PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

sábado, 25 de setembro de 2010

A SEXUALIDADE TEM LEVEZA, GRAÇA E BELEZA


A SEXUALIDADE TEM LEVEZA, GRAÇA E BELEZA
(Genaura Tormin)

O ato de amar tem leveza, graça, ternura, beleza... Um pouco de céu passeando pela natureza.

A sexualidade é um atributo nato do ser humano. Não está cingida somente à genitália. Muitos outros detalhes são os responsáveis pelo prazer.

Com a mulher paraplégica não é diferente em decorrência de sua condição. Depende muito da altura da lesão e de sua parcialidade ou não. Cada lesão é peculiar, única. Cada caso é um caso, com respostas diferentes. Isso quer dizer que a interferência dessa condição no exercício da sexualidade é relativa.

Se a deficiência não tiver cunho medular, não há em se falar de dificuldade sexual, no sentido de obtenção de prazer.

O termo sexualidade é amplo e está ligado à individualidade, aos valores herdados do berço, aos legados familiares e à influência do meio em que se vive, abrangendo algumas fantasias sócio-culturais, passadas pela mitologia grega e pelos conceitos de beleza, atribuídos à mulher ao longo dos tempos.

A supremacia masculina revela-se nessa relação, ostentando um modelo sociológico antigo de propriedade, cujo estereótipo vem sendo banido, com a ascensão da mulher à conquista de si mesma. Até os anos 60 a mulher foi tida como objeto sexual, fardo nos ombros do marido. A figura do macho, caçador, senhor de muitos leitos, também foi amainada. Cresceu em sabedoria, e em recente pesquisa ficou demonstrado que os homens mais informados, mais cultos, não se dão a traições banais. Isso é crescimento, mudança de valores.

A medula, o nosso tecido mais nobre, que se encontra preenchendo o conduto da coluna vertebral em forma de tutano, é a responsável, em sua parte anterior, pela transmissão dos movimentos locomotores e na parte posterior pela transmissão da sensibilidade. Se sofremos secção total da medula por tiro, acidente ou até mesmo por vírus, teremos enclausurados os movimentos locomotores, bem como a sensibilidade que é substituída por macabra dormência e a sensação gélida da Antártida.

Mesmo assim, apesar de estarmos com deficiência, fisicamente estamos vivas. Resta-nos o cérebro pensante, criativo e, por vezes, escandalosamente sensual.

A primeira noite de novas núpcias, depois de paraplégica, pode ser dolorida, com o passado gritando, desarrumando sem dó o nosso coração que, com certeza, deixa vazar a perda em mares de lágrimas. Mas isso é bom. Começa-se a carpir o terreno, na construção de veredas e atalhos. Geralmente o orgasmo esconde-se na conjectura do nada e o órgão genital não se prepara para a cópula. Não se lubrifica, dificultando a penetração que carece contar com a ajuda de um lubrificante íntimo. E aí, fica-se virgem outra vez! É preciso esflorar o hímen. Talvez, seja um privilégio a ideia conotada.

É preciso ultrapassar essa barreira. Libertar-se. Dar vazão ao sentimento. Deixar que as lágrimas escorram pela face e apascentem a alma na construção de novas maneiras de cantar o amor.

O que fazer? Reconstruir! Erigir pirâmides e versos! Pensar grande! Resta-nos, ainda, agradecer! Fisicamente podemos satisfazer o parceiro e descobrirmos juntos outras maneiras, outros pontos eróticos que não nos deixem a ver navios. A tarefa a dois fica mais fácil e a solução mais agradável.

A natureza é mesmo perfeita e o sexo é a sublimação do amor, o berço do eterno renascer... O berço da vida humana. Por isso cada um de nós foi feito de amor e por meio do amor numa doação coroada.

O amor é um sentimento lindo! Daí, por consequência, a sublimação na união de corpos, mistura de genes, transferência mútua de energias que nos renovam sempre o prazer de viver, além da multiplicação da espécie que nos confere o poder de criadores, um dos fins precípuos dessa união. O ato sexual propicia muito prazer, amainando as desigualdades do casal, ajudando a construir a almejada felicidade.

Compulsando compêndios de estudos médicos, certifiquei-me de que a mulher paraplégica conserva a condição de fertilidade, podendo plenamente engravidar, dar à luz e amamentar a sua cria.

O sexo não deve ser profano e o seu exercício chega a ser místico, feito uma cerimônia litúrgica. Afinal foi Deus o seu criador.

O desempenho sexual envolve o comando cerebral, medular e periférico, além das formas físicas do côncavo e do convexo.

Entretanto, sexo não significa apenas contato genital. Ele está muito mais na cabeça, no coração e no amor que engloba tudo isso. Há, ainda, a criatividade que nos aponta outros meios, outras maneiras de fazer amor.

