PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

ÚLTIMO DESEJO


ÚLTIMO DESEJO
(Este é um dos capítulos do meu livro PÁSSARO SEM ASAS)
(Genaura Tormin)

O desespero começava a rondar-me, sutilmente, durante os poucos momentos em que ficava sozinha no sofá da copa ou na cadeira de rodas que me arranjara o senhor França. Não tinha destreza para manejá-la. Não tinha traquejo com veículo tão desajeitado e estava fraca, muito vulnerável. Ela era grande e por vezes transformava-se numa cama. Assim não vencia distâncias enquanto os olhos alcançavam longe os afazeres de dona de casa. Agora não mais os podia fazer. Teria que ser indulgente até para determiná-los.

Foi aí que tomei consciência do que me havia acontecido e do que ainda iria me acontecer. Era “chumbo grosso” e a solução era remota. O jeito era poetar a desventura:

MEDITANDO

Dia comprido,
Sem sol,
Sem flores,
Sem amores.

Frio no tempo,
Cansaço,
Loucura,
E na alma,
O muito que apavora.

Em tudo,
A saudade que queima,
A lâmina que fere,
O frio que aumenta,
A lágrima que cai
E a dor do irreversível.

Cada dificuldade das crianças ou na rotina da casa refletia-se em mim como constante reafirmação de minha inutilidade, de impotência, além dos muitos cerceamentos estampados no próprio corpo e na liberdade de ir-e-vir.

Temendo uma crise depressiva, ocupava-me o tempo todo para não pensar, até acostumar-me às novas condições de vida. Por sorte, tinha muitas visitas, recebia telefonemas e os fazia também. Carinho não me faltava. E foi assim que fui informada de um curso para formação de Delegados de Polícia, que se estendia a comissários com o objetivo de preencher vagas nas demais delegacias, mediante concurso interno.

Por telefone, obtive todas as informações necessárias sobre o curso preparatório. Informei-me, também, sobre a compra de uma cadeira de rodas menor que pudesse ser transportada no porta-malas do carro. Sem vivência com “veículo tão esdrúxulo”, achei o preço muito elevado, mesmo por que não pensava que a paralisia pudesse ser irreversível. A esperança é a última que morre, embora as evidências de uma deficiência permanente se estampassem a todo o momento.

Por ser Comissária de Polícia, bacharela em Direito, pertencer aos quadros da Polícia Civil há dezesseis anos, resolvi enfileirar-me entre os concorrentes. Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder. Era a oportunidade que me batia à porta. Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica! Registrei a idéia e parti para o confronto. Talvez o mais ousado de toda a minha vida. Era tudo ou NADA!

Entrei em contato com a Associação dos Deficientes Físicos, cuja presidenta, uma mulher bonita, de olhos claros e semblante amigo, havia-me visitado no hospital. Não a encontrei. Deram-me o seu telefone. Minutos depois, estávamos numa progressista conversa. Ela era muito otimista. Havia feito advocacia e incentivou-me ao curso, emprestando-me uma de suas cadeiras, pois, também era paraplégica. Já me imaginava trabalhando, sentada à mesa de espaçoso gabinete, presidindo muitos inquéritos.

Assim, certamente, esquecer-me-ia dos próprios problemas. Embora o corpo estivesse fragilizado, a mente estava sã, agarrada com unhas e dentes aos louros do iminente sucesso.
A força não provém da capacidade física e sim de uma vontade indomável, disse Mahatma Gandhi. Somos o que pensamos ser. Dei asas à imaginação e o meu desejo tomou formas, cores e vida.

Agora esperava o momento de conseguir a anuência do Alfredo de quem muito precisava para a consecução de tal façanha. Mesmo com jeitinho, ele não anuíra ao pedido. Enumerara uma leva de dificuldades: condições psíquicas, físicas, fisiológicas, e ainda as escadarias até o anfiteatro onde se realizaria o curso.

Não me dei por vencida. Iria tentar outra vez ou muitas outras vezes.
O ambiente desafiador é o sucesso do guerreiro, a arma de sua luta, o front de sua trincheira. E eu precisava construir o meu universo, seguir a minha vida!
Nos meandros de mim mesma, pensava: e se eu ficar paraplégica para o resto da vida? Receberei mísera pensão por invalidez que mal dará para comprar remédios. E a inércia, o não fazer nada, a ociosidade... NÃO! Vou à luta! Tenho mente sã e posso ser uma delegada! É um cargo de comando, cartorário. Poderei servir de exemplo a outras pessoas com deficiência física. Poderei abrir caminhos. Não vou permitir que a vida me transforme num cadáver vivo! Tenho muito ainda a fazer! Tenho flechas na aljava e mantimento para o caminho.

O curso estava prestes a começar. O Alfredo continuava achando absurda a minha pretensão e por nada cedia. Havia cinco dias que estava em casa, mas, imbuída na consecução do meu tão importante desejo, os dias lentamente se arrastavam, talvez, dado ao cerceamento de ficar ali, sempre, sem poder andar, presa ao sofá ou à cadeira de rodas que não passava nas portas. Precisava ser forte, resistir, vencer e sublimar o que realmente não pudesse mudar:

SUBLIMAÇÃO

Viver
É realizar-se,
Amar,
Sofrer,
Resistir.

