PLANTIO

PLANTIO
PLANTIO
(Genaura Tormin)

Deus,
Senhor dos mares e montes,
Das flores e fontes.
Senhor da vida!
Senhor dos meus versos,
Do meu canto.

A Ti agradeço
A força para a jornada,
A emoção da semeadura,
A alegria da colheita.

Ao celeiro,
Recolho os frutos.
Renovo a fé no trabalho justo,
Na divisão do pão,
. E do amor fraterno.
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sábado, 1 de setembro de 2012

COMENTÁRIOS SOBRE PÁSSARO SEM ASAS




O QUE APRENDI COM PÁSSARO SEM ASAS
(Adriana Bispo Alvarez)

Boa noite Dra. Genaura,

Há aproximadamente um ano, fui indicada a ler o seu livro  -PÁSSARO SEM ASAS - pelo Prof. Dr. Wiliam César Alves Machado, já que o mesmo constituiu minha banca em toda as etapas do mestrado.

Porém, ao escolher a temática: "Saberes e práticas sobre clientes paraplégicos e seus cuidadores sobre úlceras por pressão: implicações para o cuidado educativo de enfermagem", não tinha a noção de quantas questões poderiam emergir a partir da clientela escolhida.

E foi aí que comecei a ler seu livro. Suas palavras, seu modo de contar a sua história, a sua vivência e experiência.

Ler seu livro foi uma experiência única, algo que nunca havia lido antes.
Através de suas letras, fui transportada e parecia que vivi ali, todos os momentos do seu lado, me angustiando, ficando feliz com cada obstáculo vencido, enfim....após a leitura deste livro, amadureci bastante, me tornei outra pessoa e só aí pude entender este universo que antes eu pensava ser tão distante do meu, que eu não conseguiria lidar, mas não, em vários momentos das entrevistas com os sujeitos pesquisados, me remeti a cada página de seu livro, cada capítulo, cada obstáculo, cada sentimento e cada estratégia de enfrentamento.


Bom, sou enfermeira estomaterapeuta e agora pretendo me aprofundar cada vez mais na reabilitação, pois fiquei totalmente apaixonada.

Você é um exemplo de força, de luta, de garra.... você me tornou mais humana e, durante a pesquisa, passei por diversos problemas e quando lia seu livro, todas as noites antes de dormir, ao invés de me lamentar, me impulsionava cada vez mais a conseguir meus objetivos.

Em várias partes do meu estudo, cito parágrafos seus, cada um de acordo com a categoria que emergiu no estudo.

Assim, segue em anexo para que a Sra. leia os meus sinceros agradecimentos do reflexo do seu livro tanto para o meu estudo quanto para minha vida pessoal.

Simplesmente amei!! Se depois a Sra. se interessar, posso enviar, na íntegra, a dissertação (assim que eu terminar as correções finais...rsrs)


Beijo enorme e mais uma vez, obrigada por mudar a minha vida.

terça-feira, 26 de junho de 2012

GOSTO DOS VERSOS QUE VIVEM EM MIM


GOSTO DOS VERSOS QUE VIVEM EM MIM
(Genaura Tormin)

Realmente a fotografia registra marcas na vida gente, guardando momentos! 
Santa fotografia!

Eis aí a 2ª edição do PÁSSARO SEM ASAS!
Lembro-me de que a 1ª edição esgotou-se num mês e, numa correria, providenciamos a 2ª edição, quando realmente aconteceu o lançamento. 
Sinto saudades!

Tão fininho, o livro! 
E eu tão bonitinha! 
Foram-se os anos tão céleres! 

Hoje estou diferente, cresci, evolui junto com o vagar do tempo! 
Muitas experiências, aprendizados, ladeiras e descidas... 

E o PÁSSARO SEM ASAS segue comigo na estrada, contando a nossa história. 
                             Já trabalho na 7ª edição! 
Mais de 400 páginas! 

Meu Deus, uma vida que ficará como legado. 
                    Eu gosto de rever o caminho palmilhado. 
Com ele reciclo o meu espírito rebelde e ouriçado. 
Sou, hoje, um SEIXO ROLADO! 

Gosto-me assim. 
Sou a minha própria leitora. 
E gosto do que faço e dos versos que vivem em mim.


__________

terça-feira, 14 de junho de 2011

O MÉRITO NÃO FOI MEU


Eis mais um capítulo do meu livro - PÁSSARO SEM ASAS! Um brinde aos meus leitores. Espero que gostem, pois a premissa maior alicerça-se na coragem e na vontade de seguir em frente!

O MÉRITO NÃO FOI MEU
(Genaura Tormin)


Passaram-se alguns anos desde a última vez que, voluntariamente, dirigi meus passos, impregnando formas no chão. Fisicamente não consegui andar, mesmo envidando muitos esforços. Entretanto minhas pegadas avolumaram-se na caminhada do bem servir e no conhecimento do existir, tornando-me forte e altiva, apesar do rangido brusco de quatro rodas pelo chão.

Dentro de minhas limitações, sou livre: corro em idéias, em versos, em sorrisos, em trabalho, em transcendências ao infinito.
Ouso dizer que o mérito não foi meu, mas de toda a família, parentes, colegas de trabalho, amigos e conhecidos, a quem cabe a responsabilidade pelo meu desejo, cada vez maior, de vencer.

Rendo gratidão aos espíritos evoluídos dos meus superiores da Secretaria da Segurança Pública e Justiça do Estado de Goiás que me conservaram no cargo, valorizando a minha competência, embora a natureza do trabalho exercido ali fosse, em princípio, um paradoxo à minha condição física. Entenderam que o maior potencial está na disposição para vencer, além do preparo técnico-científico inerente ao exercício do cargo. Naquela época, trabalhar numa cadeira de rodas era um fato estranho, quase inusitado, embora a deficiência constitua uma parte natural da experiência humana. E o exemplo ficou para todos os órgãos públicos e privados.

Atribuo o maior mérito ao meu querido Alfredo que em nenhum momento tem-se cansado da caminhada. Combativo, determinado, não tem poupado esforços para me devolver não duas pernas, mas uma miríade delas. Sinto-me uma centopéia. Estou cheinha de pernas. Mais do que preciso. Ambos chegamos a uma autotransformação mediante um processo de evolução consciente. Mesmo quando eu menos mereço, ele é capaz de me amar. A ele, reitero o meu carinho, a minha gratidão. Nossa cumplicidade tornou-nos imbatíveis e unos. A ele o carinho dos meus versos:

INDIVISIBILIDADE

Quando tu partires
Irei contigo.
Levarei o aconchego da noite
Para te fazer feliz.

Serei suave,
Feito o balanço do mar,
Para te amar,
Amor.

Irei contigo
Aonde fores.
Tuas pegadas
Serão as minhas pegadas,
E eu te amarei
Em todos os momentos.

Não choraremos
Porque as lágrimas secaram
Com o sol da manhã,
Fazendo-nos fortes
A qualquer embate.

Irei contigo
Até o infinito,
Onde tudo é perfeito,
Sem dor,
Sem mutilação,
Sem medo.

Irei contigo,
Amor,
Porque faço parte de ti,
E tu és tudo
Que sempre cultivei em mim.
Assim,
Seremos indivisíveis,
Unos e eternos.

Alfredo estava sempre comigo nas primeiras vezes. Juntos, ganhamos a corrida. Subimos ao pódio. Ganhamos o troféu.
Voltei a fazer tudo o que fazia antes. Às vezes a situação torna-se apenas engraçada, nunca impossível.

Trabalho todos os dias e nos feriados e fins de semana vou à cozinha, arrumo armários, conserto roupas como toda dona de casa. O fazer não está sempre adstrito em subir escadas para alcançar armários embutidos, mas administrar, estar presente, coordenar, dar as cartas. Assim as barreiras não existem. Os encargos são-me atribuídos como antes. Não sou vista diminuída, mas até acrescida. Permito-me todos os afazeres: comigo, com o marido, com os filhos e com o meu trabalho. Se o avançado da hora se registra e o dever me chama, aceito ajuda como qualquer pessoa andante, não como dependente.

A vida social continua. Participamos até de bailes. Temos uma Associação de Delegados, com excelente sede e farta pista de dança, onde praticamos lazer, trocamos idéias, tomamos uma cervejinha e dançamos. No início, os colegas paparicavam-me muito. Aproximavam-se de nossa mesa para fazer-nos companhia e externar solidariedade. Usavam o elogio para compensar a disfunção dos meus membros inferiores, tão indispensáveis para a dança, o que eu retrucava com galhardia:
— Você não leu o “Meu pé de laranja-lima”, de José Mauro de Vasconcelos, Saint Exupery... “O essencial é invisível aos olhos, é preciso buscar com o coração”. Por isso, colega, fui eu quem iniciou a dança, quem inaugurou a pista. Adoro dançar! Danço em cada um de vocês e com cada um de vocês. Em cada passo, estou atenta para não errar. Danço com a alma, com o coração e sinto que a cada dia bailo melhor, encontro-me com a vida e sou feliz.

Aprendi a conviver pacificamente com as amarras da deficiência. Não me reconheço no passado. Acho que sou uma nova mulher. Gosto-me assim. Consigo driblar dificuldades e isso significa muito para mim.

De todas essas dificuldades, a falta de sensibilidade é a que mais dói e a que mais deve ser observada. Certa vez fui a um jantar dançante. Dias depois, minha família percebera um enorme hematoma na minha região lombar, nível da cintura. Surpresa! Lógico, uma grande interrogação. Imbuindo-me do costumeiro papel de detetive de mim mesma, concluí que teria sido provocado pela dança na cadeira de rodas. Certamente, o cinto de metal formado de elos que eu usava naquela noite, provocara atrito nas protuberâncias da coluna vertebral. Hoje danço sem o cinto de elos, mas importa-me muito os elos de afetividade que consigo ligar entre os meus leitores, entre amigos, entre as pessoas com quem desenvolvo algum diálogo. Minha meta é a paz interior e eu sei que a vida me aponta caminhos para isso. Como partícipe, sei que preciso dividir e a melhor maneira de pensar em mim, é pensar em todos. A felicidade coletiva necessita de coadjuvantes. Ela não pode existir sem esforços. E, com certeza, fiz-me recruta, estou alistada no batalhão desses servidores, por princípio, por convicção.
Não lamento o que fazia antes, mas fico satisfeita com o que ainda posso fazer. Acho-me perfeccionista e esmero-me na execução. Não sou narcisista, mas gosto de sentir o mérito da conquista.

Acredito em Deus como integração, por isso os meus retalhos adormecidos ganharão movimentos algum dia, quem sabe noutra galáxia.

Numa semelhança quixotesca, vou cruzando horizontes em vôos alados, impulsionada pelo reconhecimento e o carinho das pessoas que me cercam. O meu trabalho abre caminhos, cria consciência popular, valoriza seres humanos olvidados. E é isso que me gratifica. Vale por todos os salários recebidos. É o que posso fazer pelo meu irmão de barco, pela pessoa com deficiência física, tão preterida neste País.
Fiquei muito feliz ao ser valorizada pela então miss Brasil, Jaqueline Ribeiro Meireles, quando de uma matéria jornalística intitulada: “As mulheres impõem a Lei”. O texto discorria sobre o meu trabalho policial, encimando minha fotografia de cadeira de rodas, descortinando nuances até sobre Pássaro Sem Asas.

A misse endereçou à reportagem a seguinte missiva: “A chefe de jornalismo da Revista Presença. Parabenizo-a por legar a Goiás uma revista bonita em visual e, mais ainda, em conteúdo. Na qualidade de misse Brasil, achei linda a Delegada de Menores de Goiânia, em plena atuação e numa cadeira de rodas. Sua beleza interior, sua sensibilidade, sua coragem e sua abnegação enchem-nos de entusiasmo e vontade de viver. Genaura é mais que uma pessoa da Lei; é mais que uma esposa e mãe; é mais que um exemplo de vida! É, sobretudo, uma paraplégica que consegue ‘voar’ bem alto sem as suas preciosas asas. Que vocês possam continuar publicando essa linda revista, com assuntos tão enobrecedores, para que o mundo fique um pouquinho melhor, e as pessoas que possuem ‘asas perfeitas’ possam também alçar vôos de beleza, de alegria e de trabalho como Genaura. Beijos. (assinado) Jaqueline Ribeiro Meireles”.

