PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

domingo, 12 de setembro de 2010

AMOR CONSCIENTE



AMOR CONSCIENTE
(Genaura Tormin)

A vida se conta pelos anos,
Pelas experiências...
Pelo plantio e pela colheita...
É uma construção em terreno árido.

O arroubo da paixão
Dispersa-se pelo caminho,
Em retalhos esquecidos,
Levados pelo temporal.

Em troca,
Um amor maduro,
Consciente.
Companheiro,
Alicerçado
Em cuidados, respeito,
E muito aconchego.

Encanecem os cabelos,
Muda-se a silhueta.
Mórbidos,
Arquejam os desejos.
A labareda já não existe,
Apenas a brasa moribunda
Continua alerta, de sentinela.

Pela janela,
O horizonte tão longe,
Tão distante,
A esculpir a história
De um GRANDE AMOR.
Um filme para reviver!
_______________
Alfredo, querido, hoje é o seu aniversário!
Parabéns! Que Deus o ilumine e o proteja sempre, sempre, conservando-o por muitos e muitos anos entre nós, como esteio dessa família que o ama demais.
Beijos da sua mulher
Genaura Tormin

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

ACESSIBILIDADE E TRABALHO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA



ACESSIBILIDADE E TRABALHO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
(Genaura Tormin)

“Sem pátria acessível e inclusiva, a democracia para as pessoas com deficiência de todos os Países, é impossível.”
(Luis Fernando Astorga)

O trabalho remonta aos tempos do homo sapiens, ao tempo das cavernas, por estar ligado à sobrevivência. E para nós significa dignidade, além de uma verdadeira terapia ocupacional que nos devolve o sentimento de utilidade. É a oportunidade justa para provar que poderemos ser, não apenas força produtiva, mas força transformadora, aumentando a esperança num País justo e progressista, diminuindo-lhe os problemas sociais, além de servirmos também de motivação e incentivo aos muitos “paralíticos andantes”, que se alicerçam numa ociosidade crônica para nada fazerem ou mal fazerem.

A Constituição Federal de 1988 concedeu direitos à pessoa com deficiência, abrindo-lhe mercado de trabalho, permitindo-lhe participar do processo econômico, político e social do País que lhe serviu de berço.

A acessibilidade, condição indispensável para que possamos viver com dignidade, é a principal porta, pois, precisamos nos mostrar e exercitar o nosso caminhar, dar a nossa participação de trabalho. É a acessibilidade que garante o pleno exercício de direitos. Hoje a deficiência significa um conceito em evolução, que resulta da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras relativas às atitudes e ao ambiente que impedem a sua plena e efetiva participação na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, segundo a Convenção Internacional das Pessoas com Deficiência, ratificada pelo Brasil.

Há legislação que garante o exercício desse direito, abrindo caminhos para melhorar a acessibilidade a todos os lugares:
A Lei n. 7.853, de 24 de outubro de 1989, regulamentada pelo
Decreto n. 3.298, de 21 de dezembro de 1999;
Lei n. 10.048, de 08 de novembro de 2000;
Lei n. 10.098, de 19 de dezembro de 2000,
e no Decreto n. 5.296, de 02 de dezembro de 2004;
Lei n. 10.226, de 15 de maio de 2001;
Lei n. 11.126, de 27 de junho de 2005, e
Decreto n. 5.904, de 21 de setembro de 2006.

Toda essa legislação estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, mediante a supressão de barreiras e de obstáculos nas vias, espaços e serviços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma de edifícios e nos meios de transporte e de comunicação.

Da mesma maneira que se preparam as crianças para a vida, por meio da escolaridade, o Estado/tutor deveria propiciar às pessoas com deficiência, além da escolaridade curricular, a educação profissional que as introduzirá no mercado de trabalho, sem ter que ficar sob o jugo do assistencialismo que camufla a capacidade.

A pessoa com deficiência preocupa-se muito em mostrar competência e conquistar respeito pelos próprios méritos. Por fazer parte da diversidade da vida, enfrenta muitos preconceitos. Sua estampa carrega o estigma do temor, da piedade, e quase nunca o do respeito.
Embora o desafio seja o alvo para criar consciência popular, há muito ainda a desejar.

Pouco se conhece do slogan "Oportunidades iguais para todos" ou "Tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida em que eles se desigualam".

Tem-se que ser imbatível para conquistar aceitação e mercado de trabalho, pois o desconhecimento social e a falta de acessibilidade significam grandes barreiras.

Trabalho é saúde, é progresso. Cabeça vazia é sempre “oficina para o diabo”. E a ociosidade é um chamariz para as enfermidades mentais, redundando, muitas vezes, em depressão, suicídio e tristeza para a família e amigos.

Nas edificações de logradouros públicos, quase nunca somos consultados quando de sua feitura, especialmente quanto aos banheiros, onde há certas peculiaridades e a necessidade de usá-los é vital para o ser humano. Nem os banheiros dos hospitais são construídos para nós. O improviso tem sido o nosso lema, acompanhado, é claro, de tristeza e constrangimento.

Cálculos demostram que os custos financeiros da construção de uma obra adequada e com acessibilidade às pessoas com deficiência, ou melhor, a todas as diversidades, ficam acrescidos, apenas, de 2%.

Apesar de integrar um grupo vulnerável, geralmente relegado à exclusão e exposto a concepções desprezíveis, a pessoa com deficiência física, devidamente inserida num local de trabalho sem barreiras que lhe impeçam o caminhar, produz, cria e se evidencia em competência, auxiliada pelo desafio que se insinua garboso. Essa segurança reflete na sua qualidade de trabalho e, consequentemente, de vida.

Oferecer chances para que todas as pessoas possam desenvolver suas potencialidades, respeitando as diferenças é um compromisso com a ética na redução das desigualdades sociais, em prol da ordem, da paz e do progresso da nação.

Delegada de polícia, pode?
Pois é, exerci com galhardia, dedicação e competência esse cargo, embora do alto de minha cadeira de rodas. Hoje estou no Judiciário Federal e me sinto honrada de emprestar minha cota-participação de trabalho ao meu País.

Relembrando o início dessa militância, em condição até então inusitada e num cargo tão difícil e complicado, vai aí um pequeno relato daquele tempo em que o desafio pautou a minha vida, fazendo-me forte a qualquer embate.

Gerindo os destinos de mim mesma, ia armazenando segurança no começo de uma nova vida. Reunia todas as migalhas que considerava útil e com elas construí uma fortaleza. Alçava meus voos domésticos, progredia no trabalho e ficava satisfeita com o reconhecimento popular. Era comum alguém do povo exclamar: — Vi a senhora na televisão, mas não sabia que era paraplégica. Que pena!