Aprendemos a encontrar a essência do prazer de outras formas. Procuramos fantasiar e atentar para o que nos sobrou ileso, embora, nós mulheres, possamos satisfazer plenamente o parceiro, tendo em vista, anatomicamente, tudo se encontrar em forma, apenas sem mobilidade e sensibilidade tátil.

A mulher paraplégica deve usar a sabedoria. Arranjar sempre uma maneira para que o clímax fique melhor. O desejo de amar já é amor. Tudo se manifesta no olhar, no suor, nos olhos, nas lágrimas, no aconchego, no estar junto sem dizer nada, na divisão de um copo de suco, na chegada estampada em passos. Tudo ouriça e cativa, faz o querer sempre maior. Quando há o envolvimento, as portas vão se esgueirando à frente cheias de oportunidades, de fórmulas mágicas peculiares para encantar o leito do amor. O momento faz a hora.

Tudo está na maneira de pensar e na disposição para achar soluções. O contato físico, sexualmente falando, existe, sim, e bom, capaz de levar-nos à satisfação plena, o que eu costumo dizer: longe da terra e perto do céu.

O amor, esse tão lindo amor, não se dobra a obstáculos e não se curva às intempéries da estrada. Mesmo após as tempestades, ergue-se incólume e altaneiro. Há sempre encantamento na partilha!

Sexualidade da Palavra
(Genaura Tormin)

Dispo-me!
Mostro-me inteira.
Erótico está o coração.
Palavras quentes,
Fortes, emocionadas,
Desfilam faceiras,
Substituindo a forma desfeita
De um corpo mutilado.

No leito nupcial,
A poesia faz a festa!
Enrosca-se no orgasmo compartilhado.
A libido viaja pelo pranto,
Pelos compartimentos secretos,
Na verve do querer ouriçado.

Exponho minha nudez poética!
Faço amor,
Na sexualidade da palavra,
Que arqueja
Em carinhoso diálogo,
Dando forma, essência e vida
Ao ato sublimado.

O exercício do ato sexual propriamente dito, por vezes é condenado pelos familiares, sob a égide protetiva, com o ledo entendimento de que, por ausência de sensibilidade tátil, não mais significará prazer.

Os prestadores de cuidados também não nos incentivam nesse particular, por não sermos detentores dos movimentos físicos e da sensibilidade. É como se estivéssemos sendo condenados ao exílio. O crime: prazer sexual.

A sexualidade é parte inseparável do complexo denominado: SAUDE. Por isso são necessários estudos e nova mentalidade que qualifiquem os profissionais dessa área, além de literatura informativa, também para o paciente e sua família.

Referindo-me à mulher paraplégica que nada faz para resgatar com satisfação a sua sexualidade, ouso dizer que é falta de autoestima e até de autoconhecimento, porque estar deficiente não significa estar morta ou assexuada. A mente e o coração estão ilesos, prontos para viver uma linda história de amor.

O ato sexual envolve algo mais, além da penetração do membro viril. Se assim não o fosse, seria apenas fisiologismo. O ato de amar tem leveza, graça, ternura, afeto... Um pouco de céu passeando pela terra. “Temer o amor é temer a vida, e os que temem a vida já estão meio mortos”. (Bertand Russell)

Com uma lesão medular alta igual à minha (T-4), a ausência da sensibilidade é total. Não sinto sequer a penetração durante o ato sexual. Nesse momento, o coração ouriçado faz a festa. Viaja, alcançando píncaros, numa doação coroada. Veste-se de céu e faz morada nas estrelas. E eu me transmudo em tantas carícias! Posso fantasiar, soltar os laços, as peias e voar pelo infinito no calor compartilhado que me faz amada. Nessa hora, meu corpo fala todas as linguagens e vai a todas as paragens, pois não tenho porteiras nem cárceres. Posso dar e receber tanto, que a alma transcende a plagas de plena satisfação.

A natureza é sábia e transfere o prazer para outras áreas do corpo. Para minha satisfação, as axilas substituíram os enleios de prazer do órgão genital. Entre duas pessoas que se amam, no recôndito de quatro paredes, tudo é normal. O amor não tem receitas, determinações. Por que não procurar outros pontos eróticos que não nos deixem a ver navios? O importante é tentar encontrar o prazer na mente, no coração, no aconchego, numa encostadinha de rosto, num beijo... Amor é energia sublimada, sentida, transformada, às vezes, em silenciosas palavras, decodificadas pela ternura do olhar, pelo pulsar do coração enamorado.

“Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar”. (Machado de Assis)

Descobri que o beijo ficou mais gostoso, as carícias nos lóbulos das orelhas, no pescoço, nos seios, nos cabelos... Eu nunca havia pensado nisso antes. No meu livro, Pássaro Sem Asas, fiz esse relato e alguns leitores ficaram surpresos com a ideia de fazer amor nas axilas e até pesquisaram, comprovando a existência de prazer.

