PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.
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quinta-feira, 6 de março de 2014

FALANDO DE PÁSSAROS E DE GENTE

FALANDO DE PÁSSAROS E DE GENTE
(Ludovina Maria Braga)

Conheci a autora de Pássaro Sem Asas, Genaura Tormin, já em sua decantada cadeira de rodas. Ela trabalhava na Sexta Delegacia de Polícia de Goiânia. Eu ingressava na carreira, como Delegada de Polícia, após um longo concurso e um ano de preparação na Academia de Polícia Civil. Não vou falar desse coleguismo porque ela o faz em sua obra, contando as nossas trocas de experiências no campo da investigação policial e na missão de conciliar a profissão com as tarefas de mãe, esposa e dona de casa.

Muitas matérias foram publicadas sobre o seu livro, opiniões bonitas foram escritas a respieto, com elogios de gente que tem competência para falar do assunto. O que manifesto agora é como leitora, pra dizer da emoção que o livro transmite, do exemplo de vida claro e sem adereços, da linguagem viável, mas nem por isso menos rica de expressões. Recomendo, como professora de servidores públicos (policiais), a leitura desse livro, que passa lições de grande valia.

Lições de como enfrentar com dignidade a difícil tarefa de ser e fazer polícia. Mas antes de tudo, a obra orienta sobre como adquirir esperança e crer contra tudo e contra todas as adversidades. Mostra como acreditar em si mesmo quando essa crença não é sentida pela maioria das pessoas. Mostra como vencer com o próprio esforço, sem buscar escoras. A todos que dizem não posso, não vou conseguir... indico Pássaro Sem Asas, para que adquiram fé e acreditem, mesmo quando o mundo não lhes der crédito.

O ser humano é ilimitado na busca do aprendizado e da perfeição, mostra Genaura em seu livro que, não vale pelo título e nem é bom pela sua bela capa, mas tudo vale e tudo serve pela mensagem de coragem que leva ao leitor, descrevendo uma história verdadeira, da qual fui testemunha de alguns capítulos. Por isso mesmo, sem ter bagagem que me qualifique para opinar sobre literatura, atrevo-me a comentar com o único objetivo de dizer que valeu a pena.

Um dos melhores livros que li nos últimos tempos sobre pensamento positivo. O homem vale pela cabeça que tem. As pernas transformam-se em asas quando a mente é livre, sadia e independente, como a de Genaura. Não retrata um episódio vivido no Brasil e descrito como se tivesse ocorrido em terras européias, como muitos livros do gênero. É algo real, palpável, verdadeiro, acontecido bem perto de nós, enfocando o dia-a-dia repleto de egoísmos, medos, vaidade, frustrações, descrença e preconceitos de todos os níveis sociais.

Por isso o livro de Genaura Tormin é bom. Fala de pessoas reais, de gente que respira em nossa comunidade. Nele, a coincidência não é mera coincidência, pois a figura principal vive e não foi feliz para sempre como nos contos de fadas. Faz-se feliz, viva e atuante. Afinal, de uma pessoa valorosa só se poderia esperar alguma coisa de valor. Por isso, parabéns e pronto é pouco. Resta esperar que Genaura possa nos brindar com outros pássaros alados, valorizando aquilo que melhor exibe: coração e inteligência. Se lhe faltam pernas, conquistou um brevê para voar livre nos espaços da sabedoria. 

Ludovina Maria Braga é delegada de Polícia de carreira em Goiânia – 21.09.1991

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

UMA PALAVRA DE BOAS VINDAS AOS NOVOS SERVIDORES - TRT-GO




UMA PALAVRA DE BOAS VINDAS AOS NOVOS SERVIDORES
(Genaura Tormin) 

É com prazer que recebemos os novos colegas!
A Casa é nossa. 
Sintam-se à vontade!

Parabenizamo-lhes pelo sucesso na aprovação de tão acirrado concurso.
Realmente vocês foram os mais bem preparados e, com certeza, demonstrarão toda essa garra e competência no exercício dos afazeres judiciais.

O trabalho é o meio para nos realizarmos economicamente, socialmente e psicologicamente. Significa a dignidade da pessoa.
Por isso consta como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil.

