obrigada, papai! O senhor é um amor de pessoa! Se eu não voltar a andar, não fique preocupado, pois prometi a mim mesma que vou voar. Vou ficar alada, papai! Vou ter asas e ficar mais veloz. Vou voar com os pássaros na amplidão, nesse infinito azul cheio de liberdade. Vou até as constelações. Quem sabe visitarei a estrela do meu tempo de criança? Lembra-se? Aquela que piscava, piscava e o senhor dizia que ela estava me chamando.

— Você não deixa de fazer brincadeiras. Com coisa séria não se brinc! Lembro-me de que, quando pequerrucha, queria trabalhar no circo. Queria ser artista, equilibrando-se até sobre a sela do cavalo, quando, às vezes, tinha que levar umas palmadas.

— É papai, isso mesmo! Está vendo que a gente consegue o que deseja! Talvez eu quisesse ser trapezista. Agora, vou mesmo exercer algo parecido pelo menos em desafio. Escute só: não vou aposentar-me. Amanhã vou assumir o cargo de Delegado de Polícia no Nono Distrito Policial! Valeu? Vou desafiar paizinho! O senhor já ouviu falar de alguma delegada de cadeira de rodas? Vou ser a primeira! Talvez queiram pôr na minha cadeira um motorzinho V-8, com injeção eletrônica, turbinado... E eu vou botar pra quebrar com um trinta-e-oito na cintura. Já pensou numa estrada reta, a 280 km por hora! Ninguém fará melhor trabalho que eu, o senhor não acha?

— Credo! Pára de falar besteiras! Imagine se Alfredo e eu vamos permitir tal coisa! Fale sério! Pare de rir. Nunca vi uma pessoa numa cadeira de rodas com tanta alegria! Todas que pude ver em Minas Gerais tinham semblante de sofrimento.

— Paizinho, eu vou trabalhar! Vou ser uma Delegada de Políci! Passei no concurso e já fui nomeada. O senhor não se orgulha de mim? Ser delegado é ser chefe. Não vou sair com trinta-e-oito nenhum. Nunca levei jeito para isso. O que vou fazer é instaurar procedimentos policiais, dar ordens, inquirir testemunhas, requisitar perícias, exames de lesões corporais e muitos outros. Terei uma equipe de policiais a meu serviço. Amanhã será o meu primeiro dia de trabalho e o senhor irá comigo. Não posso perder tempo. Vamos conversar na varanda. Tenho que fazer os exercícios, senão, além de não andar, vou ter problemas de osteoporose e calcificação nas articulações. Estou estudando Medicina, sabia? Acho que depois dessa paraplegia vou ser médica charlatã.

Com roupa de malha, fomos para a varanda onde papai ajudou a colocar-me sobre o acolchoado, no chão, para os primeiros exercícios daquele dia: os manuseios feitos pela Edna, minha prima, que voltara a morar conosco.

Para auxiliar-me, ela fizera estágio no Hospital Sarah Kubitschek e, como técnica de fisioterapia, é uma excelente profissional. Moça alta, vistosa, de uma simpatia à flor da pele; muito brincalhona, carregava no rosto um aspecto trigueiro, sempre com um sorriso. Gostava de comparar as pessoas com as aves, e até imitava os seus gorjeios. Ela floreava as frases e a gente acabava sempre às gargalhadas. Edna era mesmo uma pessoa especial em época também muito especial. Frequentemente encontrava uma maneira engraçada para resolver os problemas. Às vezes, saíamos juntas para as visitas, supermercados e até para o cinema. Com ela, sentia-me protegida.

Numa dessas andanças, perguntaram-lhe se eu falava. Após uma mesura e uma olhadela estupefata da Edna, não pude manter-me séria. Ambas caímos na gargalhada, como se não fôssemos mais parar.
A pergunta não ficara sem resposta.
— Não! Ela não fala, só ri — dissera a Edna, limpando os olhos.

— Não me olhe com essa tristeza, papai! As pernas não estão finas. É a falta de controle sobre elas que transmite “peninha”. Estou ótima! Não vê que estou alegre?! A gente não pode ser misse a vida inteira. Os anos já lhe pesam, mas o senhor está muito bonito nessa idade! Entre as pessoas com deficiência, também posso ser vistosa, o senhor não acha?

Papai continuava calado. Olhava-me sempre e seguia os manuseios que a Edna fazia nas minhas pernas.
— Agora de gatão! — exclamara a professora.
Imediatamente obedeci e eis-me feito um grande bebê, querendo engatinhar.
— Para frente! Para trás! — comandava ela.

Por vezes, perdia o pouco equilíbrio e caía para a lateral. O esforço era muito grande para me levantar. Sob meu comando, apenas estavam a cabeça, os braços e as escápulas. Pouco para puxar uma jamanta, como dizia a Edna. Então, ileso era o “cavalo”, isto é, a parte dianteira de um caminhão. A jamanta, talvez carregada de aço, era o resto do meu corpo. Engraçada a comparação. Moça criativa, a Edna!

Alfredo costumava supervisionar os trabalhos. Dava sempre uma chegadinha ao nosso ginásio de fisioterapia. Elogiava os avanços e fazia exigências, fazendo-me querida.
Depois do gatão, Edna declinava o próximo exercício:
— De joelhos!

Nesse momento, papai indignado interpelara:
— Isso não! Assim é judiar demais! Você não vê que ela está paralítica? Por que ainda fazer penitência?
Caímos na gargalhada e até o maridão não deixara de acompanhar-nos. Contudo exclamara:

— É, meu sogro, ela precisa fazer penitência para recuperar os passos. Mas a Edna exagera muito. O senhor verá muita coisa ainda!

Pobre papai! Homem do interior que vivera a maior parte da sua vida no campo, na lavoura, cuidando do gado, não havia acompanhado o progresso das grandes cidades. Com o seu coração de pai, tentava me proteger. Não entendia que eram exercícios, e indispensáveis, aquelas posições.

Agora seria a vez das paralelas. Edna acoplara-me ao aparelho ortopédico com botas e com a ajuda do Alfredo fui colocada na vertical, segurando-me nas paralelas (dois canos galvanizados, paralelamente dispostos à altura do quadril). Estava de pé. Olhava a todos testa a testa. Estava alta, arrogante. Será que era alta assim? Os saltos de quatro centímetros das botas, para compensar os tendões das pernas que se encurtaram, não poderiam ser esquecidos.

Papai, sisudo, parecia não gostar daquele espetáculo. Tantos amarrilhos, hastes de metal, cinto de metal, até que desabafou:
— Isso parece arreio de cavalo!
— Não, meu sogro, tutor longo com cinto pélvico! — retrucara Alfredo. — Isso é para fazer circular o sangue, melhorar as funções intestinais, urinárias, e ainda evitar osteoporose nas pernas, pois o cálcio que ingerimos em forma de alimento não é absorvido pelos ossos se eles não estiverem em uso. Assim, meu sogro, os ossos ficam fracos, como se estivessem brocados. Por isso Genaura precisa ficar de pé. As pernas precisam sentir o peso do seu corpo.