Eu não merecia tantos elogios. Confesso que fiquei emocionada, principalmente partidos de uma misse Brasil. Para Jaqueline, o meu agradecimento sincero e toda a minha admiração.

Realmente, nesses anos todos não consegui melhora no quadro locomotor. Tudo permanece inalterado desde aquela noite fatídica, no Hospital Neurológico, em que os cobertores não aqueceram o meu frio, o qual se agregara a mim, compulsoriamente. Contudo as minhas conquistas tornaram-me andante: tiro e ponho sozinha a cadeira de rodas no carro e corro ao seu volante, o que caracteriza uma grande independência, além de haver conquistado o meu espaço de cidadã, tentando nivelar-me aos andantes.
Mais do que nunca, sinto-me senhora do meu pleno equilíbrio. “Sou como a rocha nua e crua onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a esmo. Posso cair. Caio. Mas caio de pé por cima dos meus escombros”. Embora não haja a força motora para fisicamente conservar-me ereta, alicerço-me nas asas da coragem para sobrevoar com dignidade esses escombros.

Transpus muitas barreiras até mesmo a do sexo. Não há impossíveis quando envidamos esforços verdadeiros para a superação ou a substituição por valores semelhantes.
A natureza é sábia e a lei da compensação é uma verdade. Quando há uma disfunção ou falta de um órgão, os sentidos encarregam-se do trabalho e ficam muito mais aguçados. O cego, por exemplo, possui a audição perfeita e, por meio dela, compensa a sua disfunção visual, bem como desenvolve as percepções sensoriais e extra-sensoriais, podendo perceber cores por suas vibrações através do tato.

Assim o que me restou ficou muito mais sensível: o beijo mais gostoso e o prazer muito maior com as carícias nos lóbulos das orelhas, cabelos, olhos, ombros, pescoço, seios e, principalmente, nas axilas que, para minha satisfação, substituiu os enleios de prazer do órgão genital. Posso afirmar que não fico a ver navios. Amo e sou amada.

Sexo, para mim, não significa somente contato genital, mas envolve aura, mente, sublimação... Por isso exercito a minha sexualidade num olhar de ternura, num articular de lábios, numa palavra de amor ou, simplesmente, num copo de suco tomado a dois.

Sexo é a sublimação do amor. Fora desse parâmetro, é fisiologismo. O amor procura o sexo e o sexo coroa o amor, ambos alimentados pela vivência, pelas trocas diárias, pelos frutos desse amor...

Amor é procura do eterno.
É a consciência cósmica penetrada em nós.
É a forma mais linda que Deus encontrou para que o homem fosse criatura e criador: propagasse a espécie.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

QUEREM CARREGAR O MEU FARDO


Eis mais um dos capítulos do meu livro - PÁSSARO SEM ASAS!
Um brinde aos meus leitores. Espero que gostem, pelo menos da sinceridade e da coragem de abrir o coração, mostrar a minha privacidade e, especialmente, o tamanho das dificuldades que tive que enfrentar. Hoje, digo: SEM CORAGEM NÃO SE VAI A LUGAR NEHUM!

QUEREM CARREGAR O MEU FARDO
(Genaura Tormin)

Papai estava em nossa casa. Era a primeira vez que nos visitava depois que eu saíra do hospital. Tinha medo de me ver na cadeira de rodas. Como estava bonito, o meu pai! O seu semblante era marcado por preocupação e tristeza, embora escondidas sob a barba que deixara crescer desde a fatalidade que se abatera sobre mim, ou melhor, sobre nós. Para os pais, a gente é sempre criança e necessita de cuidados. Papai não deixara de trazer-me algum agrado: mel de abelha para tomar nas manhãs; doce de leite, requeijão e, ainda, banha de carneiro para fazer-me andar.

— Filha, aqueça esta banha, esfregue nas pernas e enfaixe com ataduras de crepom que vai ajudá-la muito. Fiquei sabendo de um homem que estava como você e andou.
— Obrigada, papai! O senhor é um amor de pessoa! Se eu não voltar a andar, não fique preocupado, pois prometi a mim mesma que vou voar. Vou ficar alada, papai! Vou ter asas e ficar mais veloz. Vou voar com os pássaros na amplidão, nesse infinito azul cheio de liberdade. Vou até as constelações. Quem sabe visitarei a estrela do meu tempo de criança? Lembra-se? Aquela que piscava, piscava e o senhor dizia que ela estava me chamando.

— Você não deixa de fazer brincadeiras. Com coisa séria não se brinc! Lembro-me de que, quando pequerrucha, queria trabalhar no circo. Queria ser artista, equilibrando-se até sobre a sela do cavalo, quando, às vezes, tinha que levar umas palmadas.

— É papai, isso mesmo! Está vendo que a gente consegue o que deseja! Talvez eu quisesse ser trapezista. Agora, vou mesmo exercer algo parecido pelo menos em desafio. Escute só: não vou aposentar-me. Amanhã vou assumir o cargo de Delegado de Polícia no Nono Distrito Policial! Valeu? Vou desafiar paizinho! O senhor já ouviu falar de alguma delegada de cadeira de rodas? Vou ser a primeira! Talvez queiram pôr na minha cadeira um motorzinho V-8, com injeção eletrônica, turbinado... E eu vou botar pra quebrar com um trinta-e-oito na cintura. Já pensou numa estrada reta, a 280 km por hora! Ninguém fará melhor trabalho que eu, o senhor não acha?

— Credo! Pára de falar besteiras! Imagine se Alfredo e eu vamos permitir tal coisa! Fale sério! Pare de rir. Nunca vi uma pessoa numa cadeira de rodas com tanta alegria! Todas que pude ver em Minas Gerais tinham semblante de sofrimento.

— Paizinho, eu vou trabalhar! Vou ser uma Delegada de Políci! Passei no concurso e já fui nomeada. O senhor não se orgulha de mim? Ser delegado é ser chefe. Não vou sair com trinta-e-oito nenhum. Nunca levei jeito para isso. O que vou fazer é instaurar procedimentos policiais, dar ordens, inquirir testemunhas, requisitar perícias, exames de lesões corporais e muitos outros. Terei uma equipe de policiais a meu serviço. Amanhã será o meu primeiro dia de trabalho e o senhor irá comigo. Não posso perder tempo. Vamos conversar na varanda. Tenho que fazer os exercícios, senão, além de não andar, vou ter problemas de osteoporose e calcificação nas articulações. Estou estudando Medicina, sabia? Acho que depois dessa paraplegia vou ser médica charlatã.

Com roupa de malha, fomos para a varanda onde papai ajudou a colocar-me sobre o acolchoado, no chão, para os primeiros exercícios daquele dia: os manuseios feitos pela Edna, minha prima, que voltara a morar conosco.

Para auxiliar-me, ela fizera estágio no Hospital Sarah Kubitschek e, como técnica de fisioterapia, é uma excelente profissional. Moça alta, vistosa, de uma simpatia à flor da pele; muito brincalhona, carregava no rosto um aspecto trigueiro, sempre com um sorriso. Gostava de comparar as pessoas com as aves, e até imitava os seus gorjeios. Ela floreava as frases e a gente acabava sempre às gargalhadas. Edna era mesmo uma pessoa especial em época também muito especial. Frequentemente encontrava uma maneira engraçada para resolver os problemas. Às vezes, saíamos juntas para as visitas, supermercados e até para o cinema. Com ela, sentia-me protegida.

Numa dessas andanças, perguntaram-lhe se eu falava. Após uma mesura e uma olhadela estupefata da Edna, não pude manter-me séria. Ambas caímos na gargalhada, como se não fôssemos mais parar.
A pergunta não ficara sem resposta.
— Não! Ela não fala, só ri — dissera a Edna, limpando os olhos.

— Não me olhe com essa tristeza, papai! As pernas não estão finas. É a falta de controle sobre elas que transmite “peninha”. Estou ótima! Não vê que estou alegre?! A gente não pode ser misse a vida inteira. Os anos já lhe pesam, mas o senhor está muito bonito nessa idade! Entre as pessoas com deficiência, também posso ser vistosa, o senhor não acha?

Papai continuava calado. Olhava-me sempre e seguia os manuseios que a Edna fazia nas minhas pernas.
— Agora de gatão! — exclamara a professora.
Imediatamente obedeci e eis-me feito um grande bebê, querendo engatinhar.
— Para frente! Para trás! — comandava ela.

Por vezes, perdia o pouco equilíbrio e caía para a lateral. O esforço era muito grande para me levantar. Sob meu comando, apenas estavam a cabeça, os braços e as escápulas. Pouco para puxar uma jamanta, como dizia a Edna. Então, ileso era o “cavalo”, isto é, a parte dianteira de um caminhão. A jamanta, talvez carregada de aço, era o resto do meu corpo. Engraçada a comparação. Moça criativa, a Edna!

Alfredo costumava supervisionar os trabalhos. Dava sempre uma chegadinha ao nosso ginásio de fisioterapia. Elogiava os avanços e fazia exigências, fazendo-me querida.
Depois do gatão, Edna declinava o próximo exercício:
— De joelhos!

Nesse momento, papai indignado interpelara:
— Isso não! Assim é judiar demais! Você não vê que ela está paralítica? Por que ainda fazer penitência?
Caímos na gargalhada e até o maridão não deixara de acompanhar-nos. Contudo exclamara:

— É, meu sogro, ela precisa fazer penitência para recuperar os passos. Mas a Edna exagera muito. O senhor verá muita coisa ainda!

Pobre papai! Homem do interior que vivera a maior parte da sua vida no campo, na lavoura, cuidando do gado, não havia acompanhado o progresso das grandes cidades. Com o seu coração de pai, tentava me proteger. Não entendia que eram exercícios, e indispensáveis, aquelas posições.

Agora seria a vez das paralelas. Edna acoplara-me ao aparelho ortopédico com botas e com a ajuda do Alfredo fui colocada na vertical, segurando-me nas paralelas (dois canos galvanizados, paralelamente dispostos à altura do quadril). Estava de pé. Olhava a todos testa a testa. Estava alta, arrogante. Será que era alta assim? Os saltos de quatro centímetros das botas, para compensar os tendões das pernas que se encurtaram, não poderiam ser esquecidos.

Papai, sisudo, parecia não gostar daquele espetáculo. Tantos amarrilhos, hastes de metal, cinto de metal, até que desabafou:
— Isso parece arreio de cavalo!
— Não, meu sogro, tutor longo com cinto pélvico! — retrucara Alfredo. — Isso é para fazer circular o sangue, melhorar as funções intestinais, urinárias, e ainda evitar osteoporose nas pernas, pois o cálcio que ingerimos em forma de alimento não é absorvido pelos ossos se eles não estiverem em uso. Assim, meu sogro, os ossos ficam fracos, como se estivessem brocados. Por isso Genaura precisa ficar de pé. As pernas precisam sentir o peso do seu corpo.

— Coitada de minha filha, paralítica! — entoara sentido, o papai.
— Paralítica, não! Deficiente! — Atalhou imediatamente o Alfredo, como se as duas palavras não fossem sinônimas. Era mesmo o desejo de não me machucar, não me ofender.
Acho que papai e Alfredo sofriam muito mais do que eu que estava sendo protegida por todos os lados. As crianças faziam as suas partes, dando-me carinho exagerado.

Nas paralelas, vendo-me estampada num grande espelho à frente, apetrecho imprescindível para a correção da postura e dos passos, observava o golpe que a vida havia-me desferido. Como criança indefesa, pensava em mamãe. Ah, se ela estivesse viva! Certamente viria morar conosco para amenizar-me a falta de locomoção.

