PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

UMA PALAVRA DIFERENTE


UMA PALAVRA DIFERENTE
(Genaura Tormin)

Senhoras e Senhores,

Meus cumprimentos a cada um de vocês e que a paz esteja entre entre nós.
Vestida numa rota farda de carne, à vista de todos vocês, cumpro com alegria a minha jornada nesta existência e me esforço para fazê-la com paciência e muita coragem. Acho que os meus ombros podem carregar o mundo.

Fazendo minhas as palavras de um poeta desconhecido, costumo dizer:

"Pedi a Deus para ser forte,
A fim de executar projetos grandiosos.
E ele me fez fraca para conservar-me humilde.

Pedi a Deus que me desse saúde
Para realizar grandes empreendimentos.
E ele me deu doença para compreendê-lo melhor.
Pedi a Deus riquezas para tudo possuir.
E ele me deixou pobre para não ser egoísta.

Pedi a Deus o poder para que os homens precisassem de mim.
E ele me deu a humildade para que eu precisasse dele.
Pedi a Deus tudo para gozar a vida.
E ele me deixou a vida para que eu pudesse gozar de tudo.
Não recebi nada do que pedi.
Mas recebi tudo que precisava.

E quase contra a minha vontade,
As preces que não fiz foram ouvidas.
Entre todos os homens,
Ninguém tem mais do que eu!"


Falarei-lhes hoje dessa minha diferenciada trajetória, com certeza requerida por mim mesma na tentativa de evoluir o meu espírito, na expiação dos meus deslises enquanto caminheira dessa estrada e de outras, quem sabe.

Para mim é muito fácil e prazeroso assumir todas as idades, todos os papéis. Mas, este de paraplégica, não estava no meu projeto. Veio de presente. Apesar de estranho, estou tentando sair-me bem.

Agora, não pulo corda, não ando de bicicleta... Recebi uma dura sentença por crime que não cometi nesta vida. Mataram minhas pernas em mim. Poderia tê-las usado muito mais vezes! Poderia ter andado descalça, feito grandes caminhadas, pisado na grama, na areia, no barro... Poderia ter evitado veículos... Enfim, poderia ter usado muito mais o meu caminhar faceiro, dançarino, rebolante.

Mesmo assim, ainda corro atrás da vida para que ela não corra atrás de mim. Corro atrás de minha evolução como caminhante dessa íngreme estrada. E na minha fantasia, sou a campeã dos meus aprendizados. Se minhas pernas fisicamente estão mortas ou incapacitadas, o meu coração é vivo, o meu desejo latente e o sorriso aflora sempre até os cantos das orelhas. Eu estou viva!!!

Com isso, eu quero demonstrar que a vida é efêmera, finita, e as fatalidades não avisam. Não escolhem status, raça, cor, sexo ou credo. Por isso, devemos estar sempre atentos, pois não estamos aqui por acaso. Preocupando-nos em bem servir, que é um dos grandes enunciados, não devemos deixar para amanhã o que podemos fazer hoje. Devemos viver todos os momentos como se fosse o último, tentando ser feliz e fazer felizes as pessoas que nos cercam.

Às vezes, quando estamos nos píncaros do sucesso, somos atirados inexoravelmente ao caos. É chegada a hora do resgate do carma. É chegada a hora de entendermos a Lei da Justiça Divina, dando-nos a oportunidade da repararmos os nossos erros passados. É aí que devemos enfrentar o desafio do processo reencarnatório com dignidade e resignação. É preciso que saibamos que é a hora de acender a luz interior e tentar espargi-la para que sirva de alento, pelo menos ao próximo mais próximo.
Foi o que aconteceu comigo!

Após uma festa em minha casa, quando me sentia de bem com mundo e com a vida, dormi sã e acordei paraplégica, vítima de uma virose que me meou o corpo, sem nem sequer alertar-me com uma subida de temperatura. Na realidade, um turbilhão de dificuldades nunca imaginadas. Uma jovem mulher reduzida a cabeça, seios e braços. O resto, morbidamente alheio ao meu comando: dormente como se não fosse meu.

Não obstante haja envidado muitos esforços para reverter o descalabro da situação, eis-me, após todos esses anos, irreversivelmente paraplégica. Com uma vida de muitas batalhas para não ser escória de uma sociedade que, geralmente, só aceita os fortes, perfeitos e vencedores.

Guimarães Rosa dizia que viver é muito perigoso. Por isso, devemos ser forjados a ferro e fogo para termos condições de nos erguer quando a dificuldade bater. Afinal, a mente estando sã, há motivos suficientes para dirigirmos ainda o nosso destino, mesmo através de um corpo com funções mutiladas.

Não podemos ser excluídos do sistema socioeconômico e político do País, pois, VIDA, não significa somente pernas, mas, sobretudo cabeça, mente, raciocínio, espírito e coração. O resto, dá-se um jeito.

Entretanto, tenho consciência de que o corpo físico nada mais é do que uma farda de carne que envergamos para cumprir o nosso desiderato neste planeta. Por isso, a vida é uma curta viagem em que não se pode perder tempo. Até dos dissabores devemos tirar proveito.