— Coitada de minha filha, paralítica! — entoara sentido, o papai.
— Paralítica, não! Deficiente! — Atalhou imediatamente o Alfredo, como se as duas palavras não fossem sinônimas. Era mesmo o desejo de não me machucar, não me ofender.
Acho que papai e Alfredo sofriam muito mais do que eu que estava sendo protegida por todos os lados. As crianças faziam as suas partes, dando-me carinho exagerado.

Nas paralelas, vendo-me estampada num grande espelho à frente, apetrecho imprescindível para a correção da postura e dos passos, observava o golpe que a vida havia-me desferido. Como criança indefesa, pensava em mamãe. Ah, se ela estivesse viva! Certamente viria morar conosco para amenizar-me a falta de locomoção.

Mamãe era disposta, alegre, extrovertida. Para ela, não havia impossíveis. Possuía um coração imenso e espiritualizado. A importância maior era dirigida aos filhos que, como ela sempre dizia, constituíam o seu tesouro. A felicidade da gente era muito mais a felicidade dela.

Mamãe era líder. Aonde chegava, encantava sempre. Fora muito bonita nos verdes anos. No entanto era a sua beleza interior que impregnava a todos. O sorriso largo, os olhos azuis e a imagem de fada madrinha enchiam de luz qualquer lugar. Gostava muito de cantar, declamar... Como gostava de ouvi-la cantar as românticas músicas do seu tempo. Poesias épicas, ela sabia de cor e as recitava com galhardia.

Agora como estava precisando dela! Que saudade dolorida arrebatava-me o peito! Será que estaria à minha espera na eternidade? Como não nos é dado decifrar o após morte, mas acreditando na imortalidade da alma, mamãe até poderia estar ali, num corpo etéreo, velando por minha vida, dando-me apoio e insuflando-me coragem como sempre o fizera nos meus momentos mais difíceis. Era no seu regaço que os problemas revertiam-se em “coisinhas banais, corriqueiras, plenamente resolvíveis”.

Hoje, pensar que a sua presença translúcida amaina o meu caminho, canta para dissipar minha tristeza, encoraja-me nos fracassos, diminui minha condição de órfã para arremessar-me ao alto, vendo-me pelo crânio e não pelos pés que, há muito, não impregnam formas no chão.

MINHA MÃE

Minha mãe!
Quanta saudade!
Brado o seu nome
E tenho o eco por resposta.

O telefone do céu está mudo.
Há muito tempo vivo órfã!
Preciso de um colo
Para descansar meu corpo,
Preciso de um ombro
Para chorar.

Mãe,
Preciso de você para me guiar!
Queria dar-lhe o carinho que guardei.
Dizer da vida,
Das dores, dos amores
E das quedas que levei.
Estou indefesa,
Uma criança outra vez.
São tantas as queixas...

Mãe,
Sua presença me devolve a paz.
A silhueta etérea me acompanha
E sob as suas asas sou amada.
Mas é sempre em sonho
E você me deixa quando alguém me toca.
A claridade quebra o encanto.
E ainda por um instante, deixa-me fitar
Os olhos azuis de quem eu amo tanto!

domingo, 8 de maio de 2011

SAUDADES DE MINHA MÃE


SAUDADES DE MINHA MÃE
(Genaura Tormin)

Mãe,
Mais um tempo se passou!
Os olhos lacrimejam
E ferido está o coração.
A caminhada ficou dolorida,
Alcantilada e fria,
Sem rumo, nem direção.

Como sinto a tua falta!
O cansaço faz-se plangente,
E os passos trôpegos
Vão machucando a gente.

Ainda sou refém do tempo,
Argamassa do oleiro,
Na esperança de ser pássaro
E poder voar aos teus braços.

domingo, 1 de maio de 2011

DIA MUNDIAL DO TRABALHO


DIA MUNDIAL DO TRABALHO
(Genaura Tormin)

Somos uma Nação organizada, tutelada! Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido, diz a nossa Lei Maior.
Como princípios fundamentais encontram-se a cidadania, a dignidade da pessoa, os valores sociais do trabalho, entre outros.

E o trabalho remonta aos tempos do homo sapiens, das cavernas, por estar ligado à sobrevivência. Trabalho significa dignidade. É a possibilidade de o ser humano conseguir o sustento da família, sem ajudas vexatórias. Daí a frase que costumo repetir: Não se deve dar ao homem o que ele pode conseguir com o fruto do seu trabalho sob pena de roubar-lhe a dignidade.

Com o passar dos séculos e com a evolução dos povos, naturalmente, necessário se fez a normatização das condutas, consuetudinária ou não, para garantir direitos às relações entre os indivíduos.

E no século passado, mais precisamente, nos idos de 1934 a 1937, no nosso torrão brasileiro, sob o domínio de um Presidente altruísta e determinado, o gaúcho Getúlio Vargas, homem de grande visão política das condições existenciais daquela época, nascia as Comissões Mistas de Conciliação e Julgamento, embrião que veio a se transformar na JUSTIÇA DO TRABALHO, braço do Poder Judiciário, vislumbrada na Constituição do Brasil, ainda getulina, de 1946, ano de minha estréia como ser vivente em terras nordestinas deste meu querido Brasil! Conotativamente, o meu desvelo pelo trabalho, pela satisfação de poder emprestar minha participação, embora, agora, numa cadeira de rodas.

Conhecedora da sua eficácia, por integrar-lhe os quadros há alguns anos e por me preocupar com o lado sociológico do nosso povo, posso afirmar sem medo de errar, que se trata da justiça mais acessível, mais célere e a mais democrática deste país! Uma conquista e uma necessidade para resguardar as relações sociais, também advindas do crescimento da tecnologia, principalmente da informática, industrialização, globalização, cujas lides processuais sobrecarregam o Judiciário.

Trata-se de uma Justiça Especializada, como a de vários outros países do mundo, como a da Alemanha que se parece muito com a nossa, a da Inglaterra, a da Suécia, a da França, a da Bélgica e outras mais.

E hoje é o DIA 1º DE MAIO, dia mundial do trabalho! É com o trabalho que se erradica a pobreza, a marginalização, reduzindo as desigualdades sociais, garantindo-se o Estado Democrático de Direito.

É de bom alvitre lembrar que somos a décima economia do planeta, graças ao trabalho daqueles que com o suor do rosto e com as mãos laboriosas sustentam o país nesse patamar.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

CHEGOU A PÁSCOA


CHEGOU A PÁSCOA!

Genaura Tormin

Eu não sei o que poria
Dentro de um ovo de páscoa
Para um desafeto.
Esse vocábulo
Não existe no meu dicionário.
Não gosto do “D” que o inicia.

Para começar,
Nem sei o que é isso.
Nunca experimentei.
Se ofendo, peço desculpas,
Se me ofendo, relevo.
Para mim,
Tudo é alegria,
Uma simbiose fraterna,
Repleta de harmonia.

Um círculo vicioso,
Alimentado pelo respeito mútuo,
Pelo carinho,
Pelo afeto dengoso,
Que se debulham em madrigais,
A cada encontro.

domingo, 10 de abril de 2011

UMA NOTA DA AUTORA


UMA NOTA DA AUTORA
(Genaura Tormin)

PÁSSARO SEM ASAS surgiu com a dor. É uma história de vida ou memórias romanceadas. Nele, devasso-me sem reticências depois de uma inesperada paraplegia. Conto todas as dificuldades, batalhas e aprendizado para sobrepujar a fatalidade. Para ser adotada pela vida.