O cinegrafista não focalizava a cadeira de rodas durante as informações que, por vezes, tinha que prestar em frente das câmeras sobre trabalhos presididos por mim na delegacia. Talvez quisesse demonstrar-me um gesto de carinho.

Certa vez, expliquei-lhe que a cadeira fazia parte. Não podia locomover-me sem ela e não tinha o menor constrangimento. Afinal era o meu jeito de andar.

— São as minhas pernas de aço, os meus nervos inquebrantáveis... Pode mostrá-los ao público. Não me menosprezará por isso.

A repórter que ouvia as minhas explicações, para justificar diante das câmeras, revelou ao telespectador que eu era uma deficiente de cadeira de rodas, e, em seguida, dirigiu-me a palavra:

— Como a senhora pode exercer o cargo de Delegado de Polícia, numa cadeira de rodas?

Com o meu instinto poético e tentando ser abrangente na resposta, também, às muitas perguntas que me haviam sido feitas pela vida afora, expliquei:

Quero dizer a vocês,
Que a mente não está nos pés,
E aqui, na minha cadeira,
Trabalho por mais de dez.

Quem me conhece, já sabe
Da minha capacidade,
Não me curvo por besteira
E luto com hombridade.

Mato a cobra e mostro pau.
Medo, não tenho não!
Já mandei prender bandidos,
De estuprador a ladrão.

Lembro-me do grande Franklin,
Dos Estados Unidos, presidente,
Em tempos reacionários,
Exemplo pra muita gente.

Por isso estou aqui,
Em condição inusitada,
Pois sei que neste Planeta,
Não tem uma delegada

Numa cadeira de rodas,
Que seja capacitada,
Faça inquéritos e flagrantes
Numa Especializada.

Mente sã é corpo são,
Por isso não tenho nada,
Sinto-me com pernas fortes,
Numa cadeira sentada.

Na rua dirijo carro,
Faço compras e viajo,
Trabalho, leciono e nado.
É só questão de estágio.

Para os que não me conhecem,
É essa a informação,
Moradores da cidade
E outros que aqui estão.

“Ninguém pode chegar ao topo armado apenas de talento. Deus dá o talento; o trabalho transforma o talento em gênio.” (Ana Pavlova)

Assim matei a curiosidade do telespectador, mostrando-me por inteira, sem reticências.
Depois desse episódio, foi-me crescendo o desejo de abrir as portas ao público, não só no meu trabalho, mas na minha intimidade depois da paraplegia. Senti que o povo nada sabia sobre pessoas com deficiência, razão por que as julgava inválidas, como se a cabeça estivesse no dedão do pé, devotando-lhes, ainda, desairosa compaixão.

Eu, também, quando andava, nada sabia sobre paraplégicos. Nunca parei para pensar. Eram coisas alheias ao meu convívio. Deixa pra lá! Estava muito ocupada com os problemas, os sucessos e enleios da vida. Não transava o assunto, assim como a maioria da nossa gente. Jamais imaginei que a sensibilidade tátil ia de embrulho, por acréscimo. Realmente, o pior só acontece aos outros, nunca à gente!

O desejo foi crescendo, crescendo, tomando formas, amadurecendo, e embora tivesse que desvestir a dor para erigir marcos benfazejos em defesa do porvir, escrevi PÁSSARO SEM ASAS, que surgiu radiante, feito uma cartilha de amor à vida, para ajudar outras vidas, abrir caminhos e falar de possibilidades, de desafio e de muitas conquistas.

Hoje há uma consciência popular maior sobre a acessibilidade e mercado de trabalho para pessoa com deficiência.

O Tribunal onde trabalho é servido por rampas, e tenho um banheiro decente que atende às minhas limitações.

Tenho tido dificuldades para entrar nos banheiros dos hotéis durante as viagens. Aí a criatividade e o improviso se encarregam, preocupando-me para não ficar triste. Às vezes, lavo o rosto com toalha molhada, fico sem tomar banho, lavo as axilas, as partes íntimas [risos]... Tendo o marido por perto, tudo fica fácil, embora não deixe de reclamar (da falta de adaptações) para criar consciência popular. Não me constranjo em subir escadas nos braços de alguém.

Faço isso para que outras pessoas vejam. Pode ter ali um futuro arquiteto, um futuro engenheiro, solo fértil para o plantio da semente.
Para executarmos uma tarefa, é lógico que precisamos dos apetrechos inerentes à sua feitura. E nós, paraplégicas, precisamos de pernas de roldanas para substituir o nosso caminhar. “É o faz de conta”. É a condição sine qua non para irmos à vida, para sermos produtivas.

Contudo, é muito triste vermos colegas com deficiência, em cujas cadeiras de rodas há tarjas indicando em letras grandes que foram doadas. Abomino tal conduta, a qual se enquadra como ato típico perfeito de roubo da dignidade. E dói muito quando feita pelos governantes, que apenas administram as receitas oriundas dos nossos impostos e têm por obrigação o soerguimento social.

Se uma pessoa com deficiência precisa de uma cadeira, tem de pagá-la com o ônus da humilhação. Fica mais cara do que uma cirurgia de grande porte, pois a ferida não sara, ficando sempre à mostra para o escárnio dos que passam por ela. Mais um conceito negativo estampado do respaldar de sua cadeira.

Digo isso no sentido de mudar mentalidades na construção de um mundo melhor, onde possamos, realmente, fazer parte como indivíduos produtivos, integrantes da nação.

Oxalá possamos algum dia comemorar “Um Brasil onde todos os brasileiros tenham oportunidades de desenvolver as suas potencialidades e realizar os seus sonhos. Um Brasil sem preconceitos, que não discrimine nenhum dos seus filhos. Um Brasil decente”. (Luís Inácio Lula da Silva)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A FORÇA DO BEM



A FORÇA DO BEM
(Genaura Tormin)

Todos saíam da sala, apertando-se na porta que dava para um comprido corredor, apinhado de alunos de outras turmas. Era a hora do intervalo (recreio). Muitos procuravam a cantina para, além de um lanche, uma descontração com outros colegas e até uma chegada à biblioteca para alguma consulta jurídica.

Na sala de aula, agora, praticamente vazia, ficamos nós, eu e o marido, além do professor que à mesa consultava o diário de classe. Para nós, o descanso ali seria mais proveitoso, pois antes tínhamos tido uma jornada de trabalho extenuante, conciliando com as tarefas domésticas, filhos pequenos e trabalhos escolares. Uma ocasião propícia para acertos de algumas pendências.