Realizar-se
É não se subjugar:
É ser forte ou frágil,
Se preciso.

Realizar-se é,
Antes de tudo,
Ousar,
Trabalhar,
Sublimar para não sofrer,
Diante do que não se pode mudar.

No dia seguinte começaria o curso. Precisava urgentemente fazer alguma coisa dramática para convencer o Alfredo. Por sorte, recebemos a visita de um compadre, Francisco, homem simples, acostumado a lavrar a terra, a acreditar no ser humano e dedicar-lhe respeito e solidariedade. Ao me ver estendida no sofá, sem mobilidade e totalmente dormente dos seios para baixo, ficara em pânico. Lamentando-se, o compadre, com os olhos rasos de água, relembrou as lutas que nos alicerçaram: a situação financeira no início do casamento, que me fazia costurar para ganhar dinheiro nos feriados e fins de semana, tendo em vista trabalhar o dia inteiro na Secretaria de Segurança Pública; as dificuldades para estudar, pois eu e Alfredo ingressamos no curso de Direito quando esperávamos o último filho, sendo que os outros ainda eram bem pequenos. Aproveitando do ensejo, disse do curso preparatório que pretendia fazer e o compadre horrorizou-se. Na sua simplicidade, entendeu que seria o meu último desejo em vida. Pela esposa e mãe batalhadoras que havia sido, o Alfredo deveria satisfazê-lo para não ter remorsos depois.

Assim consegui a aprovação do marido. No dia seguinte, estávamos a caminho para o primeiro dia de aula. “Nas grandes batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer” — dizia Gandhi. Desejo era o que não me faltava, talvez impulsionada pelo medo da inutilidade a que o destino estava tentando atirar-me.

Preenchi-me de coragem, pensei positivo e parti resoluta e firme, convicta de que não perderia a guerra. Entretanto a aproximação dos colegas curiosos com a repentina paraplegia, de vez em quando me marejava os olhos. A falta de mobilidade locomotora, o ter de ficar ali à espera sempre, as grandes rodas da cadeira e o elo que me prendia a ela, deixavam-me grande tristeza, que procurava esconder sob sorrisos. Como era difícil prestar-me a tão dura cena, enquanto o coração gritava: — chora! Você tem direito. Deixa-se volver em rios, em mares...

Alfredo subia as escadas carregando-me nos braços, enquanto o Dr. Messias, solidariamente, conduzia a cadeira de rodas. Éramos “marinheiros de primeira viagem” e ainda não sabíamos que era bem mais fácil subir as escadas sentada na própria cadeira de rodas.

Numa dessas vezes, um colega, que me via pela primeira vez sem andar, aproximou-se timidamente, pálido, emocionado, sem conseguir esconder os olhos marejados. Num esforço sobre-humano tentei confortá-lo:
— Veja como sou querida! Quando voltar a andar, sentirei falta de o maridão carregar-me ao colo... Viu que bebezão sou eu!? Assim evitei suas palavras de lamento e o vi afastar-se acabrunhado.

Dois lanços de escadas até o anfiteatro onde seria ministrado o curso. Muitos colegas e os professores: Dr. Miguel Batista de Siqueira, então Superintendente da Academia de Polícia de Goiás e seu irmão, Dr. Geraldo, Procurador de Justiça. Não podendo ocupar uma poltrona, postei-me na lateral, mesmo na cadeira de rodas. Com o caderno sobre os joelhos, percebi com surpresa que não conseguia fazer anotações. A lesão medular, localizada logo abaixo dos seios, bloqueara-me o equilíbrio. O que fazer? Cada vez que tentava, sentia-me caindo para frente. E agora? Pensei no propósito que havia feito, ainda no hospital, de ir à luta por mim, pelos filhos, marido, pela vida... Agora, abandonar tudo? Voltar e me ver morrer aos poucos? Isso não faria jamais! Era muita covardia comigo mesma. Afinal a mente estava sã.

Naquela limitação gritante, estava perdida. Os colegas olhavam-me, dirigiam-me palavras de otimismo, enquanto muitos passavam a mão sobre os meus cabelos ou beijavam-me. Um deles, inadvertidamente, chegou a dizer-me que se ficasse com tamanho cerceamento preferiria suicidar-se.

Alfredo, ao lado, percebia a dificuldade. No trajeto para casa, tentou persuadir-me a abandonar o curso. Primeiro, porque me tomava o dia inteiro, impedindo-me de fazer fisioterapia. Depois, porque eu não conseguia fazer anotações, por falta de equilíbrio. Dessa forma, como estudaria, como conseguiria aprovação? Foi aí que me lembrei do velho gravador com o qual havia registrado as aulas mais importantes do curso de Direito. A solução estava arranjada! Era só comprar fitas cassete. Poderia gravar tudo e reestudar quantas vezes fossem necessárias. Para conseguir aprovação, iria dar o sangue. Não seria por falta de estudar. Derrota era e é um vocábulo muito feio para mim. Não me subjugaria a ela.