Falo de mim, falo de amor, falo de dor, de vitórias e muito mais. Solto a lira de meus versos. Curto minha imobilidade. E os meus retalhos adormecidos ganharão movimentos algum dia. Quem sabe noutra galáxia?

PÁSSARO SEM ASAS é um misto de momentos lúdicos, sofridos, emocionados. Chega a porejar sangue. É o driblar de uma bola sem chutes, mesmo ao arrepio da vida.
A crença em mim mesma devolveu-me não pernas, mas ASAS. Sinto-me alada depois de tanta tempestade. Com elas cruzei horizontes, voei com os condores em terras calcinadas, extrapolei mares, venci tormentas e me encontrei.

As escarpas do caminho fortaleceram minha couraça rumo aos objetivos. Dentro de minhas limitações sou livre: corro em idéias, em versos, em trabalho...

Não sou vista diminuída, mas até acrescida. O meu trabalho tornou-me um ser humano inteiro. Por incrível que pareça, tornei-me uma Delegada de Polícia! Atuei na vanguarda contra a escalada do crime, como uma profissional inusitada, pelo menos, em visual.

Depois, também por concurso público, ingressei no Judiciário Federal, onde me sinto honrada de emprestar minha participação de trabalho. Afinal somos herdeiros dos nossos atos e senhores de nossas colheitas.

Que as minhas experiências conduzam o leitor à reflexão, fazendo-o descobrir que cada um pode ser a pessoa mais feliz do mundo, procurando ascender sempre rumo ao bem, creditando as dificuldades como mérito seu, uma vez que não há limite que obstaculize uma mente determinada.

sábado, 2 de abril de 2011

PRIMEIRO CANTO À IMOBILIDADE


PRIMEIRO CANTO À IMOBILIDADE
(genaura Tormin)

Totalmente adaptada, a casa ficara pronta. Tudo estava entrando em ordem. Começava a aprender comigo mesma uma série de lições motivada pelas necessidades. Parecia um bebê descobrindo o mundo. Precisava ser positivo o propósito de minha vida. Com certeza, eu não teria nascido com a finalidade de causar problemas, de prejudicar aos outros, de ser fardo em seus ombros. As muletas estavam aparecendo em forma de adaptações, e eu as iria usar para substituir os muitos cerceamentos estampados pelo corpo.

Pela manhã, geralmente tomava café na cama, lia o jornal e, logo em seguida, partia para a bateria de exercícios físicos, aprendidos no Hospital Sarah Kubitschek. Com o tutor longo com cinto pélvico, ficava por mais uma hora na postura vertical, segurando-me nas paralelas (dois canos galvanizados dispostos paralelamente à altura do quadril humano médio). Ali, depois de percorrê-la por inúmeras vezes, carregando o corpo com a força dos braços em forma de pulos, procurava ler alguma coisa que me ajudasse naquela fase tão difícil. Tinha que me ocupar para tentar esquecer da catástrofe.

Mesmo nas paralelas, orientava os filhos na feitura das tarefas. Não abdiquei da função de dona de casa. Transferi a cozinha para a área de serviço, ao lado da varanda, onde estavam os apetrechos de fisioterapia. Dessa forma, poderia “matar dois coelhos de uma só cajadada”: fazer exercícios e administrar a serviçal que era iniciante, além de ficar perto dos filhos.

Sempre que possível, ia às compras de supermercado com a família. Era-me doloroso o reencontro com as pessoas conhecidas. Ah! As lamentações, o espanto ao verem-me presa à cadeira de rodas, “desenterravam sempre o defunto”, fazendo-me lembrar de que estava paralítica e muito diferente dos demais. Estava cerceada do meu direito ao caminhar. Hoje, não gosto de dar pêsames a ninguém. Talvez seja por isso. Acho que é abrir uma ferida sempre. Limito-me, apenas, a dar um abraço, um beijo...
Alfredo havia pedido um carro para mim com uma adaptação nova, de origem italiana, mostrada no programa Fantástico da Rede Globo de Televisão. Por capricho, essa amostragem dera-se poucos dias antes da paraplegia. Lembro-me de que estava recostada nos joelhos do Alfredo e ainda elogiamos o avanço da tecnologia, quando nos recordamos de um nosso ex-professor da época da faculdade que estava tetraplégico.

Confesso que me tocou muito o depoimento da moça paraplégica que experimentava o veículo defronte das câmeras: “Estou me sentindo um pássaro fora da gaiola” — dizia ela.

Talvez tudo isso fizesse parte de minha preparação, assim como os últimos poemas meus. Que ironia do destino! Um carro igual viria para mim. Viria substituir o meu carrinho amarelo. Eta carrinho! Amigo mudo que me auxiliava em tudo sem nunca reclamar. Agora seria um veículo da Fiat que comportaria as minhas pernas de aço (a cadeira), ajudando-me a aprender outra forma de viver.

Passaram-se quase sete meses desde a última vez que havia andado com os meus pés. A fisioterapia não me devolvera nenhum movimento. Não mexia sequer o dedão do pé. Mas estava quase me adaptando a caminhar sem fazer rastros, pois não havia outras opções. Em paraplegia, adaptar-se é irreversível. Caso contrário corre-se o risco de sofrer muito. Carrega-se o peso das dificuldades ou o do cadáver. Estar paraplégico é morrer um pouquinho todos os dias. É sentir-se prisioneiro no cárcere estático do próprio corpo. É exercitar a paciência, creditando à evolução do espírito o desafio de vencer as barreiras de si mesmo.

Além dos exercícios físicos diários, procurava preencher o tempo disponível para não dar espaço a pensamentos atrevidos ou saudosos, contrários ao meu objetivo. “Cabeça vazia é sempre oficina para o diabo”. Por isso fazia crochê, tricô, conseguindo bordar até uma toalha de banquete. Ocupava-me com leituras, conversas ao telefone, visitas de amigos e com os filhos que sempre estavam ao meu lado, auxiliando-me em tarefas complementares, além de me paparicarem muito. Eles estavam carentes e eu também. Era bom sentir o amor que me dedicavam, estampado na ternura, no carinho, alicerce maior de minha razão de viver.

Tudo o que fazia, com as dificuldades da primeira vez, era dolorido. Abria-me sempre a ferida. Embora não externasse, sofria por dentro. Meu avesso não queria confirmar a paraplegia, mas as dificuldades do “fazer” jogavam-me no rosto a dura realidade. Por isso queria fazer o máximo de atividades diversificadas possível para vencer logo a prova de fogo e tornar-me campeã de mim mesma, assumindo com dignidade a minha condição. Estava a construir uma couraça para resistir às dificuldades. Oxalá essa couraça se transformasse em pérola, já que esta é o resultado de uma ferida cicatrizada. Por vezes, o ego agradecia essa bravura.