Mamãe era disposta, alegre, extrovertida. Para ela, não havia impossíveis. Possuía um coração imenso e espiritualizado. A importância maior era dirigida aos filhos que, como ela sempre dizia, constituíam o seu tesouro. A felicidade da gente era muito mais a felicidade dela.

Mamãe era líder. Aonde chegava, encantava sempre. Fora muito bonita nos verdes anos. No entanto era a sua beleza interior que impregnava a todos. O sorriso largo, os olhos azuis e a imagem de fada madrinha enchiam de luz qualquer lugar. Gostava muito de cantar, declamar... Como gostava de ouvi-la cantar as românticas músicas do seu tempo. Poesias épicas, ela sabia de cor e as recitava com galhardia.

Agora como estava precisando dela! Que saudade dolorida arrebatava-me o peito! Será que estaria à minha espera na eternidade? Como não nos é dado decifrar o após morte, mas acreditando na imortalidade da alma, mamãe até poderia estar ali, num corpo etéreo, velando por minha vida, dando-me apoio e insuflando-me coragem como sempre o fizera nos meus momentos mais difíceis. Era no seu regaço que os problemas revertiam-se em “coisinhas banais, corriqueiras, plenamente resolvíveis”.

Hoje, pensar que a sua presença translúcida amaina o meu caminho, canta para dissipar minha tristeza, encoraja-me nos fracassos, diminui minha condição de órfã para arremessar-me ao alto, vendo-me pelo crânio e não pelos pés que, há muito, não impregnam formas no chão.

MINHA MÃE

Minha mãe!
Quanta saudade!
Brado o seu nome
E tenho o eco por resposta.

O telefone do céu está mudo.
Há muito tempo vivo órfã!
Preciso de um colo
Para descansar meu corpo,
Preciso de um ombro
Para chorar.

Mãe,
Preciso de você para me guiar!
Queria dar-lhe o carinho que guardei.
Dizer da vida,
Das dores, dos amores
E das quedas que levei.
Estou indefesa,
Uma criança outra vez.
São tantas as queixas...

Mãe,
Sua presença me devolve a paz.
A silhueta etérea me acompanha
E sob as suas asas sou amada.
Mas é sempre em sonho
E você me deixa quando alguém me toca.
A claridade quebra o encanto.
E ainda por um instante, deixa-me fitar
Os olhos azuis de quem eu amo tanto!

domingo, 10 de abril de 2011

UMA NOTA DA AUTORA


UMA NOTA DA AUTORA
(Genaura Tormin)

PÁSSARO SEM ASAS surgiu com a dor. É uma história de vida ou memórias romanceadas. Nele, devasso-me sem reticências depois de uma inesperada paraplegia. Conto todas as dificuldades, batalhas e aprendizado para sobrepujar a fatalidade. Para ser adotada pela vida.

Falo de mim, falo de amor, falo de dor, de vitórias e muito mais. Solto a lira de meus versos. Curto minha imobilidade. E os meus retalhos adormecidos ganharão movimentos algum dia. Quem sabe noutra galáxia?

PÁSSARO SEM ASAS é um misto de momentos lúdicos, sofridos, emocionados. Chega a porejar sangue. É o driblar de uma bola sem chutes, mesmo ao arrepio da vida.
A crença em mim mesma devolveu-me não pernas, mas ASAS. Sinto-me alada depois de tanta tempestade. Com elas cruzei horizontes, voei com os condores em terras calcinadas, extrapolei mares, venci tormentas e me encontrei.

As escarpas do caminho fortaleceram minha couraça rumo aos objetivos. Dentro de minhas limitações sou livre: corro em idéias, em versos, em trabalho...

Não sou vista diminuída, mas até acrescida. O meu trabalho tornou-me um ser humano inteiro. Por incrível que pareça, tornei-me uma Delegada de Polícia! Atuei na vanguarda contra a escalada do crime, como uma profissional inusitada, pelo menos, em visual.

Depois, também por concurso público, ingressei no Judiciário Federal, onde me sinto honrada de emprestar minha participação de trabalho. Afinal somos herdeiros dos nossos atos e senhores de nossas colheitas.

Que as minhas experiências conduzam o leitor à reflexão, fazendo-o descobrir que cada um pode ser a pessoa mais feliz do mundo, procurando ascender sempre rumo ao bem, creditando as dificuldades como mérito seu, uma vez que não há limite que obstaculize uma mente determinada.

sábado, 2 de abril de 2011

PRIMEIRO CANTO À IMOBILIDADE


PRIMEIRO CANTO À IMOBILIDADE
(genaura Tormin)

Totalmente adaptada, a casa ficara pronta. Tudo estava entrando em ordem. Começava a aprender comigo mesma uma série de lições motivada pelas necessidades. Parecia um bebê descobrindo o mundo. Precisava ser positivo o propósito de minha vida. Com certeza, eu não teria nascido com a finalidade de causar problemas, de prejudicar aos outros, de ser fardo em seus ombros. As muletas estavam aparecendo em forma de adaptações, e eu as iria usar para substituir os muitos cerceamentos estampados pelo corpo.

Pela manhã, geralmente tomava café na cama, lia o jornal e, logo em seguida, partia para a bateria de exercícios físicos, aprendidos no Hospital Sarah Kubitschek. Com o tutor longo com cinto pélvico, ficava por mais uma hora na postura vertical, segurando-me nas paralelas (dois canos galvanizados dispostos paralelamente à altura do quadril humano médio). Ali, depois de percorrê-la por inúmeras vezes, carregando o corpo com a força dos braços em forma de pulos, procurava ler alguma coisa que me ajudasse naquela fase tão difícil. Tinha que me ocupar para tentar esquecer da catástrofe.

Mesmo nas paralelas, orientava os filhos na feitura das tarefas. Não abdiquei da função de dona de casa. Transferi a cozinha para a área de serviço, ao lado da varanda, onde estavam os apetrechos de fisioterapia. Dessa forma, poderia “matar dois coelhos de uma só cajadada”: fazer exercícios e administrar a serviçal que era iniciante, além de ficar perto dos filhos.

Sempre que possível, ia às compras de supermercado com a família. Era-me doloroso o reencontro com as pessoas conhecidas. Ah! As lamentações, o espanto ao verem-me presa à cadeira de rodas, “desenterravam sempre o defunto”, fazendo-me lembrar de que estava paralítica e muito diferente dos demais. Estava cerceada do meu direito ao caminhar. Hoje, não gosto de dar pêsames a ninguém. Talvez seja por isso. Acho que é abrir uma ferida sempre. Limito-me, apenas, a dar um abraço, um beijo...
Alfredo havia pedido um carro para mim com uma adaptação nova, de origem italiana, mostrada no programa Fantástico da Rede Globo de Televisão. Por capricho, essa amostragem dera-se poucos dias antes da paraplegia. Lembro-me de que estava recostada nos joelhos do Alfredo e ainda elogiamos o avanço da tecnologia, quando nos recordamos de um nosso ex-professor da época da faculdade que estava tetraplégico.

Confesso que me tocou muito o depoimento da moça paraplégica que experimentava o veículo defronte das câmeras: “Estou me sentindo um pássaro fora da gaiola” — dizia ela.

Talvez tudo isso fizesse parte de minha preparação, assim como os últimos poemas meus. Que ironia do destino! Um carro igual viria para mim. Viria substituir o meu carrinho amarelo. Eta carrinho! Amigo mudo que me auxiliava em tudo sem nunca reclamar. Agora seria um veículo da Fiat que comportaria as minhas pernas de aço (a cadeira), ajudando-me a aprender outra forma de viver.

Passaram-se quase sete meses desde a última vez que havia andado com os meus pés. A fisioterapia não me devolvera nenhum movimento. Não mexia sequer o dedão do pé. Mas estava quase me adaptando a caminhar sem fazer rastros, pois não havia outras opções. Em paraplegia, adaptar-se é irreversível. Caso contrário corre-se o risco de sofrer muito. Carrega-se o peso das dificuldades ou o do cadáver. Estar paraplégico é morrer um pouquinho todos os dias. É sentir-se prisioneiro no cárcere estático do próprio corpo. É exercitar a paciência, creditando à evolução do espírito o desafio de vencer as barreiras de si mesmo.

Além dos exercícios físicos diários, procurava preencher o tempo disponível para não dar espaço a pensamentos atrevidos ou saudosos, contrários ao meu objetivo. “Cabeça vazia é sempre oficina para o diabo”. Por isso fazia crochê, tricô, conseguindo bordar até uma toalha de banquete. Ocupava-me com leituras, conversas ao telefone, visitas de amigos e com os filhos que sempre estavam ao meu lado, auxiliando-me em tarefas complementares, além de me paparicarem muito. Eles estavam carentes e eu também. Era bom sentir o amor que me dedicavam, estampado na ternura, no carinho, alicerce maior de minha razão de viver.

Tudo o que fazia, com as dificuldades da primeira vez, era dolorido. Abria-me sempre a ferida. Embora não externasse, sofria por dentro. Meu avesso não queria confirmar a paraplegia, mas as dificuldades do “fazer” jogavam-me no rosto a dura realidade. Por isso queria fazer o máximo de atividades diversificadas possível para vencer logo a prova de fogo e tornar-me campeã de mim mesma, assumindo com dignidade a minha condição. Estava a construir uma couraça para resistir às dificuldades. Oxalá essa couraça se transformasse em pérola, já que esta é o resultado de uma ferida cicatrizada. Por vezes, o ego agradecia essa bravura.

Nessa época, um dia, estando em casa sozinha pela manhã, planejei como poderia tomar um banho. Despi-me na cama, passei para a cadeira de rodas, transferi-me para o vaso sanitário e em seguida passei para uma cadeira normal, semelhante às de bar. Com muita atenção e cuidado, tentei dar pequenos impulsos com os ombros para chegar ao box, quando a cadeira caiu para trás, lançando-me ao chão. Mal consegui desvencilhar-me dela, empurrando-a para frente. Não pude fazer mais nada, nem sequer me arrastar até a cama. Não conseguiria subir. Fiquei calma. Tinha assumido o risco. Aquela manhã estava fria, muito fria. Consegui alcançar a toalha de banho que se desfraldava no cabide à altura do meu braço. Como não tinha (e até hoje ainda não tenho) sensibilidade em mais de dois terços do corpo, protegi as partes sensíveis, ou seja, ombros, braços e cabeça, e deixei-me ficar no chão frio do banheiro. Pensei na serventia dos meus braços ilesos, e agradeci. Resisti à emoção que me apanhara de surpresa. Pena, por quê!? Repreendi imediatamente a estima ferida. Tentei dormir. Era o que de mais sensato poderia fazer. Cheguei a sonhar, quando fui acordada pelos filhos que chegavam da escola com o pai. Pensaram que eu estivesse morta ali no chão. A voz chorosa e agoniada do Fernando sobrepujava às demais. Graças a Deus que o choro deles foi em vão. Estava vivinha!

Lembro-me de que na igreja, durante a missa, uma senhora olhava-me tanto que cheguei a ficar perturbada. Depois da cerimônia, uma reunião no salão paroquial, a qual também compareci. Lá, a mesma senhora continuava a olhar-me insistentemente, como se eu fosse fantasma ou extraterrestre, sem, entretanto dirigir-me a palavra. Na ocasião, um garoto postou-se entre nós, impedindo, involuntariamente, que ela continuasse fixada em mim. Coitado, levou um empurrão. Percebi que representava uma figura inusitada para ela e, quem sabe, para muitos outros. Foi aí que senti, maior do que a minha saudade de andar, o desejo de abrir caminhos, construir nova mentalidade e mostrar que a pessoa com deficiência física é um ser social e deve ser aceita porque faz parte, contribui e produz, podendo até ser força transformadora, servindo de incentivo e exemplo aos muitos paralíticos andantes que permeiam todas as classes sociais.

Assim, precisava circular, mostrar-me, atuar, andar com o que me havia restado. Não era uma conquista, mas uma missão. Era preciso entender a mensagem e acreditar no poder da mente, na força da palavra e do exemplo.

