PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

CHEGOU A PÁSCOA


CHEGOU A PÁSCOA!

Genaura Tormin

Eu não sei o que poria
Dentro de um ovo de páscoa
Para um desafeto.
Esse vocábulo
Não existe no meu dicionário.
Não gosto do “D” que o inicia.

Para começar,
Nem sei o que é isso.
Nunca experimentei.
Se ofendo, peço desculpas,
Se me ofendo, relevo.
Para mim,
Tudo é alegria,
Uma simbiose fraterna,
Repleta de harmonia.

Um círculo vicioso,
Alimentado pelo respeito mútuo,
Pelo carinho,
Pelo afeto dengoso,
Que se debulham em madrigais,
A cada encontro.

domingo, 10 de abril de 2011

UMA NOTA DA AUTORA


UMA NOTA DA AUTORA
(Genaura Tormin)

PÁSSARO SEM ASAS surgiu com a dor. É uma história de vida ou memórias romanceadas. Nele, devasso-me sem reticências depois de uma inesperada paraplegia. Conto todas as dificuldades, batalhas e aprendizado para sobrepujar a fatalidade. Para ser adotada pela vida.

Falo de mim, falo de amor, falo de dor, de vitórias e muito mais. Solto a lira de meus versos. Curto minha imobilidade. E os meus retalhos adormecidos ganharão movimentos algum dia. Quem sabe noutra galáxia?

PÁSSARO SEM ASAS é um misto de momentos lúdicos, sofridos, emocionados. Chega a porejar sangue. É o driblar de uma bola sem chutes, mesmo ao arrepio da vida.
A crença em mim mesma devolveu-me não pernas, mas ASAS. Sinto-me alada depois de tanta tempestade. Com elas cruzei horizontes, voei com os condores em terras calcinadas, extrapolei mares, venci tormentas e me encontrei.

As escarpas do caminho fortaleceram minha couraça rumo aos objetivos. Dentro de minhas limitações sou livre: corro em idéias, em versos, em trabalho...

Não sou vista diminuída, mas até acrescida. O meu trabalho tornou-me um ser humano inteiro. Por incrível que pareça, tornei-me uma Delegada de Polícia! Atuei na vanguarda contra a escalada do crime, como uma profissional inusitada, pelo menos, em visual.

Depois, também por concurso público, ingressei no Judiciário Federal, onde me sinto honrada de emprestar minha participação de trabalho. Afinal somos herdeiros dos nossos atos e senhores de nossas colheitas.

Que as minhas experiências conduzam o leitor à reflexão, fazendo-o descobrir que cada um pode ser a pessoa mais feliz do mundo, procurando ascender sempre rumo ao bem, creditando as dificuldades como mérito seu, uma vez que não há limite que obstaculize uma mente determinada.

sábado, 2 de abril de 2011

PRIMEIRO CANTO À IMOBILIDADE


PRIMEIRO CANTO À IMOBILIDADE
(genaura Tormin)

Totalmente adaptada, a casa ficara pronta. Tudo estava entrando em ordem. Começava a aprender comigo mesma uma série de lições motivada pelas necessidades. Parecia um bebê descobrindo o mundo. Precisava ser positivo o propósito de minha vida. Com certeza, eu não teria nascido com a finalidade de causar problemas, de prejudicar aos outros, de ser fardo em seus ombros. As muletas estavam aparecendo em forma de adaptações, e eu as iria usar para substituir os muitos cerceamentos estampados pelo corpo.

Pela manhã, geralmente tomava café na cama, lia o jornal e, logo em seguida, partia para a bateria de exercícios físicos, aprendidos no Hospital Sarah Kubitschek. Com o tutor longo com cinto pélvico, ficava por mais uma hora na postura vertical, segurando-me nas paralelas (dois canos galvanizados dispostos paralelamente à altura do quadril humano médio). Ali, depois de percorrê-la por inúmeras vezes, carregando o corpo com a força dos braços em forma de pulos, procurava ler alguma coisa que me ajudasse naquela fase tão difícil. Tinha que me ocupar para tentar esquecer da catástrofe.

Mesmo nas paralelas, orientava os filhos na feitura das tarefas. Não abdiquei da função de dona de casa. Transferi a cozinha para a área de serviço, ao lado da varanda, onde estavam os apetrechos de fisioterapia. Dessa forma, poderia “matar dois coelhos de uma só cajadada”: fazer exercícios e administrar a serviçal que era iniciante, além de ficar perto dos filhos.

Sempre que possível, ia às compras de supermercado com a família. Era-me doloroso o reencontro com as pessoas conhecidas. Ah! As lamentações, o espanto ao verem-me presa à cadeira de rodas, “desenterravam sempre o defunto”, fazendo-me lembrar de que estava paralítica e muito diferente dos demais. Estava cerceada do meu direito ao caminhar. Hoje, não gosto de dar pêsames a ninguém. Talvez seja por isso. Acho que é abrir uma ferida sempre. Limito-me, apenas, a dar um abraço, um beijo...
Alfredo havia pedido um carro para mim com uma adaptação nova, de origem italiana, mostrada no programa Fantástico da Rede Globo de Televisão. Por capricho, essa amostragem dera-se poucos dias antes da paraplegia. Lembro-me de que estava recostada nos joelhos do Alfredo e ainda elogiamos o avanço da tecnologia, quando nos recordamos de um nosso ex-professor da época da faculdade que estava tetraplégico.

Confesso que me tocou muito o depoimento da moça paraplégica que experimentava o veículo defronte das câmeras: “Estou me sentindo um pássaro fora da gaiola” — dizia ela.

Talvez tudo isso fizesse parte de minha preparação, assim como os últimos poemas meus. Que ironia do destino! Um carro igual viria para mim. Viria substituir o meu carrinho amarelo. Eta carrinho! Amigo mudo que me auxiliava em tudo sem nunca reclamar. Agora seria um veículo da Fiat que comportaria as minhas pernas de aço (a cadeira), ajudando-me a aprender outra forma de viver.

Passaram-se quase sete meses desde a última vez que havia andado com os meus pés. A fisioterapia não me devolvera nenhum movimento. Não mexia sequer o dedão do pé. Mas estava quase me adaptando a caminhar sem fazer rastros, pois não havia outras opções. Em paraplegia, adaptar-se é irreversível. Caso contrário corre-se o risco de sofrer muito. Carrega-se o peso das dificuldades ou o do cadáver. Estar paraplégico é morrer um pouquinho todos os dias. É sentir-se prisioneiro no cárcere estático do próprio corpo. É exercitar a paciência, creditando à evolução do espírito o desafio de vencer as barreiras de si mesmo.

Além dos exercícios físicos diários, procurava preencher o tempo disponível para não dar espaço a pensamentos atrevidos ou saudosos, contrários ao meu objetivo. “Cabeça vazia é sempre oficina para o diabo”. Por isso fazia crochê, tricô, conseguindo bordar até uma toalha de banquete. Ocupava-me com leituras, conversas ao telefone, visitas de amigos e com os filhos que sempre estavam ao meu lado, auxiliando-me em tarefas complementares, além de me paparicarem muito. Eles estavam carentes e eu também. Era bom sentir o amor que me dedicavam, estampado na ternura, no carinho, alicerce maior de minha razão de viver.

Tudo o que fazia, com as dificuldades da primeira vez, era dolorido. Abria-me sempre a ferida. Embora não externasse, sofria por dentro. Meu avesso não queria confirmar a paraplegia, mas as dificuldades do “fazer” jogavam-me no rosto a dura realidade. Por isso queria fazer o máximo de atividades diversificadas possível para vencer logo a prova de fogo e tornar-me campeã de mim mesma, assumindo com dignidade a minha condição. Estava a construir uma couraça para resistir às dificuldades. Oxalá essa couraça se transformasse em pérola, já que esta é o resultado de uma ferida cicatrizada. Por vezes, o ego agradecia essa bravura.