Nessa época, um dia, estando em casa sozinha pela manhã, planejei como poderia tomar um banho. Despi-me na cama, passei para a cadeira de rodas, transferi-me para o vaso sanitário e em seguida passei para uma cadeira normal, semelhante às de bar. Com muita atenção e cuidado, tentei dar pequenos impulsos com os ombros para chegar ao box, quando a cadeira caiu para trás, lançando-me ao chão. Mal consegui desvencilhar-me dela, empurrando-a para frente. Não pude fazer mais nada, nem sequer me arrastar até a cama. Não conseguiria subir. Fiquei calma. Tinha assumido o risco. Aquela manhã estava fria, muito fria. Consegui alcançar a toalha de banho que se desfraldava no cabide à altura do meu braço. Como não tinha (e até hoje ainda não tenho) sensibilidade em mais de dois terços do corpo, protegi as partes sensíveis, ou seja, ombros, braços e cabeça, e deixei-me ficar no chão frio do banheiro. Pensei na serventia dos meus braços ilesos, e agradeci. Resisti à emoção que me apanhara de surpresa. Pena, por quê!? Repreendi imediatamente a estima ferida. Tentei dormir. Era o que de mais sensato poderia fazer. Cheguei a sonhar, quando fui acordada pelos filhos que chegavam da escola com o pai. Pensaram que eu estivesse morta ali no chão. A voz chorosa e agoniada do Fernando sobrepujava às demais. Graças a Deus que o choro deles foi em vão. Estava vivinha!

Lembro-me de que na igreja, durante a missa, uma senhora olhava-me tanto que cheguei a ficar perturbada. Depois da cerimônia, uma reunião no salão paroquial, a qual também compareci. Lá, a mesma senhora continuava a olhar-me insistentemente, como se eu fosse fantasma ou extraterrestre, sem, entretanto dirigir-me a palavra. Na ocasião, um garoto postou-se entre nós, impedindo, involuntariamente, que ela continuasse fixada em mim. Coitado, levou um empurrão. Percebi que representava uma figura inusitada para ela e, quem sabe, para muitos outros. Foi aí que senti, maior do que a minha saudade de andar, o desejo de abrir caminhos, construir nova mentalidade e mostrar que a pessoa com deficiência física é um ser social e deve ser aceita porque faz parte, contribui e produz, podendo até ser força transformadora, servindo de incentivo e exemplo aos muitos paralíticos andantes que permeiam todas as classes sociais.

Assim, precisava circular, mostrar-me, atuar, andar com o que me havia restado. Não era uma conquista, mas uma missão. Era preciso entender a mensagem e acreditar no poder da mente, na força da palavra e do exemplo.

No retorno a casa, a manhã estava gostosa. O sol, intensamente brilhante penetrava no meu quarto. Para senti-lo, sem amarras de janelas, galguei o corredor da casa e logo estava debaixo da romãzeira florida à beira da piscina.

O vento fazia rodopios no quintal como se me quisesse saudar, como se quisesse alegrar o meu avesso tão sofrido. O céu de um azul sereno fazia-se enfeitar por pequenas nuvens viajeiras, além de pandorgas coloridas empinadas pela criançada, cujo vozerio alegre e estridente chegava aos meus ouvidos. A vida movimentava-se faceira. A romãzeira dançava solitária, atirando suas folhas nas águas adormecidas. Agora pereciam pequenos barcos, navegando sobre calmarias, expostos às adversidades: ao sol escaldante, à chuva, aos icebergs e à própria morte. Alguém escoaria a piscina. Aqueles barquinhos de folhas seriam amontoados como lixo num lugar qualquer. Mesmo assim ainda seriam úteis. Tornar-se-iam adubo para fortalecer uma palmeira altiva ou uma roseira transverberada em pétalas rubras e aveludadas, dissipando o orvalho da madrugada sob o milagre dos primeiros raios de sol. E são as flores que declaram amor, enfeitam altares e fazem-se presentes na última despedida ao partirmos desta vida.

Mergulhada nessa meditação sublime, senti vontade de cantar a minha imobilidade, transformando-a num hino benfazejo.

Mente e coração andantes

Quero curtir minha imobilidade,
Mobilizando corações,
Marcando passadas
Em cada gesto,
Em cada grão de areia,
Carreando-os para o infinito.

Quero sentir
O gosto de ter pernas.
Acariciá-las,
Com o tato dos dedos,
Mobilizando todas as moléculas.
Quero sentir-me dançando
Ao som de Beethoven ou Bach,
Transando a paz de minha paraplegia
Ao compasso do coração
E à sincronia do cérebro.

Quero andar,
Mais do que todas as pessoas,
Embora saiba que,
Se externamente,
Não marco o chão
Com minhas pegadas,
Meu espírito se alicerça
Em pernas fortes,
Com mente e coração,
Energicamente andantes.

Foi assim que comecei a ser moldada para a nova vida. Adaptar-me ao novo visual não foi fácil. Tive que proceder a incessantes buscas ao meu interior: procurar, nos meandros de mim mesma, as fraquezas escondidas e transformá-las em força direcionada. A autoestima, agora sem a faceirice das pernas dançarinas, foi o carro-chefe para as demais conquistas.

Entretanto a lembrança dos sapatos de salto alto, das competições no trampolim da piscina e das corridas a cavalo e de bicicleta, por vezes, fazia-me gemer a dor do irreversível.

Não podia ser minha própria vítima. Por isso era compensador lembrar-me da fábula em que um homem se maldizia por ter apenas bananas para comer. Qual não fora a sua surpresa ao ver que alguém, atrás de si, estava a comer as cascas.
Assim a vida ainda me parecia muito interessante. Havia muitas cascas de banana atrás de mim. Poderia fazer minhas competições abstratas nos trampolins da imaginação e ser a campeã de todas as corridas, emprestando ao corpo a faceirice do espírito. Poderia mesmo marcar passadas a cada momento, mobilizando muitos corações paralíticos, enrijecidos pelo negativismo, pelo ódio, pela inércia, embora envoltos em ANDANTES CORPOS.

Restaran-me as mãos. As minhas mãos! Feito uma oração, ajudam às minhas pernas, transferindo-as, tão ternas, para a cadeira, o carro... E até quando vou me deitar, lá estão elas dispostas a me ajudar. Por que eu iria desanimar?

quinta-feira, 24 de março de 2011

MENSAGEM AO LEITOR


Eis mais um capítulo do meu livro Pássaro Sem Asas. Um brinde aos meus leitores. Espero que gostem. Na verdade é o último capítulo, embora eu já haja postado alguns aqui, de maneira aleatoria.