Agora, como serventuários desta Justiça, devemos emprestar-lhe, além do nosso trabalho, a cordialidade, a lhaneza de trato, a presteza, a determinação, inovando sempre, para que a prestação jurisdicional seja mais rápida e a sua seriedade continue pautando o convívio social, resguardando-lhe a liberdade, a igualdade e a harmonia na preservação e garantia de direitos.

Para bem desempenharmos essas atividades, precisamos ter a consciência do nosso papel, das responsabilidades e gostarmos do que estivermos a fazer, lembrando-nos sempre de que outras pessoas esperam pela nossa interação de trabalho no final de um processo. Por isso, amem de todo o coração a causa que escolheram e persigam fazer sempre o melhor!

Trabalho é a palavra-chave e o tempo bendirá o fruto desse esforço.
Realmente, fomos criados para escrever a história, marcar o tempo e melhorar o porvir.
O nosso Tribunal é como se fosse uma grande máquina em que até as minúsculas peças são únicas e imprescindíveis para o bom desempenho de todo o aparato legal.

Essa é a tutela jurisdicional que o Estado tem o dever de prestar ao seu povo.
E como servidores desta Corte, temos a obrigação e a satisfação de impulsioná-la para frente e para o alto. Muitos de vocês serão lotados na Varas do Trabalho, razão desta justiça e verdadeira escola para a ascensão a superiores cargos.

Antes de trabalhadores, somos seres humanos com emoções, sensibilidades e fraquezas.
E aqui, procura-se lembrar disso.

A valorização do servidor, como pessoa, ganha destaque.
O coleguismo e o respeito pautam o nosso convívio, aumentando-nos a autoestima e a qualidade do servir.

A preocupação com a saúde física e psicológica dos servidores, por meio de um corpo especializado, composto pelos Setores de Assistência Médica, Odontológica e Psicológica, ajuda a fazer do TRT-GO uma grande família, agora aumentada e qualificada com novos e competentes membros.

Sejam muito bem-vindos!

Genaura Tormin
 Analista Judiciário – SCAD - TRT-GO


DISCURSO SOBRE O TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO GOIANO





TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 18a. REGIÃO
(Genaura Tormin)


Senhora Juíza-Presidente deste Tribunal Regional do Trabalho,
Senhor Deputado Federal Pedro Wilson,
Ilustres autoridades, aqui presentes,
Meus colegas serventuários da Casa,
Senhores e senhoras:

          Somos uma Nação organizada, tutelada! Todo poder emana do povo e em  seu nome será exercido, diz a nossa Lei Maior.

          Como princípios fundamentais encontram-se a cidadania, a dignidade da pessoa, os valores sociais do trabalho, entre outros.

          E o trabalho remonta aos tempos do homo sapiens, das cavernas, por estar ligado à sobrevivência. Com o passar dos séculos e com a evolução dos povos, naturalmente, necessário se fez a normatização das condutas, consuetudinária ou não, para garantir direitos às relações entre os indivíduos.

          E no século que ora se finda, mais precisamente, nos idos de 1934 a 1937,  no nosso torrão brasileiro, sob o domínio de um Presidente altruísta e determinado, o gaúcho Getúlio Vargas, homem de grande visão política das condições existenciais daquela época, nascia as Comissões Mistas de  Conciliação e Julgamento, embrião  que veio a se transformar na JUSTIÇA DO TRABALHO, braço do Poder Judiciário, vislumbrada na Constituição do Brasil, ainda getulina, de 1946, ano de minha estréia como ser vivente em terras nordestinas deste meu querido Brasil! Conotativamente, o meu desvelo pelo trabalho, pela satisfação de poder emprestar  minha participação, embora, agora,  numa cadeira de rodas.

          A Constituição de 1988, considerada a Constituição-Cidadã, que legou aos  brasileiros as mais amplas garantias individuais e sociais da história, não  pode ser modificada. E nela encontra-se a Justiça do Trabalho a partir dos artigos  111 até o 117.

          Mas agora, senhores, por meio da CPI do Judiciário (diga-se de passagem, considerada inconstitucional) e com fulcros em duas denúncias de irregularidades, já sub judice, dos TRTs de São Paulo e da Paraíba, querem destruir a Justiça do Trabalho. Os inocentes não podem pagar pelos pecadores. Alguns joios não podem macular a integridade de toda uma colheita que está sendo pródiga, próspera e benfazeja!

