PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O AMOR ARQUEJA NO TEMPO


O AMOR ARQUEJA NO TEMPO
(Genaura Tormin)

A inteireza da felicidade,
Essa pulsão incontrolável,
Consome-me aos poucos.
Envolta em mistérios,
Quero um amor romântico,
Mesclado de paixão,
No enlevo de saudades.

A transcendência
Ficou no passado.
O pranto, o encontro,
Em bites mascarados,
Não têm o mesmo encanto.

Os elos se partiram.
Não há ancoradouro,
Apenas uma amplidão a ermo...
Perdeu-se a unidade
Em aventuras passageiras.
Em cacos,
O amor arqueja
Na enfermidade do tempo.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

NEGRINHO METIDO



NEGRINHO METIDO
(Genaura Tormin)

Esse negrinho é danado,
Maluco e mal educado,
Fica só se balançando
Nessa gangorra furada.
Só faz embromação,
Estou ficando irritada.

Eu daqui fico pensando
Como se foram os anos,
Como tudo evoluiu
Pra comunicar-se na mão,
Numa caixinha comprida,
Com o nome celular
Que canta, joga e fala.

Esse pretinho era importante,
Uma riqueza na casa,
Quem o tinha era banqueiro,
Com importância na praça.

E agora esse velhinho,
Preto e bem assanhado,
Exibe-se no meu PC
Pra relembrar o passado.

Faltou-lhe os brancos cabelos,
Pois o corpo está arqueado,
Nunca carcaça bem feia,
Que toma muito espaço.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

RELEMBRAR É VIVER



RELEMBRAR É VIVER
(Genaura Tormin)

A fazenda era cortada por um brejo.
Lá a vegetação nativa era mais verde e mais viçosa.
As palmeiras de buriti, guariroba e macaúba
Desfraldavam-se feito bandeiras hasteadas
Sob a paz de um céu de anil.

Eram os espigões do santuário ecológico,
Adornado pela presença e aroma dos brancos lírios,
Das vertentes d’água cristalina
Que murmuravam na dança das cascatas.

Ali, a natureza debulhava-se em sacrários.
A cada passo, o descortinar de novo palco a céu aberto.
As garças brancas, em acrobacias teatrais,
Sobrevoavam a morada.
O rouxinol fazia a orquestração.

Até o joão-de-barro podia ser visto
No seu árduo trabalho de fabricar a casa:
O ninho trançado com esmero,
Em perfeito artesanato.

Os últimos raios de sol,
Filtrados pela folhagem dos coqueirais,
Permeavam os pequenos alcatifados de flores,
Emprestando ao lugar uma santidade maior.

Assim, guardo,
Como marco de ternura indelével,
Os dias que lá se foram do meu tempo de criança.
Lembranças de minha vida,
Vida de tantas lembranças!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

HONRADEZ


RUI BARBOSA!!

Ah, se pelo menos 1/10 de nosso povo se espelhasse em sua honradez, tomasse-o por mestre! Um pequeno/grande homem! O águia de Haia!

O seu idealismo, a sua filosofia de vida e seriedade encontram-se nos seus livros, discursos e feitos, como legado ao povo brasileiro.

Ponho-me a pensar ao reler o seu desabafo:

"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto." Rui Barbosa.

sábado, 19 de junho de 2010

MENTE E CORAÇÃO ENERGICAMENTE ANDANTES


MENTE E CORAÇÃO ENERGICAMENTE ANDANTES
(Genaura Tormin)

"A diferença fundamental entre o homem comum e o guerreiro, é que o guerreiro encara tudo como desafio, enquanto o homem comum encara tudo como bênção ou maldição."
(Carlos Catañeda)

Ter uma paraplegia representa uma significativa limitação. Isso não é uma sentença que nos condena ao ostracismo, ao desalento e ao pessimismo, registrando como primeira opção a nossa condição física, com passos recolhidos, como desculpa para avocar a compaixão alheia. Ostentar a bandeira de nossa determinação e procurar alternativas, outras maneiras, outras portas para continuarmos a ser produtivas e felizes é a melhor opção.

A mente ilesa cria inúmeras soluções. Há motivos suficientes para continuar dirigindo o destino, mesmo que por meio de um corpo com funções mutiladas. A limitação não diminui direitos diante da sociedade, que só tem a ganhar, aprendendo a dividir espaço e se permitindo lidar com a diversidade humana. É o exercício da inclusão.