Restaram-me as axilas, por que não as experimentar? É uma preparação, antes da cópula propriamente dita, que me deixa feliz, que me faz mulher. O beijo mais vagaroso, mais profundo, mais silencioso, com exploração do palato, acompanhado da masculinidade e dos odores tão peculiares do parceiro, faz-me muito fêmea e emocionada, chegando a tremer o que resta ileso. Por isso, repito: a gente só fracassa quando desiste de tentar. Alegra-me parafrasear Aristóteles Onassis: todos os dias e me levanto para vencer!

Há pouca literatura sobre o assunto, alicerçada na realidade fática da mulher paraplégica, descrita sem rodeios por ela própria. Percebo que os profissionais de saúde longe estão de entender essa diversidade e valorizar o desejo sexual existente num corpo sem mobilidade, sem saber que ele reside, acima de tudo, na mente, no coração e no entrelaçamento de almas que apontam soluções dignas. A visão sempre exerceu e exerce papel importante em quaisquer relacionamentos. Ela pode ser exercida de várias maneiras. O cego, por exemplo, consegue determinar-se no espaço, reconhecer pessoas pelo som da voz e até captar-lhes o estado d’alma, ter predileções por cores sem nunca lhes haver visto o matizado. É uma percepção sensorial.

Nós mulheres temos privilégios. Nosso órgão genital é côncavo, próprio para o encaixe do membro masculino. Somos agentes passivas, recebedoras. Assim, a nossa maior parte fica por conta da criatividade, da ternura, da astúcia, do que só nós na condição de fêmea sabemos engendrar.

Cabe a nós cultivar a sedução, tornando-nos atraentes, agradáveis, entrando aí o uso de apetrechos externos, como lingerie, cremes, óleos e outros que ouriçam o desejo. Superar as crenças autolimitadoras é o exercício diário para a plenitude do nosso potencial diante da vida, incluindo a sexualidade, claro. O autoconceito benfazejo é o primeiro passo.

A gente tem que se amar. Se não amamos a nós mesmos, como poderemos amar ao outro ou permitir que sejamos amadas?

Partindo daí, vamos construir portas, abrir janelas e aproveitar todas as oportunidades que nos fizerem bem. A observação é o ponto de partida.

Se a paralisia não melhora, melhoremos nós. A dormência não vai regredir. A receita é transferir para outras áreas a sensação que sentíamos na genitália, além de procurar encantar-se com o parceiro, uma vez que a relação sexual jamais acontecerá plena, solta, bonita e sublime, sem um sentimento de admiração. Afinal, é a transferência mútua de energia que nos abastece, tornando-nos plenas, renovando-nos a felicidade do existir.

O amor é o mais exímio professor de todo o afeto, de toda a ternura e de todo o enternecimento que unem dois corações e consequentemente dois corpos. Não precisa de marketing, nem propagandas. O amor fala por si mesmo!

Realmente, Mario Quintana tinha razão quando disse: Deficiente é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.

3 comentários:

  1. Pesquisando autohemoterapia descobri esse blog. Gostei muito e vou linka-lo nos meus. A senhora está de parabéns, escreve com maestria. Um abraço!

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  2. Realmente, Genaura querida, nós não "temos" sexo, nós "somos" sexo. No sentido de que a sexualidade não se limita à genitalidade. Ser homem, ser mulher e viver a graça do fazer amor é ir muito mais além do que o ato em si, do que o físico. É uma comunhão completa de corpo e alma. Algo divino e sagrado. Por isso, mulheres, homens que se tornaram paraplégicos, mantém vivos dentro de si a sua sexualidade. Aliás, até mais plena, pois passam a perceber e conhecer-se a si próprios como nunca antes tinham imaginado. Por isso todos podem continuar amando. Assim, Deus nos fez. Para dentro de um relacionamento abençoado vivenciarmos o amor em sua plenitude. Parabéns por sua coragem e clareza ao tocar em tema que não é muito falado. Fala-se da sexualidade das pessoas da terceira idade, que também não estão "mortas" só porque já têm mais de 60 anos, antes pelo contrário. Mas nunca tinha pensado sobre a sexualidade das pessoas paraplégicas. Muito bom. Obrigada pela partilha. Felicidades a você e ao seu marido. Beijos, boa noite ;)

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  3. Ah, Genaura, como você é grandiosa e generosa, através da sua própria dor!
    Admira-me muito sua têmpera e sua sinceridade, na doação de si mesma.
    O mundo se enriquece contigo e todos nós que a lemos nos aperfeiçoamos no nosso conhecimento e no nosso sentimento - sua vocação é ser luz!
    Deus a recompense!
    Amoroso abraço, Selma Regina.

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LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)


"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)