          Conhecedora da sua eficácia, por integrar-lhe os quadros há alguns anos e por me preocupar com o lado sociológico do nosso povo, posso afirmar sem medo de errar, que se trata da justiça mais acessível, mais célere e a mais democrática deste  país! Com certeza, tal intento  não chegará ao fim colimado! Não é possível  que o povo, de quem emana o poder, permita tal retrocesso!

           Reformar, sim! E dentro dos liames institucionais e processuais, para que melhor se ajuste aos referenciais de cidadania conquistados na Carta Magna. E depois, é bem verdade que o Brasil cresceu em tecnologia, principalmente na informática, industrialização, e agora com a globalização, aumentando as relações sociais e também as demandas que sobrecarregam o Judiciário.

          É preciso que continuemos a angariar divisas, e a Justiça do Trabalho é uma conquista.
          Especializada, como a de vários outros países do mundo, como a da Alemanha que se parece muito com a nossa, a da Inglaterra, a da Suécia, a da França, a da Bélgica e outras mais, tem que ser preservada, e por que não  aumentada a sua competência?

          Dados estatísticos apontam dois milhões de ações recebidas e decididas  por ano pela Justiça do Trabalho. É morosa, esta Justiça, senhores? Muito pelo contrário, é ágil, descomplicada, barata e voltada para o social, uma vez que o salário, as verbas rescisórias, objeto das litigâncias, têm, em regra,  natureza alimentar. É um direito diferenciado, especial. Por essa razão, a especialização da Justiça do Trabalho.  Por assim entenderem os constituintes, o contrato de trabalho foi o único contrato regulamentado pela Constituição Federal.    
     
          É preciso que fiquemos atentos, pois o retrocesso marginalizaria o país em detrimento de sua classe  produtora, principalmente daqueles que com o suor do rosto e com as mãos laboriosas sustentam a nossa economia, como a décima do planeta.

          Confiando no poder de luta, no poder de persuasão do povo brasileiro e dos parlamentares que os representam, finalizo conclamando: Que a Justiça do Trabalho continue viva, para o bem da Nação, do capital e do trabalhador!

Obrigada!

     (Proferido por Genaura Tormin  no auditório do Tribunal Pleno em 1999)


segunda-feira, 27 de setembro de 2010

MACABRA ARMA ASSASSINA




MACABRA ARMA ASSASSINA
(Genaura Tormin)

Não obstante as muitas campanhas educativas do trânsito, sinto-me compelida a emprestar minha cota-participação na busca de maior entendimento, maior conscientização sobre o trânsito, tanto dos condutores dessa arma assassina chamada veículo, quanto dos seus usuários e pedestres que por ela passam.

As estatísticas apontam crescente índice de atropelamentos, colisões, abalroamentos e choques com objetos fixos (árvore, postes etc) no trânsito das grandes cidades, resultando muitas vítimas fatais e ou de lesões corporais, até de natureza gravíssima, com sequelas irreversíveis.

A falta de respeito às normas de trânsito, distribuídas por todas as malhas viárias, é uma constante para a ocorrência dos muitos acidentes. Nem mesmo o slogan: “Perca um minuto na vida, mas não perca a vida num minuto” é capaz de levar ao grande contingente armado a consciência de que a sua arma (o carro) é por demais perigosa e sem complacência pode matá-lo.

Tendo trabalhado, em cadeira de rodas, numa delegacia que apura as responsabilidades penais no trânsito, representava um paradoxo para a maioria que perguntava sempre: — foi acidente?

Com essa experiência, tenho a dizer que o trânsito tanto mata como causa deficiências permanentes mais do que todos os revólveres dos bandidos, todas as doenças e calamidades públicas juntos. Atribuo como causa principal a falta de cultura popular sobre essa macabra arma assassina chamada veículo.

Se todos a entendessem como tal, acredito que o ser humano seria mais preservado em sua integridade física, evitando vidas de tantas batalhas sob o jugo de deficiências irreversíveis ou a dolorosa partida prematura de entes queridos, deixando outros à mercê da própria sorte, aumentando os problemas sociais.