MENSAGEM AO LEITOR
(Genaura Tormin)

Leitor, você, que por meio dessas páginas esteve ao meu lado em tantas peripécias, mas também em tanto aprendizado, conquistas e alegrias, deixo o meu agradecimento maior.
Que minhas experiências o conduzam à reflexão e, de repente, você se descubra a pessoa mais feliz do mundo. Aprenda a encontrar a sua própria felicidade. Ela não é comprada, é conquistada. Deve ser desbravada de dentro para fora. E para isso é preciso buscar, amando-se em primeiro lugar e repartindo com os demais o amor que lhe vai no peito. Se não amamos a nós mesmos, como poderemos amar aos outros ou permitir que sejamos amados? Dessa forma, você partirá de si para uma conquista global. É uma receita simplista, mas muito verdadeira. Basta querer. Cultive a sua autoestima, arrume o seu interior e vá à luta!
Há tanta beleza na Terra! Há tanta beleza em você! Aprenda a buscá-la na destreza dos seus passos, na ternura das palavras, na bondade do coração...
Tudo está em constante evolução. As pessoas mudam, o tempo passa, o mundo se transforma na metamorfose da vida. Tudo se esvai com o vagar do tempo, e por vezes nos esquecemos de nós mesmos, do que fomos, do que somos. Nada permanece igual. Restam-nos os bons momentos guardados para sempre nos aposentos da memória.
Cada momento é único e não volta nunca mais.
Encontre motivo para ser feliz numa manhã de sol, num bom-dia ao desconhecido que perdeu o ônibus, na flor que desabrochou no seu jardim, no sorriso do seu filho, na volta a casa... Quantos não têm um lar para voltar!
Seja feliz pela vida que pulsa em você e pelo pulsar de sua própria vida. Você está vivo!
Seja feliz porque pode renascer todos os dias para uma vida melhor. Marque a sua trajetória com pegadas de solidariedade. Você não está aqui por acaso. Você precisa da vida e ela de você! Ponha-se no trabalho e ajude a melhorar o mundo. Uma fagulha, apenas, de sua mente positiva pode ajudá-lo. “Carreando um punhado de terra todos os dias fará uma montanha”.
Seja feliz porque trabalha e pode ser útil ao próximo. A vida é uma escola, uma pós-graduação na matéria em débito. Não perca as muitas oportunidades para evoluir. É na queda que os rios adquirem forças. Aprendemos mais com os erros do que com os acertos, porque eles se gravam mais profundamente em nossa consciência. É preciso saber tirar proveito das experiências adversas para convertê-las em ascensão. Ainda que os passos pareçam frágeis, vá em frente! Não desanime! Avance, abrindo caminhos, cantarolando a vida e incentivando os que se deixam ficar à margem dos caminhos.

Equilíbrio

Evoluir
É ser inteiro, autêntico,
Despojado, verdadeiro,
Dono de si mesmo.
É semear o bem,
Namorar a vida,
Encantar-se com a chuva,
Com o verde da esperança,
Do amor, da flor,
Do mundo!

Otimismo, emoção,
Temperos da jornada.
Há tantos caminhos,
Veredas e estradas...
Nem entorpecidos
Nem hostis os atos.
O equilíbrio é o ideal.
O amor leva à felicidade!
Singularidade de olhar,
Ternura de afago
Constroem rumos e vidas.

A emoção é roupagem da alma,
E a essência é holística.

Coíba a violência, o desamor. Empenhe-se em evoluir em direção à perfeição e procure servir. Contribua! A vida é uma grande máquina, e você, ainda que seja uma minúscula peça, faz parte e é imprescindível para o seu desempenho.
O avanço tecnológico trouxe-nos o progresso, provou a inteligência humana, armou o mundo, possibilitando a desintegração num piscar de olhos, bastando acionar botões. Custou-nos ônus exacerbado. Aproximaram-se as distâncias e distanciaram-se as proximidades, valendo dizer que é no meio da multidão que nos sentimos mais sozinhos.
Precisamos transmitir afeto, paz e alegria, para amainar essa síndrome de violência. Cada um, na condição de ser humano carente, sensível, amorável, tem que se esforçar para fazer feliz o próximo. Pelo menos o mais próximo. Com isso seremos os mais beneficiados, pois o princípio cristão prega: “há mais felicidade em dar do que em receber”.

Ato de amor

Doar, doar-se,
Compartilhar, solidarizar-se!
Eis um sentimento em defesa do amor.
Doar enobrece,
Faz crescer o doador.

Não percam oportunidades:
Doem órgãos,
Façam felicidade!
Renovem um coração cansado;
Devolvam luz a olhos que não mais enxergam
A beleza do mar, do amor,
Da chuva, dos prados, da flor,
Da lua matreira numa noite fria.

Doem a pele, os rins, os ossos,
Até os pequenos fragmentos,
Pois servirão de alento
Aos centros de pesquisas,
Para novos antídotos,
Novas descobertas
Em prol da humanidade.

E o resto,
Quando nada mais tiver serventia,
Que seja deixado num lugar tranqüilo,
Sob a terra pura, o último exílio,
Sem concreto, sem luxúria, sem rebeldia,
Debaixo de um ipê florido,
Tendo um riacho por companhia.

Quem sabe, ainda esses rejeitos
Fecundarão a terra,
Fazendo brotar pequenas flores,
Para aninhar os pássaros cantores
No entardecer?

Despojado das vestes de carne,
O espírito agradecido alçará vôo,
Misturando-se ao infinito,
Planando sobre a terra.

Saia do seu esconderijo! Olhe em volta! Dê um sorriso, uma palavra, até mesmo um gesto, contanto que sejam permeados de amor. Procure ajudar! Una a ajuda material à doçura do seu coração. Transmita paz àqueles que, por insensibilidade ou falta de crença, viciam-se, usando a droga por escudo num processo de autodestruição; enveredam pela violência, ceifando vidas, enquanto você poderá ser a próxima vítima.
Cultive bons pensamentos. Somos produtos da mente. São eles os gestores de nossas ações boas ou más. Corra atrás dos sonhos, pois Charles Chaplin costumava dizer: “Quando deixares de sonhar, poderás continuar vivendo, mas, com certeza, terás deixado de existir”. Nos sonhos se alicerçam os anseios mais caros, os projetos de toda uma vida, o respeito por si mesmo, a autoestima e o dinamismo de viver. Quantas vezes o sonho é acalentado, esperado, trabalhado, sofrido... O importante é que esteja sempre aceso e alicerçado nos princípios da justeza e da dignidade humana. Primeiro, a criação mental, a visualização e o ardente desejo de concretizar o que está tão bem esculpido no cérebro e no coração. Isso é o sonho!
Seja entusiasta! É muito importante saber sorrir! O sorriso é o exercício da afetividade: abre caminhos, cria laços, enfeita a alma e o coração. O sorriso traduz paz, ternura, perdão... Lembre-se de que somos sempre instrumentos a serviço da vida, portanto herdeiros dos nossos atos e senhores de nossas colheitas.
Procure ser nobre, forte e complacente. Afaste as revoltas, recalques, inseguranças, ódios, pois isso não leva senão a nada! Não vai resolver o seu problema. Ninguém lhe devolverá a paz se não a buscar. Pensamentos contrários são regados por forças maléficas e, por vezes, podem redundar em crimes horrendos que abalarão não só você, mas toda a sua família e amigos.
Dizem que quando não podemos transpôr uma montanha, devemos circundá-la até o cume. Assim, para tudo há uma solução viável. Não há problemas insolúveis. Vá à luta! Ouse, trabalhe que o retorno virá, assim como volta pela força da gravidade, o corpo sólido que atiramos ao ar.
Sua vida é a sua vida! Os problemas são o carma do seu ser, intransferível, que com a sua aceitação tornar-se-á leve em seus ombros. E você pode transformá-lo, superá-lo! Dê asas ao seu espírito e desenvolva sua consciência.
Aprenda a ver a vida sempre com olhos novos! O caminho das pedras é mais exuberante e a chegada é mais festiva. A emoção é maior e a felicidade supera as feridas dos pés. Significa crescimento.
Existirá sempre uma esperança num lugar qualquer! Não desista! Você foi feito para vencer!