No retorno a casa, a manhã estava gostosa. O sol, intensamente brilhante penetrava no meu quarto. Para senti-lo, sem amarras de janelas, galguei o corredor da casa e logo estava debaixo da romãzeira florida à beira da piscina.

O vento fazia rodopios no quintal como se me quisesse saudar, como se quisesse alegrar o meu avesso tão sofrido. O céu de um azul sereno fazia-se enfeitar por pequenas nuvens viajeiras, além de pandorgas coloridas empinadas pela criançada, cujo vozerio alegre e estridente chegava aos meus ouvidos. A vida movimentava-se faceira. A romãzeira dançava solitária, atirando suas folhas nas águas adormecidas. Agora pereciam pequenos barcos, navegando sobre calmarias, expostos às adversidades: ao sol escaldante, à chuva, aos icebergs e à própria morte. Alguém escoaria a piscina. Aqueles barquinhos de folhas seriam amontoados como lixo num lugar qualquer. Mesmo assim ainda seriam úteis. Tornar-se-iam adubo para fortalecer uma palmeira altiva ou uma roseira transverberada em pétalas rubras e aveludadas, dissipando o orvalho da madrugada sob o milagre dos primeiros raios de sol. E são as flores que declaram amor, enfeitam altares e fazem-se presentes na última despedida ao partirmos desta vida.

Mergulhada nessa meditação sublime, senti vontade de cantar a minha imobilidade, transformando-a num hino benfazejo.

Mente e coração andantes

Quero curtir minha imobilidade,
Mobilizando corações,
Marcando passadas
Em cada gesto,
Em cada grão de areia,
Carreando-os para o infinito.

Quero sentir
O gosto de ter pernas.
Acariciá-las,
Com o tato dos dedos,
Mobilizando todas as moléculas.
Quero sentir-me dançando
Ao som de Beethoven ou Bach,
Transando a paz de minha paraplegia
Ao compasso do coração
E à sincronia do cérebro.

Quero andar,
Mais do que todas as pessoas,
Embora saiba que,
Se externamente,
Não marco o chão
Com minhas pegadas,
Meu espírito se alicerça
Em pernas fortes,
Com mente e coração,
Energicamente andantes.

Foi assim que comecei a ser moldada para a nova vida. Adaptar-me ao novo visual não foi fácil. Tive que proceder a incessantes buscas ao meu interior: procurar, nos meandros de mim mesma, as fraquezas escondidas e transformá-las em força direcionada. A autoestima, agora sem a faceirice das pernas dançarinas, foi o carro-chefe para as demais conquistas.

Entretanto a lembrança dos sapatos de salto alto, das competições no trampolim da piscina e das corridas a cavalo e de bicicleta, por vezes, fazia-me gemer a dor do irreversível.

Não podia ser minha própria vítima. Por isso era compensador lembrar-me da fábula em que um homem se maldizia por ter apenas bananas para comer. Qual não fora a sua surpresa ao ver que alguém, atrás de si, estava a comer as cascas.
Assim a vida ainda me parecia muito interessante. Havia muitas cascas de banana atrás de mim. Poderia fazer minhas competições abstratas nos trampolins da imaginação e ser a campeã de todas as corridas, emprestando ao corpo a faceirice do espírito. Poderia mesmo marcar passadas a cada momento, mobilizando muitos corações paralíticos, enrijecidos pelo negativismo, pelo ódio, pela inércia, embora envoltos em ANDANTES CORPOS.

Restaran-me as mãos. As minhas mãos! Feito uma oração, ajudam às minhas pernas, transferindo-as, tão ternas, para a cadeira, o carro... E até quando vou me deitar, lá estão elas dispostas a me ajudar. Por que eu iria desanimar?

quinta-feira, 24 de março de 2011

MENSAGEM AO LEITOR


Eis mais um capítulo do meu livro Pássaro Sem Asas. Um brinde aos meus leitores. Espero que gostem. Na verdade é o último capítulo, embora eu já haja postado alguns aqui, de maneira aleatoria.

MENSAGEM AO LEITOR
(Genaura Tormin)

Leitor, você, que por meio dessas páginas esteve ao meu lado em tantas peripécias, mas também em tanto aprendizado, conquistas e alegrias, deixo o meu agradecimento maior.
Que minhas experiências o conduzam à reflexão e, de repente, você se descubra a pessoa mais feliz do mundo. Aprenda a encontrar a sua própria felicidade. Ela não é comprada, é conquistada. Deve ser desbravada de dentro para fora. E para isso é preciso buscar, amando-se em primeiro lugar e repartindo com os demais o amor que lhe vai no peito. Se não amamos a nós mesmos, como poderemos amar aos outros ou permitir que sejamos amados? Dessa forma, você partirá de si para uma conquista global. É uma receita simplista, mas muito verdadeira. Basta querer. Cultive a sua autoestima, arrume o seu interior e vá à luta!
Há tanta beleza na Terra! Há tanta beleza em você! Aprenda a buscá-la na destreza dos seus passos, na ternura das palavras, na bondade do coração...
Tudo está em constante evolução. As pessoas mudam, o tempo passa, o mundo se transforma na metamorfose da vida. Tudo se esvai com o vagar do tempo, e por vezes nos esquecemos de nós mesmos, do que fomos, do que somos. Nada permanece igual. Restam-nos os bons momentos guardados para sempre nos aposentos da memória.
Cada momento é único e não volta nunca mais.
Encontre motivo para ser feliz numa manhã de sol, num bom-dia ao desconhecido que perdeu o ônibus, na flor que desabrochou no seu jardim, no sorriso do seu filho, na volta a casa... Quantos não têm um lar para voltar!
Seja feliz pela vida que pulsa em você e pelo pulsar de sua própria vida. Você está vivo!
Seja feliz porque pode renascer todos os dias para uma vida melhor. Marque a sua trajetória com pegadas de solidariedade. Você não está aqui por acaso. Você precisa da vida e ela de você! Ponha-se no trabalho e ajude a melhorar o mundo. Uma fagulha, apenas, de sua mente positiva pode ajudá-lo. “Carreando um punhado de terra todos os dias fará uma montanha”.
Seja feliz porque trabalha e pode ser útil ao próximo. A vida é uma escola, uma pós-graduação na matéria em débito. Não perca as muitas oportunidades para evoluir. É na queda que os rios adquirem forças. Aprendemos mais com os erros do que com os acertos, porque eles se gravam mais profundamente em nossa consciência. É preciso saber tirar proveito das experiências adversas para convertê-las em ascensão. Ainda que os passos pareçam frágeis, vá em frente! Não desanime! Avance, abrindo caminhos, cantarolando a vida e incentivando os que se deixam ficar à margem dos caminhos.

Equilíbrio

Evoluir
É ser inteiro, autêntico,
Despojado, verdadeiro,
Dono de si mesmo.
É semear o bem,
Namorar a vida,
Encantar-se com a chuva,
Com o verde da esperança,
Do amor, da flor,
Do mundo!

Otimismo, emoção,
Temperos da jornada.
Há tantos caminhos,
Veredas e estradas...
Nem entorpecidos
Nem hostis os atos.
O equilíbrio é o ideal.
O amor leva à felicidade!
Singularidade de olhar,
Ternura de afago
Constroem rumos e vidas.

A emoção é roupagem da alma,
E a essência é holística.

Coíba a violência, o desamor. Empenhe-se em evoluir em direção à perfeição e procure servir. Contribua! A vida é uma grande máquina, e você, ainda que seja uma minúscula peça, faz parte e é imprescindível para o seu desempenho.
O avanço tecnológico trouxe-nos o progresso, provou a inteligência humana, armou o mundo, possibilitando a desintegração num piscar de olhos, bastando acionar botões. Custou-nos ônus exacerbado. Aproximaram-se as distâncias e distanciaram-se as proximidades, valendo dizer que é no meio da multidão que nos sentimos mais sozinhos.
Precisamos transmitir afeto, paz e alegria, para amainar essa síndrome de violência. Cada um, na condição de ser humano carente, sensível, amorável, tem que se esforçar para fazer feliz o próximo. Pelo menos o mais próximo. Com isso seremos os mais beneficiados, pois o princípio cristão prega: “há mais felicidade em dar do que em receber”.

Ato de amor

Doar, doar-se,
Compartilhar, solidarizar-se!
Eis um sentimento em defesa do amor.
Doar enobrece,
Faz crescer o doador.

Não percam oportunidades:
Doem órgãos,
Façam felicidade!
Renovem um coração cansado;
Devolvam luz a olhos que não mais enxergam
A beleza do mar, do amor,
Da chuva, dos prados, da flor,
Da lua matreira numa noite fria.

Doem a pele, os rins, os ossos,
Até os pequenos fragmentos,
Pois servirão de alento
Aos centros de pesquisas,
Para novos antídotos,
Novas descobertas
Em prol da humanidade.

E o resto,
Quando nada mais tiver serventia,
Que seja deixado num lugar tranqüilo,
Sob a terra pura, o último exílio,
Sem concreto, sem luxúria, sem rebeldia,
Debaixo de um ipê florido,
Tendo um riacho por companhia.

Quem sabe, ainda esses rejeitos
Fecundarão a terra,
Fazendo brotar pequenas flores,
Para aninhar os pássaros cantores
No entardecer?

Despojado das vestes de carne,
O espírito agradecido alçará vôo,
Misturando-se ao infinito,
Planando sobre a terra.

Saia do seu esconderijo! Olhe em volta! Dê um sorriso, uma palavra, até mesmo um gesto, contanto que sejam permeados de amor. Procure ajudar! Una a ajuda material à doçura do seu coração. Transmita paz àqueles que, por insensibilidade ou falta de crença, viciam-se, usando a droga por escudo num processo de autodestruição; enveredam pela violência, ceifando vidas, enquanto você poderá ser a próxima vítima.
Cultive bons pensamentos. Somos produtos da mente. São eles os gestores de nossas ações boas ou más. Corra atrás dos sonhos, pois Charles Chaplin costumava dizer: “Quando deixares de sonhar, poderás continuar vivendo, mas, com certeza, terás deixado de existir”. Nos sonhos se alicerçam os anseios mais caros, os projetos de toda uma vida, o respeito por si mesmo, a autoestima e o dinamismo de viver. Quantas vezes o sonho é acalentado, esperado, trabalhado, sofrido... O importante é que esteja sempre aceso e alicerçado nos princípios da justeza e da dignidade humana. Primeiro, a criação mental, a visualização e o ardente desejo de concretizar o que está tão bem esculpido no cérebro e no coração. Isso é o sonho!
Seja entusiasta! É muito importante saber sorrir! O sorriso é o exercício da afetividade: abre caminhos, cria laços, enfeita a alma e o coração. O sorriso traduz paz, ternura, perdão... Lembre-se de que somos sempre instrumentos a serviço da vida, portanto herdeiros dos nossos atos e senhores de nossas colheitas.
Procure ser nobre, forte e complacente. Afaste as revoltas, recalques, inseguranças, ódios, pois isso não leva senão a nada! Não vai resolver o seu problema. Ninguém lhe devolverá a paz se não a buscar. Pensamentos contrários são regados por forças maléficas e, por vezes, podem redundar em crimes horrendos que abalarão não só você, mas toda a sua família e amigos.
Dizem que quando não podemos transpôr uma montanha, devemos circundá-la até o cume. Assim, para tudo há uma solução viável. Não há problemas insolúveis. Vá à luta! Ouse, trabalhe que o retorno virá, assim como volta pela força da gravidade, o corpo sólido que atiramos ao ar.
Sua vida é a sua vida! Os problemas são o carma do seu ser, intransferível, que com a sua aceitação tornar-se-á leve em seus ombros. E você pode transformá-lo, superá-lo! Dê asas ao seu espírito e desenvolva sua consciência.
Aprenda a ver a vida sempre com olhos novos! O caminho das pedras é mais exuberante e a chegada é mais festiva. A emoção é maior e a felicidade supera as feridas dos pés. Significa crescimento.
Existirá sempre uma esperança num lugar qualquer! Não desista! Você foi feito para vencer!