O brasileiro, geralmente, quer auferir vantagem em tudo. É um marco do seu estilo de vida. Especificamente no trânsito, se não tem guarda, avança o sinal, entra na contramão, faz conversões proibidas, exercitando à vontade a imprudência, cujo ônus chega, por vezes, a ser pago com a própria vida e a de outrem. Daí a sábia frase: “É preciso dirigir para si e para os outros”. É a chamada direção defensiva, tecnicamente falando.

Estarrece-me ver e sentir que o crime do automóvel está sendo compartilhado de pai para filho menor de idade. Faltam consciência, valores éticos e probidade. Nem sequer as normas fundamentais de conduta axiológica estão sendo repassadas aos próprios filhos que, à direção do carro, brincam com vidas, sentimentos, vendo em cada pedestre uma baliza para o aprendizado; em cada veículo, um escudo para pancadas, deixando as marcas sangrentas pelas rodovias, ruas, vielas e praças, fulcrados sempre no desrespeito às normas de trânsito, placas, dísticos e semáforos. E, ainda, sob a guarda corajosa do pátrio poder. Os famigerados rachas, os cavalos-de-pau,largamente divulgado pela mídia, deveriam ser severamente apenados. Abomino tal conduta e a classifico de crime doloso: tentativa de homicídio. Risco assumido.

As leis existem para serem respeitadas. Somos uma Nação organizada, tutelada. Até as normas consuetudinárias dentro da relação familiar deveriam merecer respeito. Por isso os pais jamais podem abdicar da missão educadora, respaldando-se sempre no exemplo, com a execução e a mostra do certo, pois as palavras comovem e passam, enquanto os exemplos se arrastam, permanecem, erigindo ou destruindo.

Quantas vidas são ceifadas, e quantas outras são condenadas a verdadeiros martírios: vegetando, arrastando-se em cadeiras de rodas, muletas ou tateando em trevas pela perda traumatológica dos olhos em sinistros de trânsito. É um verdadeiro colapso na trajetória da vida humana.

Tudo isso é o retrato fiel da ineficácia educativa, legada por ação ou omissão nos lares, na comunidade e na esfera governamental, pois educar é transmitir o gosto pela vida; é tentar descobrir os valores positivos e exteriorizá-los para uma vida feliz.

Vivemos numa sociedade rica de meios, mas pobre de vida. É preciso doar-se! O homem moderno, nessa corrida pelo TER, não aprendeu a viver, a amar transcendentalmente pelo menos aos que o cercam. Ele não sabe viver a experiência de ser ferido. E é por isso que presenciamos uma avalanche de condutores loucos no trânsito a exigirem respeito às suas barbaridades e transgressões, blasfemando palavrões e fazendo gestos obscenos. Não devemos responder a tais impropérios. É bom que sejamos diferentes! Isso nos devolve o sentimento de dignidade, além de estarmos plantando uma fagulha de amor que, por certo, multiplicar-se-á.

Costumo dizer que “errados princípios, dificultosos fins”. Por isso ao possuidor da arma assassina tenho a dizer o seguinte: ame-se em primeiro lugar! Respeite a sua vida e a vida do seu próximo! Previna-se! Jamais dirija embriagado! Seja honesto consigo mesmo, respeitando a sinalização, as normas de trânsito, mesmo sem a presença do guarda. Cuide do seu carro, pois ele poderá ser a própria arma que matará você.

Genaura Tormin - escritora, autora dos livros Pássaro Sem Asas, Apenas Uma Flor, Nesgas de Saudade, Borboleteando, e ainda,  Marola, Veleiro e Vento,
é ex-delegada de Trânsito de Goiânia, hoje,
Analista Judiciário do TRT/GO

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

DELEGADA, MULHER E NUMA CADEIRA DE RODAS


DELEGADA, MULHER E NUMA CADEIRA DE RODAS
(Genaura Tormin)


Era comum alguém do povo exclamar:

— Vi a senhora na televisão, mas não sabia que era paraplégica. Que pena!
O cinegrafista não focalizava a cadeira de rodas durante as informações que, por vezes, tinha que prestar em frente das câmeras sobre trabalhos presididos por mim na delegacia. Talvez me quisesse demonstrar um gesto de carinho.

Certa vez, expliquei-lhe que a cadeira fazia parte de mim. Não podia locomover-me sem ela e não tinha o menor constrangimento. Afinal, era o meu jeito de andar.