Nessa época, um dia, estando em casa sozinha pela manhã, planejei como poderia tomar um banho. Despi-me na cama, passei para a cadeira de rodas, transferi-me para o vaso sanitário e em seguida passei para uma cadeira normal, semelhante às de bar. Com muita atenção e cuidado, tentei dar pequenos impulsos com os ombros para chegar ao box, quando a cadeira caiu para trás, lançando-me ao chão. Mal consegui desvencilhar-me dela, empurrando-a para frente. Não pude fazer mais nada, nem sequer me arrastar até a cama. Não conseguiria subir. Fiquei calma. Tinha assumido o risco. Aquela manhã estava fria, muito fria. Consegui alcançar a toalha de banho que se desfraldava no cabide à altura do meu braço. Como não tinha (e até hoje ainda não tenho) sensibilidade em mais de dois terços do corpo, protegi as partes sensíveis, ou seja, ombros, braços e cabeça, e deixei-me ficar no chão frio do banheiro. Pensei na serventia dos meus braços ilesos, e agradeci. Resisti à emoção que me apanhara de surpresa. Pena, por quê!? Repreendi imediatamente a estima ferida. Tentei dormir. Era o que de mais sensato poderia fazer. Cheguei a sonhar, quando fui acordada pelos filhos que chegavam da escola com o pai. Pensaram que eu estivesse morta ali no chão. A voz chorosa e agoniada do Fernando sobrepujava às demais. Graças a Deus que o choro deles foi em vão. Estava vivinha!

Lembro-me de que na igreja, durante a missa, uma senhora olhava-me tanto que cheguei a ficar perturbada. Depois da cerimônia, uma reunião no salão paroquial, a qual também compareci. Lá, a mesma senhora continuava a olhar-me insistentemente, como se eu fosse fantasma ou extraterrestre, sem, entretanto dirigir-me a palavra. Na ocasião, um garoto postou-se entre nós, impedindo, involuntariamente, que ela continuasse fixada em mim. Coitado, levou um empurrão. Percebi que representava uma figura inusitada para ela e, quem sabe, para muitos outros. Foi aí que senti, maior do que a minha saudade de andar, o desejo de abrir caminhos, construir nova mentalidade e mostrar que a pessoa com deficiência física é um ser social e deve ser aceita porque faz parte, contribui e produz, podendo até ser força transformadora, servindo de incentivo e exemplo aos muitos paralíticos andantes que permeiam todas as classes sociais.

Assim, precisava circular, mostrar-me, atuar, andar com o que me havia restado. Não era uma conquista, mas uma missão. Era preciso entender a mensagem e acreditar no poder da mente, na força da palavra e do exemplo.

No retorno a casa, a manhã estava gostosa. O sol, intensamente brilhante penetrava no meu quarto. Para senti-lo, sem amarras de janelas, galguei o corredor da casa e logo estava debaixo da romãzeira florida à beira da piscina.

O vento fazia rodopios no quintal como se me quisesse saudar, como se quisesse alegrar o meu avesso tão sofrido. O céu de um azul sereno fazia-se enfeitar por pequenas nuvens viajeiras, além de pandorgas coloridas empinadas pela criançada, cujo vozerio alegre e estridente chegava aos meus ouvidos. A vida movimentava-se faceira. A romãzeira dançava solitária, atirando suas folhas nas águas adormecidas. Agora pereciam pequenos barcos, navegando sobre calmarias, expostos às adversidades: ao sol escaldante, à chuva, aos icebergs e à própria morte. Alguém escoaria a piscina. Aqueles barquinhos de folhas seriam amontoados como lixo num lugar qualquer. Mesmo assim ainda seriam úteis. Tornar-se-iam adubo para fortalecer uma palmeira altiva ou uma roseira transverberada em pétalas rubras e aveludadas, dissipando o orvalho da madrugada sob o milagre dos primeiros raios de sol. E são as flores que declaram amor, enfeitam altares e fazem-se presentes na última despedida ao partirmos desta vida.

Mergulhada nessa meditação sublime, senti vontade de cantar a minha imobilidade, transformando-a num hino benfazejo.

Mente e coração andantes

Quero curtir minha imobilidade,
Mobilizando corações,
Marcando passadas
Em cada gesto,
Em cada grão de areia,
Carreando-os para o infinito.

Quero sentir
O gosto de ter pernas.
Acariciá-las,
Com o tato dos dedos,
Mobilizando todas as moléculas.
Quero sentir-me dançando
Ao som de Beethoven ou Bach,
Transando a paz de minha paraplegia
Ao compasso do coração
E à sincronia do cérebro.

Quero andar,
Mais do que todas as pessoas,
Embora saiba que,
Se externamente,
Não marco o chão
Com minhas pegadas,
Meu espírito se alicerça
Em pernas fortes,
Com mente e coração,
Energicamente andantes.

Foi assim que comecei a ser moldada para a nova vida. Adaptar-me ao novo visual não foi fácil. Tive que proceder a incessantes buscas ao meu interior: procurar, nos meandros de mim mesma, as fraquezas escondidas e transformá-las em força direcionada. A autoestima, agora sem a faceirice das pernas dançarinas, foi o carro-chefe para as demais conquistas.

Entretanto a lembrança dos sapatos de salto alto, das competições no trampolim da piscina e das corridas a cavalo e de bicicleta, por vezes, fazia-me gemer a dor do irreversível.

Não podia ser minha própria vítima. Por isso era compensador lembrar-me da fábula em que um homem se maldizia por ter apenas bananas para comer. Qual não fora a sua surpresa ao ver que alguém, atrás de si, estava a comer as cascas.
Assim a vida ainda me parecia muito interessante. Havia muitas cascas de banana atrás de mim. Poderia fazer minhas competições abstratas nos trampolins da imaginação e ser a campeã de todas as corridas, emprestando ao corpo a faceirice do espírito. Poderia mesmo marcar passadas a cada momento, mobilizando muitos corações paralíticos, enrijecidos pelo negativismo, pelo ódio, pela inércia, embora envoltos em ANDANTES CORPOS.

Restaran-me as mãos. As minhas mãos! Feito uma oração, ajudam às minhas pernas, transferindo-as, tão ternas, para a cadeira, o carro... E até quando vou me deitar, lá estão elas dispostas a me ajudar. Por que eu iria desanimar?

quinta-feira, 24 de março de 2011

MENSAGEM AO LEITOR


Eis mais um capítulo do meu livro Pássaro Sem Asas. Um brinde aos meus leitores. Espero que gostem. Na verdade é o último capítulo, embora eu já haja postado alguns aqui, de maneira aleatoria.

MENSAGEM AO LEITOR
(Genaura Tormin)

Leitor, você, que por meio dessas páginas esteve ao meu lado em tantas peripécias, mas também em tanto aprendizado, conquistas e alegrias, deixo o meu agradecimento maior.
Que minhas experiências o conduzam à reflexão e, de repente, você se descubra a pessoa mais feliz do mundo. Aprenda a encontrar a sua própria felicidade. Ela não é comprada, é conquistada. Deve ser desbravada de dentro para fora. E para isso é preciso buscar, amando-se em primeiro lugar e repartindo com os demais o amor que lhe vai no peito. Se não amamos a nós mesmos, como poderemos amar aos outros ou permitir que sejamos amados? Dessa forma, você partirá de si para uma conquista global. É uma receita simplista, mas muito verdadeira. Basta querer. Cultive a sua autoestima, arrume o seu interior e vá à luta!
Há tanta beleza na Terra! Há tanta beleza em você! Aprenda a buscá-la na destreza dos seus passos, na ternura das palavras, na bondade do coração...
Tudo está em constante evolução. As pessoas mudam, o tempo passa, o mundo se transforma na metamorfose da vida. Tudo se esvai com o vagar do tempo, e por vezes nos esquecemos de nós mesmos, do que fomos, do que somos. Nada permanece igual. Restam-nos os bons momentos guardados para sempre nos aposentos da memória.
Cada momento é único e não volta nunca mais.
Encontre motivo para ser feliz numa manhã de sol, num bom-dia ao desconhecido que perdeu o ônibus, na flor que desabrochou no seu jardim, no sorriso do seu filho, na volta a casa... Quantos não têm um lar para voltar!
Seja feliz pela vida que pulsa em você e pelo pulsar de sua própria vida. Você está vivo!
Seja feliz porque pode renascer todos os dias para uma vida melhor. Marque a sua trajetória com pegadas de solidariedade. Você não está aqui por acaso. Você precisa da vida e ela de você! Ponha-se no trabalho e ajude a melhorar o mundo. Uma fagulha, apenas, de sua mente positiva pode ajudá-lo. “Carreando um punhado de terra todos os dias fará uma montanha”.
Seja feliz porque trabalha e pode ser útil ao próximo. A vida é uma escola, uma pós-graduação na matéria em débito. Não perca as muitas oportunidades para evoluir. É na queda que os rios adquirem forças. Aprendemos mais com os erros do que com os acertos, porque eles se gravam mais profundamente em nossa consciência. É preciso saber tirar proveito das experiências adversas para convertê-las em ascensão. Ainda que os passos pareçam frágeis, vá em frente! Não desanime! Avance, abrindo caminhos, cantarolando a vida e incentivando os que se deixam ficar à margem dos caminhos.