Viagem

Vida!
Caminhada curta,
Efêmera,
Chama de vela.
A ordem é ser
Ou tentar ser feliz
A cada instante.

Felicidade não é um destino.
Éuma obra de arte,
Uma viagem.
Os momentos são únicos!
Não voltam mais!

Alados por pinceladas de imaginação,
Podem ser mágicos!
Marcos de saudades.

Ame sempre,
Como se nunca tivesse sofrido.
Trabalhe com prazer.
Cante as dores e cultive a paz.

Sorria sempre!
O sorriso enobrece, encanta....
Sorriso é prece!
É Deus dentro da gente!

Encante-se com as pessoas!
Passe-lhes o que há de maravilhoso em si:
O jeito maroto,
O olhar trigueiro,
A maneira manhosa,
Assanhada, faceira...
As gargalhadas e até as lágrimas.

Não é vergonha,
É sensibilidade,
Autenticidade...

Sem que se esforce,
Sem que perceba,
Estará sempre
Entre os parceiros da alegria,
Caminheiros da amizade,
Partícipes de uma linda viagem
Chamada FELICIDADE!

Não se atire à beira dos caminhos! Reaja! A batalha não acabou e você não pode render-se. Junte as migalhas de energia que lhe restam! Somando-as, fará uma fortaleza indestrutível. A mente é o comando e tudo é possível quando a temos ilesa. É preciso, apenas, dirigi-la para frente e para o alto.
Se for ferido em bens materiais, não desanime: vão-se os anéis, ficam os dedos. Matéria compra-se com dinheiro. Dinheiro ganha-se com trabalho. Lute até o fim, busque os sonhos e ideais com a certeza de que os alcançará, restando-lhe a satisfação do bom combate, da perseverança e da crença em si mesmo.
Vamos aprender o sentido da vida, ainda que para isso tenhamos que nos escolar na logoterapia. Com certeza, o sentido vital está na transcendência maior, no amor e dedicação ao próximo, vendo-o como irmão, realçando o seu lado bom e ajudando-o na caminhada para o bem. Se conseguir esse objetivo, verá os seus problemas serem resolvidos por acréscimo, e tanta luz, tantos sucessos lhe advirão que não se reconhecerá no passado.
Os seus problemas físicos, morais e financeiros serão os alicerces para que você suba mais alto. São eles os lapidadores do ser humano. É como a pérola que só é encontrada em certas conchas de moluscos nas profundezas do mar. O molusco precisa ser ferido, e é daí que a secreção se solidifica formando a pérola. Pérola é o produto da dor, uma ferida cicatrizada. Uma ostra que não foi ferida, não produz pérolas.
Para crescermos é preciso que sejamos feridos, assim como a árvore que, para se transformar em fogo que nos fabrica o alimento, precisa ser cortada. Por isso “faça de suas dificuldades um baile e dance encantando a todos à sua volta”.
Infelizmente, o homem perdeu-se em si mesmo na desvairada corrida pelo TER sem se preocupar com o SER. É preciso que resgatemos, com urgência, a nossa identidade antes que venham os maus ventos e soprem o resto de verdade que nos resta.
É preciso AMAR! É preciso armazenar o bem, as boas ações, as transcendências ao infinito, pois, ao partirmos deste planeta TERRA, serão esses mananciais indestrutíveis os pertences de nossa BAGAGEM ETERNA.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

ÚLTIMO DESEJO


ÚLTIMO DESEJO
(Este é um dos capítulos do meu livro PÁSSARO SEM ASAS)
(Genaura Tormin)

O desespero começava a rondar-me, sutilmente, durante os poucos momentos em que ficava sozinha no sofá da copa ou na cadeira de rodas que me arranjara o senhor França. Não tinha destreza para manejá-la. Não tinha traquejo com veículo tão desajeitado e estava fraca, muito vulnerável. Ela era grande e por vezes transformava-se numa cama. Assim não vencia distâncias enquanto os olhos alcançavam longe os afazeres de dona de casa. Agora não mais os podia fazer. Teria que ser indulgente até para determiná-los.

Foi aí que tomei consciência do que me havia acontecido e do que ainda iria me acontecer. Era “chumbo grosso” e a solução era remota. O jeito era poetar a desventura:

MEDITANDO

Dia comprido,
Sem sol,
Sem flores,
Sem amores.

Frio no tempo,
Cansaço,
Loucura,
E na alma,
O muito que apavora.

Em tudo,
A saudade que queima,
A lâmina que fere,
O frio que aumenta,
A lágrima que cai
E a dor do irreversível.

Cada dificuldade das crianças ou na rotina da casa refletia-se em mim como constante reafirmação de minha inutilidade, de impotência, além dos muitos cerceamentos estampados no próprio corpo e na liberdade de ir-e-vir.

Temendo uma crise depressiva, ocupava-me o tempo todo para não pensar, até acostumar-me às novas condições de vida. Por sorte, tinha muitas visitas, recebia telefonemas e os fazia também. Carinho não me faltava. E foi assim que fui informada de um curso para formação de Delegados de Polícia, que se estendia a comissários com o objetivo de preencher vagas nas demais delegacias, mediante concurso interno.

Por telefone, obtive todas as informações necessárias sobre o curso preparatório. Informei-me, também, sobre a compra de uma cadeira de rodas menor que pudesse ser transportada no porta-malas do carro. Sem vivência com “veículo tão esdrúxulo”, achei o preço muito elevado, mesmo por que não pensava que a paralisia pudesse ser irreversível. A esperança é a última que morre, embora as evidências de uma deficiência permanente se estampassem a todo o momento.

Por ser Comissária de Polícia, bacharela em Direito, pertencer aos quadros da Polícia Civil há dezesseis anos, resolvi enfileirar-me entre os concorrentes. Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder. Era a oportunidade que me batia à porta. Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica! Registrei a idéia e parti para o confronto. Talvez o mais ousado de toda a minha vida. Era tudo ou NADA!

Entrei em contato com a Associação dos Deficientes Físicos, cuja presidenta, uma mulher bonita, de olhos claros e semblante amigo, havia-me visitado no hospital. Não a encontrei. Deram-me o seu telefone. Minutos depois, estávamos numa progressista conversa. Ela era muito otimista. Havia feito advocacia e incentivou-me ao curso, emprestando-me uma de suas cadeiras, pois, também era paraplégica. Já me imaginava trabalhando, sentada à mesa de espaçoso gabinete, presidindo muitos inquéritos.

Assim, certamente, esquecer-me-ia dos próprios problemas. Embora o corpo estivesse fragilizado, a mente estava sã, agarrada com unhas e dentes aos louros do iminente sucesso.
A força não provém da capacidade física e sim de uma vontade indomável, disse Mahatma Gandhi. Somos o que pensamos ser. Dei asas à imaginação e o meu desejo tomou formas, cores e vida.

Agora esperava o momento de conseguir a anuência do Alfredo de quem muito precisava para a consecução de tal façanha. Mesmo com jeitinho, ele não anuíra ao pedido. Enumerara uma leva de dificuldades: condições psíquicas, físicas, fisiológicas, e ainda as escadarias até o anfiteatro onde se realizaria o curso.

Não me dei por vencida. Iria tentar outra vez ou muitas outras vezes.
O ambiente desafiador é o sucesso do guerreiro, a arma de sua luta, o front de sua trincheira. E eu precisava construir o meu universo, seguir a minha vida!
Nos meandros de mim mesma, pensava: e se eu ficar paraplégica para o resto da vida? Receberei mísera pensão por invalidez que mal dará para comprar remédios. E a inércia, o não fazer nada, a ociosidade... NÃO! Vou à luta! Tenho mente sã e posso ser uma delegada! É um cargo de comando, cartorário. Poderei servir de exemplo a outras pessoas com deficiência física. Poderei abrir caminhos. Não vou permitir que a vida me transforme num cadáver vivo! Tenho muito ainda a fazer! Tenho flechas na aljava e mantimento para o caminho.

O curso estava prestes a começar. O Alfredo continuava achando absurda a minha pretensão e por nada cedia. Havia cinco dias que estava em casa, mas, imbuída na consecução do meu tão importante desejo, os dias lentamente se arrastavam, talvez, dado ao cerceamento de ficar ali, sempre, sem poder andar, presa ao sofá ou à cadeira de rodas que não passava nas portas. Precisava ser forte, resistir, vencer e sublimar o que realmente não pudesse mudar:

SUBLIMAÇÃO

Viver
É realizar-se,
Amar,
Sofrer,
Resistir.

Realizar-se
É não se subjugar:
É ser forte ou frágil,
Se preciso.

Realizar-se é,
Antes de tudo,
Ousar,
Trabalhar,
Sublimar para não sofrer,
Diante do que não se pode mudar.

No dia seguinte começaria o curso. Precisava urgentemente fazer alguma coisa dramática para convencer o Alfredo. Por sorte, recebemos a visita de um compadre, Francisco, homem simples, acostumado a lavrar a terra, a acreditar no ser humano e dedicar-lhe respeito e solidariedade. Ao me ver estendida no sofá, sem mobilidade e totalmente dormente dos seios para baixo, ficara em pânico. Lamentando-se, o compadre, com os olhos rasos de água, relembrou as lutas que nos alicerçaram: a situação financeira no início do casamento, que me fazia costurar para ganhar dinheiro nos feriados e fins de semana, tendo em vista trabalhar o dia inteiro na Secretaria de Segurança Pública; as dificuldades para estudar, pois eu e Alfredo ingressamos no curso de Direito quando esperávamos o último filho, sendo que os outros ainda eram bem pequenos. Aproveitando do ensejo, disse do curso preparatório que pretendia fazer e o compadre horrorizou-se. Na sua simplicidade, entendeu que seria o meu último desejo em vida. Pela esposa e mãe batalhadoras que havia sido, o Alfredo deveria satisfazê-lo para não ter remorsos depois.

Assim consegui a aprovação do marido. No dia seguinte, estávamos a caminho para o primeiro dia de aula. “Nas grandes batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer” — dizia Gandhi. Desejo era o que não me faltava, talvez impulsionada pelo medo da inutilidade a que o destino estava tentando atirar-me.

Preenchi-me de coragem, pensei positivo e parti resoluta e firme, convicta de que não perderia a guerra. Entretanto a aproximação dos colegas curiosos com a repentina paraplegia, de vez em quando me marejava os olhos. A falta de mobilidade locomotora, o ter de ficar ali à espera sempre, as grandes rodas da cadeira e o elo que me prendia a ela, deixavam-me grande tristeza, que procurava esconder sob sorrisos. Como era difícil prestar-me a tão dura cena, enquanto o coração gritava: — chora! Você tem direito. Deixa-se volver em rios, em mares...

Alfredo subia as escadas carregando-me nos braços, enquanto o Dr. Messias, solidariamente, conduzia a cadeira de rodas. Éramos “marinheiros de primeira viagem” e ainda não sabíamos que era bem mais fácil subir as escadas sentada na própria cadeira de rodas.

Numa dessas vezes, um colega, que me via pela primeira vez sem andar, aproximou-se timidamente, pálido, emocionado, sem conseguir esconder os olhos marejados. Num esforço sobre-humano tentei confortá-lo:
— Veja como sou querida! Quando voltar a andar, sentirei falta de o maridão carregar-me ao colo... Viu que bebezão sou eu!? Assim evitei suas palavras de lamento e o vi afastar-se acabrunhado.

Dois lanços de escadas até o anfiteatro onde seria ministrado o curso. Muitos colegas e os professores: Dr. Miguel Batista de Siqueira, então Superintendente da Academia de Polícia de Goiás e seu irmão, Dr. Geraldo, Procurador de Justiça. Não podendo ocupar uma poltrona, postei-me na lateral, mesmo na cadeira de rodas. Com o caderno sobre os joelhos, percebi com surpresa que não conseguia fazer anotações. A lesão medular, localizada logo abaixo dos seios, bloqueara-me o equilíbrio. O que fazer? Cada vez que tentava, sentia-me caindo para frente. E agora? Pensei no propósito que havia feito, ainda no hospital, de ir à luta por mim, pelos filhos, marido, pela vida... Agora, abandonar tudo? Voltar e me ver morrer aos poucos? Isso não faria jamais! Era muita covardia comigo mesma. Afinal a mente estava sã.