De repente o professor dirigiu-nos a palavra, perguntando-nos sobre a nossa profissão.
_ Sou odontólogo e minha mulher é servidora pública estadual. Para acompanhá-la, ambos estamos fazendo o curso de Direito. As matérias são bem adversas, mas estou gostando muito.

Foi aí que ele nos falou sobre um dentista que, repentinamente, passara a ouvir vozes e ter visões no próprio consultório, embora não professasse nenhuma religião atinente. Isso era notório e todos sabiam naquela época. O dentista incorporava o espírito de um médico e passara a fazer tratamentos, com êxito. Isso o forçara a atender publicamente muitos pacientes que se enfileiravam para as consultas. Seria uma missão?

O assunto era tratado até pelos órgãos de comunicação de massa. Um fenômeno inexplicável aos olhos do leigo. Nós também nada sabíamos sobre isso, uma vez que eu era egressa de um colégio de freiras, onde morei durante nove anos, e o Alfredo provinha de uma família tradicionalmente católica.

Aproveitando da oportunidade, o mestre contou-nos uma história que até hoje a guardo na mente e no coração.
Aqui, usarei nomes fictícios, com o objetivo de resguardar identidades e facilitar a intelecção.

Disse-nos, ele:
_ Sempre fui uma pessoa sagaz, inteligente e perquiri os meus objetivos com afinco. Considero-me um homem realizado, embora alguns acidentes de percurso que, hoje, sei que serviram ao meu aprimoramento, à evolução do meu espírito.

Galguei os píncaros de minha carreira, cumulando-a com o magistério, do qual gosto muito. Pelo cargo conquistado, sentia-me apoderado no cume da pirâmide, quase acima do bem e do mal. Para completar, um lar bem estruturado e a importância do destaque social.

Entretanto uma dor cravara-se no meu peito, dilacerando-me a alma: um filho, com paralisia infantil, com grande comprometimento. Aos filhos amamos mais do que a nós mesmos. Tudo fizemos para tentar amenizar a situação, mas não foi possível, nem mesmo no Exterior. Isso era o calcanhar de Aquiles para toda a família que sofria unida. E o menino crescia, debulhado em sorrisos e sem reclamações, acostumado às amarras de seu viver físico, sem nenhuma perspectiva que pudesse lhe devolver os passos, o caminhar pela vida, como as demais crianças de sua idade.

Ao deixá-lo na escola, era-me doloroso sentir os olhares piedosos ou assustados dos coleguinhas e de adultos também. Ele, praticamente não andava, arrastava-se feito uma arranha ou um monstrengo. Eu sempre voltava arrasado, impotente e cheio de porquês. Como gostaria de trocar de lugar com o meu filho! Entretanto, o meu poderio, a minha inteligência, o pedestal de minha carreira, eram incapazes para devolver ao meu filho a condição de andante, embora ele nunca a tivesse experimentado. Não conhecesse a liberdade de ir e vir por meio da agilidade dos passos. Jamais conheceria o prazer de jogar bola, andar de bicicleta, praticar esportes...

Um dia, ao retornar a casa, após exaustivas audiências, minha mulher falou-me sobre esse dentista que, inexplicavelmente, estava fazendo curas, através do espírito de um médico desencarnado, chamado Dr. Manuel.

Avesso ao tema, tentei persuadi-la a não acreditar nesses boatos, não obstante o protagonista fosse uma pessoa qualificada, do ponto de vista científico. Após alguns dias de muita insistência e tendo em vista o alvo do pedido ser o nosso filho, Lucas, aceitei que ela marcasse uma consulta com o tal médico desencarnado que, agora, já atendia num local maior, dado o grande contingente de pessoas que o procurava.

Meio sem jeito e um tanto envergonhado, compareci no dia e hora marcados, porém, sem qualquer identificação. Já pensou o que diriam os meus pares?

Adentrei num ambiente simples, limpo, com modesta aparelhagem médica: o consultório do Dr. Manuel. Sem delongas e nenhum aparato, contei a história do meu filho e a nossa desvairada busca para que ele ganhasse um pouco de independência para viver.

O médico, que na verdade era o dentista, num linguajar erudito e conhecedor, falara-me de muitas outras coisas, menos da situação do Lucas, a qual era o motivo de minha ida ali. De tudo o que falou, ficou bem registrado a força do bem, o amor ao próximo e a caridade, como estandartes de nosso compromisso nesta vida. Aguardando o desfecho final, quando ele, certamente, falaria sobre o Lucas, fui convidado a sair, pois minha hora havia se esgotado.

À direção do carro, de volta para casa, senti-me como se fosse uma pessoa com retardo mental. Um idiota mesmo. Logo eu que me reputava tão cético, tão preparado, tão arguto! Queria esquecer daquele episódio. Pensei em não dizer a Mônica que havia estado com o tal médico, mas não podia fazer isso. Afinal ela era minha mulher, a outra metade de mim e esperava a resposta ansiosa. Era uma mãe aflita em defesa da cria. Sem esconder a minha decepção, relatei-lhe a infrutífera consulta ao tal médium dentista, selando, finalmente, que deveríamos nos esquecer definitivamente daquilo. Era, no mínimo, ridículo.

Algumas semanas depois o meu carro acusou um sério problema, embora fosse relativamente novo. Por isso teve que ficar na revisão por mais de uma semana. O jeito era usar o táxi, ao que a Mônica sugeriu que eu fosse apanhá-lo no ponto, há poucos metros de nossa casa, por que assim tomaria um pouco de sol. Anuí e segui caminhando pela rua de nossa casa, que estava solitária e o sol brilhava, iluminando as árvores e os carros parados. A brisa era amena, fagueira, e o céu de um azul encantador. A primavera desabrochava nos jardins e nos flamboyants nas calçadas. Eu não costumava andar a pé por ali. Praticamente não conhecia a vizinhança, excetuando-se poucos cumprimentos formais.

De repente os meus olhos identificaram um menino, de uns 11 anos talvez, sentado numa cadeira de rodas, no alpendre de uma das muitas residências, o qual sorria para mim, emitindo sons guturais, acompanhados de descontrolados e retesados gestos. Percebi que o garoto possuía esclerose cerebral. Como não havia ninguém para nos observar, parei na rua, defronte do solitário alpendre e tendo em vista o excesso de alegria do menino, não podia mesmo olvidar, ocasião em que lhe tentei dar um pouco de carinho, também por meio de gestos. Sorri, gesticulei e vi que ele se alegrava com o meu afeto. Os seus olhos brilhavam, excitados. Na mente, viera-me a imagem sorridente do Lucas.