Passei a fazer a fisioterapia no intervalo para o almoço, logo que saíamos do curso, às 11 horas (das 11 às 12 horas) no Hospital Ortopédico, onde, por vezes, colocavam-me de pé, com as pernas em “canaletas”, devidamente enfaixadas, quando era tomada por horrível sensação de desmaio, impotência, desfalecimento. Tal exercício era necessário, pois eu tinha que reconquistar a posição vertical. O consciente negava-se a aceitar uma postura sentada.

— Que coisa estranha! Em apenas um mês, quanta mudança! — pensava confusa.
E assim, íamos driblando a vida. Acordava às 5 horas para ter condições de estar na escola às 7h15min. Não podia ser diferente porque ocupava cadeira de rodas. Afinal, lutava por isonomia e pleiteava um cargo de Delegado de Polícia que, para o público, era mais do que um paradoxo. Precisava descartar a tão conhecida “pena” que tanto nos faz mal, e preparar-me bem para conquistar a aprovação no final.

Prestava-me, todas as manhãs, à difícil e complicada mão-de-obra, principalmente por ser nova na profissão de paraplégica.
Ajudada pelo Alfredo, tomava banho, ficava bonita com batom até os cantos das orelhas. Com dificuldade, fazia escova nos cabelos e moderada maquiagem. Usava brincos como arte final. Acredito que a vaidade deve ser inerente à mulher. Bom semblante espalha bons presságios. Esmerava-me nisso para ficar bem comigo e causar boa impressão.

Numa dessas manhãs, prontinha para mais um dia de aula, fui alertada pelo odor de que não estava bem do intestino. Alfredo levava-me nos braços para o carro e o produto escorria pelo cós da calça, caindo sobre os seus pés. Tristeza?! Põe tristeza nisso! Eu não podia perder a aula, o curso, o concurso... Voltamos para o banheiro. Banho da cabeça aos pés, com sabonete bem cheiroso. Depois, de cabelinhos molhados, roupa limpa, ambos sentamos para uma conversa. Alfredo tentava persuadir-me, novamente, a deixar o curso. Seria impossível! E se ocorresse em classe?

Não sei onde adquiri tantas respostas convincentes. O certo é que chegamos atrasados, mas não faltamos à aula naquele dia. Outros casos, graves assim, não ocorreram, mas fui obrigada a aprender a balancear a alimentação. Tudo demais é veneno: nem muita folha nem muita massa. Temos que achar o equilíbrio.

Voltávamos para o almoço, quando os filhos preocupados queriam saber de todos os pormenores. Retornávamos ao curso às 13h30min, cujas aulas se estendiam até as 17 horas, quando novamente prestava-me à feitura da fisioterapia, agora em casa, com técnico previamente contratado. Os exercícios, feitos sobre um acolchoado no chão da varanda, eram práticas inusitadas para todos nós. O técnico fletia várias vezes as minhas articulações. Eram os manuseios. Tentava sem êxito colocar-me ajoelhada e de “gatão”. Aos olhos dos filhos, esforçava-me para fazer os exercícios ou deles participar na esperança de que me devolvessem os passos, a minha liberdade roubada, o poder correr, pular corda com as crianças, subir às árvores ou correr pelo areal das praias ao encontro das ondas quebradiças.

Enquanto me deixava manusear pelo técnico, em silêncio, lembrava-me de uma reportagem televisiva, de caráter científico, em que cercearam a locomoção de um pequeno coelho que servia de cobaia a pesquisas experimentais, tornando-o paraplégico. Com os olhos esbugalhados, querendo viver a todo custo, o pobrezinho, apenas com as patas dianteiras ilesas, arrastava seu pesado corpo desgovernado sobre a mesa do laboratório. Agora, como parecia com ele! Mas a minha missão era menos digna: não me prestava a experiências para a consecução de antídotos ou descobertas beneficentes à humanidade. E não havia sido imolada. A paraplegia viera de graça, de presente numa noite de festa. Entretanto como queria viver! Tenho consciência de que o corpo físico nada mais é do que uma farda de carne que envergamos para cumprir o nosso desiderato. Por isso a vida é uma curta viagem em que não se pode perder tempo. Até dos dissabores devemos tirar proveito. Quem sabe o coelho ensinava-me uma lição de resistência e crescimento. Teria que aproveitar a oportunidade. Por isso, mesmo depois de expirado o último fôlego de vida, ainda nos resta a oportunidade de servir.

Depois da morte do meu corpo físico, gostaria que todos os meus órgãos sãos fossem utilizados para, por exemplo, fazer pulsar um coração cansado; dar luz a olhos que nunca enxergaram...

Queria que até as mínimas partículas servissem de material de estudo aos futuros profissionais da área de saúde. Quem sabe para desenvolver a nanotecnologia, devolvendo a audição a quem nunca pôde ouvir uma música, o zumbido das abelhas, os refrulhos sonoros de um riacho, uma declaração de amor... Quem sabe, esses órgãos inanimados, essas partículas abandonadas, ainda possam contribuir para o estudo e o aperfeiçoamento da medicina, criando caminhos e mais saúde para todos. Gostaria que o resto, quando nada mais tivesse serventia, fosse deixado num lugar tranqüilo sob a terra pura, sem concreto, porque assim, ainda serviria de adubo para florescer um gerânio vermelho, símbolo de minha luta pela vida.