Naquela limitação gritante, estava perdida. Os colegas olhavam-me, dirigiam-me palavras de otimismo, enquanto muitos passavam a mão sobre os meus cabelos ou beijavam-me. Um deles, inadvertidamente, chegou a dizer-me que se ficasse com tamanho cerceamento preferiria suicidar-se.

Alfredo, ao lado, percebia a dificuldade. No trajeto para casa, tentou persuadir-me a abandonar o curso. Primeiro, porque me tomava o dia inteiro, impedindo-me de fazer fisioterapia. Depois, porque eu não conseguia fazer anotações, por falta de equilíbrio. Dessa forma, como estudaria, como conseguiria aprovação? Foi aí que me lembrei do velho gravador com o qual havia registrado as aulas mais importantes do curso de Direito. A solução estava arranjada! Era só comprar fitas cassete. Poderia gravar tudo e reestudar quantas vezes fossem necessárias. Para conseguir aprovação, iria dar o sangue. Não seria por falta de estudar. Derrota era e é um vocábulo muito feio para mim. Não me subjugaria a ela.

Passei a fazer a fisioterapia no intervalo para o almoço, logo que saíamos do curso, às 11 horas (das 11 às 12 horas) no Hospital Ortopédico, onde, por vezes, colocavam-me de pé, com as pernas em “canaletas”, devidamente enfaixadas, quando era tomada por horrível sensação de desmaio, impotência, desfalecimento. Tal exercício era necessário, pois eu tinha que reconquistar a posição vertical. O consciente negava-se a aceitar uma postura sentada.

— Que coisa estranha! Em apenas um mês, quanta mudança! — pensava confusa.
E assim, íamos driblando a vida. Acordava às 5 horas para ter condições de estar na escola às 7h15min. Não podia ser diferente porque ocupava cadeira de rodas. Afinal, lutava por isonomia e pleiteava um cargo de Delegado de Polícia que, para o público, era mais do que um paradoxo. Precisava descartar a tão conhecida “pena” que tanto nos faz mal, e preparar-me bem para conquistar a aprovação no final.

Prestava-me, todas as manhãs, à difícil e complicada mão-de-obra, principalmente por ser nova na profissão de paraplégica.
Ajudada pelo Alfredo, tomava banho, ficava bonita com batom até os cantos das orelhas. Com dificuldade, fazia escova nos cabelos e moderada maquiagem. Usava brincos como arte final. Acredito que a vaidade deve ser inerente à mulher. Bom semblante espalha bons presságios. Esmerava-me nisso para ficar bem comigo e causar boa impressão.

Numa dessas manhãs, prontinha para mais um dia de aula, fui alertada pelo odor de que não estava bem do intestino. Alfredo levava-me nos braços para o carro e o produto escorria pelo cós da calça, caindo sobre os seus pés. Tristeza?! Põe tristeza nisso! Eu não podia perder a aula, o curso, o concurso... Voltamos para o banheiro. Banho da cabeça aos pés, com sabonete bem cheiroso. Depois, de cabelinhos molhados, roupa limpa, ambos sentamos para uma conversa. Alfredo tentava persuadir-me, novamente, a deixar o curso. Seria impossível! E se ocorresse em classe?

Não sei onde adquiri tantas respostas convincentes. O certo é que chegamos atrasados, mas não faltamos à aula naquele dia. Outros casos, graves assim, não ocorreram, mas fui obrigada a aprender a balancear a alimentação. Tudo demais é veneno: nem muita folha nem muita massa. Temos que achar o equilíbrio.

Voltávamos para o almoço, quando os filhos preocupados queriam saber de todos os pormenores. Retornávamos ao curso às 13h30min, cujas aulas se estendiam até as 17 horas, quando novamente prestava-me à feitura da fisioterapia, agora em casa, com técnico previamente contratado. Os exercícios, feitos sobre um acolchoado no chão da varanda, eram práticas inusitadas para todos nós. O técnico fletia várias vezes as minhas articulações. Eram os manuseios. Tentava sem êxito colocar-me ajoelhada e de “gatão”. Aos olhos dos filhos, esforçava-me para fazer os exercícios ou deles participar na esperança de que me devolvessem os passos, a minha liberdade roubada, o poder correr, pular corda com as crianças, subir às árvores ou correr pelo areal das praias ao encontro das ondas quebradiças.

Enquanto me deixava manusear pelo técnico, em silêncio, lembrava-me de uma reportagem televisiva, de caráter científico, em que cercearam a locomoção de um pequeno coelho que servia de cobaia a pesquisas experimentais, tornando-o paraplégico. Com os olhos esbugalhados, querendo viver a todo custo, o pobrezinho, apenas com as patas dianteiras ilesas, arrastava seu pesado corpo desgovernado sobre a mesa do laboratório. Agora, como parecia com ele! Mas a minha missão era menos digna: não me prestava a experiências para a consecução de antídotos ou descobertas beneficentes à humanidade. E não havia sido imolada. A paraplegia viera de graça, de presente numa noite de festa. Entretanto como queria viver! Tenho consciência de que o corpo físico nada mais é do que uma farda de carne que envergamos para cumprir o nosso desiderato. Por isso a vida é uma curta viagem em que não se pode perder tempo. Até dos dissabores devemos tirar proveito. Quem sabe o coelho ensinava-me uma lição de resistência e crescimento. Teria que aproveitar a oportunidade. Por isso, mesmo depois de expirado o último fôlego de vida, ainda nos resta a oportunidade de servir.

Depois da morte do meu corpo físico, gostaria que todos os meus órgãos sãos fossem utilizados para, por exemplo, fazer pulsar um coração cansado; dar luz a olhos que nunca enxergaram...

Queria que até as mínimas partículas servissem de material de estudo aos futuros profissionais da área de saúde. Quem sabe para desenvolver a nanotecnologia, devolvendo a audição a quem nunca pôde ouvir uma música, o zumbido das abelhas, os refrulhos sonoros de um riacho, uma declaração de amor... Quem sabe, esses órgãos inanimados, essas partículas abandonadas, ainda possam contribuir para o estudo e o aperfeiçoamento da medicina, criando caminhos e mais saúde para todos. Gostaria que o resto, quando nada mais tivesse serventia, fosse deixado num lugar tranqüilo sob a terra pura, sem concreto, porque assim, ainda serviria de adubo para florescer um gerânio vermelho, símbolo de minha luta pela vida.

A ciência não conseguiu provar a inexistência de Deus. Ele existe! E eu acredito num Deus perfeito, do qual somos a criação. A alma não desce à sepultura, transcende à Casa do Pai. Daqui não levaremos nada, apenas o bem ou o mal que tenhamos praticado.

Acredito que já vivemos muitas existências e viveremos muito mais outras. Elas agem em nós feito um processo lapidador, respeitando o livre-arbítrio. A multiplicidade das existências no corpo físico não constitui apenas uma afirmação evangélica, mas uma verdade científica e filosófica, explicada pela Lei do Progresso, claramente estampada nas diferenças sociais, nas doenças congênitas, além de muitos acontecimentos atribuídos a fatalidades. E isso é necessário para que o espírito evolua, tendo por mestres a dor e as muitas experiências que, com certeza, o qualificará para o exercício do amor a si e ao seu próximo. Por isso este é um mundo de provações, próprio para o resgate de erros do passado. Ninguém reencarna sem uma cruz para carregar. É o que se chama de carma que pode ser de ordem física, moral ou financeira.

Com esse entendimento e partindo do princípio de que o Pai é justo, a aceitação do carma reverte-se em escadas para subirmos cada vez mais alto. Assim, aceitar a reencarnação significou aceitar a mim mesma. Significou a dura tentativa de relacionamento pacífico com o meu corpo paralítico.

(Após tudo isso, aprendi tanto! E eis-me aqui, forte e firme, alegre e bonita! Minha cadeira apenas me enfeita a silhueta, dando-me a oportunidade de servir mais, amar mais e seguir contente. Meu trabalho torna-me um ser humano INTEIRO.)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

À ESPERA DE UM HOMEM BONITO


À ESPERA DE UM HOMEM BONITO
(Genaura Tormin)

(Este é um capítulo do meu livro PÁSSARO SEM ASAS. Um brinde aos meus leitores, o que faço com muito prazer.)

Os filhos sempre os melhores possíveis. Alfredo, no seu cargo de supervisor da Delegacia Geral, tinha que dar plantões noturnos periódicos. Nessas noites, Fernando assumia o lugar do pai: dormia comigo. A qualquer impasse, estava aquele “homenzinho” debulhado em préstimos a assessorar-me, sempre com o sorriso estampado no rosto e o linguajar afetivo. Por vezes, quando o acordava para fazer-me algum favor, ainda de olhinhos fechados, deixava o sorriso responder. Como posso esquecer? Foram esses pequenos gestos de amor que me impulsionaram a galgar espaços, conquistar divisas. Eu tinha que devolver alguma coisa. Quando a gente ganha um beijo, geralmente quer devolver dois, não é assim?

O carrinho proporcionava-me liberdade. Deslocava-me sozinha ao trabalho, às compras, às visitas. Isso me devolvia a sensação de normalidade. Satisfazia o meu ego.
Uma cadeira de rodas no porta-malas do carro, outra no local de trabalho e a última na garagem da casa facilitavam a tão desejada independência.

A primeira vez que fui visitar papai, no Estado de Minas Gerais, ele assustou-se ao me ver à direção do carro e exclamou, antes que eu descesse:
— Graças a Deus! Filha, eu sabia que você ia andar! Deus é grande e você não merecia ficar paraplégica! Que surpresa agradável você me fez! Estou passando mal... O coração bate descompassado!

Acho que papai, em sua desinformação, não sabia da existência de carro adaptado para paraplégicos. Pena que a surpresa era, justamente, o carro e eu à sua direção. Depois de tomar um pouco d’água açucarada, papai ficou menos ofegante quando lhe pude falar, ainda, de dentro do veículo:
— Não, papai, ainda não estou andando. Mas estou bem. Não se anda somente com as pernas. Viu como posso correr, ao volante do carro, com as mãos? Vencer toda essa distância para vê-lo? Mais importante do que andar é aceitar-se, viver todos os momentos com intensidade, superar os obstáculos e deles fazer degraus para novas investidas. O que me aconteceu não foi em vão. Observou como me tornei guerreira? Tudo tem uma razão de ser. Há sempre uma lição a ser aprendida, um crescimento a ser galgado. Deus é justo e tudo converge para o nosso bem, o senhor não acha? Estou construindo o caminho para o meu futuro, e isso significa muito para mim. Quem sabe, ainda poderei deixar meus rastros pela estrada?

Sempre que vou às compras no centro da cidade, fico à espera de um homem bonito, bem vestido, e, se possível, ensimesmado e arrogante, quando lhe dirijo a palavra:
— Por gentileza, meu senhor! Eu não ando e gostaria que me tirasse a cadeira de rodas do porta-malas do carro. Vou fazer compras na loja em frente.
Geralmente, ninguém se tem furtado ao meu apelo. Tento cumprir o figurino da primeira impressão, do materialismo; do que vulgarmente chamamos de invólucro, casca: cabelos bem dispostos em madeixas sinuosas; maquiagem bem feita; sorriso até os cantos das orelhas e alguns adereços que dão realce à arte-final.