Equilíbrio

Evoluir
É ser inteiro, autêntico,
Despojado, verdadeiro,
Dono de si mesmo.
É semear o bem,
Namorar a vida,
Encantar-se com a chuva,
Com o verde da esperança,
Do amor, da flor,
Do mundo!

Otimismo, emoção,
Temperos da jornada.
Há tantos caminhos,
Veredas e estradas...
Nem entorpecidos
Nem hostis os atos.
O equilíbrio é o ideal.
O amor leva à felicidade!
Singularidade de olhar,
Ternura de afago
Constroem rumos e vidas.

A emoção é roupagem da alma,
E a essência é holística.

Coíba a violência, o desamor. Empenhe-se em evoluir em direção à perfeição e procure servir. Contribua! A vida é uma grande máquina, e você, ainda que seja uma minúscula peça, faz parte e é imprescindível para o seu desempenho.
O avanço tecnológico trouxe-nos o progresso, provou a inteligência humana, armou o mundo, possibilitando a desintegração num piscar de olhos, bastando acionar botões. Custou-nos ônus exacerbado. Aproximaram-se as distâncias e distanciaram-se as proximidades, valendo dizer que é no meio da multidão que nos sentimos mais sozinhos.
Precisamos transmitir afeto, paz e alegria, para amainar essa síndrome de violência. Cada um, na condição de ser humano carente, sensível, amorável, tem que se esforçar para fazer feliz o próximo. Pelo menos o mais próximo. Com isso seremos os mais beneficiados, pois o princípio cristão prega: “há mais felicidade em dar do que em receber”.

Ato de amor

Doar, doar-se,
Compartilhar, solidarizar-se!
Eis um sentimento em defesa do amor.
Doar enobrece,
Faz crescer o doador.

Não percam oportunidades:
Doem órgãos,
Façam felicidade!
Renovem um coração cansado;
Devolvam luz a olhos que não mais enxergam
A beleza do mar, do amor,
Da chuva, dos prados, da flor,
Da lua matreira numa noite fria.

Doem a pele, os rins, os ossos,
Até os pequenos fragmentos,
Pois servirão de alento
Aos centros de pesquisas,
Para novos antídotos,
Novas descobertas
Em prol da humanidade.

E o resto,
Quando nada mais tiver serventia,
Que seja deixado num lugar tranqüilo,
Sob a terra pura, o último exílio,
Sem concreto, sem luxúria, sem rebeldia,
Debaixo de um ipê florido,
Tendo um riacho por companhia.

Quem sabe, ainda esses rejeitos
Fecundarão a terra,
Fazendo brotar pequenas flores,
Para aninhar os pássaros cantores
No entardecer?

Despojado das vestes de carne,
O espírito agradecido alçará vôo,
Misturando-se ao infinito,
Planando sobre a terra.

Saia do seu esconderijo! Olhe em volta! Dê um sorriso, uma palavra, até mesmo um gesto, contanto que sejam permeados de amor. Procure ajudar! Una a ajuda material à doçura do seu coração. Transmita paz àqueles que, por insensibilidade ou falta de crença, viciam-se, usando a droga por escudo num processo de autodestruição; enveredam pela violência, ceifando vidas, enquanto você poderá ser a próxima vítima.
Cultive bons pensamentos. Somos produtos da mente. São eles os gestores de nossas ações boas ou más. Corra atrás dos sonhos, pois Charles Chaplin costumava dizer: “Quando deixares de sonhar, poderás continuar vivendo, mas, com certeza, terás deixado de existir”. Nos sonhos se alicerçam os anseios mais caros, os projetos de toda uma vida, o respeito por si mesmo, a autoestima e o dinamismo de viver. Quantas vezes o sonho é acalentado, esperado, trabalhado, sofrido... O importante é que esteja sempre aceso e alicerçado nos princípios da justeza e da dignidade humana. Primeiro, a criação mental, a visualização e o ardente desejo de concretizar o que está tão bem esculpido no cérebro e no coração. Isso é o sonho!
Seja entusiasta! É muito importante saber sorrir! O sorriso é o exercício da afetividade: abre caminhos, cria laços, enfeita a alma e o coração. O sorriso traduz paz, ternura, perdão... Lembre-se de que somos sempre instrumentos a serviço da vida, portanto herdeiros dos nossos atos e senhores de nossas colheitas.
Procure ser nobre, forte e complacente. Afaste as revoltas, recalques, inseguranças, ódios, pois isso não leva senão a nada! Não vai resolver o seu problema. Ninguém lhe devolverá a paz se não a buscar. Pensamentos contrários são regados por forças maléficas e, por vezes, podem redundar em crimes horrendos que abalarão não só você, mas toda a sua família e amigos.
Dizem que quando não podemos transpôr uma montanha, devemos circundá-la até o cume. Assim, para tudo há uma solução viável. Não há problemas insolúveis. Vá à luta! Ouse, trabalhe que o retorno virá, assim como volta pela força da gravidade, o corpo sólido que atiramos ao ar.
Sua vida é a sua vida! Os problemas são o carma do seu ser, intransferível, que com a sua aceitação tornar-se-á leve em seus ombros. E você pode transformá-lo, superá-lo! Dê asas ao seu espírito e desenvolva sua consciência.
Aprenda a ver a vida sempre com olhos novos! O caminho das pedras é mais exuberante e a chegada é mais festiva. A emoção é maior e a felicidade supera as feridas dos pés. Significa crescimento.
Existirá sempre uma esperança num lugar qualquer! Não desista! Você foi feito para vencer!


Viagem

Vida!
Caminhada curta,
Efêmera,
Chama de vela.
A ordem é ser
Ou tentar ser feliz
A cada instante.

Felicidade não é um destino.
Éuma obra de arte,
Uma viagem.
Os momentos são únicos!
Não voltam mais!

Alados por pinceladas de imaginação,
Podem ser mágicos!
Marcos de saudades.

Ame sempre,
Como se nunca tivesse sofrido.
Trabalhe com prazer.
Cante as dores e cultive a paz.

Sorria sempre!
O sorriso enobrece, encanta....
Sorriso é prece!
É Deus dentro da gente!

Encante-se com as pessoas!
Passe-lhes o que há de maravilhoso em si:
O jeito maroto,
O olhar trigueiro,
A maneira manhosa,
Assanhada, faceira...
As gargalhadas e até as lágrimas.

Não é vergonha,
É sensibilidade,
Autenticidade...

Sem que se esforce,
Sem que perceba,
Estará sempre
Entre os parceiros da alegria,
Caminheiros da amizade,
Partícipes de uma linda viagem
Chamada FELICIDADE!

Não se atire à beira dos caminhos! Reaja! A batalha não acabou e você não pode render-se. Junte as migalhas de energia que lhe restam! Somando-as, fará uma fortaleza indestrutível. A mente é o comando e tudo é possível quando a temos ilesa. É preciso, apenas, dirigi-la para frente e para o alto.
Se for ferido em bens materiais, não desanime: vão-se os anéis, ficam os dedos. Matéria compra-se com dinheiro. Dinheiro ganha-se com trabalho. Lute até o fim, busque os sonhos e ideais com a certeza de que os alcançará, restando-lhe a satisfação do bom combate, da perseverança e da crença em si mesmo.
Vamos aprender o sentido da vida, ainda que para isso tenhamos que nos escolar na logoterapia. Com certeza, o sentido vital está na transcendência maior, no amor e dedicação ao próximo, vendo-o como irmão, realçando o seu lado bom e ajudando-o na caminhada para o bem. Se conseguir esse objetivo, verá os seus problemas serem resolvidos por acréscimo, e tanta luz, tantos sucessos lhe advirão que não se reconhecerá no passado.
Os seus problemas físicos, morais e financeiros serão os alicerces para que você suba mais alto. São eles os lapidadores do ser humano. É como a pérola que só é encontrada em certas conchas de moluscos nas profundezas do mar. O molusco precisa ser ferido, e é daí que a secreção se solidifica formando a pérola. Pérola é o produto da dor, uma ferida cicatrizada. Uma ostra que não foi ferida, não produz pérolas.
Para crescermos é preciso que sejamos feridos, assim como a árvore que, para se transformar em fogo que nos fabrica o alimento, precisa ser cortada. Por isso “faça de suas dificuldades um baile e dance encantando a todos à sua volta”.
Infelizmente, o homem perdeu-se em si mesmo na desvairada corrida pelo TER sem se preocupar com o SER. É preciso que resgatemos, com urgência, a nossa identidade antes que venham os maus ventos e soprem o resto de verdade que nos resta.
É preciso AMAR! É preciso armazenar o bem, as boas ações, as transcendências ao infinito, pois, ao partirmos deste planeta TERRA, serão esses mananciais indestrutíveis os pertences de nossa BAGAGEM ETERNA.

terça-feira, 8 de março de 2011

SOBRE PÁSSARO SEM ASAS



SOBRE PÁSSARO SEM ASAS
(Comentário de MARIA PARAGUASSU
Porto Alegre-RS)

Olá amada amiga,

Hoje terminei de ler o teu livro. Isto porque eu te falei, dias atrás,que eu e meu marido, cada um lia um pouco.