A obstinação e a ousadia vão quebrando barreiras e vencendo obstáculos, conquistando aceitação, respeito e reconhecimento.

Hoje é crescente a disposição legal que nos permite participação na sociedade e no mercado de trabalho. Temos que fazer a nossa parte, vestir a camisa e seguir firmes e resolutas, na certeza de vencer. Se não houvesse o desafio, os circenses não ganhavam a vida em grandes acrobacias. A conquista significa o mérito que laureia o nosso esforço. Tem-se um limão, que tal uma boa limonada?

É preciso ultrapassar as formas físicas e vislumbrar a essência. É preciso empunhar a deficiência com honradez, encontrando, por meio dela, as escadas de ascensão à nossa conduta moral, ao entendimento e à aceitação dessa nova condição. A limitação física significa simplesmente fechamento de uma porta e abertura de um portão, com mais disposição, mais aprendizado e mais consciência, legando exemplo para outras que virão.

Muitas vezes, as provas, as agruras e a limitações físicas, quando bem entendidas, podem reverter-se em privilégio. O alvo é o sucesso, e as pedras do caminho são as ferramentas para alcançá-lo.

Precisamos desenvolver a autoestima, perseguir ambições e habilidades no exercício de nossa crescente capacidade. As pessoas tristes, fatalistas, choronas e reclamadeiras são, geralmente, evitadas. A vida é dura demais para macularmos aos outros com o nosso pessimismo. O fardo só cai em ombros que possam carregá-lo.

Bandeira do Otimismo
(Genaura Tormin)

Não deixem que calem
O amor que me alenta,
A dor que me faz viva,
A ternura do meu peito
E todo este jeito
Que a vida me deu.

Não deixem
Que o meu canto morra,
Que feneça o meu sorriso
E parta de mim
O compromisso
Desta bandeira de otimismo,
Deste meu desejo de querer viver.

As pernas são acessórios e ganham a valoração que a elas impingimos. Costumo dizer que a tecnologia nos oferece, com galhardia, muitas muletas externas.
Todos nós carregamos as cicatrizes do nosso “ontem”, e elas não nos impedirão de sorrir. Tudo se transforma. O que ontem foi tempestade, hoje pode ser bonança.Temos que acreditar!

O pensamento move a vida! Se pensarmos em medo, em doenças, em problemas, tudo isso se instala, causando verdadeiras tormentas. Ademais, as dificuldades só se tornam problemas quando as registramos como tais. É a maneira de ver as coisas.
Somos individualidades, mas poderemos fazer a diferença! O poema abaixo retrata isso.

Dois pobres encarcerados,
Das mesmas penas culpados,
Jaziam na mesma cela.
À claridade da lua,
Chegam ambos à janela.
Um, vê a luz das estrelas,
O outro a lama das ruas.
(Autor desconhecido)

“Viver é muito perigoso” para qualquer pessoa, disse Guimarães Rosa. E viver com uma deficiência física, mais ainda. Por isso, forjadas a ferro e fogo sempre teremos condições de nos erguer quando a dificuldade bater. Não podemos ser excluídos do direito de participar, pois VIDA, não significa somente pernas, ou pernas e braços, mas, sobretudo cabeça, raciocínio, espírito e coração. Enfim, pulsa em nós o fôlego da vida!

Vítimas de problemas congênitos, enfermidades ou causas traumatológicas, o Brasil conta com 24,5 milhões de pessoas com alguma deficiência, de acordo com o último censo elaborado pelo IBGE, no ano de 2000. Isso significa 14,5% de todo o seu contingente. Sabe-se que no mundo inteiro esse montante chega a mais ou menos 625 milhões de pessoas.

Ter um defeito físico, andar numa cadeira de rodas, geralmente significa, aos olhos do leigo, ser inválido, estar cerceada do sagrado direito de se sustentar com o fruto do próprio trabalho. Chamamos a isso de rotulagem despreziva. É um vezo cultural.

Muitos exemplos de determinação e coragem foram legados pela história.
Graças a Deus, não estamos vivendo nos dias do médico alemão Josef Mengele, o “Anjo da Morte”, que sob o comando de Adolf Hitler exterminava as pessoas com corpos imperfeitos, tentando estabelecer a pureza da raça ariana. Era a teoria em que as vidas humanas sem valor vital deveriam ser eliminadas.