No dia seguinte, a cena se repetira do mesmo jeito e nas mesmas condições. Comecei a pensar no garoto e devotar-lhe afeição, até que chegou a sexta-feira, último dia em que apanharia o táxi. E lá estava o menino, a cada dia mais alegre. Mesmo sem ele entender a minha linguagem, nem eu a dele, já éramos amigos. Eu sempre me surpreendia sentindo saudades e desejando revê-lo.

Para surpresa, um senhor saiu do interior da residência e cumprimentou-me de maneira cortês. Nas mãos tinha um embrulho que, pelo formato, parecia tratar-se de um livro. Falou da alegria do filho e da espera todos os dias por minha visita.

_ Doutor, quando chega esse horário ninguém detém o Arthur no interior da casa. Gesticula, emite sons, fica impaciente, até ser trazido para o alpendre, na esperança de ver o senhor. Notamos que esse encontro é muito importante para ele. Tem-lhe feito muito bem. Por isso eu, na condição de pai, agradeço-lhe muito.

Era um senhor simpático, feliz, de sorriso farto e linguajar brando e afetivo. Não obstante as minhas escusas, terminei aceitando o presente, agradeci e sem outros comentários, segui até o ponto de taxi. No Tribunal, guardei o embrulho na gaveta, ainda lacrado. Tratava-se de um dia exaustivo, com audiências complicadas.

Meses depois, finalizado o trabalho daquele dia, e restando ainda boa parte da tarde, tive uma sensação de vazio e, aleatoriamente, lembrei-me do livro. Era uma boa oportunidade para vê-lo, pelo menos o título, o tema... Qual não fora a surpresa ao constatar que se tratava de tudo que o Dr. Manuel (o dentista) havia-me falado, quando lá estivera a procura de lenitivo para o meu filho. O título era A FORÇA DO BEM, escrito por Diamantino. Comecei a folheá-lo e terminei por lê-lo, o que fiz, posteriormente, muitas outras vezes.

Iniciava-se aí a construção de uma nova concepção do BEM e o maravilhoso valor de servir, independente de qualquer recompensa. Simplesmente o BEM pelo BEM. Isso, a cada dia, ia tomando formas e lapidando o meu ser, aparando-me as arestas. Fui fazendo tentativas para abater a arrogância, a supremacia de que pensava ser dono, e melhorar a convivência com os meus alunos, secretários e serviçais, tratando-os com respeito e carinho. Melhorar a convivência comigo mesmo, fazia-se necessário. Era uma faxina interior e silenciosa, entretanto, logo notada por minha mulher. Era o início de uma transformação interior em busca de um NOVO HOMEM.

Certo dia, por acaso, encontrei um amigo, o qual me dissera que estava participando de um trabalho de reconstrução de casas de pessoas da periferia, que haviam perdido os seus lares por causa de enchentes, que à época castigavam a nossa cidade. Perguntara-me se eu queria juntar-me a eles para ajudar nos fins de semana. Fiquei um tanto assustado em me prestar a serviços de tal natureza, mas no meu coração, o ensimesmado juiz já não era o mesmo.

A solidariedade do colega e o desejo de servir me contagiavam. Realmente era a FORÇA DO BEM. Era chegada a hora de eu também me alistar como recruta. Uma sensação de paz tomou-me a alma. E eu me ofereci com prazer, como se tivesse tentando adquirir outro diploma de doutorado. Comecei a sentir algo diferente que, depois, vim a saber chamar-se FELICIDADE.

Assim, parti firme e resoluto para o exercício de outro ministério, agora com o lacre do amor espontâneo que me conduziu a reformular os meus valores, dando-lhes essência, cor e vida. Revelei-me um excelente ajudante de pedreiro. Não só isso. Os colegas costumavam dizer que eu era “PAU PARA TODA A OBRA”.

Era uma grande satisfação servir naquela frente de trabalho, vendo os barracos serem reerguidos e as famílias abrigadas do frio, do vento, da chuva, do tempo... Quantos inocentes!!! Quanta pobreza! Seres humanos! Minha vida tomou um novo sentido e eu me tornei um novo homem. Tudo pela FORÇA DO BEM.

O tempo passava veloz e tudo seguia com suas traves, entraves e muitas alegrias. Um dia Mônica acordou mais cedo do que o de costume e, ainda na cama, contara-me que havia tido um sonho inesquecível, passando a narrá-lo:

_ Sonhei que estávamos num hospital. Parece que esperávamos uma consulta para o Lucas. Estávamos sentados em poltronas defronte de uma sala de cirurgia, identificada acima por letras grandes. De repente a porta abriu-se e de lá saíram dois médicos. Não eram nossos conhecidos. Ouvi bem quando um deles, ainda tirando a máscara cirúrgica que lhe tapava a boca, comentou com o colega: “a solução do problema daquele menino está aqui, apontando para a Sala de Cirurgia”. Ainda guardo a cena e o olhar do médico direcionado ao Lucas. Não é incrível, Marcos?

Quem sabe deveríamos levar o Lucas para uma consulta com o Dr. Jeovane? Já faz algum tempo da última estada nossa lá. Na semana passada eu o encontrei no elevador, o qual mandou recomendações para você e perguntou pelo nosso filho.

Marcamos a consulta, para nova revisão do Lucas, com o médico ortopedista, Dr. Jeovane, que há anos o assistia. O médico, renomado por seu excelente trabalho, reafirmara-me que a paralisia infantil (poliomielite) era irreversível, particularmente no caso do Lucas, mas ia passá-lo aos cuidados de um médico recém-formado que fizera estágio num hospital especializado em Brasília e que agora estava trabalhando naquela clínica.

Após a abordagem clínica e a feitura de muitos raios-X, o médico – Dr. Tadeu – dissera que se poderia tentar melhorar a postura do garoto, mas que isso demandaria uma série de cirurgias, pelo menos umas seis cirurgias, feitas paulatinamente ao longo do tempo. Era uma luz no fim do túnel e eu fiquei contente.

No dia e hora marcados, lá estava eu com o Lucas. O amor invadia-me a alma e saía pelos poros. Acho que fumei todos os cigarros do mundo. Um enfermeiro veio depilar o pezinho do Lucas, onde seria realizada a intervenção cirúrgica. Atento ao trabalho, pedi ao enfermeiro que fizesse a depilação completa, ao que ele quis se negar, uma vez que a operação seria realizada apenas no pé. Usei de autoridade e fi-lo cumprir o meu pedido.