Vou te confessar uma coisa: jamais li, em toda minha vida, algo tão belo e tão emocionante. Gostaria que todos, inclusive e principalmente cadeirantes, tivessem a oportunidade que nós tivemos: ter em nossas mãos, uma obra de tamanha beleza e que toca fundo em nosso coração, pela grande alma que és. Minha heroína, cujo caráter e espírito de luta enobreceria a todos aqueles que poderiam ser como tu és. No entanto, o que se vê, são pessoas esmolando a vida, inteiras e com saúde.

Teu livro, magnífica história de vida e coragem, dá-nos uma verdadeira lição de como enfrentar os reveses da vida. E que família! Linda, maravilhosa! Vocês foram abençoados por Deus, que soube uní-los nesta batalha e nesta vida, quiçá também em outras tantas mais, para que pudessem dar o testemunho de que o valor de uma pessoa não está em sua aparência física, mas sim em seu interior, onde viça a fé, o amor e a grande vontade de vencer todas as etapas pelas quais tu passaste.

Cada vez te admiro mais, Genaura. Tu és a estampa de uma pessoa de valor e de muito, muito amor a Deus.
Que a cada momento de dor, soubestes agradecer ao Pai pelo que recebestes.
E como Deus é bom!
És feliz assim como estás, numa grande prova de que o amor tudo vence. Escrevo estas palavras com lágrimas nos olhos, pois adorei, amei este livro! De tanto falar em ti e em tua obra, já há uma fila de pessoas que querem lê-lo. Também gostei imensamente da parte que fala sobre a auto-hemoterapia. Fiquei encantada com tudo o que li a respeito. Deus queira que possamos ainda usar esta "medicação" para curar tantas doenças que aparecem por aí.

Querida amiga, não sei como agradecer-te pela oportunidade de crescimento que tivemos ao ler Pássaro Sem Asas. Tu não as precisa, pois na realidade, teu coração as têm.

Que Deus te abençoe e a todos de tua família.

Um grande beijo.
Maria Paraguassu.
_______________________________
Obrigada, querida!

Fico muito contente por sua avaliação, por seu carinho, externado de maneira tão linda que, diante da grandeza, faz-me chorar. Sou uma manteiga derretida. O coração estampa-se sempre nas faces e fala pelas lágrimas.

Penso que Pássaro Sem Asas já não é meu. Significa uma missão, uma vez que leva uma mensagem capaz de construir, criar mentalidade, indicar novos caminhos, simplesmente por desnudar minha intimidade, diante de uma abrupta paraplegia, que me meou o corpo, cerceando meus passos.

De brinde, uma cadeira de rodas para escalar morros e montes, escarpas e dificuldades. E, principalmente, escalar a mim mesma, à procura de nova maneira de viver. E encontrei!

Bendita paraplegia, que me ensinou tanto, fazendo-me guerreira de minha própria batalha.

Obrigada, de novo!

Beijo grandão da
Genaura Tormin

sábado, 19 de fevereiro de 2011

UMA PALAVRA DIFERENTE


UMA PALAVRA DIFERENTE
(Genaura Tormin)

Senhoras e Senhores,

Meus cumprimentos a cada um de vocês e que a paz esteja entre entre nós.
Vestida numa rota farda de carne, à vista de todos vocês, cumpro com alegria a minha jornada nesta existência e me esforço para fazê-la com paciência e muita coragem. Acho que os meus ombros podem carregar o mundo.

Fazendo minhas as palavras de um poeta desconhecido, costumo dizer:

"Pedi a Deus para ser forte,
A fim de executar projetos grandiosos.
E ele me fez fraca para conservar-me humilde.

Pedi a Deus que me desse saúde
Para realizar grandes empreendimentos.
E ele me deu doença para compreendê-lo melhor.
Pedi a Deus riquezas para tudo possuir.
E ele me deixou pobre para não ser egoísta.

Pedi a Deus o poder para que os homens precisassem de mim.
E ele me deu a humildade para que eu precisasse dele.
Pedi a Deus tudo para gozar a vida.
E ele me deixou a vida para que eu pudesse gozar de tudo.
Não recebi nada do que pedi.
Mas recebi tudo que precisava.

E quase contra a minha vontade,
As preces que não fiz foram ouvidas.
Entre todos os homens,
Ninguém tem mais do que eu!"


Falarei-lhes hoje dessa minha diferenciada trajetória, com certeza requerida por mim mesma na tentativa de evoluir o meu espírito, na expiação dos meus deslises enquanto caminheira dessa estrada e de outras, quem sabe.

Para mim é muito fácil e prazeroso assumir todas as idades, todos os papéis. Mas, este de paraplégica, não estava no meu projeto. Veio de presente. Apesar de estranho, estou tentando sair-me bem.

Agora, não pulo corda, não ando de bicicleta... Recebi uma dura sentença por crime que não cometi nesta vida. Mataram minhas pernas em mim. Poderia tê-las usado muito mais vezes! Poderia ter andado descalça, feito grandes caminhadas, pisado na grama, na areia, no barro... Poderia ter evitado veículos... Enfim, poderia ter usado muito mais o meu caminhar faceiro, dançarino, rebolante.

Mesmo assim, ainda corro atrás da vida para que ela não corra atrás de mim. Corro atrás de minha evolução como caminhante dessa íngreme estrada. E na minha fantasia, sou a campeã dos meus aprendizados. Se minhas pernas fisicamente estão mortas ou incapacitadas, o meu coração é vivo, o meu desejo latente e o sorriso aflora sempre até os cantos das orelhas. Eu estou viva!!!

Com isso, eu quero demonstrar que a vida é efêmera, finita, e as fatalidades não avisam. Não escolhem status, raça, cor, sexo ou credo. Por isso, devemos estar sempre atentos, pois não estamos aqui por acaso. Preocupando-nos em bem servir, que é um dos grandes enunciados, não devemos deixar para amanhã o que podemos fazer hoje. Devemos viver todos os momentos como se fosse o último, tentando ser feliz e fazer felizes as pessoas que nos cercam.

Às vezes, quando estamos nos píncaros do sucesso, somos atirados inexoravelmente ao caos. É chegada a hora do resgate do carma. É chegada a hora de entendermos a Lei da Justiça Divina, dando-nos a oportunidade da repararmos os nossos erros passados. É aí que devemos enfrentar o desafio do processo reencarnatório com dignidade e resignação. É preciso que saibamos que é a hora de acender a luz interior e tentar espargi-la para que sirva de alento, pelo menos ao próximo mais próximo.
Foi o que aconteceu comigo!

Após uma festa em minha casa, quando me sentia de bem com mundo e com a vida, dormi sã e acordei paraplégica, vítima de uma virose que me meou o corpo, sem nem sequer alertar-me com uma subida de temperatura. Na realidade, um turbilhão de dificuldades nunca imaginadas. Uma jovem mulher reduzida a cabeça, seios e braços. O resto, morbidamente alheio ao meu comando: dormente como se não fosse meu.

Não obstante haja envidado muitos esforços para reverter o descalabro da situação, eis-me, após todos esses anos, irreversivelmente paraplégica. Com uma vida de muitas batalhas para não ser escória de uma sociedade que, geralmente, só aceita os fortes, perfeitos e vencedores.

Guimarães Rosa dizia que viver é muito perigoso. Por isso, devemos ser forjados a ferro e fogo para termos condições de nos erguer quando a dificuldade bater. Afinal, a mente estando sã, há motivos suficientes para dirigirmos ainda o nosso destino, mesmo através de um corpo com funções mutiladas.

Não podemos ser excluídos do sistema socioeconômico e político do País, pois, VIDA, não significa somente pernas, mas, sobretudo cabeça, mente, raciocínio, espírito e coração. O resto, dá-se um jeito.

Entretanto, tenho consciência de que o corpo físico nada mais é do que uma farda de carne que envergamos para cumprir o nosso desiderato neste planeta. Por isso, a vida é uma curta viagem em que não se pode perder tempo. Até dos dissabores devemos tirar proveito.