Quantos gênios existiram e existem em corpos imperfeitos! O inglês Stephen Hawking, com esclerose lateral amiotrófica, que lhe paralisou os movimentos, emudeceu-lhe as cordas vocais, é um testemunho perfeito, pois, mesmo assim, continua produtivo e é considerado o mais brilhante físico teórico desde Albert Einstein. O príncipe Hamlet, na peça de Shakespeare, sentia-se aprisionado na Dinamarca pelas angústias que lhe atormentavam. Mas, ao mesmo tempo, dizia que ainda que dentro de uma casca de noz poderia sentir-se rei do espaço infinito. Creio que, para Hawking, ocorre a mesma coisa. Para o cientista, o universo tem a sua história em tempo imaginário como esfera minúscula.

Exemplo digno de nota é o de Beethoven, o maior gênio da música clássica de todos os tempos, que mesmo depois de ficar surdo em plena atividade musical, continuou compondo, produzindo sua obra mais importante: A nona sinfonia. “O que está em meu coração precisa sair à superfície. Por isso preciso compor” — dizia ele.

Outro exemplo, aqui bem perto de nós, é o de Cláudio Drewes Siqueira, que ficou tetraplégico por causa de um mergulho em águas rasas, quando era adolescente, e mesmo assim, por méritos próprios, mediante acirrados concursos públicos, ascendeu aos cargos de Procurador do Estado de Goiás e em seguida ao de Procurador da República, um dos mais elevados cargos da República Federativa do Brasil. Por meio de uma adaptação presa a um capacete, o competente Procurador folheia livros e processos, além de digitar suas próprias peças, elogiadas pelo excelente conteúdo jurídico. É um exemplo e a certeza de que o querer é poder. É preciso somente que os sonhos estejam acesos.

Quando uma parte do corpo se fragiliza, as outras se encarregam do trabalho, provando que não há problema sem solução.
Foi por isso que, mesmo sendo recém-chegada ao mundo dos que não caminhavam com os pés, quis conquistar uma vaga de Delegado de Polícia. Ainda poderia caminhar com a mente, leve, livre e solta!

A força não provém da capacidade física e sim de uma vontade indomável, disse Mahatma Gandhi. Vontade era o que não me faltava. Dei asas à imaginação e o meu desejo tomou formas, cores e vida.

O ambiente desafiador é o sucesso do guerreiro, a arma de sua luta, o front de sua trincheira. E eu estava e estou sempre disposta a posicionar-me à frente do batalhão, mantendo acesos os meus sonhos.

A vida a gente faz. Na verdade, é o que fazemos dela. Viver bem ou mal é o que decidimos por princípio, por altruísmo de caráter. Somos individualidades. O que me faz sorrir, às vezes, não faz sorrir ao vizinho. O importante não é o que nos é mostrado, mas como conseguimos enxergá-lo. Os casebres tornam-se castelos e os castelos podem se tornar casebres.

Somos nós que elegemos os valores da vida, desenvolvendo qualidades como o carinho, a bondade e a compaixão, embora sejamos os mais necessitados delas. Com isso se evidencia o significado do nosso esforço.

A felicidade é o estado d’alma, é a maneira pela qual vemos as coisas; é o prisma encaixado em nossas retinas; é a margem de paralax de uma máquina fotográfica. Se a máquina é minha, por ela vou focalizar apenas o que me fizer bem: a transcendência, a paz, a esperança...

Quantas pessoas vislumbram a lua, o sol da manhã, os refegos de ventania, a flor orvalhada, por meio da telha quebrada ou da parede erigida em pau a pique. Tudo é uma questão de ótica. Tenho que ser do tamanho do que consigo enxergar. Dessa forma, com certeza, vou chegar lá, pois tenho os olhos fitos no infinito e o espírito no comando do sucesso. Minha busca não terminará jamais, mesmo que morra na estrada.
Estar feliz não significa percorrer caminhos floridos, estar imune às tempestades... Estar feliz é enfrentar os desafios para torna-se forte, digno de excursionar por este Planeta.

Tinha que recompor o avesso do meu bordado. Tinha que andar nem que fosse sem o uso das pernas. Andar em ideias, em trabalho, em exemplo de vida!