Após a morte, fim do nosso corpo físico, gostaria de que os meus órgãos fossem utilizados para fazer pulsar um coração cansado; dar luz a olhos que nunca enxergaram; audição a quem nunca pôde ouvir uma música, o zumbido das abelhas, uma declaração de amor...

Queria que até as mínimas partículas servissem de material didático aos futuros profissionais da saúde. E o resto, quando nada mais tivesse serventia, deixado num lugar tranquilo, sob a terra pura, sem concreto, porque assim ainda serviria de adubo para florescer um gerânio vermelho, símbolo de minha luta pela vida.

Acredito num Deus perfeito do qual somos a criação. O espírito não desce à sepultura, transcende à Casa do Pai. Daqui não levaremos nada, apenas o bem ou o mal que tenhamos praticado. O que temos de bens materiais, é apenas um empréstimo e aqui ficará quando partirmos. Acredito que já vivemos muitas vidas e viveremos muito mais outras. Elas agem em nós feito um processo lapidador, respeitando o livre arbítrio.
Ninguém reencarna sem uma cruz para carregar. É o que se chama de carma, que pode ser de ordem física, moral ou financeira.

Com esse entendimento e partindo do princípio de que o PAI é JUSTO, a aceitação do carma reverte-se em escadas para subirmos cada vez mais alto.
Assim, aceitar a reencarnação significou aceitar a mim mesma. Significou a dura tentativa de relacionamento pacífico com o meu corpo paralítico.

Paraplegia não é problema apenas de quem a tem, mas um problema de contexto, pelo menos familiar, já que em nível de Estado, há muito a desejar.

A família deve vestir a camisa, inserir-se no esquema e, dentro da responsabilidade/amor, propiciar à pessoa com deficiência espaço arquitetônico viável e adaptações domésticas para que ela descubra seu novo mundo ou sua nova liberdade.

Esse amor de que falo, não deve ser entendido como excesso de paternalismo que tanto mal nos faz, impedindo-nos de alçar voos às conquistas, mas, sobretudo, deve ser o amor/respeito que não nos destitui da condição de ser humano atuante e não nos rotula de inválidos, pois a verdadeira invalidez está na mente de quem não tem e não sabe transmitir otimismo e coragem.

Nós, pessoas com deficiência, não devemos permitir que os sentimentos de compaixão ou repulsa releguem-nos à inutilidade, conduzindo-nos à inércia. Com tenacidade mostraremos o valor do nosso trabalho e as discriminações só persistirão se nós as aceitarmos, fazendo-nos de vítimas da vida, apresentando indolência, insegurança, subserviência, buscando protecionismo sob o álibe da deficiência.

Aliás, as maiores limitações são as que criamos em termos de afirmações psíquicas. Quantas vezes damos contornos catastróficos a problemas tão pequenos e tão fáceis de serem resolvidos.

Quando temos alguma iniciação da Doutrina Espírita, com certeza, conseguimos ver os problemas de outra forma. Às vezes, tornam-se um privilégio. Se eu não fosse paraplégica, não estaria aqui passando este testemunho de vida. Não estaria passando a vocês uma consciência valorativa sobre as pessoas com deficiência. E ainda alicerçada sob a justeza da Lei da Reencanação, tudo fica mais fácil, entendível e aceitável, até para os que mantêm algum relacionamento conosco. Se não fosse paraplégica, não teria escrito o livro Pássaro sem asas, que alcança um próximo um pouquinho mais longe. E por isso, pesa-me também a responsabilidade.

Sinto-me, conotativamente falando, como um bovino que leva a marca do seu dono, por meio de ferro quente. Pertenço a alguém. Isso não é ótimo? E estou a resgatar alguma coisa que realmente fiz. Tive essa oportunidade. Estou numa redoma.

Hoje, sinto-me adaptada à vida! Sei que ela se adaptou a mim também. Entretanto, já entendo que a minha cadeira de rodas é uma dádiva. Devoto-lhe gratidão. É por meio dela que ando, lido, participo da vida lá fora e nivelo-me aos demais.

É, também, por meio dela que me permito lapidar o meu espírito rebelde, tentando fazer algum bem, passar algum alento de experiência, de trabalho, de coragem às pessoas com quem mantenho algum diálogo ou que leem o meu livro. Cada um tem sua frente de trabalho. Não é para isso que estamos neste trajeto, que chamamos de vida? Não poderemos partir de mãos vazias!

Para finalizar quero dizer que estou muito cativada pela presença de todos vocês, principalmente pelo carinho de dona Antonieta, pessoinha maravilhosa que me convidou para aqui falar. E a quem também peço desculpas por não ter o conhecimento espírita necessário e a erudição de seu translúcido e elevado espírito. Entretanto, espero que esses relatos possam emanar alguma fagulha de ensinamento que melhorem a afetividade, o respeito, a solidariedade com aqueles que, no resgate de seus erros, caminham sem pernas, ou de outras formas aparentemente dolorosas neste abençoado Planeta ainda de provas  e expiações.
Obrigada!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O IRMÃO INVISÍVEL DO RODRIGO


O IRMÃO INVISÍVEL DO RODRIGO
(Genaura Tormin)

Rodrigo é o meu primeiro neto. Hoje tem 15 anos. Sou suspeita para falar dele, pois o amo demais e sou sempre encantada com o seu carinho, a amabilidade e a inteligência. Está sempre disponível para ajudar. O sorriso estampa-lhe sempre os rosto.