Após a morte, fim do nosso corpo físico, gostaria de que os meus órgãos fossem utilizados para fazer pulsar um coração cansado; dar luz a olhos que nunca enxergaram; audição a quem nunca pôde ouvir uma música, o zumbido das abelhas, uma declaração de amor...

Queria que até as mínimas partículas servissem de material didático aos futuros profissionais da saúde. E o resto, quando nada mais tivesse serventia, deixado num lugar tranquilo, sob a terra pura, sem concreto, porque assim ainda serviria de adubo para florescer um gerânio vermelho, símbolo de minha luta pela vida.

Acredito num Deus perfeito do qual somos a criação. O espírito não desce à sepultura, transcende à Casa do Pai. Daqui não levaremos nada, apenas o bem ou o mal que tenhamos praticado. O que temos de bens materiais, é apenas um empréstimo e aqui ficará quando partirmos. Acredito que já vivemos muitas vidas e viveremos muito mais outras. Elas agem em nós feito um processo lapidador, respeitando o livre arbítrio.
Ninguém reencarna sem uma cruz para carregar. É o que se chama de carma, que pode ser de ordem física, moral ou financeira.

Com esse entendimento e partindo do princípio de que o PAI é JUSTO, a aceitação do carma reverte-se em escadas para subirmos cada vez mais alto.
Assim, aceitar a reencarnação significou aceitar a mim mesma. Significou a dura tentativa de relacionamento pacífico com o meu corpo paralítico.

Paraplegia não é problema apenas de quem a tem, mas um problema de contexto, pelo menos familiar, já que em nível de Estado, há muito a desejar.

A família deve vestir a camisa, inserir-se no esquema e, dentro da responsabilidade/amor, propiciar à pessoa com deficiência espaço arquitetônico viável e adaptações domésticas para que ela descubra seu novo mundo ou sua nova liberdade.

Esse amor de que falo, não deve ser entendido como excesso de paternalismo que tanto mal nos faz, impedindo-nos de alçar voos às conquistas, mas, sobretudo, deve ser o amor/respeito que não nos destitui da condição de ser humano atuante e não nos rotula de inválidos, pois a verdadeira invalidez está na mente de quem não tem e não sabe transmitir otimismo e coragem.

Nós, pessoas com deficiência, não devemos permitir que os sentimentos de compaixão ou repulsa releguem-nos à inutilidade, conduzindo-nos à inércia. Com tenacidade mostraremos o valor do nosso trabalho e as discriminações só persistirão se nós as aceitarmos, fazendo-nos de vítimas da vida, apresentando indolência, insegurança, subserviência, buscando protecionismo sob o álibe da deficiência.

Aliás, as maiores limitações são as que criamos em termos de afirmações psíquicas. Quantas vezes damos contornos catastróficos a problemas tão pequenos e tão fáceis de serem resolvidos.

Quando temos alguma iniciação da Doutrina Espírita, com certeza, conseguimos ver os problemas de outra forma. Às vezes, tornam-se um privilégio. Se eu não fosse paraplégica, não estaria aqui passando este testemunho de vida. Não estaria passando a vocês uma consciência valorativa sobre as pessoas com deficiência. E ainda alicerçada sob a justeza da Lei da Reencanação, tudo fica mais fácil, entendível e aceitável, até para os que mantêm algum relacionamento conosco. Se não fosse paraplégica, não teria escrito o livro Pássaro sem asas, que alcança um próximo um pouquinho mais longe. E por isso, pesa-me também a responsabilidade.

Sinto-me, conotativamente falando, como um bovino que leva a marca do seu dono, por meio de ferro quente. Pertenço a alguém. Isso não é ótimo? E estou a resgatar alguma coisa que realmente fiz. Tive essa oportunidade. Estou numa redoma.

Hoje, sinto-me adaptada à vida! Sei que ela se adaptou a mim também. Entretanto, já entendo que a minha cadeira de rodas é uma dádiva. Devoto-lhe gratidão. É por meio dela que ando, lido, participo da vida lá fora e nivelo-me aos demais.

É, também, por meio dela que me permito lapidar o meu espírito rebelde, tentando fazer algum bem, passar algum alento de experiência, de trabalho, de coragem às pessoas com quem mantenho algum diálogo ou que leem o meu livro. Cada um tem sua frente de trabalho. Não é para isso que estamos neste trajeto, que chamamos de vida? Não poderemos partir de mãos vazias!

Para finalizar quero dizer que estou muito cativada pela presença de todos vocês, principalmente pelo carinho de dona Antonieta, pessoinha maravilhosa que me convidou para aqui falar. E a quem também peço desculpas por não ter o conhecimento espírita necessário e a erudição de seu translúcido e elevado espírito. Entretanto, espero que esses relatos possam emanar alguma fagulha de ensinamento que melhorem a afetividade, o respeito, a solidariedade com aqueles que, no resgate de seus erros, caminham sem pernas, ou de outras formas aparentemente dolorosas neste abençoado Planeta ainda de provas  e expiações.
Obrigada!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O IRMÃO INVISÍVEL DO RODRIGO


O IRMÃO INVISÍVEL DO RODRIGO
(Genaura Tormin)

Rodrigo é o meu primeiro neto. Hoje tem 15 anos. Sou suspeita para falar dele, pois o amo demais e sou sempre encantada com o seu carinho, a amabilidade e a inteligência. Está sempre disponível para ajudar. O sorriso estampa-lhe sempre os rosto.

Filho de minha filha, ele veio ao mundo ao romper da aurora, no último dia de maio. Chegou junto ao amanhecer, entre os raios de luz que envolviam a terra. Eu fui recebê-lo na maternidade. Vi quando a enfermeira passou da sala de cirurgia para o berçário, tendo nos braços aquela trouxinha de gente, envolta em panos. Pelo vidro, assisti ao seu primeiro banho, podendo perceber-lhe as formas, que guardavam uma semelhança com os pais. Mistura de genes. O milagre da vida! Enternecida, enviei ao Criador minha prece de agradecimento. Um serzinho novo para integrar a nossa família. Que missão teria? Um anjo guardião, um coadjuvante no caminho do bem, pensei.

E Rodrigo crescia feliz, sob o carinho de todos. Sempre que era possível, ficava em nossa companhia. Ouvia-se as suas passadinhas pela casa, acompanhadas de um chilreado, como se fosse de passarinhos. Era a linguagem de sua pouca idade. Como era gostoso escutar aquilo. As primeiras palavras, os dentinhos, o sorriso, o carinho sempre externado... Ah, como sinto saudades!

Lembro-me bem de que ele tinha uns três anos de idade quando, devidamente uniformizado, seguiu para Escola. Particularmente, fui vê-lo algumas vezes entre os colegas. Vejo sempre Deus nas crianças. Uma legião de anjos alegres e travessos.

Um dia, estando em nossa casa, Rodrigo encontrava-se tagarelando em nosso quarto, enchendo as nossas vidas de alegria, além do enorme prazer de sabê-lo neto, galho de minha árvore, verso de meu poema. O avô também estava ali. Nessa ocasião, fazendo gestos, Rodrigo disse:

_ Vovó, eu vou bater no Pedro Paulo! Vou mesmo! Ele é muito chato e me bate.
_ Não faça isso! Conte para a professora, que ela vai resolver, ouviu?
_ Não, vovó eu vou bater nele! E gesticulava, imitando os socos.
_ Aí, sabe o que vai acontecer? Ele vai bater em você, de novo, porque é maior do que você!
_ Vai nada! Eu vou chamar o meu irmão, quero ver! Meu irmão é grande, forte! (Ocasião em que levantou os braços para mensurar o tamanho do irmão).
_ Você não tem irmão, Rodrigo!
_ Tenho sim, vovó! Ele é grandão e até me deu a sua bola velha, que ele não queria mais!(Hoje, com tanta modernidade, os entretenimentos são outros: os jogos eletrônicos, os carrinhos motorizados... Uma bola velha seria mesmo uma coisa do passado. Pensei depois).
_ E como se chama o seu irmão?
Incontinente, ele me respondeu: _ Vovó, ele se chama RÔNCIO!

Nunca ouvira falar esse nome, nem conheci ninguém, sequer, com nome parecido. Não questionei mais, entretanto guardei o epsódio na lembrança.

Anos depois, quando estava lendo o livro: UM PILAR DE FERRO, de Taylor Caldwell, que narra a historia de Marco Túlio Cícero, senador e um dos maiores oradores de Roma, de repente deparei-me com um dramaturgo romano, personagem do livro, cujo nome era igual ao do irmão invisível do Rodrigo.