Nos meandros de mim mesma, pensava: e se eu ficar paraplégica para o resto da vida? Receberei mísera pensão por invalidez, que mal dará para comprar remédios. E a inércia, o não fazer nada, a ociosidade... NÃO! Não aceito essa sentença. Vou lutar por mim mesma! Tenho mente sã e posso ser uma delegada! É um cargo de comando, cartorário. Poderei servir de exemplo a outras pessoas com deficiência física. Poderei abrir caminhos. Não vou permitir que a vida me transforme num cadáver vivo! Tenho muito ainda a fazer! Tenho flechas na aljava e mantimento para o caminho.
Tendo o desafio como âncora a me alavancar, comecei a velejar por esse mar bravio da coragem.

Por ser Comissária de Polícia, bacharela em Direito, pertencer aos quadros da Polícia Civil há dezesseis anos, resolvi enfileirar-me entre os concorrentes ao cargo de Delegado de Polícia. Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder. Era a oportunidade que me batia à porta. Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica! Registrei a ideia e parti para o confronto. Talvez o mais ousado de toda a minha vida. Era tudo ou NADA!

“Se teu sonho for maior que ti, alonga tuas asas, esgarça teus medos, amplia teu mundo, e parte em busca da estrela.” (Leda Selma)

Não dera outra: quarto lugar entre os aprovados. Não sabia como adquirira tanta determinação, tanta bravura. Estava pasmada. Reputava de façanha o que acabava de fazer. Ajudara muito o fato de, anteriormente, estar inscrita e estudando para o concurso ao cargo de Defensor Público, embora as matérias não fossem tão correlatas. Com certeza, era uma preparação remota para alicerçar o meu desejo de vencer diante de uma deficiência física tão grande.

Quantas madrugadas ouvindo aulas através de fones de ouvido, quantas lágrimas reprimidas, disfarçadas... Por dentro tudo chorava, mas me encorajava ao desafio, confirmando que a mente pode superar os limites físicos. Eu não ia deixar que os sonhos morressem dentro de mim. Ainda que recuperasse todos os movimentos locomotores, jamais esqueceria dessa façanha. Mereceria todos os diplomas possíveis. Quanta dificuldade tive que enfrentar!

A polícia entrara na minha vida como meio, como ponte para que eu pudesse escalar novos horizontes. Jamais pensei que ela se tornasse fim um dia. As contingências da vida indicaram o caminho. Hoje sou uma Delegada de Polícia e me honro disso. Acredito no trabalho e gosto do que faço.

É uma missão espinhosa, mas farto campo para se fazer uma boa ação. Devemos servir onde precisam de nós. Quanto mais difícil a tarefa, maior satisfação do dever cumprido. Ser delegado é também fazer sacerdócio. É amar o ser humano no sentido total da palavra. É saber admoestá-lo na hora certa ou acalentá-lo nos momentos mais difíceis.

De repente, o mestre tempo, em sua celeridade, alertara-me de que dentro de um ano teria que me aposentar, por tempo de serviço. Quase trinta anos trabalhados! Quem diria! Parece-me que fora ontem: uma mocinha franzina, 18 anos, com mais jeito de menina do que de mulher, deixava um colégio de freiras e o primeiro emprego que conseguira foi na Polícia. Quanto contraste!

Preocupada, vi-me em perfeita forma. Cabeça boa e pernas descansadas, além de pouca idade, pois a vida não começa aos 40? Como seria a vida sem a rotina do trabalho?

“A vida tem dois valores absolutos,
O amor que renova a humanidade,
E o trabalho que dignifica o homem
E impulsiona o progresso.
Do mais - consequências, correlações”.
(Cora Coralina)

A preocupação levara-me a requerer uma licença-prêmio a que fazia jus, e incentivada pela filha Lara Patrícia, que me inscrevera num concurso público, em Brasília, passei a estudar a matéria. De repente, estava fazendo cursinhos, estudando em grupo e me inscrevendo para mais outros concursos.

Fiz uma reciclagem jurídica e consegui assimilar bastante do ensinado. Usei o método do gravador, determinação, persistência, força de vontade e muita disciplina, tão importantes para o sucesso na consecução de qualquer objetivo.

Quando retornei ao trabalho, simultaneamente executava as minhas atividades, ouvindo, por meio de minúsculo fone de ouvido, a aula gravada, cujo gravador era guardado na gaveta central da mesa. Como a repetição faz o mestre, estava sempre a aprender. Quando procedia a inquirições para o bojo dos autos do inquérito policial, apenas desligava o gravador, sem, entretanto tirar os fones dos ouvidos, os quais ficavam escondidos sob as fartas madeixas dos cabelos. Quando a minha escrivã percebeu que eu estava ouvindo aulas, havia-se passado quatro meses.