Viagem

Vida!
Caminhada curta,
Efêmera,
Chama de vela.
A ordem é ser
Ou tentar ser feliz
A cada instante.

Felicidade não é um destino.
Éuma obra de arte,
Uma viagem.
Os momentos são únicos!
Não voltam mais!

Alados por pinceladas de imaginação,
Podem ser mágicos!
Marcos de saudades.

Ame sempre,
Como se nunca tivesse sofrido.
Trabalhe com prazer.
Cante as dores e cultive a paz.

Sorria sempre!
O sorriso enobrece, encanta....
Sorriso é prece!
É Deus dentro da gente!

Encante-se com as pessoas!
Passe-lhes o que há de maravilhoso em si:
O jeito maroto,
O olhar trigueiro,
A maneira manhosa,
Assanhada, faceira...
As gargalhadas e até as lágrimas.

Não é vergonha,
É sensibilidade,
Autenticidade...

Sem que se esforce,
Sem que perceba,
Estará sempre
Entre os parceiros da alegria,
Caminheiros da amizade,
Partícipes de uma linda viagem
Chamada FELICIDADE!

Não se atire à beira dos caminhos! Reaja! A batalha não acabou e você não pode render-se. Junte as migalhas de energia que lhe restam! Somando-as, fará uma fortaleza indestrutível. A mente é o comando e tudo é possível quando a temos ilesa. É preciso, apenas, dirigi-la para frente e para o alto.
Se for ferido em bens materiais, não desanime: vão-se os anéis, ficam os dedos. Matéria compra-se com dinheiro. Dinheiro ganha-se com trabalho. Lute até o fim, busque os sonhos e ideais com a certeza de que os alcançará, restando-lhe a satisfação do bom combate, da perseverança e da crença em si mesmo.
Vamos aprender o sentido da vida, ainda que para isso tenhamos que nos escolar na logoterapia. Com certeza, o sentido vital está na transcendência maior, no amor e dedicação ao próximo, vendo-o como irmão, realçando o seu lado bom e ajudando-o na caminhada para o bem. Se conseguir esse objetivo, verá os seus problemas serem resolvidos por acréscimo, e tanta luz, tantos sucessos lhe advirão que não se reconhecerá no passado.
Os seus problemas físicos, morais e financeiros serão os alicerces para que você suba mais alto. São eles os lapidadores do ser humano. É como a pérola que só é encontrada em certas conchas de moluscos nas profundezas do mar. O molusco precisa ser ferido, e é daí que a secreção se solidifica formando a pérola. Pérola é o produto da dor, uma ferida cicatrizada. Uma ostra que não foi ferida, não produz pérolas.
Para crescermos é preciso que sejamos feridos, assim como a árvore que, para se transformar em fogo que nos fabrica o alimento, precisa ser cortada. Por isso “faça de suas dificuldades um baile e dance encantando a todos à sua volta”.
Infelizmente, o homem perdeu-se em si mesmo na desvairada corrida pelo TER sem se preocupar com o SER. É preciso que resgatemos, com urgência, a nossa identidade antes que venham os maus ventos e soprem o resto de verdade que nos resta.
É preciso AMAR! É preciso armazenar o bem, as boas ações, as transcendências ao infinito, pois, ao partirmos deste planeta TERRA, serão esses mananciais indestrutíveis os pertences de nossa BAGAGEM ETERNA.

terça-feira, 8 de março de 2011

SOBRE PÁSSARO SEM ASAS



SOBRE PÁSSARO SEM ASAS
(Comentário de MARIA PARAGUASSU
Porto Alegre-RS)

Olá amada amiga,

Hoje terminei de ler o teu livro. Isto porque eu te falei, dias atrás,que eu e meu marido, cada um lia um pouco.

Vou te confessar uma coisa: jamais li, em toda minha vida, algo tão belo e tão emocionante. Gostaria que todos, inclusive e principalmente cadeirantes, tivessem a oportunidade que nós tivemos: ter em nossas mãos, uma obra de tamanha beleza e que toca fundo em nosso coração, pela grande alma que és. Minha heroína, cujo caráter e espírito de luta enobreceria a todos aqueles que poderiam ser como tu és. No entanto, o que se vê, são pessoas esmolando a vida, inteiras e com saúde.

Teu livro, magnífica história de vida e coragem, dá-nos uma verdadeira lição de como enfrentar os reveses da vida. E que família! Linda, maravilhosa! Vocês foram abençoados por Deus, que soube uní-los nesta batalha e nesta vida, quiçá também em outras tantas mais, para que pudessem dar o testemunho de que o valor de uma pessoa não está em sua aparência física, mas sim em seu interior, onde viça a fé, o amor e a grande vontade de vencer todas as etapas pelas quais tu passaste.

Cada vez te admiro mais, Genaura. Tu és a estampa de uma pessoa de valor e de muito, muito amor a Deus.
Que a cada momento de dor, soubestes agradecer ao Pai pelo que recebestes.
E como Deus é bom!
És feliz assim como estás, numa grande prova de que o amor tudo vence. Escrevo estas palavras com lágrimas nos olhos, pois adorei, amei este livro! De tanto falar em ti e em tua obra, já há uma fila de pessoas que querem lê-lo. Também gostei imensamente da parte que fala sobre a auto-hemoterapia. Fiquei encantada com tudo o que li a respeito. Deus queira que possamos ainda usar esta "medicação" para curar tantas doenças que aparecem por aí.

Querida amiga, não sei como agradecer-te pela oportunidade de crescimento que tivemos ao ler Pássaro Sem Asas. Tu não as precisa, pois na realidade, teu coração as têm.

Que Deus te abençoe e a todos de tua família.

Um grande beijo.
Maria Paraguassu.
_______________________________
Obrigada, querida!

Fico muito contente por sua avaliação, por seu carinho, externado de maneira tão linda que, diante da grandeza, faz-me chorar. Sou uma manteiga derretida. O coração estampa-se sempre nas faces e fala pelas lágrimas.

Penso que Pássaro Sem Asas já não é meu. Significa uma missão, uma vez que leva uma mensagem capaz de construir, criar mentalidade, indicar novos caminhos, simplesmente por desnudar minha intimidade, diante de uma abrupta paraplegia, que me meou o corpo, cerceando meus passos.

De brinde, uma cadeira de rodas para escalar morros e montes, escarpas e dificuldades. E, principalmente, escalar a mim mesma, à procura de nova maneira de viver. E encontrei!

Bendita paraplegia, que me ensinou tanto, fazendo-me guerreira de minha própria batalha.

Obrigada, de novo!

Beijo grandão da
Genaura Tormin

sábado, 19 de fevereiro de 2011

UMA PALAVRA DIFERENTE


UMA PALAVRA DIFERENTE
(Genaura Tormin)

Senhoras e Senhores,

Meus cumprimentos a cada um de vocês e que a paz esteja entre entre nós.
Vestida numa rota farda de carne, à vista de todos vocês, cumpro com alegria a minha jornada nesta existência e me esforço para fazê-la com paciência e muita coragem. Acho que os meus ombros podem carregar o mundo.

Fazendo minhas as palavras de um poeta desconhecido, costumo dizer:

"Pedi a Deus para ser forte,
A fim de executar projetos grandiosos.
E ele me fez fraca para conservar-me humilde.