Novamente, voltando aos verdes anos do Rodrigo e à agradável e querida convivência conosco, recordo-me de que vez por outra, nos seus diálogos comigo, ele usava o vocábulo "Parmendes". Como o seu linguajar era ainda muito incompleto, dado a sua pouca idade, eu nunca questionei quem era ou o que era. Hoje, navegando pelo dicionário deparei-me com o nome : PARMÊNIDES. Filósofo grego, que viveu nos anos 530 a. C.

Sabe-se, que até os sete anos de idade, é comum a criança perceber a presença de seres de outra dimensão e conversar com eles, tendo-os por amigos, incluindo parentes, avós... Isso é muito natural para a criança. Essa fase é uma adaptação à sua nova reencarnação e as lembranças são muito fortes. Por isso o Rodrigo referia-se ao irmão com muita naturalidade e convicção. Os pais desinformados pensam que se trata de fantasia ou até de algum problema psicológico.

Naquela época, eu não tinha conhecimento sobre essas lembranças externadas nas crianças, limitando-me a contestar o que ele dizia. Poderia ter perguntado mais e aprendido tanto com o Rodrigo.

Hoje, digo apenas: A REENCARNAÇÃO É UMA VERDADE! E o véu do esquecimento sobre as existências passadas é uma benção, que nos permite aprender e evoluir sem entraves rumo à perfeição, a qual chegaremos um dia.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

ÚLTIMO DESEJO


ÚLTIMO DESEJO
(Este é um dos capítulos do meu livro PÁSSARO SEM ASAS)
(Genaura Tormin)

O desespero começava a rondar-me, sutilmente, durante os poucos momentos em que ficava sozinha no sofá da copa ou na cadeira de rodas que me arranjara o senhor França. Não tinha destreza para manejá-la. Não tinha traquejo com veículo tão desajeitado e estava fraca, muito vulnerável. Ela era grande e por vezes transformava-se numa cama. Assim não vencia distâncias enquanto os olhos alcançavam longe os afazeres de dona de casa. Agora não mais os podia fazer. Teria que ser indulgente até para determiná-los.

Foi aí que tomei consciência do que me havia acontecido e do que ainda iria me acontecer. Era “chumbo grosso” e a solução era remota. O jeito era poetar a desventura:

MEDITANDO

Dia comprido,
Sem sol,
Sem flores,
Sem amores.

Frio no tempo,
Cansaço,
Loucura,
E na alma,
O muito que apavora.

Em tudo,
A saudade que queima,
A lâmina que fere,
O frio que aumenta,
A lágrima que cai
E a dor do irreversível.

Cada dificuldade das crianças ou na rotina da casa refletia-se em mim como constante reafirmação de minha inutilidade, de impotência, além dos muitos cerceamentos estampados no próprio corpo e na liberdade de ir-e-vir.

Temendo uma crise depressiva, ocupava-me o tempo todo para não pensar, até acostumar-me às novas condições de vida. Por sorte, tinha muitas visitas, recebia telefonemas e os fazia também. Carinho não me faltava. E foi assim que fui informada de um curso para formação de Delegados de Polícia, que se estendia a comissários com o objetivo de preencher vagas nas demais delegacias, mediante concurso interno.

Por telefone, obtive todas as informações necessárias sobre o curso preparatório. Informei-me, também, sobre a compra de uma cadeira de rodas menor que pudesse ser transportada no porta-malas do carro. Sem vivência com “veículo tão esdrúxulo”, achei o preço muito elevado, mesmo por que não pensava que a paralisia pudesse ser irreversível. A esperança é a última que morre, embora as evidências de uma deficiência permanente se estampassem a todo o momento.

Por ser Comissária de Polícia, bacharela em Direito, pertencer aos quadros da Polícia Civil há dezesseis anos, resolvi enfileirar-me entre os concorrentes. Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder. Era a oportunidade que me batia à porta. Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica! Registrei a idéia e parti para o confronto. Talvez o mais ousado de toda a minha vida. Era tudo ou NADA!

Entrei em contato com a Associação dos Deficientes Físicos, cuja presidenta, uma mulher bonita, de olhos claros e semblante amigo, havia-me visitado no hospital. Não a encontrei. Deram-me o seu telefone. Minutos depois, estávamos numa progressista conversa. Ela era muito otimista. Havia feito advocacia e incentivou-me ao curso, emprestando-me uma de suas cadeiras, pois, também era paraplégica. Já me imaginava trabalhando, sentada à mesa de espaçoso gabinete, presidindo muitos inquéritos.

Assim, certamente, esquecer-me-ia dos próprios problemas. Embora o corpo estivesse fragilizado, a mente estava sã, agarrada com unhas e dentes aos louros do iminente sucesso.
A força não provém da capacidade física e sim de uma vontade indomável, disse Mahatma Gandhi. Somos o que pensamos ser. Dei asas à imaginação e o meu desejo tomou formas, cores e vida.

Agora esperava o momento de conseguir a anuência do Alfredo de quem muito precisava para a consecução de tal façanha. Mesmo com jeitinho, ele não anuíra ao pedido. Enumerara uma leva de dificuldades: condições psíquicas, físicas, fisiológicas, e ainda as escadarias até o anfiteatro onde se realizaria o curso.

Não me dei por vencida. Iria tentar outra vez ou muitas outras vezes.
O ambiente desafiador é o sucesso do guerreiro, a arma de sua luta, o front de sua trincheira. E eu precisava construir o meu universo, seguir a minha vida!
Nos meandros de mim mesma, pensava: e se eu ficar paraplégica para o resto da vida? Receberei mísera pensão por invalidez que mal dará para comprar remédios. E a inércia, o não fazer nada, a ociosidade... NÃO! Vou à luta! Tenho mente sã e posso ser uma delegada! É um cargo de comando, cartorário. Poderei servir de exemplo a outras pessoas com deficiência física. Poderei abrir caminhos. Não vou permitir que a vida me transforme num cadáver vivo! Tenho muito ainda a fazer! Tenho flechas na aljava e mantimento para o caminho.

O curso estava prestes a começar. O Alfredo continuava achando absurda a minha pretensão e por nada cedia. Havia cinco dias que estava em casa, mas, imbuída na consecução do meu tão importante desejo, os dias lentamente se arrastavam, talvez, dado ao cerceamento de ficar ali, sempre, sem poder andar, presa ao sofá ou à cadeira de rodas que não passava nas portas. Precisava ser forte, resistir, vencer e sublimar o que realmente não pudesse mudar:

SUBLIMAÇÃO

Viver
É realizar-se,
Amar,
Sofrer,
Resistir.

Realizar-se
É não se subjugar:
É ser forte ou frágil,
Se preciso.

Realizar-se é,
Antes de tudo,
Ousar,
Trabalhar,
Sublimar para não sofrer,
Diante do que não se pode mudar.

No dia seguinte começaria o curso. Precisava urgentemente fazer alguma coisa dramática para convencer o Alfredo. Por sorte, recebemos a visita de um compadre, Francisco, homem simples, acostumado a lavrar a terra, a acreditar no ser humano e dedicar-lhe respeito e solidariedade. Ao me ver estendida no sofá, sem mobilidade e totalmente dormente dos seios para baixo, ficara em pânico. Lamentando-se, o compadre, com os olhos rasos de água, relembrou as lutas que nos alicerçaram: a situação financeira no início do casamento, que me fazia costurar para ganhar dinheiro nos feriados e fins de semana, tendo em vista trabalhar o dia inteiro na Secretaria de Segurança Pública; as dificuldades para estudar, pois eu e Alfredo ingressamos no curso de Direito quando esperávamos o último filho, sendo que os outros ainda eram bem pequenos. Aproveitando do ensejo, disse do curso preparatório que pretendia fazer e o compadre horrorizou-se. Na sua simplicidade, entendeu que seria o meu último desejo em vida. Pela esposa e mãe batalhadoras que havia sido, o Alfredo deveria satisfazê-lo para não ter remorsos depois.

Assim consegui a aprovação do marido. No dia seguinte, estávamos a caminho para o primeiro dia de aula. “Nas grandes batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer” — dizia Gandhi. Desejo era o que não me faltava, talvez impulsionada pelo medo da inutilidade a que o destino estava tentando atirar-me.