Após me prestar a ajuda, o homem bonito, ensimesmado, geralmente não se contém e, com certeza, pergunta sempre:
— Foi acidente? Como pode uma mulher tão bonita numa cadeira de rodas?
— Não! Não foi acidente. Demos uma festa em casa, aniversário dos filhos, e no dia seguinte acordei paraplégica. Sem dor, sem febre, sem nada. Isso me leva a crer que não estamos neste mundo por acaso. A alma transcende ao Criador. Ninguém se responsabilizará por nossas culpas. Se não as pagarmos numa só vida, viremos noutra para resgatar a dívida. Hoje não tenho dúvidas disso. Acho que precisamos, com urgência, repensar nossos atos; norteá-los de amor ao próximo, vendo-o como importância maior, pois, ao partirmos deste mundo, não levaremos bens materiais, posições, títulos, mas simplesmente o bem ou o mal que tenhamos praticado aqui. Assim, quando temos que resgatar alguma dívida basta uma desculpa e eis a fatalidade! Comigo nem desculpa. A fatalidade veio numa noite de festa — costumo explicar.

Não posso perder a oportunidade de fazer alguma coisa. Quase sempre o homem bonito despoja-se do seu pedestal e auxilia-me até o meu itinerário, tratando-me com lhaneza.
Fica sempre o sentimento de haver plantado uma fagulha de ensinamento, de relações humanas, de prática logoterápica.

Certa vez, depois de uma palestra em comemoração ao Dia da Mulher, uma senhora dirigiu-me a palavra:
— Queria muito conhecê-la! A senhora mudou a vida do meu cunhado. Ele a encontrou fazendo compras e até ajudou tirar a sua cadeira de rodas do carro. Ele sofreu uma metamorfose com o que a senhora lhe dissera. Era mesmo um “cavalo” em casa e na firma. Está outro — concluiu.

Ao parar à porta da delegacia, dava dois toques na buzina convencionados como código, para que um policial conduzisse minha cadeira até a porta do carro, o que era feito com muita presteza. Sozinha fazia a transferência para ela, fechava a porta, colocava a bolsa sobre os joelhos e vencia a distância até o meu gabinete, passando pela sala de espera.

Numa segunda-feira, aconteceu-me algo inusitado.
Um senhor claro, robusto, com fisionomia que me lembrara o papai, encontrava-se triste, encostado à parede, na entrada da delegacia. Passando, dirigi-lhe um “bom-dia”. Senti vontade de atendê-lo em primeiro lugar, pela lembrança que me causara e por seu estado depressivo. Rodei a cadeira para trás e interpelei-o:
— O senhor vai tratar aqui, na Delegacia de Menores?
— Vou sim — respondeu.
— E qual é o seu problema? — voltei a perguntar.
Olhando-me de cima para baixo, como se estivesse a radiografar-me, o senhor trocou a morbidez por uma fisionomia austera. Comprimiu a testa, expeliu dois muxoxos e, como eu ainda esperasse, respondeu em tom agressivo:
— O meu assunto diz respeito somente à minha pessoa e ao Delegado de Menores. Não costumo contar os meus problemas para estranhos, ainda mais para uma aleijada.
— Tudo bem! — respondi e saí. Certamente, acordara com o pé esquerdo ou era a oportunidade para mais um trabalho na “seara”.

Menos de uma hora, aquele senhor estava à minha frente.
— Bom-dia! — dissera ele.
— Bom-dia! Em que lhe posso ser útil?
— Posso me sentar?
— À vontade.
— Tenho um filho menor de idade que é toxicômano. Foi preso nesse fim de semana. Já fiz tudo para tirá-lo desse vício, mas não adiantou. Viciou-se aos 13 anos. Mudamos daqui para o interior, onde ficamos por três anos. Tem uma semana que retornamos. Tudo voltou: a droga e a prisão. Vou desistir — lamentara o senhor.
— Não! Os pais jamais podem desistir. Se os filhos não precisassem de pai e mãe, nasceriam feito batata no brejo. Igual à planta. A responsabilidade dos pais é bíblica. Vou ajudá-lo.

Mandei pesquisar o arquivo e eis que o menor contava com passagens por uso de substâncias tóxicas, e agora, cocaína.
— Quem sabe uma clínica para desintoxicar? O senhor arranjará a clínica. Para todos os efeitos, ele estará sendo internado pela delegacia. Mandarei levá-lo. Ele não ficará sabendo nem que o senhor esteve aqui. Isso, para preservar o diálogo e o respeito entre vocês. Depois, em sã consciência poderá aceitar outros tratamentos.
Seu filho nunca deixou de usar tóxico. Como é o seu relacionamento com ele? O senhor sabe quem são os seus amigos? O senhor se preocupa se ele dorme ou não em casa? Já pensou em dar-lhe uma atividade responsável, mesmo em seu ramo de negócios, para que ele se sinta valorizado, produtivo? Ser pai é espinhoso! Será que o senhor tem sido um bom pai? Quase sempre o menor quer revelar insatisfação, uma carência, procedendo dessa maneira no mundo das drogas.

Vida é saber se relacionar; é tratar bem, dialogar, ajudar, dar um sorriso, uma palavra de apoio, uma batidinha no ombro, um gesto de solidariedade, um bom-dia agradável... A propósito, ainda há pouco, uma paraplégica, uma aleijada mesmo, como o senhor disse, dirigiu-lhe a palavra, espargiu-lhe um sorriso, tacitamente lhe oferecendo ajuda. E qual foi a troca? Meu amigo, a mente continua a mesma, o coração muito maior. Continuo sendo gente do mesmo jeito. Com uma diferença: aprendi a discernir o bem e o mal. O sofrimento aparou-me as arestas. Ensinou-me a ver o ser humano pela essência, pela alma que não se encerra nessa caminhada.
Não continuei porque o austero homem chorava. Levantara-se, dera-me um beijo na testa, talvez o primeiro tão humilde e espontâneo de toda a sua vida. À tarde, telefonara-me passando o nome da clínica. Não fiquei sabendo de mais notícias porque o menor não mais retornara à delegacia.

O sofrimento é um excelente buril para lapidar o diamante bruto que há em cada um de nós. É o instrumento que o faz brilhar e encantar e nos encantar também. É amando a nós mesmos que nos abrimos para a vida; que sentimos a beleza de amar e nos deixar amar. É com o sofrimento que, realmente, tomamos consciência do que somos e do que ainda poderemos aprender e ser, usando o otimismo por escudo quando a dificuldade bater. Admiti-lo não significa derrotismo, mas um caminho para chegar à sabedoria, que nos eleva a um estado de autoconhecimento, de paz interior. É nesse estágio que afloram as descobertas, sempre alicerçadas pela coragem.

Muitos outros fatos similares ocorrem sempre, aumentando o meu desejo de trabalhar. É verdade que o trabalho da pessoa com deficiência física, aos olhos do leigo, parece sacrificado. Mas sacrifício maior é anulá-la como força produtiva, relegando-a ao ostracismo, numa aposentadoria humilhante, além de diminuir-lhe a qualidade de vida e acrescentar os problemas sociais.

Não devemos ver os obstáculos pela ótica negativa, mas pela gratificação de abrir caminhos, criar mentalidade, contribuindo para novos tempos.
Por outro lado, não devemos permitir que os sentimentos de compaixão ou repulsa releguem-nos à inutilidade numa ociosidade crônica. Com tenacidade mostraremos o valor do nosso trabalho e as discriminações só persistirão se nós as aceitarmos, fazendo-nos de vítimas, apresentando indolência, insegurança, subserviência, buscando protecionismo sob o álibi da deficiência física.

Sartre dizia que “o importante não é o que fizeram do homem, mas o que ele faz do que fizeram dele”. Assim, precisamos entender a mensagem, arregaçar as mangas e erigir uma obra de arte sobre as limitações físicas que a vida nos legou, tornando-as objeto de nosso desafio.
Quero dizer que em paraplegia, e nas deficiências em geral, adaptar-se é irreversível. A coragem e a autoestima são ferramentas imprescindíveis para a conquista de qualidade de vida.

É oportuno desbravar de dentro para fora. A maior batalha é enfrentada com nós mesmos. Caso contrário corremos o risco de nos transformar em “cadáveres vivos”. O tratamento físico deve ser aliado ao psíquico, pois entre doença e doente há uma distância muito grande. Uma mente sadia e bem direcionada é a solução. O otimismo deve ser a bandeira desfraldada a cada dificuldade.

O iogue contemporâneo Paramahansa Yogananda, referindo-se aos revezes da jornada, afirmara: “Nada vos virá que não hajas merecido agora ou logrado com anterioridade”. E eu acredito nisso. Não há fardo pesado para ombros fracos. Sempre há a equivalência. O coração e a intuição são os nossos mestres! É a voz de Deus dentro da gente. Devemos segui-la sem medo de errar, desde que os feitos se enquadrem nos parâmetros da dignidade e da justiça.

“As reencarnações são os degraus pelos quais o ser se eleva e progride”. Por isso a existência é feita de momentos ruins e bons, tristes e alegres, e, muito mais de renhidas batalhas. Tudo impulsionado pela infalível Lei de Causa e Efeito e do livre-arbítrio que se equilibram no transcurso de sinuosas veredas que, por vezes, parecem-nos fatalidades. É a hora da responsabilidade! Somos herdeiros de nossos erros e acertos, embora a infra-estrutura da alma seja intocável. Por isso é preciso ultrapassar as formas físicas e vislumbrar a essência, empunhando a deficiência com honradez, encontrando, por meio dela, as escadas de ascensão à nossa conduta moral, além do exercício da humildade, do amor e do perdão.

Às vezes, as provas, as agruras e a limitações físicas, quando bem entendidas, podem reverter-se em privilégio. A meta tem de ser alcançada. O alvo é o sucesso com a conquista de nós mesmos, aproveitando as pedras do caminho para a construção de nossa própria escada. É bom pensar que a queda pode também nos arremessar ao alto. Todos nós carregamos as cicatrizes do nosso “ontem”, e elas não nos impedirão de sorrir. Dependendo da disposição mental, tudo se transforma. O que ontem foi tempestade, hoje pode ser bonança.
Se eu não fosse paraplégica não estaria aqui, passando-lhes minhas experiências. Não teria escrito Pássaro Sem Asas, que alcança um próximo um pouquinho mais longe. E por isso pesa-me também a responsabilidade.

Precisamos lutar pelo reconhecimento da igualdade jurídica e pelo direito ao trabalho, máxima maior estampada na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Apesar de integrar uma minoria, geralmente relegada à exclusão e exposta a concepções desprezivas, a pessoa com deficiência, devidamente inserida num local de trabalho sem barreiras que lhe impeçam o caminhar, produz, cria e se evidencia em competência, auxiliada pelo desafio.

Conheço paraplégicos que se destacam como empresários, farmacêuticos, veterinários, arquitetos, dentistas, altos servidores públicos, professores universitários, causídicos renomados, deputados, vereadores, juízes, ministros, e até Ministro-Presidente. Há médicos paraplégicos que nada deixam a desejar dentro de suas especialidades. Tenho um colega Delegado de Polícia, com total deficiência visual, que dá a volta por cima, desempenhando um excelente trabalho. Ainda, muitos escritores, como Wiliam César Alves Machado - doutor em enfermagem - que tem empunhado sua bandeira em defesa da pessoa com deficiência, lançando livros e artigos sobre essa temática, apontando caminhos e dirimindo dúvidas.

Há pouco, conheci uma moça com Osteogênese Imperfecta, com uma estatura similar a de uma criança de quatro anos, que, não obstante as muitas dificuldades, próprias do arraigado preconceito e da desinformação da sociedade e das autoridades constituídas, é farmacêutica e professora universitária. É um referencial que alenta, concitando-nos a uma escalada, cada vez maior, na busca dos nossos espaços, por que não dizer, dos nossos direitos como cidadãos e herdeiros deste País.
É dever de o Estado cuidar da habilitação e reabilitação da pessoa com deficiência, integrando-a no mercado de trabalho, além de se preocupar com o atendimento especializado nas áreas da educação e da formação profissional, pois, muitas vezes, para a pessoa com deficiência, o trabalho pode ter fins terapêuticos, melhorando sensivelmente sua saúde física e mental, aumentando-lhe a autoestima, respeitando, assim, a sua dignidade de ser humano como um dos fundamentos da nossa Carta Magna.