À porta do Centro Cirúrgico, eu esperava impaciente, mas convicto de que alguma melhora se registraria em prol da liberdade do meu filho. Muitas horas se passaram, até que vi a porta se abrir e de lá saírem os dois médicos, com agradáveis expressões faciais.

_ A cirurgia foi um sucesso!! E como já estava tudo preparado, depilado, propício, e as condições favoreciam, fizemos as seis intervenções cirúrgicas. Agora é esperar o pós-operatório e a convalescência. Vamos torcer!! Alguma melhora virá!

E para concluir a história, o mestre nos disse em tom vitorioso:

_ Hoje, meu filho ANDA ERETO como qualquer um ser humano! ELE, E EU TAMBÉM!
__________________________

O bem é contagioso!
Essa história também aparou algumas pontas, algumas agulhas que empobreciam a escritora deste texto. Até hoje tento me lembrar e enaltecer A FORÇA DO BEM.
Oxalá você, leitor, possa também se juntar a nós!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

AVE, GENAURA....



“Ave, Genaura...
(Verônica de Nazareth)

Ave, César...Ave, Genaura, “Imperadora” da sua vontade, (re) criadora da sua própria vida, com a propriedade e a força que, às vezes –e muitas vezes-, falta em tantas pessoas que nem são “tocadas” pela pseudofatalidade como ela foi. E, que Guerreira e Grandiosa, se fez alada para sobrevoar a todos os lugares e recantos, onde suas pernas físicas já não mais permitiam...

Ave, César, por certo era o máximo de reverência, encerrando respeito. Ave, Genaura, é, sem dúvida, o mínimo que minha admiração, carinho e amor-amigo pode expressar diante da emoção profunda ao acabar de ler Teu “Pássaro sem Asas” que na verdade, é o mais alto, corajoso e sólido vôo de quem mesmo com “asas/pernas” feridas, num esforço (quase) sobre-humano, impulsiona tudo o que resta e decola, Guerreira e Grandiosa, rumo ao infinito das possibilidades criativas, fortemente alicerçadas na vontade de continuar e de vencer.

Então, Ave, Genaura...Ave! Que ao leres estas palavras, me imagines na “postura vertebral” correta, braços estendidos dizendo Ave, Genaura, ao mesmo tempo em que o gesto encerre todo o meu sentimento por ti –que já era lindo, profundo e sincero- agora revestido de um novo e especial brilho. O brilho que tu refletes, com tua história de luta, dedicação, obstinação positiva, entrega total à vida quando ela te “passava uma rasteira” e conseguia te fortalecer ainda mais.

Genaura, dessa “rasteira” e da dor decorrente, conseguistes sublimar a dor e a impotência, tão comuns no ser que se “apequena” diante dos reveses da vida. E, como belamente poetas em “Sublimação” –constante do livro à página 62-, destaco alguns versos, os que creio, “te resumem” em atitude e ação corajosa, que fizeram Toda a Diferença, para teres continuado a Ser verdadeiramente, e cada vez mais Ser...e Ser... e Ser a Pessoa, Mulher, Poetisa e Profissional que és.

Enfim, o Ser em Essência Efervescente a “entrar e correr” pelas veias da emoção de quem te conhece a alma... Eis meu destaque do teu belo poema-perfil e síntese das gotas mágicas que sorvestes para te “re hidratar” e continuar sendo Belamente Inteira e Intensa:

“Viver,
(...)
Sofrer,
Resistir.
(...) ...
Sublimar para não sofrer,
Diante do que não se pode mudar.”

Para sempre amizade, carinho, amor fraterno e Ave, Genaura, Mulher Exemplo Inesquecível!
...Only You (midi) traduz a “figura” capaz e a capacidade de um Renascimento tão pleno...

Veronica de Nazareth-Noic@
Santa Fé do Sul - RG
_________________
Obrigada, Verônica! Não mereço, mas fico tão contente! São os seus olhos e o seu coração que me veem assim. Essas menções de afeto aumentam-me as forças, a fé e coragem para seguir adiante. Obrigada!!!!!
Beijo grande da
Genaura Tormin

domingo, 29 de agosto de 2010

UM VASO DE ORQUÍDEAS


UM VASO DE ORQUÍDEAS
(Genaura Tormin)

Gosto muito de orquídeas!
Vejo nelas a perfeição da natureza que se desnuda numa policromia matizada e nas formas diferentes e graciosas de suas pétalas mágicas e belas. Realmente, vejo Deus no comando do Universo, como O Feitor da Vida e de tudo que nela existe.

Ainda recente, estive hospitalizada. Nessa faixa etária, essas visitas são necessárias, por causa da fragilidade do invólucro físico, com suas muitas mudanças imprescindíveis à evolução do espírito. Afinal, os pés já se encontram estropiados e feridos pelos pedregulhos da estrada.

A borboleta não pode eclodir, para alçar voo, sem o rompimento do casulo, penso eu. E isso é lento, ao longo do tempo, para que nos acostumemos a esperar o navio no cais do porto ou o trem na estação, pois eles não atrasam. Partem na hora exata. E essa partida é certa, tão logo a missão esteja terminada.

Aqui estamos a trabalho, como se estivéssemos cursando uma pós-graduação ou um mestrado na matéria em que fomos omissos noutras estadas neste Planeta.

Embora, naquele momento, o meu espírito passeasse para acompanhar o marido, rever os filhos, os netos, o lar, voltasse ao passado, às mais diversas fases da vida, fisicamente, eu me encontrava ali, sozinha no recinto hospitalar, por sinal, acolhedor e arejado, de cuja janela eu podia ver o céu azulado, repleto de nuvens viageiras que se deslocavam, bordando o Cosmos.

O meu espírito, muito além de mim, excursionava, sem peias, sem amarras, alicerçado nas asas do pensamento, aos muitos momentos que formaram a minha vida nesta existência. Ufa, quanta saudade, quanta alegria, mas também quantas dificuldades! Penso que as dificuldades sejam o que de melhor carrego na bagagem.

Enclausurada entre as quatro paredes brancas do quarto, envolvida na paz do branco lençol que me agasalhava o corpo, eu estava leve, livre e ligeira... Um momento único para uma reflexão no silêncio do tempo.