Preenchi-me de coragem, pensei positivo e parti resoluta e firme, convicta de que não perderia a guerra. Entretanto a aproximação dos colegas curiosos com a repentina paraplegia, de vez em quando me marejava os olhos. A falta de mobilidade locomotora, o ter de ficar ali à espera sempre, as grandes rodas da cadeira e o elo que me prendia a ela, deixavam-me grande tristeza, que procurava esconder sob sorrisos. Como era difícil prestar-me a tão dura cena, enquanto o coração gritava: — chora! Você tem direito. Deixa-se volver em rios, em mares...

Alfredo subia as escadas carregando-me nos braços, enquanto o Dr. Messias, solidariamente, conduzia a cadeira de rodas. Éramos “marinheiros de primeira viagem” e ainda não sabíamos que era bem mais fácil subir as escadas sentada na própria cadeira de rodas.

Numa dessas vezes, um colega, que me via pela primeira vez sem andar, aproximou-se timidamente, pálido, emocionado, sem conseguir esconder os olhos marejados. Num esforço sobre-humano tentei confortá-lo:
— Veja como sou querida! Quando voltar a andar, sentirei falta de o maridão carregar-me ao colo... Viu que bebezão sou eu!? Assim evitei suas palavras de lamento e o vi afastar-se acabrunhado.

Dois lanços de escadas até o anfiteatro onde seria ministrado o curso. Muitos colegas e os professores: Dr. Miguel Batista de Siqueira, então Superintendente da Academia de Polícia de Goiás e seu irmão, Dr. Geraldo, Procurador de Justiça. Não podendo ocupar uma poltrona, postei-me na lateral, mesmo na cadeira de rodas. Com o caderno sobre os joelhos, percebi com surpresa que não conseguia fazer anotações. A lesão medular, localizada logo abaixo dos seios, bloqueara-me o equilíbrio. O que fazer? Cada vez que tentava, sentia-me caindo para frente. E agora? Pensei no propósito que havia feito, ainda no hospital, de ir à luta por mim, pelos filhos, marido, pela vida... Agora, abandonar tudo? Voltar e me ver morrer aos poucos? Isso não faria jamais! Era muita covardia comigo mesma. Afinal a mente estava sã.

Naquela limitação gritante, estava perdida. Os colegas olhavam-me, dirigiam-me palavras de otimismo, enquanto muitos passavam a mão sobre os meus cabelos ou beijavam-me. Um deles, inadvertidamente, chegou a dizer-me que se ficasse com tamanho cerceamento preferiria suicidar-se.

Alfredo, ao lado, percebia a dificuldade. No trajeto para casa, tentou persuadir-me a abandonar o curso. Primeiro, porque me tomava o dia inteiro, impedindo-me de fazer fisioterapia. Depois, porque eu não conseguia fazer anotações, por falta de equilíbrio. Dessa forma, como estudaria, como conseguiria aprovação? Foi aí que me lembrei do velho gravador com o qual havia registrado as aulas mais importantes do curso de Direito. A solução estava arranjada! Era só comprar fitas cassete. Poderia gravar tudo e reestudar quantas vezes fossem necessárias. Para conseguir aprovação, iria dar o sangue. Não seria por falta de estudar. Derrota era e é um vocábulo muito feio para mim. Não me subjugaria a ela.

Passei a fazer a fisioterapia no intervalo para o almoço, logo que saíamos do curso, às 11 horas (das 11 às 12 horas) no Hospital Ortopédico, onde, por vezes, colocavam-me de pé, com as pernas em “canaletas”, devidamente enfaixadas, quando era tomada por horrível sensação de desmaio, impotência, desfalecimento. Tal exercício era necessário, pois eu tinha que reconquistar a posição vertical. O consciente negava-se a aceitar uma postura sentada.

— Que coisa estranha! Em apenas um mês, quanta mudança! — pensava confusa.
E assim, íamos driblando a vida. Acordava às 5 horas para ter condições de estar na escola às 7h15min. Não podia ser diferente porque ocupava cadeira de rodas. Afinal, lutava por isonomia e pleiteava um cargo de Delegado de Polícia que, para o público, era mais do que um paradoxo. Precisava descartar a tão conhecida “pena” que tanto nos faz mal, e preparar-me bem para conquistar a aprovação no final.

Prestava-me, todas as manhãs, à difícil e complicada mão-de-obra, principalmente por ser nova na profissão de paraplégica.
Ajudada pelo Alfredo, tomava banho, ficava bonita com batom até os cantos das orelhas. Com dificuldade, fazia escova nos cabelos e moderada maquiagem. Usava brincos como arte final. Acredito que a vaidade deve ser inerente à mulher. Bom semblante espalha bons presságios. Esmerava-me nisso para ficar bem comigo e causar boa impressão.

Numa dessas manhãs, prontinha para mais um dia de aula, fui alertada pelo odor de que não estava bem do intestino. Alfredo levava-me nos braços para o carro e o produto escorria pelo cós da calça, caindo sobre os seus pés. Tristeza?! Põe tristeza nisso! Eu não podia perder a aula, o curso, o concurso... Voltamos para o banheiro. Banho da cabeça aos pés, com sabonete bem cheiroso. Depois, de cabelinhos molhados, roupa limpa, ambos sentamos para uma conversa. Alfredo tentava persuadir-me, novamente, a deixar o curso. Seria impossível! E se ocorresse em classe?

Não sei onde adquiri tantas respostas convincentes. O certo é que chegamos atrasados, mas não faltamos à aula naquele dia. Outros casos, graves assim, não ocorreram, mas fui obrigada a aprender a balancear a alimentação. Tudo demais é veneno: nem muita folha nem muita massa. Temos que achar o equilíbrio.

Voltávamos para o almoço, quando os filhos preocupados queriam saber de todos os pormenores. Retornávamos ao curso às 13h30min, cujas aulas se estendiam até as 17 horas, quando novamente prestava-me à feitura da fisioterapia, agora em casa, com técnico previamente contratado. Os exercícios, feitos sobre um acolchoado no chão da varanda, eram práticas inusitadas para todos nós. O técnico fletia várias vezes as minhas articulações. Eram os manuseios. Tentava sem êxito colocar-me ajoelhada e de “gatão”. Aos olhos dos filhos, esforçava-me para fazer os exercícios ou deles participar na esperança de que me devolvessem os passos, a minha liberdade roubada, o poder correr, pular corda com as crianças, subir às árvores ou correr pelo areal das praias ao encontro das ondas quebradiças.

Enquanto me deixava manusear pelo técnico, em silêncio, lembrava-me de uma reportagem televisiva, de caráter científico, em que cercearam a locomoção de um pequeno coelho que servia de cobaia a pesquisas experimentais, tornando-o paraplégico. Com os olhos esbugalhados, querendo viver a todo custo, o pobrezinho, apenas com as patas dianteiras ilesas, arrastava seu pesado corpo desgovernado sobre a mesa do laboratório. Agora, como parecia com ele! Mas a minha missão era menos digna: não me prestava a experiências para a consecução de antídotos ou descobertas beneficentes à humanidade. E não havia sido imolada. A paraplegia viera de graça, de presente numa noite de festa. Entretanto como queria viver! Tenho consciência de que o corpo físico nada mais é do que uma farda de carne que envergamos para cumprir o nosso desiderato. Por isso a vida é uma curta viagem em que não se pode perder tempo. Até dos dissabores devemos tirar proveito. Quem sabe o coelho ensinava-me uma lição de resistência e crescimento. Teria que aproveitar a oportunidade. Por isso, mesmo depois de expirado o último fôlego de vida, ainda nos resta a oportunidade de servir.

Depois da morte do meu corpo físico, gostaria que todos os meus órgãos sãos fossem utilizados para, por exemplo, fazer pulsar um coração cansado; dar luz a olhos que nunca enxergaram...

Queria que até as mínimas partículas servissem de material de estudo aos futuros profissionais da área de saúde. Quem sabe para desenvolver a nanotecnologia, devolvendo a audição a quem nunca pôde ouvir uma música, o zumbido das abelhas, os refrulhos sonoros de um riacho, uma declaração de amor... Quem sabe, esses órgãos inanimados, essas partículas abandonadas, ainda possam contribuir para o estudo e o aperfeiçoamento da medicina, criando caminhos e mais saúde para todos. Gostaria que o resto, quando nada mais tivesse serventia, fosse deixado num lugar tranqüilo sob a terra pura, sem concreto, porque assim, ainda serviria de adubo para florescer um gerânio vermelho, símbolo de minha luta pela vida.

A ciência não conseguiu provar a inexistência de Deus. Ele existe! E eu acredito num Deus perfeito, do qual somos a criação. A alma não desce à sepultura, transcende à Casa do Pai. Daqui não levaremos nada, apenas o bem ou o mal que tenhamos praticado.