No retorno a casa, já que necessito ficar deitada para descansar, pois a pessoa paraplégica fica de pé na horizontal, ligava a televisão sem som (para permanecer desperta), e, novamente repunha os fones nos ouvidos para ratificar a aula que assistira pela manhã. Se na madrugada perdia o sono, aproveitava o tempo para ouvir as aulas. Por vezes, o Alfredo, meu marido, na escuridão da noite, emaranhava-se nos fios dos fones de ouvido. Coragem era o que não me faltava, além de uma confiança inabalável na capacidade do meu esforço.

Finalmente, fui aprovada em dois concursos e com boa classificação. Embora fossem em Brasília, aceitei.

Apresentei-me no Ministério Público da União, em cujo concurso havia-me classificado em quarto lugar. Infelizmente não pude ficar lá. A pessoa que me recebera, certamente, nunca tivera contato com trabalhadores deficientes e principalmente com cadeirantes. Senti, perfeitamente, que não seria bem recebida ali. Foram-me apontados vários obstáculos, principalmente a falta de adaptação que me dificultaria as condições de trabalho. Nenhum incentivo, registrando-se a sensação de que “havia lutado tanto e morreria na praia”. Acho que faltara um sentimento de empatia. A cadeira de rodas era a responsável, pois eu tentava me mostrar cordata e afável, além de estampar um sorriso grande.

Restava-me, ainda, outra opção: o Tribunal de Justiça do Distrito Federal, onde, também, havia sido aprovada em concurso. Dessa vez, em quinto lugar para o cargo de Analista Judiciário, área judiciária. Sem delongas, dirigi-me até lá.
Numa das avenidas de Brasília, encontrava-se o bonito prédio do Tribunal. Viera-me à mente, a figura da deusa Themis — símbolo da Justiça. Um calafrio tomara-me o corpo e a voz estrangulara-se em mim. Um gosto de sentença, decisão, isonomia, divisor de águas, grassava meu interior. Imbuí-me de coragem, ergui a cabeça, temperei a garganta, conferi a voz e segui resoluta, com a certeza de que não me deixaria vencer. A Constituição Federal resguardava-me direitos, e era fulcrada nela que me defenderia se fosse preciso.

Tomei posse numa cerimônia simples, mas com a certeza de que mais uma vez daria a volta por cima e o trabalho acrescentaria mais entusiasmo à minha razão de viver. Enfrentei muitos sacrifícios em ter que sair de Goiânia. A saudade de casa era muita, mas precisava ficar ou trocar o cargo por uma ociosidade que, certamente, conduzir-me-ia à inutilidade e à depressão, quem sabe?

Finalmente fui cedida ao Tribunal Regional do Trabalho de Goiânia, o qual se adaptou para me receber. A recepção foi carinhosa. Parecia uma compensação pelas dificuldades a que me propusera desafiar.

Acredito que a maior limitação é aquela que criamos por afirmações psíquicas. Muitas vezes, damos contornos catastróficos a problemas tão pequenos e tão fáceis de serem resolvidos. Os problemas têm também o seu lado positivo: conduzem-nos à busca de soluções, emprestando-nos crescimentos extraordinários. Neles está sempre presente a semente da oportunidade a serviço de nossa própria evolução. Eles nos levam aos desafios, ressaltando o mérito que conquista a alma, devolvendo-nos a felicidade que é a provedora da qualidade de vida.

Assim, a cada dificuldade vencida, tenho a sensação de que valho mais, sirvo mais e vou me amando mais. Não sei, exatamente, se minha cadeira de rodas constitui problema ou dádiva. Sei apenas que começo a devotar-lhe gratidão. É por meio dela que ando, lido, participo da vida lá fora e nivelo-me aos demais.

Mente e Coração energicamente andantes
(Genaura Tormin)

Quero curtir minha imobilidade,
Mobilizando corações,
Marcando passadas
Em cada gesto,
Em cada grão de areia,
Carreando-os para o infinito.

Quero sentir
O gosto de ter pernas.
Acariciá-las,
Com o tato dos dedos,
Mobilizando todas as moléculas.