A ciência não conseguiu provar a inexistência de Deus. Ele existe! E eu acredito num Deus perfeito, do qual somos a criação. A alma não desce à sepultura, transcende à Casa do Pai. Daqui não levaremos nada, apenas o bem ou o mal que tenhamos praticado.

Acredito que já vivemos muitas existências e viveremos muito mais outras. Elas agem em nós feito um processo lapidador, respeitando o livre-arbítrio. A multiplicidade das existências no corpo físico não constitui apenas uma afirmação evangélica, mas uma verdade científica e filosófica, explicada pela Lei do Progresso, claramente estampada nas diferenças sociais, nas doenças congênitas, além de muitos acontecimentos atribuídos a fatalidades. E isso é necessário para que o espírito evolua, tendo por mestres a dor e as muitas experiências que, com certeza, o qualificará para o exercício do amor a si e ao seu próximo. Por isso este é um mundo de provações, próprio para o resgate de erros do passado. Ninguém reencarna sem uma cruz para carregar. É o que se chama de carma que pode ser de ordem física, moral ou financeira.

Com esse entendimento e partindo do princípio de que o Pai é justo, a aceitação do carma reverte-se em escadas para subirmos cada vez mais alto. Assim, aceitar a reencarnação significou aceitar a mim mesma. Significou a dura tentativa de relacionamento pacífico com o meu corpo paralítico.

(Após tudo isso, aprendi tanto! E eis-me aqui, forte e firme, alegre e bonita! Minha cadeira apenas me enfeita a silhueta, dando-me a oportunidade de servir mais, amar mais e seguir contente. Meu trabalho torna-me um ser humano INTEIRO.)

sábado, 22 de janeiro de 2011

CÚMPLICES


CÚMPLICES
(Genaura Tormin)

Sócios somos
A cada amanhecer,
A cada noite que se finda,
Adormecida no emaranhado
De nossas alegrias
Pela jornada da vida.

Nem sei quantas luas se passaram,
Nem por quantos verões
Dividimos o mesmo leito.
Mas posso dizer que o coração
Ainda se encanta no peito.

Deciframos os hieróglifos,
Os teoremas,
Estampados em cada sorriso,
Em cada olhar.
Fabricamos o nosso jeito de amar.
Somos cúmplices!
A interação dispensa o linguajar.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

ETA TORCEDOR APAIXONADO


ETA TORCEDOR APAIXONADO!
(Genaura Tormin)

O futebol é, praticamente, o maior lazer dos homens. E de muitas mulheres também, ora! A paridade caminha a passos largos. A mulher está mostrando a cara, demonstrando a que veio. Já há times exclusivamente composto por mulheres. O futebol ganhou o mundo, encantando sempre e propiciando progresso.

Há os aficionados ao timão, bem pronunciado, com palavras de paixão. Muitos se deslocam de longe para assistirem ao seu time jogar. Vale qualquer sacrifício e dinheiro.

E, para incrementar o assunto, vai aí um causo que vale a pena, pela obstinação desse torcedor.

O seu time estava escalado. A expectativa e a adrenalina corriam soltas. Jamais poderia faltar a esse confronto. Nem pensar nisso! Acontece que, como a vida não avisa, o torcedor de quem estamos falando encontrava-se colostomizado. Acabara de sair do hospital. Uma dessas cirurgias em que o “foronfonfon” precisa ser preservado para garantir o sucesso de uma intervenção de retirada de parte do intestino. Assim o excremento passou a ser coletado por meio de um bem feito orifício na barriga, que possibilita o escoamento desse produto numa bolsa transparente. O “foronfofon” fica de férias, sabe? Uma trapaça do destino. Quem sabe um teste para ver se o cabra é macho mesmo! Aguenta o baralhado.

Mas o rapaz, sob nenhuma justificativa, abdicava de ir ao Estádio. O que fazer? O jeito era acompanhá-lo. Não se podia prevê o futuro. Esse, a Deus pertence. Remorsos não se coleciona, pois mais vale um gosto do que um caminhão de abóboras, diz o ditado popular.

Tudo preparado, após muitas recomendações e aparatos de proteção. Na verdade as advertências eram principalmente quanto ao vexame que poderia estar exposto.
E lá se foi o moço, devidamente escoltado. Uma comitiva de solidariedade. Paramentado a caráter, com a camisa do Verdão da Serra, o boné, o radio... O entusiasmo era visível no rosto magro, ossudo e pálido, fruto da recente cirurgia, numa estada de alguns dias num recinto hospitalar. Além disso mais outros apetrechos juntavam-se à sua indumentária. Uma bolsa preta, onde se escondia a colostomia, ou seja, a bolsa de merda. Do outro lado, mais outra bolsa preta camuflava o coletor que recebia sangue rejeitado pelo organismo, por meio de um dreno, procedimentos inerentes ao sucesso do tratamento.

Já no Estádio, sentou-se na arquibancada, sob os holofotes que lhe permitiam uma visão privilegiada. Ufa! O coração não se continha, na certeza de que seu timão ia fazer bonito e botar o adversário debaixo do braço.

A hora chegara. A bola deslizou faceira pelo gramado. A princípio meio tímida. Já não era a jabulani, pois estava em terras brasilianas. O Estádio estava ouriçado. Muita expectativa. A gritaria era geral. Avante, vamos lá! De vez quando se ouvia alguns palavrões em coro.