De repente a porta se abriu e o meu espírito deve ter pousado em algum galho de árvore do caminho. O certo é que eu estava realmente ali. O ambiente foi inundado de luz, invadido por um sorriso farto, estampado no rosto trigueiro do meu filho Flávio, minha cria e meu colega de trabalho. Além de amigo, é um conselheiro, um mestre. É um aliado para todas as empreitadas. Sua sapiência soma-se sempre ao carinho e à simplicidade amorosa de um filho. Por vezes, torna-se criança e rimos juntos, sem saber de quê.

Para mim, todos são ainda os meus pequenos filhos, com toda a graça dos mais verdes anos, que ficaram reclusos nas celas da memória e no canto do coração, feito alento que cura, cala e consola.

Em suas mãos, um vaso de orquídeas, lindamente ornado, onde um pássaro azul esgueirava-se de uma de suas hastes.

Após me pedir a bênção, hábito costumeiro da família, beijar-me o rosto, inteirar-se do meu estado de saúde, entregou-me as orquídeas. Via-se, pela fisionomia, que o seu coração pulsava mais forte e o rosto estampava alegria. O meu, derretia-se inteiro e as lágrimas afloram-me às faces. Sou uma manteiga derretida, mas gosto de ser assim. É o amor que me extrapola, dando vazão ao sentimento.

_ Mamãe, não se preocupe, pois o pássaro vai voar, viu! Disse-me ele a sorrir, com um jeito jocoso, otimista e cheio de ternura!

_ Com certeza, meu filho! Esse pássaro ainda vai fazer muitas proezas! Ele nasceu para vencer barreiras, ultrapassar fronteiras, driblar dificuldades e alar o mundo feito borboleta! Estou aqui, apenas hospedada, num retiro ao meu interior. Um dia de férias, um feriado especial. Talvez um dia santo, necessário à minha evolução.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

TENTE MUDAR


TENTE MUDAR
(Genaura Tormin)

Tudo está em constante evolução.
As pessoas mudam, o tempo passa, o mundo se transforma na metamorfose da vida.

Tudo se esvai com o vagar do tempo, e por vezes nos esquecemos de nós mesmos, do que fomos, do que somos. Nada permanece igual. Restam nos os bons momentos guardados para sempre nos aposentos da memória.
Cada momento é único e não volta nunca mais.

Na vida, surgem obstáculos e as saídas parecem inexistir. A dúvida nos massacra, nos toma a alma indefesa a cada desalento, a cada manhã sem perspectivas: Será que a luz existirá mesmo no "fim do túnel"? Para tudo há uma solução que está intrínseca dentro de nós mesmos.

O medo, a insegurança, o pavor de perder são inimigos diários que devemos enfrentar com uma só ação: CORAGEM!

Este é um mundo de provações e ninguém aqui está sem trabalho, sem missão. Aliás, o trabalho, por mais humilde que seja, é digno e representa prece, oração, oportunidade para crescer.

O coração, a intuição são os nossos mestres! É a voz de Deus dentro da gente. Devemos segui la sem medo de errar, desde que os feitos se enquadrem nos parâmetros da dignidade e da justiça.
Mas o que é a vida, afinal?

A vida é o emprego que nós mesmos escolhemos aqui. Ela é feita de momentos ruins e bons, tristes e alegres, e, muito mais de renhidas batalhas para moldar o nosso espírito, conduzindo o a patamares superiores, conforme o nosso livre arbítrio.

A vida é, também, uma escola, uma pós graduação na matéria em débito. Viva e aprenda com a vida. Tire proveito das lições ensinadas. Supere seus débitos com galhardia. Procure não ser repetente. Respeite a vida e não perca as muitas oportunidades de evoluir.

Olhe em sua volta! Veja o céu, o sol, o amor, a paz, a flor.... Enquanto ele brilhar, existirá esperança.
Poderemos ser felizes, basta vermos tudo com olhos de amor, de gratidão, de compaixão, solidariedade... Não é favor. É amor, é Deus dentro de nós!

Faça de sua vida uma eterna primavera com flores e botões, pois viver é renovar se, é crescer. É querer ser cada vez melhor.

Você não precisa provar aos outros o que o você é. Apenas viva e tente ser feliz. Lute até o fim, busque os seus sonhos e ideais com a certeza de que os alcançará, restando lhe a satisfação do bom combate, da perseverança e da vitória.

Os obstáculos são como os "espinhos" que alicerçam a flor e se vão, dando lugar à sua exuberância, ornada de pétalas rubras e enternecidas de paz rumo a Casa do Pai.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

ENTREVISTA SOBRE ACESSIBILIDADE


ENTREVISTA SOBRE ACESSIBILIDADE
para integrar trabalho interdisciplinar de conclusão do curso Design de Interiores da PUC-GO.
(Genaura Tormin)

1) Em sua opinião, até que ponto a legislação brasileira, responsável pela criação de normas e padrões de acessibilidade, atende às expectativas das pessoas com deficiência?

R - Há farta legislação que garante o exercício desse direito, abrindo portas para melhorar a acessibilidade a todos os lugares. A Lei n.˚ 7.853, de 24 de outubro de 1989, Decreto n.˚ 3.298, de 21 de dezembro de 1999, Lei n.˚ 10.048, de 08 de novembro de 2000, Lei n.˚ 10.098, de 19 de dezembro de 2000, e no Decreto n.˚ 5.296, de 02 de dezembro de 2004, estabelecem normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, mediante a supressão de barreiras e de obstáculos nas vias, espaços e serviços públicos, no mobiliário urbano, na construção e reforma de edifícios e nos meios de transporte e de comunicação. A Convenção da ONU sobre Direitos da Pessoa com Deficiência é o primeiro tratado internacional a vigorar no País com status constitucional, ratificado no Congresso Nacional em 09/07/2008, pelo decreto legislativo nº 186/2008, promulgado pelo Decreto n.˚ 6.949, de 25 de agosto de 2009. Essa Convenção é um tratado forte que marcará uma época, legando respeito a um segmento até então à margem da sociedade. Apresenta um conceito revolucionário sobre a Pessoa com Deficiência.
Significa poderoso instrumento legal para garantir direitos a todas as pessoas com deficiência em igualdade de condições com as demais pessoas.


2) Você acredita que esta legislação está sendo aplicada de forma eficiente pelo poder público e por profissionais como arquitetos, engenheiros e designers?