Quero sentir-me dançando
Ao som de Beethoven ou Bach,
Transando a paz de minha paraplegia
Ao compasso do coração
E à sincronia do cérebro.

Quero andar,
Mais do que todas as pessoas,
Embora saiba que,
Se externamente,
Não marco o chão
Com minhas pegadas,
Meu espírito se alicerça
Em pernas fortes,
Com mente e coração,
Energicamente andantes.

Mais do que nunca, sinto-me senhora do meu pleno equilíbrio. “Sou como a rocha nua e crua onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo. Posso cair. Caio. Mas caio de pé por cima dos meus escombros”.

Hoje, reputo-me uma pessoa completa, com uma deficiência física que me faz melhor. Por isso eu agradeço às dificuldades que me fazem forte, aos amores que me tornam terna, e aos desafios que me fazem guerreira de minha própria batalha.

sábado, 12 de junho de 2010

MULHER PARAPLÉGICA


MULHER PARAPLÉGICA
(Genaura Tormin

"O importante não é o que fizeram do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele".
(Jean Paul Sartre)

O designativo PESSOA PORTADORA DE DEFICIÊNCIA, largamente usado até os anos 90, o qual se encontra também nos artigos da Constituição Federal de 1988, foi substituído por PESSOA COM DEFICIÊNCIA, abrangendo as deficiências física, mental, auditiva e visual.

A legislação tem ratificado essa terminologia, bem como o Decreto n. 6.949, de 25 de agosto de 2009 que promulgou a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, assinados em Nova York, em 30 de março de 2007. Há um consenso mundial sobre a aceitação desse designativo. Na verdade, portar significa uma situação voluntária, como portar um objeto, uma carteira, por exemplo. Nesse caso, poderíamos dispensar a nossa deficiência?

MULHER PARAPLÉGICA – geralmente é aquela que num dia qualquer da vida perde o direito de caminhar com os próprios pés, tornando-se paraplégica. E tem que o fazer com a mente, deambulando por meio das rodas inanimadas de uma cadeira de rodas. Entretanto há as pioneiras que, por motivos diversos, já nascem com deficiências. A elas, rendo homenagens, chamo-as de mestres e curvo-me com respeito.

As fatalidades não avisam nem escolhem status, raça, cor, hora, sexo ou credo. E num passo de mágica, eis a paraplegia! Os sonhos esfacelam-se às conjecturas do nada.
Mesmo assim, a ordem é correr atrás da vida! Aprender outra maneira de viver.

Recriar-se! Ir à luta para não ficar à mercê do coitadismo, vendo a vida passar. Realmente, uma grande empreitada. Um desafio que nos fará subir ao pódio, sagrando-nos campeãs do torneio de nós mesmas.

Mudam-se parâmetros, paradigmas, mas não muda a garra nata da mulher que, por excelência, traz no sangue a gênese do esforço para se superar, vencer obstáculos e dificuldades.

Necessário e urgente se faz dar uma faxina na caixinha dos pensamentos, reorganizando ícones, criando possibilidades, redimensionando valores. A meta é reinventar a vida, num projeto arrojado e corajoso, sem deixar espaços para os males psicossomáticos. Revisá-lo, como se revisa um texto, corrigindo diálogos, substituindo parágrafos inteiros.

Nessa lapidação, o amor deve ganhar maiores proporções, bem como a responsabilidade, a compreensão e, sobretudo, a aceitação e a paciência. Entretanto, cortam-se alguns zeros metafóricos de um caso-verdade que nunca poderá ser apagado ou destruído da história de uma existência. Mesmo revisto, retocado, sua essência permanecerá indelével na alma. Uma saudade.
Agora tudo terá que ter um único comando: CORAGEM!


ARQUITETA DE MIM
(Genaura Tormin)

Vou reinventar a vida!
Fazer consertos,
Aplicar remendos.

Prenhe estou de disfarces
E esgueira-me pelo corpo
A plangência do tempo,
Restos de batalhas
Que se reiniciam sempre.

A incoerência dos retalhos
Fragmentam-se pelos dias.
Recolho os estilhaços.
Sou enigma no existir!
Fabrico fantasias e metáforas.

Por vezes a paraplegia é abrupta. De repente a fatalidade e em seguida o quadrilátero de um quarto de hospital. Passamos a abrigar novos vocábulos no nosso dicionário: esfíncter, cateterismo, sonda... Muitas seringas, comprimidos, raios-X, dietas, ultrassonografias, ressonâncias magnéticas e toda uma parafernália antes conhecida só de longe. Cirurgias, imobilidade e leito o tempo todo, tudo respaldado por enorme vontade de viver.