— São as minhas pernas de aço, os meus nervos inquebrantáveis... Pode mostrá-los ao público. Não me menosprezará por isso.

A repórter que estava a ouvir as minhas explicações, para justificar diante das câmeras, revelou ao telespectador que eu era uma deficiente de cadeira de rodas, e, em seguida, dirigiu-me a palavra:

— Como a senhora pode exercer o cargo de Delegado de Polícia, numa cadeira de rodas?

Com o meu instinto poético e tentando ser abrangente na resposta, também, às muitas perguntas que me haviam sido feitas pela vida afora, expliquei:


Quero dizer a vocês,
que a mente não está nos pés,
e aqui, na minha cadeira,
trabalho por mais de dez.

Quem me conhece, já sabe
de minha capacidade,
não me curvo por besteira
e luto com hombridade.

Mato a cobra e mostro pau.
Medo, não tenho não.
Já mandei prender bandidos,
de estuprador a ladrão.

Lembro-me do grande Franklin,
dos Estados Unidos, presidente,
em tempos reacionários,
exemplo pra muita gente.

Por isso estou aqui,
em condição inusitada,
pois sei que neste Planeta,
não tem uma delegada

numa cadeira de rodas,
que seja capacitada,
faça inquéritos e flagrantes
numa Especializada.

Mente sã é corpo são,
por isso não tenho nada,
sinto-me com pernas fortes,
numa cadeira sentada.

Na rua dirijo carro,
faço compras e viajo,
trabalho, leciono e nado.
É só questão de estágio.

Para os que não me conhecem,
é essa a informação,
moradores da cidade
e outros que aqui estão.


Assim, matei a curiosidade do telespectador, mostrando-me por inteira, sem reticências.

Daí, foi nascendo em mim o desejo de abrir as portas ao público, não só no meu trabalho, mas na minha intimidade depois da paraplegia. Senti que o povo nada sabia sobre pessoas com deficiências, razão por que as julgava inválidas, como se a cabeça estivesse no dedão do pé, devotando-lhes, ainda, desairosa compaixão que tanto as prejudica.

Eu, também, quando andava, nada sabia sobre paraplégicos. Nunca parei para pensar. Eram coisas alheias ao meu convívio. Deixa pra lá! Estava muito ocupada com os problemas, os sucessos e enleios da vida. Não transava o assunto, assim como a maioria da nossa gente. Jamais imaginei que a sensibilidade tátil ia de embrulho por acréscimo.

Realmente, o pior só acontece aos outros, nunca à gente!
O desejo foi crescendo, crescendo, tomando formas, amadurecendo, e embora tivesse que desvestir a dor para erigir marcos benfazejos em defesa do porvir, resolvi escrever PÁSSARO SEM ASAS.

domingo, 25 de outubro de 2009

DISCURSO DE INAUGURAÇÃO DA 1ª DELEGACIA DA MULHER EM GOIÂNIA-GO


DISCURSO DE INAUGURAÇÃO DA 1ª DELEGACIA DA MULHER EM GOIÂNIA-GO
(Genaura Tormin)



Relembrar é viver!
Uma volta ao passado significa um filme a se rebobinar nos meandros de nós mesmos. Em folhas amareladas, encontrei esse discurso.
Tempos idos, lembranças guardadas nas celas da memória.

Dra. Ludovina e eu fomos designadas para a recém-criada DELEGACIA DA MULHER.

Coube-me fazer o discurso de inauguração.
Relendo-o, acho que continuo a mesma, com as mesmas convicções e valores.

Esse escrito antigo nada tem a acrescentar a vocês, mas, numa divisão de afeto, senti vontade de publicá-lo nesse recanto de paz, onde me sinto muito à vontade, muito feliz.

Não tenho palavras capazes de traduzir o grande carinho que sinto por vocês, queridos leitores, queridos colegas!


DISCURSO DE INAUGURAÇÃO DA 1ª DELEGACIA DA MULHER EM GOIÂNIA-GO-1985!!



Hoje é um dia diferente para nós! Um dia festivo em que se inaugura em nossa Capital a 2ª Delegacia da Mulher criada no Brasil!
Uma vitória para a mulher goiana!