O Verdão era o favorito e a torcida acompanhava atenta. Jogo duro, diziam todos. Dois grandes adversários bons de bola e a decisão do campeonato.

Todos atentos ao espetáculo, eletrizados pela emoção numa torcida equilibrada. O primeiro tempo caminhava para o final, apenas com jogadas a quase gol, impedimentos, bola na trave, tiro de meta, escanteios e, algumas mancadas, o que é natural. Finalmente, esvaíra-se o tempo e o placar bem iluminado registrara 0 x 0!

O nosso torcedor aproveitara o intervalo para comentar ensimesmado cada lance do primeiro tempo, totalmente esquecido das bolsas que acompanhavam à sua vestimenta. Inconformado, ele gritava: não fizemos gol por que o juiz é ladrão! Ladrão! Sentado atrás, um adversário interrompeu: _ dá sossego corretor! Essa você não leva!

Talvez o apelido fosse por causa das duas bolsas pretas a tiracolo. O certo é que o nosso torcedor era agora o CORRETOR, mas poderia ser ENSACADOR. Esse apelido também faria um bom sentido. O certo é que ele estava ali, esperando a vitória do seu Verdão.

O cronômetro anunciara o início do segundo tempo. Ufa!!
_ Temos que levar! Vamos Verdão, gritara o CORRETOR, erguendo-se da arquibancada.
A emoção tomava conta do Estádio e o primeiro gol, para surpresa do CORRETOR, fora do adversário.

Nesse clima, o gramado entendia os chutes. Acirrava-se a disputa e a ansidade também. A adrenalina e o otimismo evidenciavam-se nos gritos e no suor excessivo dos rostos eletrizados. Enfim, foi marcado um sofrido gol do Verdão. A torcida não deixou por menos, hasteando sua bandeira rumo ao céu. O nosso personagem era só alegria e apostava na virada.

Já nos descontos da fase final do jogo, a “redondinha” invadira o gol, passando sobre a cabeça do goleiro, que não a conseguira driblar. Gooooool! A plateia ecoou em gritos. O Verdão ganhou! O placar anunciou o fim o jogo. 2 x 1 para o Verdão! Eta timão porreta!

O torcedor, protagonista deste conto, de um salto subira na arquibancada, numa posição de herói. A alegria escapava-lhe pelos poros. Os olhos brilhavam e os gestos acompanhavam a sua satisfação.

_ Eu sabia, eu sabia! _ gritava ele! Confio no meu time!
Nem parecia um paciente colostomzado. Esquecera-se disso. Suspendera as bolsas, acima da cabeça, que abruptamente se desconectaram dos orifícios. E aí....

Meu Deus! Fora uma chuva de merda e de sangue! O fedor exalava, misturando-se ao suor.
Alheio a tudo, ele continuava empunhando as bolsas, agitando-as como se fossem bandeiras hasteadas. As reclamações misturavam-se aos gritos de vitória.

_ Merda pura! _ gritaram alguns.

_ Para vocês respeitarem a supremacia do Verdão, retrucara o corretor, voltando-se para trás, só se dando conta quando levou umas bofetadas.

De lá saíra graças à proteção dos companheiros e, ainda sob a guarda policial que se fizera presente no local. Protegido, fora direto para o hospital a fim de refazer as conecções das bolsas e alguns outros reparos. Embora haja provocado uma chuva de merda, o torcedor era só FELICIDADE! O seu timão ganhara e isso lhe bastava.

Goiânia, 17 de janeiro de 2011

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

À ESPERA DE UM HOMEM BONITO


À ESPERA DE UM HOMEM BONITO
(Genaura Tormin)

(Este é um capítulo do meu livro PÁSSARO SEM ASAS. Um brinde aos meus leitores, o que faço com muito prazer.)

Os filhos sempre os melhores possíveis. Alfredo, no seu cargo de supervisor da Delegacia Geral, tinha que dar plantões noturnos periódicos. Nessas noites, Fernando assumia o lugar do pai: dormia comigo. A qualquer impasse, estava aquele “homenzinho” debulhado em préstimos a assessorar-me, sempre com o sorriso estampado no rosto e o linguajar afetivo. Por vezes, quando o acordava para fazer-me algum favor, ainda de olhinhos fechados, deixava o sorriso responder. Como posso esquecer? Foram esses pequenos gestos de amor que me impulsionaram a galgar espaços, conquistar divisas. Eu tinha que devolver alguma coisa. Quando a gente ganha um beijo, geralmente quer devolver dois, não é assim?

O carrinho proporcionava-me liberdade. Deslocava-me sozinha ao trabalho, às compras, às visitas. Isso me devolvia a sensação de normalidade. Satisfazia o meu ego.
Uma cadeira de rodas no porta-malas do carro, outra no local de trabalho e a última na garagem da casa facilitavam a tão desejada independência.

A primeira vez que fui visitar papai, no Estado de Minas Gerais, ele assustou-se ao me ver à direção do carro e exclamou, antes que eu descesse:
— Graças a Deus! Filha, eu sabia que você ia andar! Deus é grande e você não merecia ficar paraplégica! Que surpresa agradável você me fez! Estou passando mal... O coração bate descompassado!