Doença não combina com felicidade. Quem está feliz não adoece. Está provado que as pessoas otimistas têm sistema imunológico mais resistente. A essência do bem é a grande controladora da vida. É oportuno que corramos atrás do estado de felicidade. Ele não é uma dádiva. É, principalmente, uma conquista e o desbravamento é de dentro para fora. Tudo está dentro de nós em estado letárgico. Aflorar esses estados é uma questão de sabedoria. Exige coragem e determinação. Ocupar a mente, trabalhar, doar-se, reconhecer os próprios potencias, enfim, gostar-se é a melhor receita.

É preciso que sejamos artistas na reconstrução de uma vida melhor. Quem sabe, reinventar a vida seja a solução?

domingo, 18 de abril de 2010

O MÉRITO NÃO FOI MEU


O MÉRITO NÃO FOI MEU
(Genaura Tomin)

Passaram-se alguns anos desde a última vez que, voluntariamente, dirigi meus passos, impregnando formas no chão. Fisicamente não consegui andar, mesmo envidando muitos esforços. Entretanto minhas pegadas avolumaram-se na caminhada do bem servir e no conhecimento do existir, tornando-me forte e altiva, apesar do rangido brusco de quatro rodas pelo chão.

Dentro de minhas limitações, sou livre: corro em idéias, em versos, em sorrisos, em trabalho, em transcendências ao infinito.

Ouso dizer que o mérito não foi meu, mas de toda a minha família, parentes, colegas de trabalho, amigos e conhecidos, a quem cabe a responsabilidade pelo meu desejo, cada vez maior, de vencer.

Rendo gratidão aos espíritos evoluídos dos meus superiores da Secretaria da Segurança Pública e Justiça do Estado de Goiás que me conservaram no cargo, valorizando a minha competência, embora a natureza do trabalho exercido ali fosse, em princípio, um paradoxo à minha condição física. Entenderam que o maior potencial está na disposição para vencer, além do preparo técnico-científico inerente ao exercício do cargo.

Naquela época, trabalhar numa cadeira de rodas era um fato estranho, quase inusitado, embora a deficiência constitua uma parte natural da experiência humana. E o exemplo ficou para todos os órgãos públicos e privados.

Atribuo o maior mérito ao meu marido Alfredo que em nenhum momento tem-se cansado da caminhada. Combativo, determinado, não tem poupado esforços para me devolver não duas pernas, mas uma miríade delas. Sinto-me uma centopéia. Estou cheinha de pernas. Mais do que preciso. Ambos chegamos a uma autotransformação mediante um processo de evolução consciente. Mesmo quando eu menos mereço, ele é capaz de me amar.

A ele, reitero o meu carinho, a minha gratidão. Nossa cumplicidade tornou-nos imbatíveis e unos. A ele o carinho dos meus versos:

Indivisibilidade

Quando tu partires
Irei contigo.
Levarei o aconchego da noite
Para te fazer feliz.

Serei suave,
Feito o balanço do mar,
Para te amar,
Amor.

Irei contigo
Aonde fores.
Tuas pegadas
Serão as minhas pegadas,
E eu te amarei
Em todos os momentos.

Não choraremos
Porque as lágrimas secaram
Com o sol da manhã,
Fazendo-nos fortes
A qualquer embate.

Irei contigo
Até o infinito,
Onde tudo é perfeito,
Sem dor,
Sem mutilação,
Sem medo.

Irei contigo,
Amor,
Porque faço parte de ti,
E tu és tudo
Que sempre cultivei em mim.
Assim,
Seremos indivisíveis,
Unos e eternos.

Alfredo estava sempre comigo nas primeiras vezes. Juntos, ganhamos a corrida. Subimos ao pódio. Ganhamos o troféu.
Voltei a fazer tudo o que fazia antes. Às vezes a situação torna-se apenas engraçada, nunca impossível.

Trabalho todos os dias e nos feriados e fins de semana vou à cozinha, arrumo armários, conserto roupas como toda dona de casa. O fazer não está sempre adstrito em subir escadas para alcançar armários embutidos, mas administrar, estar presente, coordenar, dar as cartas. Assim as barreiras não existem. Os encargos são-me atribuídos como antes. Não sou vista diminuída, mas até acrescida. Permito-me todos os afazeres: comigo, com o marido, com os filhos e com o meu trabalho. Se o avançado da hora se registra e o dever me chama, aceito ajuda como qualquer pessoa andante, não como dependente.

A vida social continua. Participamos até de bailes. Temos uma Associação de Delegados, com excelente sede e farta pista de dança, onde praticamos lazer, trocamos idéias, tomamos uma cervejinha e dançamos. No início, os colegas paparicavam-me muito. Aproximavam-se de nossa mesa para nos fazer companhia e externar solidariedade. Usavam o elogio para compensar a disfunção dos meus membros inferiores, tão indispensáveis para a dança, o que eu retrucava com galhardia:
— Você não leu o “Meu pé de laranja-lima”, de José Mauro de Vasconcelos, Saint Exupery... “O essencial é invisível aos olhos, é preciso buscar com o coração”. Por isso, colega, fui eu quem iniciou a dança, quem inaugurou a pista. Adoro dançar! Danço em cada um de vocês e com cada um de vocês. Em cada passo, estou atenta para não errar. Danço com a alma, com o coração e sinto que a cada dia bailo melhor, encontro-me com a vida e sou feliz.

Aprendi a conviver pacificamente com as amarras da deficiência. Não me reconheço no passado. Acho que sou uma nova mulher. Gosto-me assim. Consigo driblar dificuldades e isso significa muito para mim.

De todas essas dificuldades, a falta de sensibilidade é a que mais dói e a que mais deve ser observada. Certa vez fui a um jantar dançante. Dias depois, minha família percebera um enorme hematoma na minha região lombar, nível da cintura. Surpresa! Lógico, uma grande interrogação. Imbuindo-me do costumeiro papel de detetive de mim mesma, concluí que teria sido provocado pela dança na cadeira de rodas. Certamente, o cinto de metal formado de elos que eu usava naquela noite, provocara atrito nas protuberâncias da coluna vertebral. Hoje danço sem o cinto de elos, mas me importa muito os elos de afetividade que consigo ligar entre os meus leitores, entre amigos, entre as pessoas com quem desenvolvo algum diálogo. Minha meta é a paz interior e eu sei que a vida me aponta caminhos para isso. Como partícipe, sei que preciso dividir e a melhor maneira de pensar em mim, é pensar em todos. A felicidade coletiva necessita de coadjuvantes. Ela não pode existir sem esforços. E, com certeza, fiz-me recruta e estou alistada no batalhão desses servidores, por princípio, por convicção.
Não lamento o que fazia antes, mas fico satisfeita com o que ainda posso fazer. Acho-me perfeccionista e esmero-me na execução. Não sou narcisista, mas gosto de sentir o mérito da conquista.

Acredito em Deus como integração, por isso os meus retalhos adormecidos ganharão movimentos algum dia, quem sabe noutra galáxia.

Numa semelhança quixotesca, vou cruzando horizontes em vôos alados, impulsionada pelo reconhecimento e o carinho das pessoas que me cercam. O meu trabalho abre caminhos, cria consciência popular, valoriza seres humanos olvidados. E é isso que me gratifica. Vale por todos os salários recebidos. É o que posso fazer pelo meu irmão de barco, pela pessoa com deficiência física, tão preterida neste País.

Fiquei muito feliz ao ser valorizada pela então miss Brasil, Jaqueline Ribeiro Meireles, quando de uma matéria jornalística intitulada: “As mulheres impõem a Lei”. O texto discorria sobre o meu trabalho policial, encimando minha fotografia de cadeira de rodas, descortinando nuances até sobre Pássaro Sem Asas.

A misse endereçou à reportagem a seguinte missiva: “A chefe de jornalismo da Revista Presença. Parabenizo-a por legar a Goiás uma revista bonita em visual e, mais ainda, em conteúdo. Na qualidade de misse Brasil, achei linda a Delegada de Menores de Goiânia, em plena atuação e numa cadeira de rodas. Sua beleza interior, sua sensibilidade, sua coragem e sua abnegação enchem-nos de entusiasmo e vontade de viver. Genaura é mais que uma pessoa da Lei; é mais que uma esposa e mãe; é mais que um exemplo de vida! É, sobretudo, uma paraplégica que consegue ‘voar’ bem alto sem as suas preciosas asas. Que vocês possam continuar publicando essa linda revista, com assuntos tão enobrecedores, para que o mundo fique um pouquinho melhor, e as pessoas que possuem ‘asas perfeitas’ possam também alçar vôos de beleza, de alegria e de trabalho como Genaura. Beijos. (assinado) Jaqueline Ribeiro Meireles”.

Eu não merecia tantos elogios. Confesso que fiquei emocionada, principalmente partidos de uma misse Brasil. Para Jaqueline, o meu agradecimento sincero e toda a minha admiração.

Realmente, nesses anos todos não consegui melhora no quadro locomotor. Tudo permanece inalterado desde aquela noite fatídica, no Hospital Neurológico, em que os cobertores não aqueceram o meu frio, o qual se agregara a mim, compulsoriamente. Contudo as minhas conquistas tornaram-me andante: tiro e ponho sozinha a cadeira de rodas no carro e corro ao seu volante, o que caracteriza uma grande independência, além de haver conquistado o meu espaço de cidadã, tentando nivelar-me aos andantes.

Mais do que nunca, sinto-me senhora do meu pleno equilíbrio. “Sou como a rocha nua e crua onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a esmo. Posso cair. Caio. Mas caio de pé por cima dos meus escombros”. Embora não haja a força motora para fisicamente me conservar ereta, alicerço-me nas asas da coragem para sobrevoar com dignidade esses escombros.

Transpus muitas barreiras até mesmo a do sexo. Não há impossíveis quando envidamos esforços verdadeiros para a superação ou a substituição por valores semelhantes.
A natureza é sábia e a lei da compensação é uma verdade. Quando há uma disfunção ou falta de um órgão, os sentidos encarregam-se do trabalho e ficam muito mais aguçados. O cego, por exemplo, possui a audição perfeita e, por meio dela, compensa a sua disfunção visual, bem como desenvolve as percepções sensoriais e extra-sensoriais, podendo perceber cores por suas vibrações através do tato.

Assim o que me restou ficou muito mais sensível: o beijo mais gostoso e o prazer muito maior com as carícias nos lóbulos das orelhas, cabelos, olhos, ombros, pescoço, seios e, principalmente, nas axilas que, para minha satisfação, substituiu os enleios de prazer do órgão genital. Posso afirmar que não fico a ver navios. Amo e sou amada.

Sexo, para mim, não significa somente contato genital, mas envolve aura, mente, sublimação... Por isso exercito a minha sexualidade num olhar de ternura, num articular de lábios, numa palavra de amor ou, simplesmente, num copo de suco tomado a dois.

Sexo é a sublimação do amor. Fora desse parâmetro, é fisiologismo. O amor procura o sexo e o sexo coroa o amor, ambos alimentados pela vivência, pelas trocas diárias, pelos frutos desse amor...
Amor é procura do eterno.
É a consciência cósmica penetrada em nós.
É a forma mais linda que Deus encontrou para que o homem fosse criatura e criador: propagasse a espécie.

(Esse é um dos capítulos do livro PÁSSARO SEM ASAS - 6a. edição.

LEVE, LIVRE & SOLTA!


Sejam bem vindos!
Vocês alegram a minh'alma e meu coração.

Era uma luz no fim do túnel e eu não podia perder.
Era a oportunidade que me batia à porta.
Seria uma Delegada de Polícia, mesmo paraplégica!
Registrei a idéia e parti para o confronto.
Talvez o mais ousado de toda a minha vida.
Era tudo ou NADA!
(Genaura Tormin)


"Sou como a Rocha nua e crua, onde o navio bate e recua na amplidão do espaço a ermo.
Posso cair. Caio!
Mas caio de pé por cima dos meus escombros".
Embora não haja a força motora para manter-me fisicamente ereta, alicerço-me nas asas da CORAGEM, do OTIMISMO e da FÉ.

(Genaura Tormin)