É bem sabido que desde a década dos anos 60, a mulher passa por uma fase de transição, empenhada na conquista de seus espaços, abandonando o modelo de doméstica, objeto sexual, fardo nos ombros do marido, declinado pela sociologia antiga, para reconhecer o seu próprio valor, ingressando, paralelamente ao homem na vida empresarial e pública, revelando-se de grande valia, sem prejuízo de suas atividades no lar.

Entretanto, há muito tempo essa tutela já se encontrava estampada em dispositivo da Constituição Federal do Brasil, nossa Carta Magna: "o homem e a mulher perante a lei são iguais".

Muitas discriminações existem contra a mulher, talvez pela sua disposição física, principalmente perante o marido que, por vezes, a faz de saco de pancadas, violando o seu direito de ser humano, reduzindo-a à condição análoga à de escravo, sem se falar nos crimes de lesões corporais, homicídios, estupros, posse sexual mediante fraude, induzimento ao suicídio, ao aborto, e outros mais elencados na parte especial da legislação vigente.

Constrangida, a mulher vítima de tais violências pouco tem procurado as Delegacias de Polícia, por saber que ali vai encontrar, como delegado, um outro homem e todo um corpo policial masculino a quem, por vergonha, princípios ou ameaças do próprio marido, não relatará com a exatidão necessária a intensidade da violência sofrida, continuando assim sua vida de calvário, muitas vezes até a morte, como foi o caso Maria Augusta, sabido de todos nós, e muitos outros por esse Brasil a fora.

Esta Delegacia, que ora se inaugura, destinada exclusivamente a apurar os crimes cometidos contra a MULHER, será o marco indelével de uma gestão responsável, atenta às necessidades de seu povo.

Com um corpo policial exclusivamente feminino, reciclado e treinado pela Academia de Polícia de Goiás, contando com delegadas qualificadas do quadro da Secretaria de Segurança Pública do Estado e comprometidas com a causa, temos certeza, Sr. Governador, que esta Delegacia se destacará no desempenho de suas atribuições em prol da ordem, da segurança e da paz social a um amplo segmento da sociedade que perfaz 52% do eleitorado brasileiro.

Pretendemos não só proceder à instauração de Inquéritos policiais, mas fazer concomitantemente um trabalho de orientação, apoio psicológico, conscientização e soerguimento do casal em litígio, defendendo também os valores axiológicos da família, mola mestra de uma sociedade sadia, respeitando, é claro, os ditames e rigores da lei. Por isso consta do efetivo desta Casa Policial, assistente social, psicóloga e médica legista.

Queremos parabenizar a louvável idéia da vereadora Maria Dagmar em propor a criação de uma Delegacia da Mulher em nossa Capital! Um sonho que passa hoje a uma realidade, encontrando para tal o respaldo irrestrito e solidário do Secretário da Secretaria da Segurança Pública, Deputado Frederico Jaime e do Governador do Estado Iris Rezende Machado, a quem igualmente parabenizamos agradecidas.

Obrigada

Genaura Tormin
(Delegada de Polícia da Delegacia da Mulher de Goiânia-GO)

Obs.: Fiquei paraplégica em março de 1982, portanto em 1985 eu já exercia o meu cargo do alto de uma cadeira de rodas, vindo depois a Constituição de 1988 que reguardou direitos à pessoa com deficiência física no mercado de trabalho.

Por isso eu Rendo gratidão aos espíritos evoluídos dos meus superiores da Secretaria da Segurança Pública e Justiça do Estado de Goiás que me conservaram no cargo, valorizando a minha competência, embora a natureza do trabalho exercido ali fosse, em princípio, um paradoxo à minha condição física.

Entenderam que o maior potencial está na disposição para vencer, além do preparo técnico-científico inerente ao exercício do cargo.

Naquela época, trabalhar numa cadeira de rodas era um fato estranho, quase inusitado, embora a deficiência constitua uma parte natural da experiência humana.

E o exemplo ficou para todos os órgãos públicos e privados.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

MEIA HORA FAZ A DIFERENÇA


MEIA HORA FAZ A DIFERENÇA
(Genaura Tormin)

Sinto-me honrada em servir ao Judiciário Federal,
especificamente à Justiça do Trabalho do meu Estado,
onde exerço o cargo de Analista Judiciário
na Diretoria de Serviços Recursos e Distribuição.