Acredito que já vivemos muitas existências e viveremos muito mais outras. Elas agem em nós feito um processo lapidador, respeitando o livre-arbítrio. A multiplicidade das existências no corpo físico não constitui apenas uma afirmação evangélica, mas uma verdade científica e filosófica, explicada pela Lei do Progresso, claramente estampada nas diferenças sociais, nas doenças congênitas, além de muitos acontecimentos atribuídos a fatalidades. E isso é necessário para que o espírito evolua, tendo por mestres a dor e as muitas experiências que, com certeza, o qualificará para o exercício do amor a si e ao seu próximo. Por isso este é um mundo de provações, próprio para o resgate de erros do passado. Ninguém reencarna sem uma cruz para carregar. É o que se chama de carma que pode ser de ordem física, moral ou financeira.

Com esse entendimento e partindo do princípio de que o Pai é justo, a aceitação do carma reverte-se em escadas para subirmos cada vez mais alto. Assim, aceitar a reencarnação significou aceitar a mim mesma. Significou a dura tentativa de relacionamento pacífico com o meu corpo paralítico.

(Após tudo isso, aprendi tanto! E eis-me aqui, forte e firme, alegre e bonita! Minha cadeira apenas me enfeita a silhueta, dando-me a oportunidade de servir mais, amar mais e seguir contente. Meu trabalho torna-me um ser humano INTEIRO.)

sábado, 22 de janeiro de 2011

CÚMPLICES


CÚMPLICES
(Genaura Tormin)

Sócios somos
A cada amanhecer,
A cada noite que se finda,
Adormecida no emaranhado
De nossas alegrias
Pela jornada da vida.

Nem sei quantas luas se passaram,
Nem por quantos verões
Dividimos o mesmo leito.
Mas posso dizer que o coração
Ainda se encanta no peito.

Deciframos os hieróglifos,
Os teoremas,
Estampados em cada sorriso,
Em cada olhar.
Fabricamos o nosso jeito de amar.
Somos cúmplices!
A interação dispensa o linguajar.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ETA TORCEDOR APAIXONADO


ETA TORCEDOR APAIXONADO!
(Genaura Tormin)

O futebol é, praticamente, o maior lazer dos homens. E de muitas mulheres também, ora! A paridade caminha a passos largos. A mulher está mostrando a cara, demonstrando a que veio. Já há times exclusivamente composto por mulheres. O futebol ganhou o mundo, encantando sempre e propiciando progresso.

Há os aficionados ao timão, bem pronunciado, com palavras de paixão. Muitos se deslocam de longe para assistirem ao seu time jogar. Vale qualquer sacrifício e dinheiro.

E, para incrementar o assunto, vai aí um causo que vale a pena, pela obstinação desse torcedor.

O seu time estava escalado. A expectativa e a adrenalina corriam soltas. Jamais poderia faltar a esse confronto. Nem pensar nisso! Acontece que, como a vida não avisa, o torcedor de quem estamos falando encontrava-se colostomizado. Acabara de sair do hospital. Uma dessas cirurgias em que o “foronfonfon” precisa ser preservado para garantir o sucesso de uma intervenção de retirada de parte do intestino. Assim o excremento passou a ser coletado por meio de um bem feito orifício na barriga, que possibilita o escoamento desse produto numa bolsa transparente. O “foronfofon” fica de férias, sabe? Uma trapaça do destino. Quem sabe um teste para ver se o cabra é macho mesmo! Aguenta o baralhado.

Mas o rapaz, sob nenhuma justificativa, abdicava de ir ao Estádio. O que fazer? O jeito era acompanhá-lo. Não se podia prevê o futuro. Esse, a Deus pertence. Remorsos não se coleciona, pois mais vale um gosto do que um caminhão de abóboras, diz o ditado popular.

Tudo preparado, após muitas recomendações e aparatos de proteção. Na verdade as advertências eram principalmente quanto ao vexame que poderia estar exposto.
E lá se foi o moço, devidamente escoltado. Uma comitiva de solidariedade. Paramentado a caráter, com a camisa do Verdão da Serra, o boné, o radio... O entusiasmo era visível no rosto magro, ossudo e pálido, fruto da recente cirurgia, numa estada de alguns dias num recinto hospitalar. Além disso mais outros apetrechos juntavam-se à sua indumentária. Uma bolsa preta, onde se escondia a colostomia, ou seja, a bolsa de merda. Do outro lado, mais outra bolsa preta camuflava o coletor que recebia sangue rejeitado pelo organismo, por meio de um dreno, procedimentos inerentes ao sucesso do tratamento.

Já no Estádio, sentou-se na arquibancada, sob os holofotes que lhe permitiam uma visão privilegiada. Ufa! O coração não se continha, na certeza de que seu timão ia fazer bonito e botar o adversário debaixo do braço.

A hora chegara. A bola deslizou faceira pelo gramado. A princípio meio tímida. Já não era a jabulani, pois estava em terras brasilianas. O Estádio estava ouriçado. Muita expectativa. A gritaria era geral. Avante, vamos lá! De vez quando se ouvia alguns palavrões em coro.

O Verdão era o favorito e a torcida acompanhava atenta. Jogo duro, diziam todos. Dois grandes adversários bons de bola e a decisão do campeonato.

Todos atentos ao espetáculo, eletrizados pela emoção numa torcida equilibrada. O primeiro tempo caminhava para o final, apenas com jogadas a quase gol, impedimentos, bola na trave, tiro de meta, escanteios e, algumas mancadas, o que é natural. Finalmente, esvaíra-se o tempo e o placar bem iluminado registrara 0 x 0!

O nosso torcedor aproveitara o intervalo para comentar ensimesmado cada lance do primeiro tempo, totalmente esquecido das bolsas que acompanhavam à sua vestimenta. Inconformado, ele gritava: não fizemos gol por que o juiz é ladrão! Ladrão! Sentado atrás, um adversário interrompeu: _ dá sossego corretor! Essa você não leva!

Talvez o apelido fosse por causa das duas bolsas pretas a tiracolo. O certo é que o nosso torcedor era agora o CORRETOR, mas poderia ser ENSACADOR. Esse apelido também faria um bom sentido. O certo é que ele estava ali, esperando a vitória do seu Verdão.

O cronômetro anunciara o início do segundo tempo. Ufa!!
_ Temos que levar! Vamos Verdão, gritara o CORRETOR, erguendo-se da arquibancada.
A emoção tomava conta do Estádio e o primeiro gol, para surpresa do CORRETOR, fora do adversário.

Nesse clima, o gramado entendia os chutes. Acirrava-se a disputa e a ansidade também. A adrenalina e o otimismo evidenciavam-se nos gritos e no suor excessivo dos rostos eletrizados. Enfim, foi marcado um sofrido gol do Verdão. A torcida não deixou por menos, hasteando sua bandeira rumo ao céu. O nosso personagem era só alegria e apostava na virada.

Já nos descontos da fase final do jogo, a “redondinha” invadira o gol, passando sobre a cabeça do goleiro, que não a conseguira driblar. Gooooool! A plateia ecoou em gritos. O Verdão ganhou! O placar anunciou o fim o jogo. 2 x 1 para o Verdão! Eta timão porreta!

O torcedor, protagonista deste conto, de um salto subira na arquibancada, numa posição de herói. A alegria escapava-lhe pelos poros. Os olhos brilhavam e os gestos acompanhavam a sua satisfação.

_ Eu sabia, eu sabia! _ gritava ele! Confio no meu time!
Nem parecia um paciente colostomzado. Esquecera-se disso. Suspendera as bolsas, acima da cabeça, que abruptamente se desconectaram dos orifícios. E aí....

Meu Deus! Fora uma chuva de merda e de sangue! O fedor exalava, misturando-se ao suor.
Alheio a tudo, ele continuava empunhando as bolsas, agitando-as como se fossem bandeiras hasteadas. As reclamações misturavam-se aos gritos de vitória.

_ Merda pura! _ gritaram alguns.

_ Para vocês respeitarem a supremacia do Verdão, retrucara o corretor, voltando-se para trás, só se dando conta quando levou umas bofetadas.

De lá saíra graças à proteção dos companheiros e, ainda sob a guarda policial que se fizera presente no local. Protegido, fora direto para o hospital a fim de refazer as conecções das bolsas e alguns outros reparos. Embora haja provocado uma chuva de merda, o torcedor era só FELICIDADE! O seu timão ganhara e isso lhe bastava.

Goiânia, 17 de janeiro de 2011

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

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Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)



"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)