Na fase hospitalar, o tratamento medicamentoso ou cirúrgico tem de ser coadjuvado com a mente bem direcionada, sem nos esquecer de que, acima de tudo, somos energia e a altivez da postura mental é muito importante. A coragem ganha força hercúlea e o barco tem que seguir enfrentando borrascas, ribanceiras e tempestades. É uma tarefa exclusivamente de quem ganha uma paraplegia. Outras pessoas não a farão por nós! Temos que abraçar a causa.

É questão de sobrevivência, ou excelência de vida. Elevamo-nos à altura do que nos propusermos. Não somos as primeiras e nem seremos as últimas mulheres a experimentar tais condições que, embora doloridas, podem também nos arremessar a um final feliz.

Esse novo modelo não está em tratados alopáticos, nem é imposto. Temos que ser o nosso professor! O aprendizado é compulsório. Nele, não há portas que não se abram. Nem mesmo a Lei é um bloco estanque. Basta bater que brechas aparecerão. É aí que fincaremos os nossos comandos, elaborando uma sentença de sucesso.

Eu sou paraplégica e posso contar.
Meu nome é Genaura Tormin. Estou paraplégica há 28 anos.
Agora eu não pulo corda, não ando de bicicleta... Estava nos píncaros do sucesso e inexoravelmente fui atirada ao caos. Recebi uma dura sentença por crime que não cometi nesta vida. Mataram minhas pernas em mim.

De repente uma marcante mudança! Mesmo assim, ainda corro atrás da vida. Esforço-me para ser a campeã dos meus aprendizados. O meu coração é vivo e o sorriso aflora sempre até os cantos das orelhas. Eu estou viva!

Numa manhã de março acordei paraplégica, vítima de uma virose ou de um erro médico. Lembro-me de que as limitações eram estarrecedoras, mas eu as enfrentava como as enfrento até hoje, procurando driblar o impossível, para conseguir independência, pelo menos comigo.

Eu ficava hora montando estratégias, analisando circunstâncias para realizar os intentos. Eu queria desenvolver uma autoconfiança que me conduzisse à ousadia mental de perseguir novos objetivos, construindo caminhos para o meu novo mundo. Afinal, dizia Einstein: “A mente que se abre a uma nova ideia, jamais voltará ao seu tamanho original”.

Eu tinha medo da solidão, medo da convivência comigo mesma. Na verdade, o medo era o de que os pensamentos de conquista fossem subjugados. A vida estava sendo muito complicada, muito difícil! Afrontava-me sem tréguas, estampada na imobilidade e na disfunção fisiológica do meu corpo, além de uma eterna e apavoradora dormência.

Sempre que abriam o guarda-roupa à minha frente, os sapatos e as sandálias de salto alto agrediam-me sem compaixão. Expulsei-os de lá. Doei-os, seguindo o ditado popular: “O que os olhos não veem, o coração não sente”.

Tinha que respeitar a minha individualidade e olhar para frente e para o alto. Não podia viver de passado, embora a saudade de mim, por vezes, lavasse as minhas faces em lágrimas doloridas. A gente não esquece o que viveu apenas aprende a separar as coisas e encaixá-las em prismas diferentes. Isso é sabedoria.

E a vida à frente! Um turbilhão de dificuldades nunca imaginadas. Uma jovem mulher reduzida à cabeça, seios e braços. O resto, morbidamente alheio ao meu comando: dormente, como se não fosse meu.

Os meus passos foram banidos. Perdi o meu ir e vir cheio de graça, de trejeitos, de muitos encantos. Poderia ter sido uma bailarina na vida, mas tive a vida para bailar, gingar até encontrar os meus próprios caminhos, lapidar os meus cantos, aparar as arestas.

A minha vida sofria grande transformação. E eu tinha urgência de que essa metamorfose não se resvalasse para o negativismo. Pertinácia e otimismo seriam as minhas armas. Revesti-os de poderes mágicos. Fiz dessa hora um marco divisor de águas.

Lógico que envidei muitos esforços para reverter o descalabro da situação. Sou guerreira de muitas batalhas para não ser escória de uma sociedade que, geralmente, só aceita os fortes, perfeitos e vencedores, alienando a pessoa com deficiência, sem entender que ela também é forte e vencedora de si mesma, compulsoriamente. É um resquício da cultura legada pelo modelo filantrópico.