Lembro-me de que não foi fácil o ingresso.
Freqüentei cursinhos e usei o método do gravador, além da determinação, persistência, força de vontade e muita disciplina, tão importantes para o sucesso na consecução de quaisquer objetivos.

Na solidão das madrugadas frias, tinha sempre as aulas por companhia,
através de minúsculos fones de ouvido.
Como a repetição faz o mestre, eu estava sempre a aprender,
embora essa aprendizagem seja um processo contínuo.
Aprendemos em qualquer quadrante da vida.
Somos sempre acrescidos pelas trocas, pelas lições,
tão necessárias à execução de um trabalho novo.
Assim vai se sedimentando o arsenal do nosso conhecimento.
Daí a capacidade para a feitura das mais diversificadas tarefas.

Na Diretoria de Serviço Recursos e Distribuição, a despeito de outros, temos o Projeto do Servidor Multiqualificado. Talvez seja ele o carro chefe da Diretoria. Para tal, os servidores se revezam em todos os setores e núcleos. Além disso, semanalmente é-nos dado, com antecedência, um tema do qual somos sabatinados numa pequena reunião que acontece às sextas-feiras.

É o chamado encontro do “BATATA QUENTE”.
E tem batata mesmo! Na hora aprazada, surge altiva e imponente uma batata majestosa, que atrevida se esgueira em olhadelas aos servidores sentados à mesa. No centro, um envelope contendo perguntas e ocorrências simuladas, com circunstâncias engraçadas, capciosas, chamam-nos a atenção.

Já nos reciclamos sobre o sistema push de auto-atendimento, peticionamento eletrônico (web-mail, fac-símile), protocolo postal, drive thru, procedimento de carga ao advogado, vapt vupt e teleTRT. Outros virão para formar a nossa bagagem.

Ao som de uma musiquinha inocente, amena e envergonhada, a altiva batata sai faceira, rebolante, dançarina, de mão em mão, porém com disciplina. A música pára! Ai, meu Deus! O Colega entre o susto e um sorriso maroto, ainda acaricia entre os dedos a batata, agora sua. Pena que está crua! A pergunta salta do envelope, altaneira, dona de todas as verdades.

Com galhardia ou sofreguidão o colega deve respondê-la.
E a batata só escuta, não ajuda!

_ Posso recorrer aos universitários? _ pergunta o colega.

_ Pode, sim, interfere o maior servidor da Diretoria. Maior em tamanho (tem quase 2 metros) e em autoridade. Ele é o Diretor. É um homem grande e um grande homem!

E, após o auxílio solidário, a batata torna a correr. Danadinha... alcança a todos. E as perguntas se mostram diversificadas, como diversificado é o nosso trabalho ali.

Um encontro agradável, um trabalho quase brincadeira!
Mas o resultado é excelente! Aprendemos todos ao mesmo tempo! Dirimem-se as dúvidas, uniformizam-se as informações, atualizam-se a legislação e a maneira do fazer estipulado no famoso PGC (Provimento Geral Consolidado).

_ Assim, estamos a crescer, diz a batata ensimesmada!

_ É isso aí!
Completa o Diretor satisfeito, explicando a finalidade do seu intento.

_ Em primeiro lugar, um relax para abastecer o físico e a mente, num pequeno intervalo. Depois, o conhecimento ideal que nos levará ao desempenho aperfeiçoado do trabalho, com a implementação do Servidor Multiqualificado, proporcionando uma prestação jurisdicional de qualidade, célere e competente. E a nós, serventuários, o sentimento do dever cumprido, a satisfação do aprender, do bem servir, e melhor relacionamento entre os colegas, que desempenharão sua missão num só espírito-de-corpo, com respeito, amizade e qualidade de vida.
E meia hora faz diferença, finaliza o Diretor.

Genaura Tormin é Analista Judiciário,
lotada na Diretoria de Serviço de Recursos e Distribuição
do TRT/GO

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

DELEGADA DE POLÍCIA PARAPLÉGICA, PODE?




DELEGADA DE POLÍCIA PARAPLÉGICA, PODE?
(Genaura Tormin)

Pois é, exerci com galhardia, dedicação e competência esse cargo, embora do alto de minha cadeira de rodas, companheira inseparável há 27 anos. Hoje estou no Judiciário Federal e me sinto honrada de emprestar minha cota-participação de trabalho ao meu País.