Acho que papai, em sua desinformação, não sabia da existência de carro adaptado para paraplégicos. Pena que a surpresa era, justamente, o carro e eu à sua direção. Depois de tomar um pouco d’água açucarada, papai ficou menos ofegante quando lhe pude falar, ainda, de dentro do veículo:
— Não, papai, ainda não estou andando. Mas estou bem. Não se anda somente com as pernas. Viu como posso correr, ao volante do carro, com as mãos? Vencer toda essa distância para vê-lo? Mais importante do que andar é aceitar-se, viver todos os momentos com intensidade, superar os obstáculos e deles fazer degraus para novas investidas. O que me aconteceu não foi em vão. Observou como me tornei guerreira? Tudo tem uma razão de ser. Há sempre uma lição a ser aprendida, um crescimento a ser galgado. Deus é justo e tudo converge para o nosso bem, o senhor não acha? Estou construindo o caminho para o meu futuro, e isso significa muito para mim. Quem sabe, ainda poderei deixar meus rastros pela estrada?

Sempre que vou às compras no centro da cidade, fico à espera de um homem bonito, bem vestido, e, se possível, ensimesmado e arrogante, quando lhe dirijo a palavra:
— Por gentileza, meu senhor! Eu não ando e gostaria que me tirasse a cadeira de rodas do porta-malas do carro. Vou fazer compras na loja em frente.
Geralmente, ninguém se tem furtado ao meu apelo. Tento cumprir o figurino da primeira impressão, do materialismo; do que vulgarmente chamamos de invólucro, casca: cabelos bem dispostos em madeixas sinuosas; maquiagem bem feita; sorriso até os cantos das orelhas e alguns adereços que dão realce à arte-final.

Após me prestar a ajuda, o homem bonito, ensimesmado, geralmente não se contém e, com certeza, pergunta sempre:
— Foi acidente? Como pode uma mulher tão bonita numa cadeira de rodas?
— Não! Não foi acidente. Demos uma festa em casa, aniversário dos filhos, e no dia seguinte acordei paraplégica. Sem dor, sem febre, sem nada. Isso me leva a crer que não estamos neste mundo por acaso. A alma transcende ao Criador. Ninguém se responsabilizará por nossas culpas. Se não as pagarmos numa só vida, viremos noutra para resgatar a dívida. Hoje não tenho dúvidas disso. Acho que precisamos, com urgência, repensar nossos atos; norteá-los de amor ao próximo, vendo-o como importância maior, pois, ao partirmos deste mundo, não levaremos bens materiais, posições, títulos, mas simplesmente o bem ou o mal que tenhamos praticado aqui. Assim, quando temos que resgatar alguma dívida basta uma desculpa e eis a fatalidade! Comigo nem desculpa. A fatalidade veio numa noite de festa — costumo explicar.

Não posso perder a oportunidade de fazer alguma coisa. Quase sempre o homem bonito despoja-se do seu pedestal e auxilia-me até o meu itinerário, tratando-me com lhaneza.
Fica sempre o sentimento de haver plantado uma fagulha de ensinamento, de relações humanas, de prática logoterápica.

Certa vez, depois de uma palestra em comemoração ao Dia da Mulher, uma senhora dirigiu-me a palavra:
— Queria muito conhecê-la! A senhora mudou a vida do meu cunhado. Ele a encontrou fazendo compras e até ajudou tirar a sua cadeira de rodas do carro. Ele sofreu uma metamorfose com o que a senhora lhe dissera. Era mesmo um “cavalo” em casa e na firma. Está outro — concluiu.

Ao parar à porta da delegacia, dava dois toques na buzina convencionados como código, para que um policial conduzisse minha cadeira até a porta do carro, o que era feito com muita presteza. Sozinha fazia a transferência para ela, fechava a porta, colocava a bolsa sobre os joelhos e vencia a distância até o meu gabinete, passando pela sala de espera.

Numa segunda-feira, aconteceu-me algo inusitado.
Um senhor claro, robusto, com fisionomia que me lembrara o papai, encontrava-se triste, encostado à parede, na entrada da delegacia. Passando, dirigi-lhe um “bom-dia”. Senti vontade de atendê-lo em primeiro lugar, pela lembrança que me causara e por seu estado depressivo. Rodei a cadeira para trás e interpelei-o:
— O senhor vai tratar aqui, na Delegacia de Menores?
— Vou sim — respondeu.
— E qual é o seu problema? — voltei a perguntar.
Olhando-me de cima para baixo, como se estivesse a radiografar-me, o senhor trocou a morbidez por uma fisionomia austera. Comprimiu a testa, expeliu dois muxoxos e, como eu ainda esperasse, respondeu em tom agressivo:
— O meu assunto diz respeito somente à minha pessoa e ao Delegado de Menores. Não costumo contar os meus problemas para estranhos, ainda mais para uma aleijada.
— Tudo bem! — respondi e saí. Certamente, acordara com o pé esquerdo ou era a oportunidade para mais um trabalho na “seara”.