Precisava retomar o meu lugar de esposa e mãe no meu lar. Na época meus quatro filhos, ainda pequenos, precisavam muito de mim. Ainda não tinham asas para alçar voos sozinhos. Isso me impulsionou a entender que precisava seguir a caminhada, mesmo sem marcar passadas no chão.

Consciente de que seria irreversivelmente uma paraplégica, preparei-me e classifiquei-me muito bem para o cargo de Delegado de Polícia de Goiás. Exerci-o com presteza, durante 13 anos, ocasião em que, também por concurso público, ingressei no Judiciário Federal, atuando por alguns anos na Diretoria de Recursos Judiciais do Tribunal Regional do Trabalho Goiás, onde fui, também, subdiretora. Hoje, trabalho na Secretaria de Coordenação Judiciária do mesmo Regional.

Quem falou que a pessoa com deficiência física não pode trabalhar? Ando de cadeira de rodas e trabalho. Conquistei até o título de “Servidor-padrão”.

Deficiência não é uma opção pessoal. É uma parte natural da experiência humana. Mesmo que nos empreste um visual diferente e algumas dificuldades locomotoras, a mente sã cria soluções para tudo. O trabalho devolve-nos sempre o sentimento de utilidade e supera a defasagem do caminhar.

Há preconceito? Há! Ele existe e não será banido tão cedo, não só em relação às pessoas com deficiência, mas em relação aos grupos vulneráveis. Isso é cultural. Vem de longas datas. Na Grécia antiga, as crianças que nasciam com deficiência eram tidas como seres sem alma, abandonadas para morrer. Os cristãos achavam que era um castigo de Deus.

Ainda hoje a cadeira rodas passa uma ideia de mendicância. Há sempre sentimento de piedade, de medo, e quase nunca o de respeito. Se a pessoa for do sexo feminino, principalmente, presume-se logo que jamais encontrará companheiro. Se a sequela for recente, fatalmente será abandonada por ele. É como se, de repente, o ser humano se transformasse num objeto sem valor.

Mas isso a gente vai tirando de letra, mostrando o outro lado. O importante é: “Levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima!”

Baseada no desafio integro-me bem aos grupos de trabalho. Insisto por tratamento igualitário, mesmo por que, esculpida nas dificuldades, tenho por lema a coragem e o desejo de vencer. Jamais me subjugo às subserviências em busca de protecionismo, benesse, sob o álibi da deficiência. Preocupo-me em mostrar competência, conquistando respeito pelos meus próprios méritos.

Sinto-me adaptada à vida! Sei que ela se adaptou a mim também. De minha catarse, sou mestra. Tenho uma família que me ama e não me castra as oportunidades. Pelo contrário, ela é um nascedouro de forças e incentivos. Isso me é de importância vital e respalda o segredo do sucesso que tenho conquistado.

Sou escritora. Escrevi PÁSSARO SEM ASAS, um livro autobiográfico, corajoso, em que me desnudo, viro-me do avesso e conto ao leitor toda a minha trajetória depois dessa nova condição de ‘rodante’: avanços, derrotas, conquistas, aprendizados, até as verdades mais reclusas na cela do peito.

Relato tudo, não como uma história que haja acontecido no estrangeiro, num lugar distante, mas um fato verdadeiro, acontecido aqui mesmo, entre nós, cuja protagonista, apesar de não ter tido um final como nos contos de fadas, faz-se feliz, viva e atuante.

Mais três livros foram também editados. Apenas uma flor, Nesgas de saudade e Borboleteando. Neles eu enveredo pelos veios da poesia para acalentar instantes e fabricar fantasias.

A vida se exibe à minha frente! Ainda acontece inteira no meu coração. Eu cumpro e assumo o direito de ser MULHER em toda a sua plenitude.

Continuo perseguidora de sonhos. Acredito no amanhecer, no poder recomeçar a cada dia. Sou a síntese dos meus desejos, compilação de inércias estáticas. Encanto-me com a vida, com os amores, com o belo, com a arte de fazer versos. Acho prazeroso brincar com as palavras. Por meio delas exponho-me por inteira. Desnudo-me! Mostro a alma, o coração e a poesia que há em mim.

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)


"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)