Relembrando o início dessa militância, em condição inusitada e num cargo tão difícil e complicado, vai aí um pequeno relato daquele tempo em que o desafio pautou a minha vida, fazendo-me forte a qualquer embate.

Gerindo os destinos de mim mesma, ia armazenando segurança no começo de uma nova vida. Reunia todas as migalhas do que me fosse útil e estava a construir uma fortaleza. Alçava meus voos domésticos, progredia no trabalho e ficava satisfeita com o reconhecimento popular. Era comum alguém do povo exclamar: — Vi a senhora na televisão, mas não sabia que era paraplégica. Que pena!

O cinegrafista não focalizava a cadeira de rodas durante as informações que, por vezes, tinha que prestar em frente das câmeras sobre trabalhos presididos por mim na delegacia. Talvez quisesse demonstrar-me um gesto de carinho.
Certa vez, expliquei-lhe que a cadeira fazia parte. Não podia locomover-me sem ela e não tinha o menor constrangimento. Afinal era o meu jeito de andar.

— São as minhas pernas de aço, os meus nervos inquebrantáveis... Pode mostrá-los ao público. Não me menosprezará por isso.
A repórter que ouvia as minhas explicações, para justificar diante das câmeras, revelou ao telespectador que eu era uma deficiente de cadeira de rodas, e, em seguida, dirigiu-me a palavra:

— Como a senhora pode exercer o cargo de Delegado de Polícia, numa cadeira de rodas?
Com o meu instinto poético e tentando ser abrangente na resposta, também, às muitas perguntas que me haviam sido feitas pela vida afora, expliquei:

Quero dizer a vocês,
Que a mente não está nos pés,
E aqui, na minha cadeira,
Trabalho por mais de dez.

Quem me conhece, já sabe
Da minha capacidade,
Não me curvo por besteira
E luto com hombridade.

Mato a cobra e mostro pau.
Medo, não tenho não.
Já mandei prender bandidos,
De estuprador a ladrão.

Lembro-me do grande Franklin,
Dos Estados Unidos, presidente,
Em tempos reacionários,
Exemplo pra muita gente.

Por isso estou aqui,
Em condição inusitada,
Pois sei que neste Planeta,
Não tem uma delegada

Numa cadeira de rodas,
Que seja capacitada,
Faça inquéritos e flagrantes
Numa Especializada.

Mente sã é corpo são,
Por isso não tenho nada,
Sinto-me com pernas fortes,
Numa cadeira sentada.

Na rua dirijo carro,
Faço compras e viajo,
Trabalho, leciono e nado.
É só questão de estágio.

Para os que não me conhecem,
É essa a informação,
Moradores da cidade
E outros que aqui estão.


Assim matei a curiosidade do telespectador, mostrando-me por inteira, sem reticências.

Depois desse episódio, foi-me nascendo o desejo de abrir as portas ao público, não só no meu trabalho, mas na minha intimidade depois da paraplegia. Senti que o povo nada sabia sobre pessoas com deficiências, razão por que as julgava inválidas, como se a cabeça estivesse no dedão do pé, devotando-lhes, ainda, desairosa compaixão que tanto as prejudica.

Eu, também, quando andava, nada sabia sobre paraplégicos. Nunca parei para pensar. Eram coisas alheias ao meu convívio. Deixa pra lá! Estava muito ocupada com os problemas, os sucessos e enleios da vida. Não transava o assunto, assim como a maioria da nossa gente. Jamais imaginei que a sensibilidade tátil ia de embrulho por acréscimo. Realmente, o pior só acontece aos outros, nunca à gente!

O desejo foi crescendo, crescendo, tomando formas, amadurecendo, e embora tivesse que desvestir a dor para erigir marcos benfazejos em defesa do porvir, eis que PÁSSARO SEM ASAS surgiu radiante, feito uma cartilha para ajudar outras vidas, abrir caminhos e falar de amor, de possibilidades, de desafio e de muitas conquistas.

Genaura Tormin é autora dos livros:

PÁSSARO SEM ASAS,
APENAS UMA FLOR,
NESGAS DE SAUDADE

www.Genaura.blogspot.com
Recanto das Letras,
Editora virtual

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)


"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)