R - A Administração Pública tem papel preponderante na criação de novos padrões de consumo e produção e na construção de uma sociedade mais inclusiva, razão pela qual detém a capacidade e o dever de potencializar, estimular e multiplicar a utilização de recursos e tecnologias assistivas, com vistas à garantia plena da acessibilidade e a inclusão das pessoas com deficiência. E isso se faz baseado na legislação. É uma norma cogente.
Não obstante haja muito desconhecimento técnico do nosso dia-a-dia, ainda embasado na discriminação e no preconceito diante dos grupos vulneráveis, acredito que os arquitetos, engenheiros e designers têm muito a aprender, pesquisar, para conhecer o nosso modus operandi de fazer as coisas, de viver...
Ao Poder Público e aos seus órgãos cabem assegurar à pessoa com deficiência o pleno exercício de seus direitos, inclusive o direito ao trabalho, e de outros que, decorrentes da Constituição e das leis, propiciem seu bem-estar pessoal, social e econômico. Isso é lei e tem de ser cumprida, no exercício da inclusão e da adequação do ambiente, nos locais de trabalho de pessoas com deficiência.

3) Existe, por parte dos portadores de necessidades especiais e da população de um modo geral, o conhecimento dessa legislação, ou seja, a consciência dos direitos relativos à acessibilidade?

R - Eu acredito que boa parte das pessoas com deficiência tem conhecimento, mesmo por que há muita divulgação, incluindo campanhas por meio da mídia falada, escrita, televisionada e principalmente pela rede mundial de computadores. Muita coisa tem mudado para melhor. Hoje, a informação chega com muita rapidez. O avanço cibernético, a informática, a globalização são os responsáveis por tanta celeridade de progresso. Posso dizer que já há mais respeito, menos medo de nossa estampa.
Há muitas pessoas com deficiência estudando, passando em concursos, ocupando cargos públicos e outros empregos também na rede da economia privada. Precisamos sair dessa cultura de assistencialismo filantrópico para a equiparação no mercado de trabalho. Qualquer pessoa com deficiência, que se sinta realmente incluída num ambiente de trabalho acessível, produz e se evidencia em qualidade em diversos labores, de acordo com o conhecimento técnico científico. Os potenciais afloram mais aguçados, tentando superar de outras formas a falta ou disfunções de membros.
Da mesma maneira que se preparam crianças para a vida, por meio da escolaridade, o Estado/tutor deveria propiciar às pessoas com deficiência, adquiridas ou não, além da escolaridade curricular, a educação profissional que as introduzirá no mercado de trabalho, sem ter que ficar sob o jugo do assistencialismo, que camufla a capacidade e humilha, sem se falar da baixa estima que, muitas vezes, leva à depressão e ao suicídio.

4) O Design Universal hoje oferece uma gama de produtos, serviços e ambientes que facilitam a vida dos portadores de necessidades especiais. Até que ponto esta oferta está em sintonia com a demanda?

R - Cada caso é um caso, pois as deficiências têm conotações e limitações diferentes, razão por que o profissional deve fazer pesquisa de campo, abrangente, partindo de um conceito universal. Nem sempre o que determina a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) é o que atende satisfatoriamente. O próprio CRER, em nossa cidade, construído especificamente para reabilitar a pessoa com deficiência, não tem adaptação satisfatória. Nas edificações de logradouros públicos, quase nunca somos consultados quando de sua feitura, especialmente quanto aos banheiros, onde há certas peculiaridades e a necessidade de usá-los é vital para o ser humano. Nem os banheiros dos hospitais são construídos para nós. O improviso tem sido o nosso lema, acompanhado, é claro, de tristeza e constrangimento.
Cálculos mostram que os custos financeiros da construção de uma obra adequada e com acessibilidade às pessoas com deficiência, ou melhor, a todas as diversidades, ficam acrescidos, apenas, de 2%.

5) No seu caso específico, quais foram os maiores desafios enfrentados para conseguir independência e desembaraço no seu dia-a-dia?

R - Lógico que envidei muitos esforços para reverter o descalabro da situação. Mesmo por que sou paraplégica há 28 anos. Enfrentei o empirismo dessa condição. Sou guerreira de muitas batalhas para não ser escória de uma sociedade que, geralmente, só aceita os fortes, perfeitos e vencedores, alienando a pessoa com deficiência, sem entender que ela também é forte e vencedora de si mesma, compulsoriamente. É um resquício da cultura legada pelo modelo filantrópico. Vencer barreiras arquitetônicas é um dos grandes desafios enfrentados no dia a dia da pessoa com deficiência física, principalmente a que deambula de cadeira de rodas. Comigo não foi diferente. Tenho tido dificuldades para entrar nos banheiros dos hotéis durante as viagens. Aí a criatividade e o improviso se encarregam, preocupando-me para não ficar triste. Às vezes, lavo o rosto com toalha molhada, fico sem tomar banho, lavo as axilas, as partes íntimas [risos]... Tendo o marido por perto, tudo fica fácil, embora não deixe de reclamar (da falta de adaptações) para criar consciência popular. Não me constranjo em subir escadas nos braços de alguém. Faço isso para que outras pessoas vejam. Pode ter ali um futuro arquiteto, um futuro engenheiro, solo fértil para o plantio da semente. Assim, a cada dificuldade vencida, tenho a sensação de que valho mais, sirvo mais e vou me amando mais. Não sei, exatamente, se minha cadeira de rodas constitui problema ou dádiva. Sei apenas que começo a devotar-lhe gratidão. É por meio dela que ando, lido, participo da vida lá fora e me nivelo aos demais. Se não houvesse o desafio, os circenses não ganhavam a vida em grandes acrobacias. A conquista significa o mérito que laureia o nosso esforço. Tem-se um limão, que tal uma boa limonada?

6) O seu local de trabalho foi criado ou adaptado para atender suas necessidades específicas? Como foi esse processo?

No tribunal, tenho uma central de trabalho adaptada às minhas condições de mobilidade, respeitadas as condições ergométricas. Mesmo assim, tenho LER. O banheiro é devidamente adaptado, bem como a garagem. O tribunal é servido por rampas e elevadores para acesso a andares superiores. Um respeito e o cumprimento da legislação inclusiva.

7) A tendência do Design Universal hoje é a de criar ambientes capazes de atender a todas as pessoas, independente da idade, habilidade ou condição de saúde.
Você acredita que em um ambiente assim, naturalmente inclusivo, onde um paraplégico se sentiria mais seguro, mais confiante?

R - Com certeza. Acredito muito! É o Projeto universal com integração de acessibilidade para todos. Afinal a sociedade é heterogênea. É o que se chama “projetar acessível”, que significa uma concepção moderna de arquitetura urbanística e ambiental voltada ao bem de todos. O passo mais importante para a efetivação dessa política em nosso país é a acessibilidade, a quebra de barreiras arquitetônicas, requisito básico para que a pessoa com deficiência viva com dignidade e produza no mercado de trabalho.