Pedi a Deus que me desse saúde
Para realizar grandes empreendimentos.
E ele me deu doença para compreendê-lo melhor.
Pedi a Deus riquezas para tudo possuir.
E ele me deixou pobre para não ser egoísta.

Pedi a Deus o poder para que os homens precisassem de mim.
E ele me deu a humildade para que eu precisasse dele.
Pedi a Deus tudo para gozar a vida.
E ele me deixou a vida para que eu pudesse gozar de tudo.
Não recebi nada do que pedi.
Mas recebi tudo que precisava.

E quase contra a minha vontade,
As preces que não fiz foram ouvidas.
Entre todos os homens,
Ninguém tem mais do que eu!"


Falarei-lhes hoje dessa minha diferenciada trajetória, com certeza requerida por mim mesma na tentativa de evoluir o meu espírito, na expiação dos meus deslises enquanto caminheira dessa estrada e de outras, quem sabe.

Para mim é muito fácil e prazeroso assumir todas as idades, todos os papéis. Mas, este de paraplégica, não estava no meu projeto. Veio de presente. Apesar de estranho, estou tentando sair-me bem.

Agora, não pulo corda, não ando de bicicleta... Recebi uma dura sentença por crime que não cometi nesta vida. Mataram minhas pernas em mim. Poderia tê-las usado muito mais vezes! Poderia ter andado descalça, feito grandes caminhadas, pisado na grama, na areia, no barro... Poderia ter evitado veículos... Enfim, poderia ter usado muito mais o meu caminhar faceiro, dançarino, rebolante.

Mesmo assim, ainda corro atrás da vida para que ela não corra atrás de mim. Corro atrás de minha evolução como caminhante dessa íngreme estrada. E na minha fantasia, sou a campeã dos meus aprendizados. Se minhas pernas fisicamente estão mortas ou incapacitadas, o meu coração é vivo, o meu desejo latente e o sorriso aflora sempre até os cantos das orelhas. Eu estou viva!!!

Com isso, eu quero demonstrar que a vida é efêmera, finita, e as fatalidades não avisam. Não escolhem status, raça, cor, sexo ou credo. Por isso, devemos estar sempre atentos, pois não estamos aqui por acaso. Preocupando-nos em bem servir, que é um dos grandes enunciados, não devemos deixar para amanhã o que podemos fazer hoje. Devemos viver todos os momentos como se fosse o último, tentando ser feliz e fazer felizes as pessoas que nos cercam.

Às vezes, quando estamos nos píncaros do sucesso, somos atirados inexoravelmente ao caos. É chegada a hora do resgate do carma. É chegada a hora de entendermos a Lei da Justiça Divina, dando-nos a oportunidade da repararmos os nossos erros passados. É aí que devemos enfrentar o desafio do processo reencarnatório com dignidade e resignação. É preciso que saibamos que é a hora de acender a luz interior e tentar espargi-la para que sirva de alento, pelo menos ao próximo mais próximo.
Foi o que aconteceu comigo!

Após uma festa em minha casa, quando me sentia de bem com mundo e com a vida, dormi sã e acordei paraplégica, vítima de uma virose que me meou o corpo, sem nem sequer alertar-me com uma subida de temperatura. Na realidade, um turbilhão de dificuldades nunca imaginadas. Uma jovem mulher reduzida a cabeça, seios e braços. O resto, morbidamente alheio ao meu comando: dormente como se não fosse meu.

Não obstante haja envidado muitos esforços para reverter o descalabro da situação, eis-me, após todos esses anos, irreversivelmente paraplégica. Com uma vida de muitas batalhas para não ser escória de uma sociedade que, geralmente, só aceita os fortes, perfeitos e vencedores.

Guimarães Rosa dizia que viver é muito perigoso. Por isso, devemos ser forjados a ferro e fogo para termos condições de nos erguer quando a dificuldade bater. Afinal, a mente estando sã, há motivos suficientes para dirigirmos ainda o nosso destino, mesmo através de um corpo com funções mutiladas.

Não podemos ser excluídos do sistema socioeconômico e político do País, pois, VIDA, não significa somente pernas, mas, sobretudo cabeça, mente, raciocínio, espírito e coração. O resto, dá-se um jeito.

Entretanto, tenho consciência de que o corpo físico nada mais é do que uma farda de carne que envergamos para cumprir o nosso desiderato neste planeta. Por isso, a vida é uma curta viagem em que não se pode perder tempo. Até dos dissabores devemos tirar proveito.

Após a morte, fim do nosso corpo físico, gostaria de que os meus órgãos fossem utilizados para fazer pulsar um coração cansado; dar luz a olhos que nunca enxergaram; audição a quem nunca pôde ouvir uma música, o zumbido das abelhas, uma declaração de amor...

Queria que até as mínimas partículas servissem de material didático aos futuros profissionais da saúde. E o resto, quando nada mais tivesse serventia, deixado num lugar tranquilo, sob a terra pura, sem concreto, porque assim ainda serviria de adubo para florescer um gerânio vermelho, símbolo de minha luta pela vida.

Acredito num Deus perfeito do qual somos a criação. O espírito não desce à sepultura, transcende à Casa do Pai. Daqui não levaremos nada, apenas o bem ou o mal que tenhamos praticado. O que temos de bens materiais, é apenas um empréstimo e aqui ficará quando partirmos. Acredito que já vivemos muitas vidas e viveremos muito mais outras. Elas agem em nós feito um processo lapidador, respeitando o livre arbítrio.
Ninguém reencarna sem uma cruz para carregar. É o que se chama de carma, que pode ser de ordem física, moral ou financeira.

Com esse entendimento e partindo do princípio de que o PAI é JUSTO, a aceitação do carma reverte-se em escadas para subirmos cada vez mais alto.
Assim, aceitar a reencarnação significou aceitar a mim mesma. Significou a dura tentativa de relacionamento pacífico com o meu corpo paralítico.

Paraplegia não é problema apenas de quem a tem, mas um problema de contexto, pelo menos familiar, já que em nível de Estado, há muito a desejar.

A família deve vestir a camisa, inserir-se no esquema e, dentro da responsabilidade/amor, propiciar à pessoa com deficiência espaço arquitetônico viável e adaptações domésticas para que ela descubra seu novo mundo ou sua nova liberdade.

Esse amor de que falo, não deve ser entendido como excesso de paternalismo que tanto mal nos faz, impedindo-nos de alçar voos às conquistas, mas, sobretudo, deve ser o amor/respeito que não nos destitui da condição de ser humano atuante e não nos rotula de inválidos, pois a verdadeira invalidez está na mente de quem não tem e não sabe transmitir otimismo e coragem.

Nós, pessoas com deficiência, não devemos permitir que os sentimentos de compaixão ou repulsa releguem-nos à inutilidade, conduzindo-nos à inércia. Com tenacidade mostraremos o valor do nosso trabalho e as discriminações só persistirão se nós as aceitarmos, fazendo-nos de vítimas da vida, apresentando indolência, insegurança, subserviência, buscando protecionismo sob o álibe da deficiência.

Aliás, as maiores limitações são as que criamos em termos de afirmações psíquicas. Quantas vezes damos contornos catastróficos a problemas tão pequenos e tão fáceis de serem resolvidos.