Menos de uma hora, aquele senhor estava à minha frente.
— Bom-dia! — dissera ele.
— Bom-dia! Em que lhe posso ser útil?
— Posso me sentar?
— À vontade.
— Tenho um filho menor de idade que é toxicômano. Foi preso nesse fim de semana. Já fiz tudo para tirá-lo desse vício, mas não adiantou. Viciou-se aos 13 anos. Mudamos daqui para o interior, onde ficamos por três anos. Tem uma semana que retornamos. Tudo voltou: a droga e a prisão. Vou desistir — lamentara o senhor.
— Não! Os pais jamais podem desistir. Se os filhos não precisassem de pai e mãe, nasceriam feito batata no brejo. Igual à planta. A responsabilidade dos pais é bíblica. Vou ajudá-lo.

Mandei pesquisar o arquivo e eis que o menor contava com passagens por uso de substâncias tóxicas, e agora, cocaína.
— Quem sabe uma clínica para desintoxicar? O senhor arranjará a clínica. Para todos os efeitos, ele estará sendo internado pela delegacia. Mandarei levá-lo. Ele não ficará sabendo nem que o senhor esteve aqui. Isso, para preservar o diálogo e o respeito entre vocês. Depois, em sã consciência poderá aceitar outros tratamentos.
Seu filho nunca deixou de usar tóxico. Como é o seu relacionamento com ele? O senhor sabe quem são os seus amigos? O senhor se preocupa se ele dorme ou não em casa? Já pensou em dar-lhe uma atividade responsável, mesmo em seu ramo de negócios, para que ele se sinta valorizado, produtivo? Ser pai é espinhoso! Será que o senhor tem sido um bom pai? Quase sempre o menor quer revelar insatisfação, uma carência, procedendo dessa maneira no mundo das drogas.

Vida é saber se relacionar; é tratar bem, dialogar, ajudar, dar um sorriso, uma palavra de apoio, uma batidinha no ombro, um gesto de solidariedade, um bom-dia agradável... A propósito, ainda há pouco, uma paraplégica, uma aleijada mesmo, como o senhor disse, dirigiu-lhe a palavra, espargiu-lhe um sorriso, tacitamente lhe oferecendo ajuda. E qual foi a troca? Meu amigo, a mente continua a mesma, o coração muito maior. Continuo sendo gente do mesmo jeito. Com uma diferença: aprendi a discernir o bem e o mal. O sofrimento aparou-me as arestas. Ensinou-me a ver o ser humano pela essência, pela alma que não se encerra nessa caminhada.
Não continuei porque o austero homem chorava. Levantara-se, dera-me um beijo na testa, talvez o primeiro tão humilde e espontâneo de toda a sua vida. À tarde, telefonara-me passando o nome da clínica. Não fiquei sabendo de mais notícias porque o menor não mais retornara à delegacia.

O sofrimento é um excelente buril para lapidar o diamante bruto que há em cada um de nós. É o instrumento que o faz brilhar e encantar e nos encantar também. É amando a nós mesmos que nos abrimos para a vida; que sentimos a beleza de amar e nos deixar amar. É com o sofrimento que, realmente, tomamos consciência do que somos e do que ainda poderemos aprender e ser, usando o otimismo por escudo quando a dificuldade bater. Admiti-lo não significa derrotismo, mas um caminho para chegar à sabedoria, que nos eleva a um estado de autoconhecimento, de paz interior. É nesse estágio que afloram as descobertas, sempre alicerçadas pela coragem.

Muitos outros fatos similares ocorrem sempre, aumentando o meu desejo de trabalhar. É verdade que o trabalho da pessoa com deficiência física, aos olhos do leigo, parece sacrificado. Mas sacrifício maior é anulá-la como força produtiva, relegando-a ao ostracismo, numa aposentadoria humilhante, além de diminuir-lhe a qualidade de vida e acrescentar os problemas sociais.

Não devemos ver os obstáculos pela ótica negativa, mas pela gratificação de abrir caminhos, criar mentalidade, contribuindo para novos tempos.
Por outro lado, não devemos permitir que os sentimentos de compaixão ou repulsa releguem-nos à inutilidade numa ociosidade crônica. Com tenacidade mostraremos o valor do nosso trabalho e as discriminações só persistirão se nós as aceitarmos, fazendo-nos de vítimas, apresentando indolência, insegurança, subserviência, buscando protecionismo sob o álibi da deficiência física.

Sartre dizia que “o importante não é o que fizeram do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele”. Assim, precisamos entender a mensagem, arregaçar as mangas e erigir uma obra de arte sobre as limitações físicas que a vida nos legou, tornando-as objeto de nosso desafio.
Quero dizer que em paraplegia, e nas deficiências em geral, adaptar-se é irreversível. A coragem e a autoestima são ferramentas imprescindíveis para a conquista de qualidade de vida.

É oportuno desbravar de dentro para fora. A maior batalha é enfrentada com nós mesmos. Caso contrário corremos o risco de nos transformar em “cadáveres vivos”. O tratamento físico deve ser aliado ao psíquico, pois entre doença e doente há uma distância muito grande. Uma mente sadia e bem direcionada é a solução. O otimismo deve ser a bandeira desfraldada a cada dificuldade.