8) No seu escritório você criou todas as facilidades para se locomover e para trabalhar com segurança e independência. E quando você sai do escritório, como você se sente?

R – Infelizmente o mundo não é adaptado para nós. O improviso é muito importante, além do cuidado para não ficar triste. Aprende-se outra maneira de viver, encontra-se outras ferramentas de auxílio, pois é necessário conquistar a liberdade de ir e vir, de produzir, mesmo a duras penas, para garantir a nossa inclusão na sociedade.
Particularmente, o meu local de trabalho ou lazer na minha residência, é o melhor possível, planejado com cuidado, como se fosse um longa manus, dimensionando-me as asas para planar nos veios dos versos. Sou poeta.

E O VENTO NÃO LEVOU MESMO!
(Genaura Tormin

Um tornado arrancou portas,
Matou sonhos, abalou desejos,
Revirou a casa, modificou costumes...
Levou os passos andejos.

No canto da vida, tudo quebrado,
Esfacelado no peito da agonia.
Sem conserto para tanto desmantelo,
A tristeza fazia companhia.

Mas o tornado passou!
E o vento não levou a bravura,
A coragem para reconstruir,
Reinventar passos, alar a mente,
Conquistar vida e seguir em frente.

E o que era uma casinha,
É hoje um castelo à beira da estrada,
Cheio de versos, de alegria,
Na fantasia da jornada.



Genaura Tormin
http://genaura.blogspot.com
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http://casadapoesia.ning.com/profile/Genaura Tormin

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

ADVOGADO


ADVOGADO
(Genaura Tormin)

Um homem forte!
Operador do direito,
Quase um sacerdote!
Lutar é o teu dever!

Qual soldado
À frente da trincheira,
Enfrentas para vencer!

Legalidade e liberdade
São os alicerces
De tua vocação.

Defensor da justiça,
E dos direitos do cidadão,
És mesmo um guardião!
_____________________
Hoje é o dia do Advogado!
A ele o meu reconhecimento e a fé
no seu compromisso com a Justiça.

QUEM SOU


QUEM SOU
(Genaura Tormin)

Senta-te aqui,
Ouve a minha história,
Segura-me as mãos,
Embala-me ao colo.

Faz-me uma carícia,
Um agrado,
Um chamego
E eu te direi quem sou.

domingo, 8 de agosto de 2010

CONFISSÃO DE UM FILHO


Este poema não é meu. É de minha irmã Josefa Alteff. Muito apropriado para a data. Significa uma reflexão, um reconhecimento, embora tardio. Que pena!

CONFISSÃO DE UM FILHO
(Josefa Alteff)

Sabe, pai,
Hoje me lembro com saudades
Da minha infância,
Da nossa amizade!
Como éramos companheiros!
Amigos de verdade!

Lembro-me de que aos domingos,
Você dizia:
_ Filho, vista sua camisa,
Que hoje tem futebol!
E você, só para me agradar,
Até torcia para o meu time.
Éramos tão felizes!

Você, pai,
Foi um pai de verdade!
Eu me sentia orgulhoso, seguro,
Forte e até corajoso.
Você me dizia sempre,
Entusiasmado:
_ Filho, meu sonho é ver você formado!
Você vai ser o meu orgulho!

Pois é, pai,
Custou-lhe muito trabalho,
Muito sacrifício,
Uma vida de lutas!

Hoje, sou o seu sonho realizado!
Atrás de uma mesa de escritório,
Dirijo grandes negócios.
Sou mesmo muito importante!
A cada dia, cresço mais.
Estou subindo,
Sou um grande empresário!

E você?
Lembro-me de que o vi no trânsito,
Quando eu na rua passava apressado,
Sinaleiro fechando,
Compromissos me esperando,
Você me gritou:
_Ó amigão!!!
Olhei, e o vi!
Percebi que o tempo estava passando,
Tão veloz, tão rápido!

Enquanto eu ganhava vigor, fama, elogios,
Você ..., você, meu pai, perdia as energias.
O tempo deixava-lhe as marcas, o cansaço.
Mas, fui atencioso: respondi ao seu cumprimento.
_ Depois passo lá, meu velho!
O tempo me consome, estou apressado.
Do retrovisor, ainda pude ver
Você me acenando,
Com a mão me abençoando.

Orgulhoso do meu sucesso,
Você foi me ver no meu luxuoso escritório.
Sua visita foi-me anunciada!
Mas a hora era imprópria:
Interurbanos, reuniões de negócios,
Muitos lucros em evidência...
E você esperou, pacientemente.
Mas aquele abraço tão desejado
Terminou ficando para outra ocasião.
Afinal, eu sou um homem de negócios!

E assim, aconteceram outras vezes.
Mas eu queria tanto vê-lo,
Para lhe falar do meu sucesso e,
Quem sabe, relembrar o nosso futebol...
Entenda, pai,
Não posso parar!
15, 30, 40 minutos
São preciosos para mim.

Ah! Meu velho, o tempo voa e eu também.
Outro dia o vi sentado no banco da praça.
Como estava diferente!
Cabisbaixo, solitário, cabelos brancos,
Barba por fazer...
Logo você que era tão vaidoso!

Mesmo de longe, envie-lhe um grito:
_ Oi, paizão! Tudo bem?!
E com o sorriso de uma esperança gasta,
Você me acenou,
Em cujo gesto compreendi
O costumeiro “Deus te abençoe, meu filho!”

Hoje aqui, também solitário,
Repasso o filme de minha vida.
Que saudades!
Dói-me muito
Ao olhar foto, já tão amarelada,
Esquecida, talvez,
Lembrança de minha primeira comunhão.
Surpreso fiquei.
Na foto, estávamos nós.
Ao fundo a imagem do Coração de Jesus.

Que dia lindo!
Dia maravilhoso, aquele!
Eu com o coração cheio de Jesus
E você, feliz por eu ser o seu filho.

Volto agora à realidade!
Que é de você, meu pai?
Aquele amigão, companheiro, camarada?
O que eu fiz de você?
Descartei, como uma coisa ultrapassada?
Tarde demais,
Para entender que você era a minha riqueza,
O meu alicerce verdadeiro.

Pai, nenhum carinho lhe fiz,
Nem atenção lhe dei!
Fui ingrato, fui cruel, fui egoísta.
Não posso mais voltar atrás.
Nada, agora, tem conserto.
Perdi você, meu velho!
Perdoa a mim,
Por entender tão tarde,
Uma culpa tão grande!

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

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Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)



"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)