Quando temos alguma iniciação da Doutrina Espírita, com certeza, conseguimos ver os problemas de outra forma. Às vezes, tornam-se um privilégio. Se eu não fosse paraplégica, não estaria aqui passando este testemunho de vida. Não estaria passando a vocês uma consciência valorativa sobre as pessoas com deficiência. E ainda alicerçada sob a justeza da Lei da Reencanação, tudo fica mais fácil, entendível e aceitável, até para os que mantêm algum relacionamento conosco. Se não fosse paraplégica, não teria escrito o livro Pássaro sem asas, que alcança um próximo um pouquinho mais longe. E por isso, pesa-me também a responsabilidade.

Sinto-me, conotativamente falando, como um bovino que leva a marca do seu dono, por meio de ferro quente. Pertenço a alguém. Isso não é ótimo? E estou a resgatar alguma coisa que realmente fiz. Tive essa oportunidade. Estou numa redoma.

Hoje, sinto-me adaptada à vida! Sei que ela se adaptou a mim também. Entretanto, já entendo que a minha cadeira de rodas é uma dádiva. Devoto-lhe gratidão. É por meio dela que ando, lido, participo da vida lá fora e nivelo-me aos demais.

É, também, por meio dela que me permito lapidar o meu espírito rebelde, tentando fazer algum bem, passar algum alento de experiência, de trabalho, de coragem às pessoas com quem mantenho algum diálogo ou que leem o meu livro. Cada um tem sua frente de trabalho. Não é para isso que estamos neste trajeto, que chamamos de vida? Não poderemos partir de mãos vazias!

Para finalizar quero dizer que estou muito cativada pela presença de todos vocês, principalmente pelo carinho de dona Antonieta, pessoinha maravilhosa que me convidou para aqui falar. E a quem também peço desculpas por não ter o conhecimento espírita necessário e a erudição de seu translúcido e elevado espírito. Entretanto, espero que esses relatos possam emanar alguma fagulha de ensinamento que melhorem a afetividade, o respeito, a solidariedade com aqueles que, no resgate de seus erros, caminham sem pernas, ou de outras formas aparentemente dolorosas neste abençoado Planeta ainda de provas  e expiações.
Obrigada!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O IRMÃO INVISÍVEL DO RODRIGO


O IRMÃO INVISÍVEL DO RODRIGO
(Genaura Tormin)

Rodrigo é o meu primeiro neto. Hoje tem 15 anos. Sou suspeita para falar dele, pois o amo demais e sou sempre encantada com o seu carinho, a amabilidade e a inteligência. Está sempre disponível para ajudar. O sorriso estampa-lhe sempre os rosto.

Filho de minha filha, ele veio ao mundo ao romper da aurora, no último dia de maio. Chegou junto ao amanhecer, entre os raios de luz que envolviam a terra. Eu fui recebê-lo na maternidade. Vi quando a enfermeira passou da sala de cirurgia para o berçário, tendo nos braços aquela trouxinha de gente, envolta em panos. Pelo vidro, assisti ao seu primeiro banho, podendo perceber-lhe as formas, que guardavam uma semelhança com os pais. Mistura de genes. O milagre da vida! Enternecida, enviei ao Criador minha prece de agradecimento. Um serzinho novo para integrar a nossa família. Que missão teria? Um anjo guardião, um coadjuvante no caminho do bem, pensei.

E Rodrigo crescia feliz, sob o carinho de todos. Sempre que era possível, ficava em nossa companhia. Ouvia-se as suas passadinhas pela casa, acompanhadas de um chilreado, como se fosse de passarinhos. Era a linguagem de sua pouca idade. Como era gostoso escutar aquilo. As primeiras palavras, os dentinhos, o sorriso, o carinho sempre externado... Ah, como sinto saudades!

Lembro-me bem de que ele tinha uns três anos de idade quando, devidamente uniformizado, seguiu para Escola. Particularmente, fui vê-lo algumas vezes entre os colegas. Vejo sempre Deus nas crianças. Uma legião de anjos alegres e travessos.

Um dia, estando em nossa casa, Rodrigo encontrava-se tagarelando em nosso quarto, enchendo as nossas vidas de alegria, além do enorme prazer de sabê-lo neto, galho de minha árvore, verso de meu poema. O avô também estava ali. Nessa ocasião, fazendo gestos, Rodrigo disse:

_ Vovó, eu vou bater no Pedro Paulo! Vou mesmo! Ele é muito chato e me bate.
_ Não faça isso! Conte para a professora, que ela vai resolver, ouviu?
_ Não, vovó eu vou bater nele! E gesticulava, imitando os socos.
_ Aí, sabe o que vai acontecer? Ele vai bater em você, de novo, porque é maior do que você!
_ Vai nada! Eu vou chamar o meu irmão, quero ver! Meu irmão é grande, forte! (Ocasião em que levantou os braços para mensurar o tamanho do irmão).
_ Você não tem irmão, Rodrigo!
_ Tenho sim, vovó! Ele é grandão e até me deu a sua bola velha, que ele não queria mais!(Hoje, com tanta modernidade, os entretenimentos são outros: os jogos eletrônicos, os carrinhos motorizados... Uma bola velha seria mesmo uma coisa do passado. Pensei depois).
_ E como se chama o seu irmão?
Incontinente, ele me respondeu: _ Vovó, ele se chama RÔNCIO!

Nunca ouvira falar esse nome, nem conheci ninguém, sequer, com nome parecido. Não questionei mais, entretanto guardei o epsódio na lembrança.

Anos depois, quando estava lendo o livro: UM PILAR DE FERRO, de Taylor Caldwell, que narra a historia de Marco Túlio Cícero, senador e um dos maiores oradores de Roma, de repente deparei-me com um dramaturgo romano, personagem do livro, cujo nome era igual ao do irmão invisível do Rodrigo.

Novamente, voltando aos verdes anos do Rodrigo e à agradável e querida convivência conosco, recordo-me de que vez por outra, nos seus diálogos comigo, ele usava o vocábulo "Parmendes". Como o seu linguajar era ainda muito incompleto, dado a sua pouca idade, eu nunca questionei quem era ou o que era. Hoje, navegando pelo dicionário deparei-me com o nome : PARMÊNIDES. Filósofo grego, que viveu nos anos 530 a. C.

Sabe-se, que até os sete anos de idade, é comum a criança perceber a presença de seres de outra dimensão e conversar com eles, tendo-os por amigos, incluindo parentes, avós... Isso é muito natural para a criança. Essa fase é uma adaptação à sua nova reencarnação e as lembranças são muito fortes. Por isso o Rodrigo referia-se ao irmão com muita naturalidade e convicção. Os pais desinformados pensam que se trata de fantasia ou até de algum problema psicológico.

Naquela época, eu não tinha conhecimento sobre essas lembranças externadas nas crianças, limitando-me a contestar o que ele dizia. Poderia ter perguntado mais e aprendido tanto com o Rodrigo.

Hoje, digo apenas: A REENCARNAÇÃO É UMA VERDADE! E o véu do esquecimento sobre as existências passadas é uma benção, que nos permite aprender e evoluir sem entraves rumo à perfeição, a qual chegaremos um dia.

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

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Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)



"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)