Filho de minha filha, ele veio ao mundo ao romper da aurora, no último dia de maio. Chegou junto ao amanhecer, entre os raios de luz que envolviam a terra. Eu fui recebê-lo na maternidade. Vi quando a enfermeira passou da sala de cirurgia para o berçário, tendo nos braços aquela trouxinha de gente, envolta em panos. Pelo vidro, assisti ao seu primeiro banho, podendo perceber-lhe as formas, que guardavam uma semelhança com os pais. Mistura de genes. O milagre da vida! Enternecida, enviei ao Criador minha prece de agradecimento. Um serzinho novo para integrar a nossa família. Que missão teria? Um anjo guardião, um coadjuvante no caminho do bem, pensei.

E Rodrigo crescia feliz, sob o carinho de todos. Sempre que era possível, ficava em nossa companhia. Ouvia-se as suas passadinhas pela casa, acompanhadas de um chilreado, como se fosse de passarinhos. Era a linguagem de sua pouca idade. Como era gostoso escutar aquilo. As primeiras palavras, os dentinhos, o sorriso, o carinho sempre externado... Ah, como sinto saudades!

Lembro-me bem de que ele tinha uns três anos de idade quando, devidamente uniformizado, seguiu para Escola. Particularmente, fui vê-lo algumas vezes entre os colegas. Vejo sempre Deus nas crianças. Uma legião de anjos alegres e travessos.

Um dia, estando em nossa casa, Rodrigo encontrava-se tagarelando em nosso quarto, enchendo as nossas vidas de alegria, além do enorme prazer de sabê-lo neto, galho de minha árvore, verso de meu poema. O avô também estava ali. Nessa ocasião, fazendo gestos, Rodrigo disse:

_ Vovó, eu vou bater no Pedro Paulo! Vou mesmo! Ele é muito chato e me bate.
_ Não faça isso! Conte para a professora, que ela vai resolver, ouviu?
_ Não, vovó eu vou bater nele! E gesticulava, imitando os socos.
_ Aí, sabe o que vai acontecer? Ele vai bater em você, de novo, porque é maior do que você!
_ Vai nada! Eu vou chamar o meu irmão, quero ver! Meu irmão é grande, forte! (Ocasião em que levantou os braços para mensurar o tamanho do irmão).
_ Você não tem irmão, Rodrigo!
_ Tenho sim, vovó! Ele é grandão e até me deu a sua bola velha, que ele não queria mais!(Hoje, com tanta modernidade, os entretenimentos são outros: os jogos eletrônicos, os carrinhos motorizados... Uma bola velha seria mesmo uma coisa do passado. Pensei depois).
_ E como se chama o seu irmão?
Incontinente, ele me respondeu: _ Vovó, ele se chama RÔNCIO!

Nunca ouvira falar esse nome, nem conheci ninguém, sequer, com nome parecido. Não questionei mais, entretanto guardei o epsódio na lembrança.

Anos depois, quando estava lendo o livro: UM PILAR DE FERRO, de Taylor Caldwell, que narra a historia de Marco Túlio Cícero, senador e um dos maiores oradores de Roma, de repente deparei-me com um dramaturgo romano, personagem do livro, cujo nome era igual ao do irmão invisível do Rodrigo.

Novamente, voltando aos verdes anos do Rodrigo e à agradável e querida convivência conosco, recordo-me de que vez por outra, nos seus diálogos comigo, ele usava o vocábulo "Parmendes". Como o seu linguajar era ainda muito incompleto, dado a sua pouca idade, eu nunca questionei quem era ou o que era. Hoje, navegando pelo dicionário deparei-me com o nome : PARMÊNIDES. Filósofo grego, que viveu nos anos 530 a. C.

Sabe-se, que até os sete anos de idade, é comum a criança perceber a presença de seres de outra dimensão e conversar com eles, tendo-os por amigos, incluindo parentes, avós... Isso é muito natural para a criança. Essa fase é uma adaptação à sua nova reencarnação e as lembranças são muito fortes. Por isso o Rodrigo referia-se ao irmão com muita naturalidade e convicção. Os pais desinformados pensam que se trata de fantasia ou até de algum problema psicológico.

Naquela época, eu não tinha conhecimento sobre essas lembranças externadas nas crianças, limitando-me a contestar o que ele dizia. Poderia ter perguntado mais e aprendido tanto com o Rodrigo.

Hoje, digo apenas: A REENCARNAÇÃO É UMA VERDADE! E o véu do esquecimento sobre as existências passadas é uma benção, que nos permite aprender e evoluir sem entraves rumo à perfeição, a qual chegaremos um dia.

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)


"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)