O iogue contemporâneo Paramahansa Yogananda, referindo-se aos revezes da jornada, afirmara: “Nada vos virá que não hajas merecido agora ou logrado com anterioridade”. E eu acredito nisso. Não há fardo pesado para ombros fracos. Sempre há a equivalência. O coração e a intuição são os nossos mestres! É a voz de Deus dentro da gente. Devemos segui-la sem medo de errar, desde que os feitos se enquadrem nos parâmetros da dignidade e da justiça.

“As reencarnações são os degraus pelos quais o ser se eleva e progride”. Por isso a existência é feita de momentos ruins e bons, tristes e alegres, e, muito mais de renhidas batalhas. Tudo impulsionado pela infalível Lei de Causa e Efeito e do livre-arbítrio que se equilibram no transcurso de sinuosas veredas que, por vezes, parecem-nos fatalidades. É a hora da responsabilidade! Somos herdeiros de nossos erros e acertos, embora a infra-estrutura da alma seja intocável. Por isso é preciso ultrapassar as formas físicas e vislumbrar a essência, empunhando a deficiência com honradez, encontrando, por meio dela, as escadas de ascensão à nossa conduta moral, além do exercício da humildade, do amor e do perdão.

Às vezes, as provas, as agruras e a limitações físicas, quando bem entendidas, podem reverter-se em privilégio. A meta tem de ser alcançada. O alvo é o sucesso com a conquista de nós mesmos, aproveitando as pedras do caminho para a construção de nossa própria escada. É bom pensar que a queda pode também nos arremessar ao alto. Todos nós carregamos as cicatrizes do nosso “ontem”, e elas não nos impedirão de sorrir. Dependendo da disposição mental, tudo se transforma. O que ontem foi tempestade, hoje pode ser bonança.
Se eu não fosse paraplégica não estaria aqui, passando-lhes minhas experiências. Não teria escrito Pássaro Sem Asas, que alcança um próximo um pouquinho mais longe. E por isso pesa-me também a responsabilidade.

Precisamos lutar pelo reconhecimento da igualdade jurídica e pelo direito ao trabalho, máxima maior estampada na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Apesar de integrar uma minoria, geralmente relegada à exclusão e exposta a concepções desprezivas, a pessoa com deficiência, devidamente inserida num local de trabalho sem barreiras que lhe impeçam o caminhar, produz, cria e se evidencia em competência, auxiliada pelo desafio.

Conheço paraplégicos que se destacam como empresários, farmacêuticos, veterinários, arquitetos, dentistas, altos servidores públicos, professores universitários, causídicos renomados, deputados, vereadores, juízes, ministros, e até Ministro-Presidente. Há médicos paraplégicos que nada deixam a desejar dentro de suas especialidades. Tenho um colega Delegado de Polícia, com total deficiência visual, que dá a volta por cima, desempenhando um excelente trabalho. Ainda, muitos escritores, como Wiliam César Alves Machado - doutor em enfermagem - que tem empunhado sua bandeira em defesa da pessoa com deficiência, lançando livros e artigos sobre essa temática, apontando caminhos e dirimindo dúvidas.

Há pouco, conheci uma moça com Osteogênese Imperfecta, com uma estatura similar a de uma criança de quatro anos, que, não obstante as muitas dificuldades, próprias do arraigado preconceito e da desinformação da sociedade e das autoridades constituídas, é farmacêutica e professora universitária. É um referencial que alenta, concitando-nos a uma escalada, cada vez maior, na busca dos nossos espaços, por que não dizer, dos nossos direitos como cidadãos e herdeiros deste País.
É dever de o Estado cuidar da habilitação e reabilitação da pessoa com deficiência, integrando-a no mercado de trabalho, além de se preocupar com o atendimento especializado nas áreas da educação e da formação profissional, pois, muitas vezes, para a pessoa com deficiência, o trabalho pode ter fins terapêuticos, melhorando sensivelmente sua saúde física e mental, aumentando-lhe a autoestima, respeitando, assim, a sua dignidade de ser humano como um dos fundamentos da nossa Carta Magna.

Doença não combina com felicidade. Quem está feliz não adoece. Está provado que as pessoas otimistas têm sistema imunológico mais resistente. A essência do bem é a grande controladora da vida. É oportuno que corramos atrás do estado de felicidade. Ele não é uma dádiva. É, principalmente, uma conquista e o desbravamento é de dentro para fora. Tudo está dentro de nós em estado letárgico. Aflorar esses estados é uma questão de sabedoria. Exige coragem e determinação. Ocupar a mente, trabalhar, doar-se, reconhecer os próprios potencias, enfim, gostar-se é a melhor receita.

É preciso que sejamos artistas na reconstrução de uma vida melhor. Quem sabe, reinventar a vida seja a solução?

domingo, 9 de janeiro de 2011

LEGADO


LEGADO
(Genaura Tormin)

Não vou esquecer
O frio da linguagem,
O rosto da imagem,
A lâmina que mata.

Aceitarei tudo,
Concreto ou abstrato,
Com o mesmo canto,
A mesma gargalhada
Que me fazem forte,
Capaz de cantar a morte
E repuxar-lhe a boca de palhaço.

Com sangue,
Deixarei gravadas,
A dor e a ternura,
Marcos indeléveis
Dessa caminhada.

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)


"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)